
Se Houver Amanh
Sidney Sheldon



Se Houver Amanh

Sinopse

Neste romance, Sheldon cria uma herona, Trace Whitney, ao mesmo tempo
ingnua e fascinante. Atraente e idealista, suas nicas armas so a
inteligncia e a beleza. O duelo  contra um intocvel mestre do crime,
que manteve-a presa numa cadeia de segurana mxima por 15 anos. Expert
na condio de narrativas, Sheldon enreda a personagem numa srie de
extraordinrias fugas, fazendo-a rodar pelo mundo todo. Em uma dessas
cenas frenticas, Tracy encontra o igualmente irresistvel Jeff Stevens,
com um passado to recheado e instigante quanto o dela. Mais um
bestseller do mestre do suspense, em que o leitor no consegue prever o
final antes que o prprio Sheldon o revele



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Se houver Amanh - Sidney Sheldon.txt


Figurando entre os melhores romancistas contemporneos - e
tambm entre os mais lidos em todo o mundo - o escritor Sidney
Sheldon, cujas personagens famosas e infames de O Outro Lado
da Meia-Noite. A Herdeira, A Ira dos Anjos e O Reverso da
Medalha encantaram e s vezes chocaram seus milhes de
leitores, apresenta-nos agora a mais atraente de suas
heroinas.
A adorvel e idealista Tracy Whitney no consegue livrar-se de
uma acusao falsa e  condenada a 15 anos de priso, pena que
vai cumprir numa penitenciria da qual  impossvel fugir.
Ela, porm, no se abate e luta para destruir os intocveis
senhores do crime que a mandaram para l.
Suas nicas armas so a inteligncia e uma estonteante beleza,
e com elas Tracy se lana numa sucesso de aventuras ousadas
contra os golpes inescritipulosos que lhe aplicam - e desafiam
tanto a Interpol como as polcias de meia dzia de pases. A
aco incessante da histria se movimenta de Nova Orleans a
Londres, Paris, Biarritz, Madri e Amsterdam, e numa
confrontao explosiva a heroina de Se Houver Amanh encontra
seu igual no irresistvel Jeff Stevens, de passado to
pitoresco quanto o dela. E sempre ao fundo, vigiando e
esperando, est o gnio maligno Daniel Cooper, que precisa
destruir Tracy, a fim de garantir sua prpria salvao.

OBRAS DO AUTOR

 AS AREIAS DO TEMPO
 UM CAPRICHO DOS DEUSES
 ESCRITO NAS ESTRELAS
 UM ESTRANHO NO ESPELHO
 A HERDEIRA
 A IRA DOS ANJOS
 JUZO FINAL
 LEMBRANAS DA MEIA-NOITE
 NADA DURA PARA SEMPRE
 A OUTRA FACE
 O OUTRO LADO DA MEIA-NOITE
 O REVERSO DA MEDALHA
 SE HOUVER AMANH

LIVROS JUVENIS:

 CORRIDA PELA HERANA
 O ESTRANGULADOR
 O FANTASMA DA MEIA-NOITE
 A PERSEGUIO

SE HOUVER AMANH
Titulo original norte-americano: IF TOMORROW COMES
Copyright c 1985 by Sheldon Literary Trust

PARA BARRY
COM AMOR

LIVRO UM

1

Nova Orleans
QUINTA-FEIRA, 20 DE FEVEREIRO - 23 HORAS

Ela despiu-se devagar, em devaneio; quando estava nua,
escolheu um neglig vermelho vivo para usar, a fim de que o
sangue no aparecesse. Doris Whitney olhou ao redor pela
ltima vez, a fim de certificar-se de que o quarto agradvel,
que tanto passara a amar ao longo dos ltimos 30 anos, se
encontrava arrumado e impecvel.
Abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou a arma, com
todo cuidado. Colocou-a ao lado do telefone e discou para a
filha em Filadlfia.
 - Tracy... senti vontade de repente de ouvir o som de sua
voz, querida.
 - Que surpresa boa, mame.
 - Espero no t-la acordado.
- E no acordou. Eu estava lendo. Aprontando-me para dormir.
Charles e eu amos sair para jantar fora, mas o tempo est
horrvel. Neva muito por aqui. Como est a?
 "Santo Deus, estamos falando sobre o tempo", pensou Doris
Whitney, "quando h tanta coisa que quero lhe dizer. E no
posso".
 - Mame? Voc ainda est a?
 Doris Whitney olhou pela janela.
 - Est chovendo.
 E ela pensou: Como  melodramaticamente apropriado. Parece 
at um filme de Alfred Hitchcock.
 - Que barulho  esse, mame?
 Trovoada. To absorta em seus pensamentos, Doris Whitney 
percebera. Nova Orleans sofria uma tempestade. Chuva contnua 
dissera o homem da previso do tempo. Dezanove graus em Nova 
Orleans. Ao cair da noite haver chuvas torrenciais, 
acompanhadas de trovoadas. No se esqueam de sair com o 
guarda-chuva. Ela no precisaria de um guarda-chuva.
 -  uma trovoada, Tracy. - Ela forou um tom de jovialidade 
na voz. - Conte-me o que est acontecendo a em Filadlfia.
 - Eu me sinto como uma princesa num conto de fadas mame. 
Nunca imaginei que algum pudesse ser to feliz. E amanh de 
noite conhecerei os pais de Charles.
 Ela engrossou a voz, como se estivesse fazendo uma 
proclamao oficial, ao dizer:
 - Os Stanhopes, de Chestnut Hill. - Tracy soltou uma risada. 
- Eles so uma instituio. Estou no maior nervosismo.
 - No se preocupe. Tenho certeza de que eles vo ador-la 
querida.
 - Charles diz que no tem a menor importncia. Ele me ama. E 
eu o adoro . Mal posso esperar o momento em que voc o 
conhecer. Ele  fantstico.
 - Tenho certeza que  mesmo. - Ela jamais conheceria Charles. 
Nem teria um neto no colo. No! No devo pensar sobre isso. - 
Ele sabe como  afortunado por t-la, meu bem?
 -  o que estou sempre lhe dizendo. - Tracy sorriu. - Mas j 
chega de falar a meu respeito. Conte-me o que est acontecendo 
por a. Como se sente?

Voc goza de perfeita sade, Doris, foram as palavras do Dr. 
Rush. Viver at os cem anos. Uma das pequenas ironias da 
vida.
- Eu me sinto maravilhosa. Falando com voc.
- J tem um namorado? - indagou Tracy, meio zombeteira,
Desde que o pai de Tracy morrera, cinco anos antes, Doris 
Whitney jamais sequer considerara a possibilidade de sair com 
outro homem, apesar das exortaes de Tracy.
- Nada de namorados. - Ela mudou de assunto. - Como est o seu 
trabalho? Ainda gostando?
 - Adorando. Charles no se incomoda que eu continue a 
trabalhar depois de casarmos.
- Isso  maravilhoso, meu bem. Ele parece ser um homem muito 
compreensivo.
 - E  mesmo. Vai confirmar pessoalmente.
Houve uma trovoada mais alta, como uma deixa oportuna dos 
bastidores. Estava na hora. No havia mais nada a dizer, 
excepto uma despedida final.
- Adeus, minha querida.
Doris manteve a voz cuidadosamente firme.
- Eu a verei no casamento, mame. Telefonarei assim que 
Charles e eu marcarmos a data.
 - Est certo. - Havia uma ltima coisa a dizer, no final das 
contas. - Eu a amo muito, Tracy. Mas muito mesmo.
Lentamente, Doris Whitney reps o telefone no gancho

Ela pegou a arma. S havia uma maneira de faz-lo. Depressa. 
Ela levantou a arma para a tmpora e puxou o gatilho.

2

Filadlfia
SEXTA-FEIRA, 21 DE FEVEREIRO 8 HORAS

 Tracy Whitney saiu do saguo do seu prdio de apartamentos 
para uma chuva implacvel, misturada com neve, que caa 
imparcialmente sobre as polidas limusines que desciam pela 
Market Street, conduzidos por motoristas uniformizados, e 
sobre as casas abandonadas e, fechadas com tbuas dos cortios 
do norte de Filadlfia. A chuva lavava as limusines, 
deixando-as ainda mais limpas, ao mesmo tempo em que convertia 
numa confuso molhada o lixo acumulado na frente das fileiras 
de casas negligenciadas. Tracy Whitney estava a caminho do 
trabalho. Seu ritmo era animado enquanto seguia para leste, 
pela Chestnut Street, na direco do banco. Tinha de fazer um 
esforo para no se pr a cantar em voz alta. Usava capa e 
botas amarelas, um chapu de chuva tambm amarelo, que mal 
conseguia conter uma massa de cabelos castanhos lustrosos. 
Tinha vinte e poucos anos, um rosto exuberante e inteligente, 
a boca cheia e sensual, olhos faiscantes, que podiam mudar de 
um suave verde-musgo para um jade escuro de um momento para 
outro, um corpo esbelto e atltico. A pele passava por toda a 
gama de branco translcido a um rosa profundo, dependendo se 
estava irada, cansada ou excitada. A me lhe dissera certa 
ocasio:
 - Sinceramente, criana, h ocasies em que no a reconheo. 
Voc muda de um instante para outro.
Agora, enquanto Tracy descia pela rua, as pessoas se viravam 
para sorrir, invejando a felicidade que brilhava em seu rosto. 
Ela retribua aos sorrisos.
  indecente para qualquer pessoa ser to feliz, pensou Tracy 
Whitney. Estou casando com o homem que amo e terei o seu 
filho. O que mais algum poderia pedir?
 Ao se aproximar do banco, Tracy olhou para o relgio. Oito e 
vinte. As portas do Philadelphia Trust and Fidelity Bank no 
se abririam para os empregados por outros dez minutos, mas 
Clarence Desmond, o vice-presidente snior, no comando do 
departamento internacional, j estava desligando o alarme 
externo e abrindo a porta. Tracy gostava de assistir ao ritual 
matutino. Ficou parada na chuva, esperando, enquanto Desmond 
entrava no banco e trancava a porta.
Os bancos do mundo inteiro possuem misteriosos processos de 
segurana e o Philadelphia Trust and Fidelity Bank no era 
excepo. A rotina jamais variava, a no ser pelo CDIGO de 
segurana, que era mudado todas as semanas. O CDIGO daquela 
semana era uma persiana parcialmente abaixada, indicando aos 
empregados esperando l fora que se realizava uma revista, a 
fim de verificar se no havia intrusos escondidos nas 
instalaes, aguardando a entrada deles para convert-los em 
refns. Clarence Desmond estava efectuando uma busca pelos 
banheiros, depsito, caixa-forte e rea dos cofres 
particulares, Somente depois de estar plenamente convencido de 
que se encontrava sozinho no interior do banco  que 
levantaria a persiana, como um sinal de que estava tudo bem.

 O contador snior sempre era o primeiro empregado a ser 
admitido. Ele ocuparia o seu lugar ao lado do alarme de 
emergncia, at que todos os outros empregados entrassem, 
depois trancaria a porta.
Pontualmente s oito e meia Tracy Whitney entrou no saguo 
ornado com seus colegas de trabalho, tirou a capa, o chapu e 
as botas, escutou com um divertimento secreto os outros se, 
queixarem do tempo chuvoso.
 - O maldito vento arrancou-me o guarda-chuva - lamentou um 
caixa. - Estou encharcado.
 - Passei por dois patos nadando na Market Strect - comentou 
jovialmente o chefe dos caixas.
 - A previso do tempo  de que podemos esperar por mais uma 
semana assim. Eu gostaria de estar na Flrida.
 Tracy sorriu e comeou a trabalhar. Era encarregada do 
departamento de transferncias por cabo. At recentemente, 
transferncia de dinheiro de um banco para outro, de um pas 
para outro, era um processo lento e trabalhoso, exigindo o 
preenchimento de muitos formulrios e dependendo dos servios 
postais nacionais e internacionais. Com o advento dos 
computadores, a situao mudara drasticamente. Quantias 
enormes podiam ser transferidas instantaneamente. A funo de 
Tracy era extrair do computador as transferncias, processadas 
durante a noite e, processa as transferncias por computador 
para outros bancos. Todas as transaces eram em CDIGO, 
mudado regularmente para impedir o acesso no-autorizado. A 
cada dia, milhes de dlares electrnicos passavam pelas mos 
de Tracy. Era um trabalho fascinante, o sangue vital que 
alimentava as artrias dos negcios por todo o globo. At que 
Charles Stanhope III entrara em sua vida, a actividade 
bancria era a coisa mais emocionante do mundo para Tracy. O 
Philadelphia Trust and Fidelity Bank tinha uma grande diviso 
internacional e durante o almoo Tracy e os colegas discutiam 
tudo o que acontecera pela manh. Era uma conversa inebriante.
 Deborah, uma contadora, anunciou:
 - Acabamos de fechar o emprstimo associado de cem milhes de 
dlares para a Turquia.
 Mae Trenton, secretria do vice-presidente do banco, disse: 
- Foi decidido na reunio de directoria desta manh a 
participao na nova linha de crdito para o Peru . A taxa 
inicial  acima de cinco milhes de dlares...
 Jon Creighton, o fantico do banco, acrescentou:
 - Soube que vamos entrar no pacote de socorro ao Mxico com 
cinquenta milhes. Eles no merecem um nico centavo.
 - Isso  muito interessante - comentou Tracy. - Os pases que 
atacam a Amrica por ser muito obcecada por dinheiro so 
sempre os primeiros a nos suplicarem emprstimos.
Fora o assunto pelo qual ela e Charles haviam travado a sua 
primeira discusso.
Tracy conhecera Charles Stanhope III num simpsio financeiro. 
Charles era o orador convidado. Ele dirigia a empresa de 
investimentos fundada por seu bisav e fazia muitas operaes 
com o banco para o qual Tracy trabalhava. Depois da 
conferncia de Charles, Tracy se aproximara para discordar de 
sua anlise da capacidade das naes do Terceiro Mundo de 
pagarem as quantias assombrosas que haviam tomado emprestado 
dos bancos do mundo inteiro e dos governos ocidentais. Charles 
a princpio se mostrara divertido e depois atrado pelos 
argumentos veementes da linda moa  sua frente. A discusso 
se prolongara pelo jantar no velho restaurante Bookbinder's.

No comeo, Tracy no se impressionara com Charles Stanhope 
III, mesmo sabendo que ele era considerado o grande prmio de 
Filadlfia. Charles tinha 35 anos, era rico e vitorioso, 
pertencia a uma das famlias mais tradicionais de Filadlfia. 
Com 1,78 metros de altura, cabelos cor de areia ficando ralos, 
olhos castanhos e uma atitude confiante, at mesmo um pouco 
pedante, ele era um dos ricos maantes, na opinio de Tracy.
Como se lesse os seus pensamentos, Charles se inclinara sobre 
a mesa e dissera:
- Meu pai est convencido de que lhe deram o beb errado no 
hospital.
- Como?
- Sou um retrocesso. Acontece que no penso que o dinheiro  o 
fim de tudo e a coisa mais importante na vida. Mas, por favor, 
jamais conte a meu pai que eu lhe disse isso.
 Havia nele uma despretenso to encantadora que Tracy se 
descobrira a apreci-lo. Imagino como seria estar casada com 
algum assim... um homem da alta sociedade.
 O pai de Tracy levara a maior parte de sua vida para 
construir um negcio que os Stanhopes desdenhariam como 
insignificante. Os Stanhopes e os Whitneys jamais se 
misturariam, pensara ela. leo e gua. E os Stanhopes so o 
leo. E por que estou reagindo como uma idiota?  ego demais. 
Um homem me convida para jantar e j estou decidindo se quero 
ou no casar com ele. Provavelmente nunca mais tornaremos a 
nos encontrar...
 Charles estava dizendo nesse instante:
- Por acaso est livre para jantarmos de novo amanh?
Filadlfia era uma cornucpia espectacular de coisas para ver 
e fazer. Nas noites de sbado, Tracy e Charles iam ao bal ou 
assistiam Riccardo Muti conduzir a Sinfnica de Filadlfia. 
Durante a semana, exploravam New Market e o singular amontoado 
de lojas de Society Hill, vagueavam pelo Museu de Arte de 
Filadlfia e o Museu Rodin.
Tracy parara um dia diante da esttua de O Pensador. Olhara 
para Charles e sorrira.
-  voc!
 Charles no se interessava por exerccio, mas Tracy adorava 
Assim, nas manhs de domingo, ela corria pelo West River Drive 
ou pelo passeio que acompanhava o Rio Schuylkifl. Na tarde de 
sbado frequentava uma aula de t'ai chi ch'uan. Depois de uma 
hora de exerccio, exausta mas exultante, ia se encontrar com 
Charles, no apartamento dele. Ele era um cozinheiro gourmet e 
gostava de preparar pratos esotricos como bistilla 
marroquins, guo bu li, os bolinhos de massa e carne do norte 
da China, e tahine de poulet au citron.
 Charles era a pessoa mais meticulosa que Tracy j conhecera. 
Ela chegara um dia atrasada 15 minutos para o jantar e o 
desprazer de Charles lhe estragara o resto da noite. Depois 
disso, ela jurara que seria sempre pontual com ele.
 Tracy tinha muito pouca experincia sexual, mas parecera-lhe 
que Charles fazia amor da mesma maneira como levava a sua 
vida; meticulosamente, sempre da maneira conveniente. Houvera 
uma ocasio em que Tracy decidira ser ousada e 
anticonvencional na cama. Deixara Charles to chocado que 
secretamente se perguntou, se ela no seria alguma espcie de 
manaca sexual.

 A gravidez fora inesperada; quando acontecera, Tracy se 
descobrira dominada pela incerteza. Charles no levantara a 
questo do casamento e ela no queria que ele se sentisse na 
obrigao de casar por causa do beb. No tinha certeza se 
poderia enfrentar um aborto, mas a alternativa era uma opo 
igualmente angustiosa. Poderia criar uma criana sem a ajuda 
do pai? Isso seria justo com a criana?
 Uma noite, depois do jantar, Tracy resolvera dar a notcia a 
Charles. Preparara um cassoulet para ele, em seu prprio 
apartamento, acabara deixando-o queimar, de tanto nervosismo. 
Ao pr a carne chamuscada na mesa, ela esquecera o discurso 
cuidadosamente ensaiado e balbuciara desordenadamente:
- Sinto muito, Charles. Eu... estou grvida.
Houvera um silncio insuportavelmente prolongado. Quando Tracy 
j estava prestes a romp-lo, Charles dissera:
- Vamos casar,  claro.
Tracy experimentara uma sensao de enorme alvio.
 - No quero que voc pense que eu... No precisa casar comigo 
por causa disso.
 Ele levantara a mo para impedi-la de continuar.
 - Quero casar com voc, Tracy. Tenho certeza que dar uma 
esposa maravilhosa. - E um instante depois ele acrescentara, 
falando bem devagar: -  claro que meu pai e minha me ficaro 
um tanto surpresos.
 Charles sorrira e a beijara. Tracy indagara, suavemente:
 - Por que eles ficaro surpresos?
 Charles suspirara.
 - Querida, creio que voc no compreende em que est se 
metendo. Os Stanhopes sempre casam... e saiba que estou usando 
aspas... "com sua prpria espcie". Nas famlias tradicionais 
de Filadlfia.
- E j lhe escolheram uma esposa - adivinhara Tracy.
Charles a tomara nos braos.
 - Isso no tem a menor importncia. O que conta  quem eu 
escolhi. Jantaremos com mame e papai na prxima sexta-feira. 
J  tempo de voc conhec-los.

Quando faltavam cinco minutos para as nove horas, Tracy 
percebeu uma diferena no nvel de ruido no banco. Os 
empregados passavam a falar um pouco mais depressa, a se 
movimentarem um pouco mais rapidamente. As portas do banco 
seriam abertas dentro de cinco minutos e tudo tinha de estar 
pronto. Pela janela da frente, Tracy podia divisar os clientes 
em fila na calada l fora, esperando sob a chuva fria.
 Tracy observou enquanto o guarda do banco terminava de 
distribuir fichas de depsito e retirada pelas bandejas de 
metal nas seis mesas no corredor central. Os clientes 
regulares recebem fichas de depsito com um CDIGO magnetizado 
pessoal no fundo; assim, a cada vez que se efectuava um 
depsito, o computador creditava-o automaticamente na conta 
apropriada. Mas, frequentemente, os clientes apareciam sem 
suas fichas de depsito e preenchiam as comuns.
 O guarda levantou os olhos para o relgio na parede. Enquanto 
o ponteiro das horas se aproximava do nove, ele encaminhou-se 
para a porta e cerimoniosamente destrancou-a.
 O dia bancrio comeara.

Durante as horas subsequentes, Tracy se manteve ocupada demais 
no computador para pensar em qualquer outra coisa. Cada 
transferncia tinha de ser conferida, a fim de certificar-se 
de que exibia o CDIGO correcto. Quando havia um dbito, ela 
registrava o nmero da conta, a quantia e o banco para o qual 
o dinheiro estava sendo transferido. Cada banco possua o seu 
prprio nmero de CDIGO; havia um catlogo confidencial que 
continha os CDIGOs de todos os principais bancos do mundo.
 A manh passou voando. Tracy planejava aproveitar a hora do
almoo para arranjar o cabelo e tinha uma hora marcada com 
Larry Stefla Botte. Ele cobrava caro, mas valia a pena, pois 
ela queria que os pais de Charles a conhecessem em sua melhor 
aparncia. Tenho de fazer com que eles gostem de mim. No me 
importo com quem escolheram para Charles, pensou Tracy. 
Ningum pode fazer Charles to feliz quanto eu farei.
 uma hora da tarde, quando Tracy pegava sua capa, Clarence 
Desmond convocou-a para seu gabinete. Desmond era a prpria 
imagem de um executivo importante. Se o banco fizesse 
comerciais de televiso, ele seria o porta-voz perfeito. 
Vestia-se conservadoramente, com um ar de autoridade slida e 
antiquada, parecia uma pessoa em quem se podia confiar.
 - Sente-se, Tracy. - Ele se orgulhava de conhecer o primeiro 
nome de cada empregado. - Um tempo horrvel, no , mesmo?
- , sim.
 - Mas as pessoas ainda precisam cuidar dos seus problemas 
bancrios. - Desmond esgotara todo o seu estoque de conversa 
amena. Inclinou-se agora sobre a mesa e acrescentou: - Soube 
que voc e Charles Stanhope esto noivos. 
 Tracy ficou surpresa.
 - Ainda no anunciamos. Como...
 Desmond sorriu.
 - Qualquer coisa que os Stanhopes fazem  notcia. Estou 
muito feliz por voc. Presumo que voltar a trabalhar 
connosco. Depois da lua-de-mel,  claro. No gostariamos de 
perd-la. Voc  uma das nossas funcionrias mais valiosas.
- Charles e eu conversamos a esse respeito e concordamos que 
eu seria mais feliz se continuasse a trabalhar aqui.
Desmond sorriu, satisfeito. Stanhope & Sons era uma das casas 
de investimentos mais importantes na comunidade financeira e 
seria maravilhoso se obtivesse a sua conta exclusiva para a 
sucursal que dirigia. Ele recostou-se na cadeira.
 - Quando voltar da lua-de-mel, Tracy, haver uma boa promoo 
 sua espera, assim como um aumento substancial.
- Puxa, obrigada Isso  sensacional
 Ela sabia que merecia e experimentou um sentimento de 
orgulho. Ficou ansiosa em contar a Charles. Parecia a Tracy 
que os deuses conspiravam para fazer tudo o que podiam para 
inund-la de felicidade.

Os pais de Charles Stanhope III viviam numa manso antiga e 
imponente, na Rittenhouse Square. Era um marco na cidade pelo 
qual Tracy passara muitas vezes. E agora, pensou ela, vai se 
tornar uma parte da minha vida.

 Ela estava nervosa. Seu fino penteado sucumbira  umidade no 
ar. Trocara de vestido quatro vezes. Deveria se apresentar com 
simplicidade? Formalmente? Tinha um Yves Saint-Laurent que 
economizara para comprar na Wanamaker's. Se eu o usar, eles 
pensaro que sou uma esbanjadora. Por outro lado, se puser 
algum dos meus vestidos de liquidao da Pst Hom, elas 
pensaro que o filho est casando com algum abaixo de sua 
classe. Ora essa, eles pensaro assim de qualquer maneira, 
concluiu Tracy. Ela escolheu finalmente uma saia de l cinza 
bem simples e uma blusa branca de seda, pondo no pescoo a 
corrente fina de ouro que a me lhe mandara de presente de 
Natal.

A porta da manso foi aberta por um mordomo de libr.
 - Boa noite, Senhorita Whitney-
O mordomo conhece meu nome, pensou Tracy. Isso  um bom sinal? 
Um mau sinal?
 - Posso ajud-la a tirar o casaco?
 Ela estava pingando gua no lindo tapete persa. O mordomo 
conduziu-a por um vestibulo de mrmore que parecia duas vezes 
maior do que todo o banco. Tracy pensou, em pnico: Oh, Deus, 
estou vestida completamente errada! Deveria ter usado o Yves 
Laurent. Ao entrar na biblioteca, ela sentiu um fio correr no 
tornozelo da meia-cala, mas estava frente a frente com os 
pais de Charles.
 Charles Stanhope, pai, era um homem de aparncia austera, com 
sessenta e poucos anos. Parecia de fato um homem bem-sucedido; 
era uma projeco do que Charles seria dentro de 30 anos. 
Tinha olhos castanhos, como os de Charles, queixo firme, uma 
orla de cabelos brancos. Tracy gostou dele instantaneamente. 
Era o perfeito av para seu filho.
 A me de Charles tinha uma aparncia impressiva. Era um tanto 
baixa e corpulenta, mas apesar disso irradiava uma impresso 
sumptuosa. Ela parece fina e digna de confiana, pensou Tracy. 
Dar uma av maravilhosa. A Sra. Stanhope estendeu a mo.
 - Minha cara, foi muita gentileza sua vir nos visitar. 
Pedimos a Charles que nos concedesse uns poucos minutos a ss 
com voc. No se importa?
- Claro que ela no se importa - declarou o pai de Charles. - 
Sente-se... Tracy, no  mesmo?
- Isso mesmo, senhor.
 Os dois sentaram-se num sof, diante dela. Por que me sinto 
como se estivesse prestes a sofrer um interrogatrio? Tracy 
podia ouvir a voz da me: Meu bem, Deus jamais lhe impingir 
qualquer coisa que no possa manipular. Basta apenas que d um 
passo de cada vez.
 O primeiro passo de Tracy foi um sorriso que saiu 
completamente errado, porque naquele instante podia sentir o 
fio corrido na meia-cala subir para o joelho. Tentou 
escond-lo com as mos.
 - Pois muito bem! - A voz do Sr. Stanhope era vigorosa. - 
Voc e Charles querem casar.
 A palavra querem perturbou Tracy. Certamente Charles lhes 
dissera que iam casar.
 - Isso mesmo - murmurou Tracy.
 - Voc e Charles no se conhecem h muito tempo, no ? - 
perguntou a Sra. Stanhope.
 Tracy fez um esforo para reprimir o ressentimento. Eu estava 
certa. Ser um interrogatrio.
- Tempo suficiente para saber que nos amamos, Sra. Stanhope.
 - Amor? - disse o Sr. Stanhope.
 A Sra. Stanhope interveio:
 - Para ser franca, Senhorita Whitney, a notcia de Charles 
foi um choque para seu pai e para mim. - Ela sorriu 
indulgentemente. - Charles lhe falou sobre Charlotte, no  
mesmo?

Ela percebeu a expresso no rosto de Tracy e se apressou em 
acrescentar:
- Entendo. O fato  que ele e Charlotte cresceram juntos. 
Sempre foram muito ligados e... francamente, todos esperavam 
que, anunciassem seu noivado este ano.
 No havia necessidade de uma descrio de Charlotte. Tracy 
podia perfeitamente imagin-la. Morava na casa ao lado. Rica, 
do mesmo meio social de Charles. Todas as melhores escolas. 
Adorava cavalos e ganhara taas.
 - Fale-nos a esse respeito de sua famlia - sugeriu o Sr. 
Stanhope.
Por Deus, esta  uma cena do filme da madrugada na televiso, 
pensou Tracy, irritada. Sou a personagem de Rita Hayworth, 
encontrando-me pela primeira vez com os pais de Cary Grant. 
Preciso de um drinque. Nos filmes antigos, o mordomo, sempre 
aparece em socorro com uma bandeja de drinques.
- Onde nasceu, minha cara? - perguntou a Sra. Stanhope.
- Na Louisiana. Meu pai era um mecnico.
No havia necessidade de acrescentar isso, mas Tracy fora 
incapaz de resistir. Que eles fossem para o inferno. Ela tinha 
o maior orgulho do pai.
 - Um mecnico?
 - Isso mesmo. Ele abriu uma pequena fbrica em Nova Orleans e 
desenvolveu-a numa das grandes companhias em seu sector. 
Quando papai morreu, h cinco anos, minha me assumiu o 
comando da empresa.
 - O que essa... hen... companhia produz?
 - Canos de descarga e outras peas de automveis.
 Sr. e Sra. Stanhope trocaram um olhar e murmuraram em 
unssono:
 - Hen...
 O tom deles deixou Tracy tensa. Quanto tempo precisarei para 
am-los?, perguntou a si mesma. Olhou para os dois rostos 
impassveis  sua frente e, para seu horror, comeou a 
balbuciar meio contrafeita:
 - Tenho certeza de que gostaro muito de minha me. Ela  
bonita, inteligente, simptica. Uma mulher do Sul. Bem 
pequena,  claro, mais ou menos de sua altura, Sra. 
Stanhope...
 As palavras de Tracy ficaram pairando no ar, sufocadas pelo 
silncio opressivo. Ela soltou uma risadinha tola, que se 
desvaneceu sob o olhar severo da Sra. Stanhope. Foi o Sr. 
Stanhope quem rompeu o silncio, dizendo sem qualquer 
expresso:
 - Charles nos disse que voc est grvida.
 Ah, como Tracy gostaria que ele no tivesse revelado isso! A 
atitude dos seus pais era de franca desaprovao. Era como se 
o filho nada tivesse a ver com o que acontecera. Eles a faziam 
sentir como se fosse um estigma. Sei agora o que deveria ter 
usado, pensou Tracy. Uma letra escarlate.
 - No compreendo como actualmente e...
 A Sra. Stanhope no pde continuar a falar porque nesse 
momento Charles entrou na sala. Tracy nunca se sentira to 
contente por ver algum, em toda a sua vida.
 - E ento? - disse Charles, radiante. - Como se esto dando?
Tracy levantou-se e correu para os seus braos.
 - Muito bem, querido.

 Ela se aconchegou a ele, pensando: Graas a Deus que Charle, 
no  como os pais. Nunca poderia ser como eles. So pessoas 
de mentalidade tacanha, senobes e frias.
 Houve uma tosse discreta por trs deles e o mordomo se 
adiantou com uma bandeja de drinques. Tudo acabar bem, disse 
Tracy a si mesma. Este filme ter um final feliz.

O jantar foi excelente, mas Tracy estava nervosa demais para 
comer. Discutiram negcios bancrios e poltica, a situao 
aflitiva do mundo, uma conversa sempre impessoal e polida. 
Ningum chegou a dizer em voz alta: "Voc preparou uma 
armadilha para levar nosso filho ao casamento." Para ser 
justa, pensou Tracy, devo admitir que eles tm todo o direito 
de estar preocupados com a mulher com quem o filho vai casar. 
Charles possuir a firma um dia e  importante que ele tenha a 
esposa certa. Tracy prometeu a si mesma: E ele ter. 
 Gentilmente, Charles pegou-lhe a mo, que torcia o guardanapo 
por baixo da mesa, sorriu e piscou-lhe um olho. O corao de 
Tracy se reanimou.
 - Tracy e eu preferimos um casamento pequeno - disse Charles. 
- E depois...
 - No diga bobagem - interrompeu-o a Sra. Stanhope. - Nossa 
famlia no tem casamentos pequenos, Charles. Haver dezenas 
de amigos que desejaro v-lo casar.
 Ela fez uma pausa, olhando para Tracy, como a avaliar sua 
figura.
 - Talvez devssemos providenciar para que os convites do 
casamento sejam expedidos imediatamente. - Uma pausa e, com 
uma reflexo posterior, ela acrescentou: - Isto , se for 
aceitvel para voc.
- Claro que .
Haveria mesmo um casamento. Por que cheguei a duvidar disso? A 
Sra. Stanhope disse:
 - Alguns dos convidados viro do exterior. Tomarei as 
providncias para que fiquem hospedados na casa.
O Sr. Stanhope indagou:
- J decidiram onde passaro a lua-de-mel?
 Charles sorriu.
 - Essa  uma informao confidencial, papai.
 Ele apertou a mo de Tracy, enquanto a Sra. Stanhope 
perguntava:
- Qual o prazo da lua-de-mel que esto planeando?
- Cerca de cinquenta anos - respondeu Charles.
 Tracy adorou-o por isso. Depois do jantar, eles foram tomar 
conhaque na biblioteca. Tracy correu os olhos pela sala antiga 
e adorvel, com painis de carvalho, as prateleiras com livros 
encadernados em couro, dois Corots, um pequeno Copley e uma 
Reynolds. No faria a menor diferena para ela se Charles no 
tivesse qualquer dinheiro, mas admitiu para si mesma que seria 
uma vida bastante agradvel.
 J passava da meia-noite quando Charles levou-a de volta a 
seu pequeno apartamento, ao lado do Fairmont Park. 
- Espero que a noite no tenha sido muito difcil para voc, 
Tracy. Mame e papai podem ser s vezes um pouco irredutveis.
- Oh, no... eles foram maravilhosos - mentiu Tracy.
Ela estava exausta da tenso da noite, mas mesmo assim 
indagou, quando chegaram  porta de seu apartamento:
- No vai entrar, Charles?

 Ela precisava aconchegar-se em seus braos. Tinha vontade de 
lhe dizer: "Eu o amo, querido. E ningum neste mundo jamais 
poder nos separar". 
- Esta noite no ser possvel - disse ele. - Terei uma manh 
sobrecarregada.
Tracy ocultou seu desapontamento.
- Eu compreendo, querido.
- Falarei com voc amanh.
Ele deu-lhe um beijo rpido e Tracy observou-o se afastar pelo 
corredor.

 O apartamento estava em chamas e o som insistente das sirenes 
dos bombeiros romperam abruptamente o silncio da noite. Tracy 
soergueu-se abruptamente na cama, tonta de sono, farejando a 
fumaa no quarto s escuras. A campainha continuou e 
lentamente ela percebeu que era o telefone. O relgio na 
mesinha-de-cabeceira informava que eram duas e meia da 
madrugada. Seu primeiro pensamento de pnico foi que alguma 
coisa acontecera com Charles. Ela pegou o telfone bruscamente.
- Al?
Uma voz de homem distante indagou: 
Tracy Whitney?
Ela hesitou. Se era um telefonema obsceno...
- Quem est falando?
- Aqui  o Tenente Miller, do Departamento de Polcia de Nova 
Orleans. Estou falando com Tracy Whitney? 
- Ela mesma.
O corao de Tracy comeou a disparar.
- Infelizmente, tenho uma m notcia a lhe dar.
A mo de Tracy apertou o telefone com toda a fora.
-  sobre sua me.
- Ela... mame sofreu algum acidente?
 - Ela est morta, Senhorita Whitney.
 - No!
 Foi um grito. Era de facto um trote. Algum maluco tentando 
assust-la No havia nada de errado com sua me. Ela estava 
viva. Eu a amo muito, Tracy. Mas muito mesmo.
 - Detesto ter de lhe dar a notcia desse jeito, Senhorita 
Whitney.
 Era real. Era um pesadelo, mas estava acontecendo. Ela no 
podia falar. A mente e a lngua ficaram paralisadas. A voz do 
tenente acrescentou:
 - Al? Est me ouvindo, Senhorita Whitney? Al?
 - Pegarei o primeiro avio.

Tracy sentou na pequena cozinha do apartamento, pensando na 
me. Era impossvel que ela estivesse morta. Sempre fora uma 
mulher vibrante, cheia de vida. Haviam desfrutado um 
relacionamento intimo, repleto de amor. Desde que era 
garotinha que Tracy podia levar seus problemas  me, falar 
sobre a escola e os garotos, posteriormente sobre os homens. 
Quando o pai de Tracy morrera, haviam sido apresentadas muitas 
propostas por pessoas que queriam comprar a empresa. 
Ofereceram a Doris Whitney dinheiro suficiente para ela viver 
confortavelmente pelo resto de sua vida. Mas a me se recusara 
obstinadamente a vender.
- Seu pai fez esta empresa. No posso agora jogar fora todo o 
trabalho rduo.

E ela mantivera a empresa em plena prosperidade. Oh, mame. eu 
a amo tanto!, pensou Tracy. Agora, voc nunca conhecer 
Charles, nunca ver o seu neto. Ela se ps a chorar.
 Tracy fez um caf e deixou esfriar, enquanto continuava 
sentada, no escuro. Queria desesperadamente telefonar para 
Charles e contar-lhe o que acontecera, t-lo a seu lado. Olhou 
para o relgio da cozinha. Eram trs e meia da madrugada. No 
o acordaria; ligaria para ele de Nova Orleans. Especulou se 
aquilo afectaria os planos de casamento e no mesmo instante 
sentiu-se culpada pelo pensamento. Como podia pensar em si 
mesma num momento como aquele? O Tenente Miller dissera:
- Quando chegar aqui, pegue um txi e venha directo para a 
chefatura da polcia.
Porqu a chefatura da policia? O que acontecera?

 Parada no apinhado aeroporto de Nova Orleans, esperando por 
sua mala, cercada por viajantes impacientes, a se empurrarem, 
Tracy sentia-se sufocada. Tentou chegar mais perto do 
carrossel de bagagem, mas ningum lhe dava passagem. Estava 
ficando cada vez mais nervosa, receando o que teria de 
enfrentar dali a pouco. Empenhava-se em dizer a si mesma que 
tudo no passava de um equvoco, mas as palavras ressoavam em 
sua cabea: Infelizmente tenho uma m noticia a lhe dar.. Ela 
est morta, Senhorita Whitney... Detesto ter de lhe dar a 
notcia assim...
 Depois que finalmente pegou a mala, Tracy embarcou num txi e 
repetiu o endereo que o tenente lhe fornecera:
 - South Broad Street, sete-um-cinco, por favor. 
O motorista sorriu-lhe pelo espelho retrovisor.
 - Uma encrenca, hem?
 Nada de conversa. No agora. A mente de Tracy estava dominada 
demais pelo turbilho. O txi seguiu para leste, pela Lake 
Ponchartrain Causeway. O motorista puxou conversa:
 - Veio aqui para a grande festa, moa?
 Tracy no tinha a menor idia do que ele estava falando, mas 
pensou: No. Vim aqui para a morte. Ela estava consciente do 
zumbido da voz do motorista, mas no escutava as palavras. 
Sentada muito rigda, alheia ao ambiente famliar por que 
passava. Foi somente quando se aproximaram do Bairro Francs 
que Tracy tornou-se cnsciente do crescente barulho. Era o som 
de uma multido enlouquecida, amotinados berrando alguma 
antiga litania frentica.
- S d para traz-la at aqui - informou o motorista.
 Foi nesse instante que Tracy levantou os olhos e viu. Era uma 
viso incrvel. Havia centenas de milhares de pessoas 
gritando, usando mscaras, fantasiadas de drages e 
crocodilos, de deuses pagos, povoando as ruas e caladas  
frente, com uma cacofonia de som desvairada. Era uma exploso 
insana de corpos, msica e dana.
-  melhor saltar antes que eles virem o meu txi - advertiu o 
motorista. - Esse maldito Mardi Gras...
 Mas  claro! Era fevereiro, o momento em que toda a cidade 
celebrava o incio da Quaresma, fazendo o seu carnaval. Tracy 
saltou do txi e parou por um instante junto ao meio-fio, com 
a mala na mo. E no momento seguinte foi envolvida pela 
multido a gritar

danar. Era obsceno, um sab de feiticeiras, um milho de 
Frias comemorando a morte de sua me. A mala foi arrancada da 
mo de Tracy e desapareceu. Ela foi agarrada e beijada por um 
homem gordo, com uma mscara de demnio. Um cervo apertou-lhe 
os seios e um panda gigante agarrou-a por trs e levantou-a. 
Tracy tentou se desvencilhar e fugir dali, mas era impossvel. 
Estava cercada, acuada, uma parte da celebrao de canto e 
dana. Foi se deslocando com a multido frentica, as lgrimas 
escorrendo pelas faces. No havia escapatria. Encontrava-se  
beira da histeria quando finalmente conseguiu se livrar e 
fugir para uma rua mais sossegada. Ficou parada por um longo 
tempo, encostada num lampio, respirando fundo, lentamente 
recuperando o controle de si mesma. E, depois, encaminhou-se 
para a chefatura de polcia.

O Tenente Miller era um homem de meia-idade, de expresso 
mortificada, o rosto enrugado, parecendo genuinamente 
contrafeito no papel que tinha de desempenhar.
 - Lamento no poder receb-la no aeroporto, mas a cidade 
inteira enlouqueceu - disse ele . - Examinamos as coisas de 
sua me e voc foi a nica que pudemos encontrar para chamar.
 - Por favor, tenente, conte-me o que... o que aconteceu com 
minha me.
 - Ela cometeu suicdio.
 Tracy sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
 - Mas... mas isso  impossvel! Por que ela haveria de se 
matar? Ela tinha tudo para viver!
A voz de Tracy era trmula.
- Ela deixou um bilhete para voc

O necrotrio era frio, indiferente e aterrador. Tracy foi 
conduzida por um corredor comprido e branco at uma sala 
grande, assptica e vazia. E subitamente compreendeu que a 
sala no se achava vazia.
 Estava povoada pelos mortos. Pela sua morta. 
Um atendente de jaleco branco aproximou-se de uma parede, 
estendeu a mo para uma ala e puxou uma gaveta enorme.
 - Quer dar uma olhada?
No! No quero ver o corpo vazio e sem vida estendido nessa 
caixa. Ela queria sair dali. Queria voltar algumas horas no 
tempo, quando o alarme de incndio soava. E que seja um 
incndio de verdade, no o telefone, no minha me morta. 
Tracy adiantou-se, lentamente, cada passo um grito interior. E 
depois estava olhando para o corpo inanimado que a gerara, 
alimentara, rira com ela e a amara. Ela inclinou-se e beijou o 
rosto da me . O rosto estava frio e flexvel.
 - Oh, mame! - sussurrou Tracy. - Por qu? Por que fez isso? 
- Temos de efectuar uma autpsia - disse o atendente.  a lei 
estadual nos casos de suicdio.
 O bilhete que Doris Whitney deixara no oferecia qualquer 
resposta:
 Minha querida Tracy:
 Perdoe-me, por favor. Fracassei e no podia suportar ser um 
fardo para voc. Esta  a melhor soluo. Eu a amo muito.
                                                 Mame

 O bilhete era to inanimado e desprovido de sentido quanto o 
corpo que se achava na gaveta.


 Tracy tomou as providncias para o enterro naquela tarde, 
depois pegou um txi para a casa da famlia.  distncia, 
podia ouvir o rugido dos folies do Mardi Gras, como alguma 
celebrao estranha e lgubre
 A residncia dos Witneys era uma casa vitoriana no Garden 
District, na rea residencial conhecida como Uptown. Como a 
maioria das residncias de Nova Orleans, era construida em 
madeira e no tinha poro, pois o lugar situava-se abaixo do 
nvel do mar .
Tracy crescera naquela casa, que estava povoada por 
recordaes agradveis e afetuosas. Ela no estivera em casa 
no ano anterior. Quando o txi diminuiu, a fim de parar diante 
do prdio ela ficou chocada com o cartaz grande que avistou no 
gramado:  VENDA - COMPANHIA IMOBILIRIA DE NOVA ORLEANS. Era 
impossvel. Nunca venderei esta casa, a me dissera muitas 
vezes. Fomos muito felizes aqui.
 Dominada por um medo inslito e irracional, Tracy passou por 
uma enorme magnlia, encaminhando-se para a porta da frente. 
Ganhara a chave de casa quando estava na stima srie e a 
carregava desde ento como um talism, uma lembrana do 
refgio que sempre estaria ali,  sua espera.
 Ela abriu a porta e entrou. Parou prontamente, aturdida. Os 
cmodos estavam inteiramente vazios, desprovidos de mveis. 
Todas as peas antigas e bonitas haviam desaparecido. A casa 
era como uma casca vazia, abandonada pelas pessoas que outrora 
a ocupavam. Tracy correu de um cmodo para outro, com uma 
incredulidade crescente. Era como se tivesse ocorrido um 
desastre repentino. Subiu apressadamente e parou na porta do 
quarto que ocupara durante a maior parte de sua vida. O quarto 
a fitava, frio e vazio. Oh, Deus, que pode ter acontecido? 
Tracy ouviu a campainha da porta da frente e desceu a escada 
para atender, como se estivesse em transe.
 Otto Schmidt estava parado na porta. O capataz da Whitney 
Automotive Parts Company era um homem idoso, o rosto todo 
enrugado, um corpo muito magro, em que se destacava a barriga 
de cerveja. Uma tonsura de cabelos brancos emoldurava o 
crnio.
 - Acabei de receber a notcia, Tracy - disse ele, com um 
forte sotaque alemo - Eu... eu no sei como lhe dizer o 
quanto lamento.
 Tracy segurou-lhe as mos. 
 - Oh, Otto, no sabe como estou feliz em v-lo! Mas entre. - 
Ela levou-o para a vazia sala de estar. - Lamento que no haja 
lugar para sentar. Importa-se de se sentar no cho?
 - Claro que no.
 Sentaram-se de frente um para o outro, os olhos aturdidos 
pela dor. Otto Schmidt fora empregado da companhia por tanto 
tempo quanto Tracy podia se lembrar. Ela sabia o quanto o pai 
dependia dele. Quando a me herdara a companhia, Schmidt 
continuara para dirigi-la.
- No entendo o que est acontecendo, Otto. A polcia diz que 
mame cometeu suicdio. Mas voc sabe muito bem que no havia 
motivo para ela se matar. - Um pensamento sbito ocorreu-lhe. 
- Ela no estava doente, no  mesmo? Ela no tinha alguma 
doena terrvel. . .
 - No. No foi isso.
 Ele desviou os olhos, contrafeito, alguma coisa em suspense 
nas suas palavras. Tracy disse, lentamente:
 - Voc sabe o que foi.
 Ele fitou-a com os olhos azuis remelentos.

 - Sua me no lhe contou o que vinha acontecendo ultimamente. 
No queria preocup-la.
 Tracy franziu o rosto.
 - No queria me preocupar com o qu? Continue ... por favor.
 As mos calejadas de Otto Schmidt se abriram e fecharam.
 - J ouviu falar de um homem chamado Joe Romano?
 - Joe Romano? No. Por qu?
 Otto Schmidt piscou os olhos.
 - Romano procurou sua me h seis meses e disse que queria 
comprar a companhia. Ela respondeu que no estava interessada 
em vender. Mas ele ofereceu dez vezes mais do que a companhia 
valia e ela no pde recusar. Ficou muito animada. Investiria 
todo o dinheiro em aplicaes seguras, que proporcionariam uma 
receita de que vocs duas poderiam viver, confortavelmente, 
pelo resto de suas vidas. Tencionava fazer-lhe uma surpresa. 
Fiquei muito satisfeito por ela. H trs anos que eu estava 
querendo me aposentar, mas no podia deixar a Sra. Doris 
sozinha, no  mesmo? Esse Romano... - Otto pronunciou a 
palavra com uma fria evidente. - Esse Romano deu a ela uma 
pequena entrada. O dinheiro grande,... o pagamento do saldo... 
deveria entrar no ms passado.
 Tracy disse, impaciente:
 - Continue, Otto. O que aconteceu?
 - Assim que assumiu, Romano despediu todo mundo e trouxe o 
seu prprio pessoal. E comeou a depredar a companhia. Vendeu 
todos os bens e encomendou uma poro de equipamentos, 
vendendo tudo, mas no pagando. Os fornecedores no se 
preocuparam
com o atraso no pagamento, porque pensavam que ainda estavam 
tratando com sua me. Quando finalmente comearam a pressionar 
sua me pelo pagamento, ela procurou Romano e exigiu que ele 
explicasse o que estava acontecendo. Ele disse que desistira 
da transao e estava lhe devolvendo a companhia. A esta 
altura, porm, a companhia j no valia mais nada e ainda por 
cima sua me devia meio milho de dlares, que no tinha 
condies de pagar. quase me matou e  minha mulher, Tracy. 
Acompanhamos a luta de sua me para salvar a companhia. Mas 
no havia jeito. Eles a foraram  falncia. Tomaram-lhe tudo. 
.. a companhia, esta casa, at mesmo seu carro.
- Oh, Deus!
- H mais. O promotor distrital comunicou  sua me que ia 
pedir uni indiciamento por fraude, que ela se arriscava a uma 
sentena de priso. Acho que foi nesse dia em que ela 
realmente morreu.
Tracy fervilhava com uma onda de raiva impotente.
 - Mas tudo o que ela tinha de fazer era contar a verdade... 
explicar o que aquele homem lhe fez.
 O velho capataz sacudiu a cabea.
 - Joe Romano trabalha para um homem chamado Anthony Orsatti. 
E Orsatti manda em Nova Orleans- Descobri tarde demais que 
Romano j tinha feito a mesma coisa com outras companhias. 
Mesmo que sua me o levasse aos tribunais, muitos anos se 
passariam antes que tudo ficasse esclarecido. E ela no tinha 
dinheiro para lutar contra ele.
 - Por que ela no me disse nada?
 Era um brado de angstia, um brado pela angstia da me. 
 - Sua me era uma mulher orgulhosa. E o que voc podia fazer? 
No h nada que algum possa fazer.
 Voc est enganado, pensou Tracy, furiosa.

 - Quero falar com Joe Romano. Onde posso encontr-lo? 
Schmidt disse, incisivamente:
- Esquea-o. No faz idia de como ele  poderoso.
- Onde ele mora, Otto?
 Ele tem uma casa perto de Jackson Square. Mas no adiantar 
ir at l, Tracy.
 Tracy no respondeu. Estava dominada por uma emoo que lhe 
era totalmente desconhecida: o dio. Joe Romano pagar pela 
morte de minha me, jurou Tracy para si mesma.

3

Ela precisava de tempo. Tempo para pensar, tempo para planejar 
o seu prximo movimento. No suportava voltar para a casa 
despojada e por isso foi hospedar-se num pequeno hotel na 
Magazine Street, longe do Bairro Francs, onde o carnaval 
desvairado ainda continuava. No tinha bagagem e o desconfiado 
recepcionista disse:
 - Ter de pagar adiantado. So quarenta dlares pela noite.
 Tracy telefonou do quarto para Charles Desmond, a fim de 
comunicar-lhe que no poderia trabalhar por alguns dias. Ele 
disfarou a irritao pela inconvenincia e disse a Tracy:
 - No se preocupe. Arrumarei algum para ficar no seu lugar 
at voltar.
 Desmond esperava que ela se lembrasse de contar a Charles 
Stanhope como ele fora compreensivo e prestativo. O telefonema 
seguinte de Tracy foi para Charles.
 - Charles, querido....
 - Onde diabo voc est, Tracy? Mame tentou encontr-la 
durante toda a manh. Ela queria almoar hoje com voc. As 
duas tm muitas coisas para combinar.
 - Desculpe, querido. Estou em Nova Orleans.
 - Voc est onde? O que foi fazer em Nova Orleans?
 - Minha me... morreu.
 A palavra quase ficou presa na garganta de Tracy.
 - Oh... - O tom de voz de Charles mudou no mesmo instante. - 
Sinto muito, Tracy. Deve ter sido muito sbito. Ela no era 
bastante jovem?
 Ela era muito jovem, pensou Tracy, desesperada. Em voz alta, 
ela disse:
 - Era, sim.
 - O que aconteceu? Voc est bem?
 Por algum motivo, Tracy no podia contar a Charles que fora 
suicdio. Queria ansiosamente contar toda a histria terrvel 
do que haviam feito com sua me, mas se conteve. O problema  
meu, pensou ela. No posso descarregar meu fardo em Charles.
- No se preocupe, querido. Estou bem.
 - Quer que eu v at a, Tracy?
 - No, obrigada. Posso cuidar de tudo. Enterrarei mame
amanh. E estarei de volta a Filadlfia na segunda-feira. 
 Depois de desligar, ela estendeu-se na cama do hotel, os 
pensamentos  deriva. Ps-se a contar as placas acsticas no 
teto. Um... dois... trs... Romano... quatro... cinco... Joe 
Romano... seis... sete... ele pagaria. Ela no tinha qualquer 
plano. Sabia apenas que no permitiria que Joe Romano 
escapasse impune ao que fizera, que encontraria algum meio de 
faz-lo pagar.
 Tracy deixou o hotel ao final da tarde e seguiu a p pela 
Canal Strect, at encontrar uma loja de penhores. Um homem de 
aspecto cansado, usando uma antiquada pala verde, estava 
sentado num guich, por trs do balco.
 - O que deseja?
 - Eu... quero comprar um revlver
 - De que tipo?
 - Sabe como ... apenas um revlver...
 - Quer um 32, um 45, um...
 Tracy nunca empunhara uma arma de fogo.
 - Um... um 32 servir.

 - Tenho aqui um excelente Smith & Wesson calibre 32 por 229 
dlares. Tenho tambm um Charter Arms 32 por 159...
 Tracy no trouxera muito dinheiro na viagem. 
 - No tem alguma coisa mais barata?
 Ele deu de ombros.
 - O mais barato  um bodoque, dona. Mas podemos fazer uma 
coisa. Eu lhe venderei o 32 por 150 dlares e ofereo de 
brinde uma caixa de balas.
 - Est bem.
Tracy observou enquanto o homem se deslocava para um arsenal 
sobre uma mesa mais atrs e seleccionava um revlver. Ele 
levou-o para o balco.
 - Sabe como us-lo?
 - Sei... basta puxar o gatilho.
 O homem soltou um grunhido.
 - Quer que eu lhe ensine a carregar?
 Ela j ia dizer que no precisava, que no tencionava usar o 
revlver, que queria apenas assustar algum. Mas compreendeu 
como isso pareceria absurdo.
 - Quero, sim, por favor.
 Tracy observou enquanto ele inseria as balas no tambor.
 - Obrigada.
 Ela abriu a bolsa e contou o dinheiro.
 - Precisarei de seu nome e endereo para o registro policial. 
Era uma coisa que no ocorrera a Tracy. Ameaar Joe Romano com 
um revlver era um ato criminoso. Mas ele  o criminoso e no 
eu. A pala verde dava aos olhos do homem uma impresso lgubre 
enquanto observavam Tracy.
- Nome?
- Smith... Joan Smith.
 Ele fez uma anotao num carto.
- Endereo?
 - Dowman Road... Dowman Road, 32.
 Sem levantar os olhos, ele comentou:
 - No existe Dowman Road, 32. Seria no meio do rio. Vamos 
passar para 25.
 Ele estendeu o recibo para Tracy. Ela assinou JOAN SWMITH. 
- Isso  tudo?
- , sim.
Cuidadosamente, ele empurrou o revlver pelo guich. Tracy 
fitou-o imvel por um instante, depois pegou-o e guardou na 
bolsa, virou-se e deixou a loja apressadamente.
 - Ei, dona! - gritou o homem, enquanto ela se afastava. - No 
esquea que a arma est carregada!

A Jackson Square fica no corao do Bairro Francs, com a bela 
Catedral de St- Louis dominando-a como uma bno. As casas 
antigas e aprazveis da praa ficam ao abrigo do trfego 
intenso por sebes altas e graciosas magnlias. Joe Romano 
vivia numa daquelas casas.
Tracy esperou at o anoitecer para partir. O carnaval 
deslocara-se para a Chartres Strect;  distncia, ela podia 
ouvir o som do pandemnio em que fora engolfada anteriormente.

 Tracy parou nas sombras, observando a casa, consciente do 
peso do revlver em sua bolsa. O plano que elaborara era 
simples. Tentaria argumentar com Joe Romano, pediria que 
limpasse o nome da me. Se ele recusasse, iria amea-lo com o 
revlver, obrig-lo a escrever uma confisso. E a levaria para 
o Tenente Miller, que prenderia Romano, resguardando assim o 
nome da me. Desejava desesperadamente que Charles estivesse 
ali, a seu lado, mas sabia que era melhor cuidar de tudo 
sozinha. Tinha de deixar Charles de fora daquilo. Contaria a 
ele depois que tudo terminasse, com Joe Romano atrs das 
grades, que era o lugar a que ele pertencia. Um pedestre se 
aproximava. Tracy esperou at que ele se afastasse e a rua 
ficasse completamente deserta.
 Ela subiu os degraus da casa e tocou a campainha. Ningum 
atendeu. Ele est provavelmente num dos bailes particulares 
oferecidos durante o Mardi Gras. Mas posso esperar, pensou 
Tracy. Posso esperar at que ele volte para casa. Subitamente, 
a luz da varanda foi acesa, a porta se abriu e um homem 
apareceu. Sua aparncia foi uma surpresa para Tracy. Ela 
imaginara um gangster de aspecto sinistro, o mal estampado no 
rosto. Em vez disso, deparava-se com um homem atraente e 
simptico, que poderia facilmente ser tomado por um professor 
universitrio. Sua voz era baixa e amistosa:
 - Ol. Em que posso ajud-la?
 - Voc  Joseph Romano?
 A voz de Tracy estava trmula.
 - O prprio. O que deseja?
 Ele tinha um comportamento insinuante e agradvel. No  de 
admirar que minha me se tenha deixado enganar por esse homem 
pensou Tracy.
 - Eu... eu gostaria de lhe falar, Sr. Romano.
 Ele contemplou-a por um momento, de alto a baixo.
 - Claro. Entre, por favor.
Tracy acompanhou-o a uma sala de estar cheia de mveis 
antigos, bonitos e lustrosos. Joseph Romano vivia muito bem.  
custa do dinheiro de minha me, pensou Tracy, amargurada.
 - Eu ia me servir de um drinque. O que deseja tomar?
 - Nada.
Ele fitou-a com uma expresso curiosa.
- Sobre o que deseja me falar, Senhorita ...
- Tracy Whitney. Sou a filha de Doris Whitney.
 Romano fitou-a impassvel por um momento e depois uma 
expresso de reconhecimento aflorou em seu rosto.
- Ah, sim... Soube o que aconteceu com sua me. Uma coisa 
lamentvel.
Uma coisa lamentvel! Ele causara a morte de sua me e esse 
era o nico comentrio que tinha a fazer.
- Sr. Romano, o promotor distrital acha que minha me foi 
culpada de fraude. Mas sabe que isso no  verdade. E quero 
que me ajude a limpar o nome dela.
Ele soltou uma risada.
- Nunca falo de negcios durante o Mardi Gras.  contra a 
minha religio. - Romano foi at o bar e comeou a servir dois 
drinques. - Creio que se sentir melhor depois que tomar um 
drinque.
Ele no lhe deixava opo. Tracy abriu a bolsa e tirou o 
revlver. Apontou para ele.
- Eu lhe direi o que far com que eu me sinta melhor, Sr. 
Romano: obrig-lo a confessar o que exactamente fez  minha 
me. - Joseph Romano virou-se e viu a arma.
-  melhor guardar isso, Senhorita Whitney. Pode disparar.

 - E vai mesmo disparar, se no fizer exactamente o que eu 
mandar. Escrever como saqueou a companhia, levando-a  
falncia e causando o suicdio de minha me.
Ele a observava atentamente agora, uma expresso cautelosa nos 
olhos escuros.
 - E se eu recusar?
 - Ento eu vou mat-lo.
 Tracy podia sentir o revlver tremendo em sua mo.
 - No me parece uma assassina, Senhorita Whitney. - Ele se 
aproximava dela agora, com um copo na mo. A voz era suave e 
sincera. - Nada tive a ver com a morte de sua me e pode estar 
certa de que eu...
 Ele jogou o drinque no rosto de Tracy. Ela sentiu a ardncia 
do lcool em seus olhos e um instante depois a arma foi 
derrubada de sua mo.
 - Sua velha me escondeu uma coisa - disse Joe Romano. - Ela 
no me contou que tinha uma filha to gostosa.
 Ele a segurava, imobilizando-lhe os braos. Tracy no podia 
ver nada e sentia-se apavorada. Tentou se desenvencilhar, mas 
ele a encostou numa parede, comprimindo-se contra o seu corpo.
 - Tem coragem, boneca. Gosto disso. E me deixa com o maior 
teso.
 A voz dele soava rouca. Tracy podia sentir o seu corpo 
ardente contra o dela. Tentava novamente se desenvencilhar, 
mas estava impotente em seu aperto.
 - Veio aqui por um pouco de excitamento, hem? Pois  o Joe 
vai lhe dar.
 Ela tentou gritar, mas a voz saiu sufocada:
 - Largue-me!
 Ele rasgou-lhe a blusa, sussurrando:
 - Ei, olhe s para esses peitos! - Ele comeou a apertar-lhe 
os mamilos. - Lute comigo, boneca. Gosto disso.
 - Largue-me!
 Romano apertou-a com mais fora ainda, machucando-a. Tracy 
sentiu que estava sendo forada para o cho. 
 - Aposto que voc nunca foi comida por um homem de verdade.
 Ele se achava agora montado por cima dela, o corpo pesado a 
comprimi-la, as mos subindo por suas coxas. Tracy tacteou s 
cegas, os dedos encontraram o revlver. Agarrou-o e houve uma 
exploso sbita, estrondosa.
 - Oh, Deus! - exclamou Romano.
 A presso dele relaxou de repente. Atravs de uma nvoa 
vermelha, Tracy observou horrorizada, enquanto ele saia de 
cima dela, arriando no cho, as mos comprimindo o lado.
 - Voc atirou em mim... sua puta... atirou em mim...
 Tracy estava paralisada, incapaz de se mexer. Sentiu que ia 
vomitar, os olhos se achavam cegos pela dor intensa. Conseguiu 
se levantar, virou-se e cambaleou para uma porta no outro lado 
da sala. Abriu-a. Era um banheiro. Ela foi at a pia, encheu-a 
de gua fria, molhou os olhos, at que a dor comeou a se 
desvanecer e a viso clareou. Contemplou-se no espelho por 
cima da pia. Os olhos estavam injectados, com um aspecto 
horrvel. Santo Deus, acabei de matar um homem! Ela voltou 
correndo  sala. Joe Romano estava cado no cho, o sangue se 
espalhando sobre o tapete branco. Tracy parou ao lado, o rosto 
muito plido.
- Sinto muito - murmurou ela, atordoada. - Eu no tinha 
inteno...
- Ambulncia...

A respirao de Romano era entrecortada. Tracy correu para o 
telefone na mesa e discou para a telefonista. A voz saiu 
estrangulada quando tentou falar:
- Telefonista, providencie uma ambulncia imediatamente. O 
endereo  Jackson Square, 421. Um homem foi baleado.
Ela reps o telfone no gancho e olhou para Joe Romano. Oh, 
Deus, rezou ela, no deixe que ele morra, por favor. Sabe que 
eu no tencionava mat-lo. Ela ajoelhou-se ao lado do corpo no 
cho, a fim de verificar se ele ainda estava vivo. Os olhos se 
achavam fechados, mas Romano ainda respirava.
- Uma ambulncia est a caminho - murmurou Tracy.
E ela fugiu.
Fez um esforo para no correr, com medo de atrair a ateno. 
Fechou o casaco, a fim de esconder a blusa rasgada. A quatro 
quarteires da casa, tentou parar um txi. Meia dzia passaram 
directo em alta velocidade, cheios de passageiros risonhos e 
felizes.  distncia, Tracy ouviu uma sirene se aproximando. 
Pouco depois, uma ambulncia passou por ela em disparada, 
seguindo na direco da casa de Joe Romano. Tenho de sair 
daqui, pensou Tracy. Um txi parou  sua frente e descarregou 
os passageiros. Tracy correu, com medo de perd-lo.
 - Est livre?
 - Depende. Para onde vai?
 - Para o aeroporto.
 Ela prendeu a respirao.
 - Entre.
 A caminho do aeroporto, Tracy pensou na ambulncia. E se 
chegassem tarde demais e encontrassem Joe Romano j morto? Ela 
seria uma assassina. Deixara o revlver na casa, suas 
impresses digitais l estavam. Poderia dizer  polcia que 
Romano tentara estupr-la e a arma disparara acidentalmente. 
Mas nunca acreditariam nela. Comprara a arma que estava no 
cho, ao lado de Joe Romano. Quanto tempo passara? Meia hora? 
Uma hora? Tinha de sair de Nova Orleans o mais depressa 
possvel.
- Gostou do carnaval? - perguntou o motorista.
Tracy engoliu em seco.
- Ahn... gostei.
 Ela tirou o espelhinho da bolsa e fez o que era possvel para 
se tornar apresentvel. Fora estpida ao tentar obrigar Joe 
Romano a confessar. Tudo saira errado. Como posso dizer a 
Charles o que aconteceu? Sabia como ele ficaria chocado; mas, 
depois que explicasse, ele compreenderia. Charles saberia o 
que fazer.
Quando o txi chegou ao Aeroporto Internacional de Nova 
Orleans, Tracy pensou: Foi somente esta manh que passei por 
aqui? Tudo aconteceu num dia apenas? O suicdio da me... o 
horror de ser engolfada pelo carnaval... o homem gritando... 
"Voc atirou em mim... sua puta..."
Quando entrou no terminal, Tracy teve a impresso de que todos 
a fitavam acusadoramente.  isso o que a conscincia culpada 
faz, pensou ela. Gostaria que houvesse algum meio de saber 
qual era o estado de Joe Romano, mas no tinha a menor idia 
do hospital para onde ele fora levado ou para quem poderia 
telefonar. Ele vai ficar bom. Charles e eu voltaremos a Nova 
Orleans para o enterro de mame e Joe Romano se salvar. Ela 
tentou afastar da mente a viso do homem cado sobre o tapete 
branco, o sangue manchando-o de vermelho. Tinha de voltar 
correndo para casa, para Charles...

Tracy foi at o balco da Delta Airlines.
- Quero uma passagem de ida para Filadlfia no prximo voo, 
por favor. Classe turista.
 O funcionrio consultou o computador.
 - Ser o vo trs-zero-quatro. Est com sorte. Ainda resta um 
lugar.
 - A que horas o avio parte?
 - Dentro de vinte minutos. Est em cima da hora para 
embarcar.
 Ao abrir a bolsa, Tracy sentiu mais do que viu dois guardas 
uniformizados se postarem nos seus lados. Um deles disse:
- Tracy Whitney?
 O corao dela parou de bater por um instante. Seria 
estupidez negar minha identidade.
 - Sou eu.
 - Est presa.
 E Tracy sentiu o ao frio das algemas estalarem em seus 
pulsos.

Tudo estava acontecendo em cmara lenta com outra pessoa. 
Tracy observou-se sendo levada pelo aeroporto, algemada a um 
dos guardas, as pessoas se virando para olhar. Foi empurrada 
para o banco traseiro de uma radiopatrulha preta e branca, com 
uma grade de ao a separ-la do banco da frente. O carro 
partiu abruptamente, a luz vermelha piscando, a sirene 
gemendo. Ela se encolheu no banco, tentando tornar-se 
invisvel. Era uma assassina. Joseph Romano morrera. Mas fora 
um acidente. Ela explicaria como acontecera. Tinham de 
acreditar nela. Tinham de acreditar... A delegacia de polcia 
para onde Tracy foi levada ficava no distrito de Algiers, na 
zona oeste de Nova Orleans, um prdio sombrio e agourento, com 
uma aparncia de desolao. A sala da frente estava apinhada 
de pessoas de aspecto deprimente... prostitutas, cafetes, 
assaltantes e suas vitimas . Tracy foi conduzido  mesa do 
sargento de planto. Um dos guardas disse:
A mulher Whitney, sargento. Ns a pegamos no aeroporto, 
tentando escapar.
- Eu no estava...
- Tirem as algemas.
As algemas foram removidas. Tracy recuperou a voz.
- Foi um acidente. Eu no tinha a menor inteno de mat-lo. 
Ele tentou me estuprar e...
 - Voc  mesmo Tracy Whitney?
 - Sou, sim. Eu...
 - Levem-na para a cela.
- No! Espere um instante! - suplicou Tracy. - Preciso 
telefonar para algum. Eu... eu tenho o direito de dar um 
telefonema.
O sargento soltou um grunhido irnico.
- Conhece a rotina, hem? Quantas vezes j esteve em cana, meu 
bem?
 - Nenhuma. Esta ...
 - Pode dar um telefonema. Trs minutos. Que nmero voc quer?
Tracy estava to nervosa que no conseguia lembrar o telefone 
de Charles. No conseguia sequer recordar o CDIGO de rea 
para Filadlfia. Seria dois-cinco-um? No. O nmero era outro. 
Ela agora tremia.
- Vamos logo. No posso ficar esperando a noite inteira.

 Dois-um-cinco. Era isso!
 - Dois-um-cinco-cinco-cinco-cinco-nove-trs-zero-um.
 O sargento discou o nmero e entregou o telfone para Tracy. 
Ela podia ouvir a campainha tocando. E tocando. Ningum 
atendia.Charles tinha de estar em casa. O sargento disse:
- Seu tempo acabou.
Ele estendeu a mo para arrancar o telfone de Tracy.
- Espere, por favor! - gritou ela.
 Mas, subitamente, lembrou-se que Charles desligava seu 
telefone  noite, a fim de no ser incomodado. Ela escutou a 
campainha por mais um instante e compreendeu que no havia a 
menor possibilidade de entrar em contacto com Charles. O 
sargento indagou: 
- J acabou?
 Tracy fitou-o apaticamente e murmurou:
- J, sim.
Um guarda em mangas de camisa levou Tracy para uma sala, onde 
ela foi fichada e lhe tiraram as impresses digitais. Depois, 
foi conduzida por um corredor e trancada numa cela, sozinha.
 - Ter uma audincia pela manh - informou o guarda 
afastando-se e deixando-a sozinha.
Nada disso est acontecendo, pensou Tracy. Tudo no passa de 
um terrvel pesadelo. Oh, Deus, por favor, no permita que 
nada disso seja real!
 Mas o catre ftido na cela era real, o vaso sanitrio sem 
tampa no canto era real, as barras eram reais.

As horas da noite se arrastaram interminavelmente. Se ao menos 
eu conseguisse entrar em contacto com Charles! Precisava dele 
agora mais do que j precisara de qualquer outra pessoa, em 
toda a sua vida. Eu deveria ter-lhe contado, em primeiro 
lugar. Se o fizesse, nada disso teria acontecido.
s seis horas da manh, um guarda entediado trouxe para Tracy 
um caf morno e um mingau de aveia frio. Ela no foi capaz de 
tocar. O estmago se achava completamente contrado. Uma 
inspectora veio busc-la s nove horas.
 - Est na hora, queridinha.
 A mulher destrancou a porta da cela,
- Preciso dar um telefonema - disse Tracy. -  muito..
- Mais tarde. No vai querer deixar o juiz esperando. Ele  um 
filho da puta mesquinho.
 Ela acompanhou Tracy por um corredor e atravs de uma porta 
que dava para um tribunal. Um juiz idoso presidia o tribunal. 
A cabea e as mos se mantinham em constante movimento, 
arrancos pequenos e rpidos.  sua frente se encontrava o 
promotor distrital, Ed Topper, um homem franzino, na casa dos 
40 anos, cabelos grisalhos ondulados, olhos pretos e frios. 
Tracy foi levada a uma cadeira e um momento depois o meirinho 
anunciou:
 - O povo contra Tracy Whitney.
 Tracy descobriu-se a avanar. O juiz examinava um papel  sua 
frente, a cabea balanando para cima e para baixo. Agora. 
Agora. Agora era o momento de Tracy explicar a algum com 
autoridade o que realmente acontecera. Ela comprimiu as mos, 
a fim de evitar que tremessem.
 - Meritissimo, no foi homicdio. Atirei nele,  verdade, mas 
foi um acidente. Eu s pretendia assust-lo. Ele tentou me 
violentar e...

 O promotor distrital interrompeu-a:
- Meritissimo, no vejo sentido em desperdiar o tempo deste 
tribunal. Esta mulher arrombou a casa do Sr. Romano, armada 
com um revlver de calibre 32, roubou um quadro de Renoir no 
valor de meio milho de dlares. Quando o Sr. Romano 
surpreendeu-a em flagrante, ela alvejou-o a sangue-frio e 
deixou-o como morto.
Tracy sentiu que o sangue se esvaa de seu rosto.
- Mas... mas do que est falando?
 Nada daquilo fazia qualquer sentido. O promotor acrescentou 
bruscamente:
- Temos a arma com que o Sr. Romano foi ferido. As impresses 
digitais da mulher esto na arma. 
Ferido! Ento Joseph Romano estava vivo! Ela no matara 
ningum.
- Ela fugiu com o quadro, Meritissimo. Provavelmente se 
encontra nas mos de algum receptador, a esta altura. Por esse 
motivo, o Estado solicita que Tracy Whitney seja julgada por 
tentativa de homicdio e assalto  mo armada, com a fiana 
fixada em meio milho de dlares.
 O juiz virou-se para Tracy, que se encontrava imvel, em 
estado de choque.
- Est representada neste tribunal?
Ela no ouviu. O juiz alteou a voz:
- Tem um advogado?
 Tracy sacudiu a cabea.
 - No. Eu... o que... o que esse homem disse no  verdade. 
Eu nunca...
 - Tem dinheiro para contratar um advogado?
Havia o fundo dos empregados no banco. E havia Charles.
 - Eu... no, Meritissimo. Mas no compreendo...
 - O tribunal designar um advogado para voc . Ser mantida 
sob custdia, com uma fiana de quinhentos mil dlares. 
Prximo caso.
- Espere! Isso tudo  um equvoco! Eu no...
Ela no se lembrou depois de ter sido retirada do tribunal.
O nome do advogado designado pelo tribunal era Perry Pope. Ele 
se aproximava dos 40 anos, possua um rosto rude e 
inteligente, olhos azuis simpticos. Tracy gostou dele 
imediatamente. Ele entrou na cela, sentou-se no catre e disse:
- Voc criou uma sensao e tanto para uma mulher que se 
encontra na cidade h apenas 24 horas. - Ele sorriu. - Mas tem 
sorte.  uma pssima atiradora. O ferimento foi superficial . 
Romano sobreviver.
Ele tirou um cachimbo do bolso e acrescentou:
 - Importa-se que eu fume?
 - No.
 Ele encheu o cachimbo de fumo, acendeu-o, estudou atentamente 
o rosto de Tracy.
 - No parece a criminosa comum desesperada, Senhorita 
Whitney.
 - E no sou. Juro que no sou.
 - Pois ento me convena. Conte o que aconteceu. Desde o 
incio. Leve o tempo que julgar necessrio. 
 E Tracy contou. Tudo. Perry Pope escutou a histria em 
silncio, no falando at que Tracy terminou. Recostou-se 
ento na parede da cela, uma expresso sombria no rosto. E 
disse, baixinho:

- Aquele filho da puta...
 - No entendo do que eles estavam falando. - Havia confuso 
nos olhos de Tracy. - No sei de nada sobre um quadro. 
-  realmente muito simples. Joe Romano usou-a como bode 
expiatrio, da mesma forma como fez com sua me . Voc caiu 
direitinha numa armadilha.
 - Ainda no compreendo.
 - Pois ento vou explicar. Romano reclamar o seguro de meio 
milho de dlares pelo quadro de Renoir que escondeu em algum 
lugar e receber. A seguradora ficar atrs de voc e no 
dele. Quando as coisas esfriarem, Romano vender o quadro a 
algum coleccionador particular e ganhar mais meio milho de 
dlares, graas  sua ingenuidade. No sabia que uma confisso 
obtida sob a mira de uma arma no tem valor?
 - Eu... eu acho que sabia. Pensei apenas que, se conseguisse 
lhe arrancar a verdade, algum poderia iniciar uma 
investigao. 
O cachimbo se apagara. Ele tornou a acend-lo.
 - Como entrou na casa?
- Toquei  campainha da frente e o Sr. Romano abriu a porta.
- No  a histria que ele conta. H uma janela arrombada nos 
fundos da casa e Romano garante que foi por l que voc 
entrou. Ele disse  polcia que a surpreendeu a pegar o 
Renoir; quando tentou impedi-la, voc atirou nele e fugiu.
- Mas isso  uma mentira! Eu...
 - Mas  a mentira dele, assim como a sua casa... enquanto a 
arma pertence a voc. Tem alguma idia das pessoas que est 
enfrentando?
Tracy sacudiu a cabea, em silncio.
- Pois ento lhe contarei os factos da vida, Senhorita 
Whitney. Esta cidade  controlada pela Famlia Orsatti. Nada 
acontece por aqui sem a aprovao de Anthony Orsatti. Se quer 
uma permisso para construir um prdio, pavimentar uma rua, 
explorar as muralhas, a lotaria dos nmeros ou os txicos, tem 
de falar com Orsatti. Joe Romano comeou como um pistoleiro 
dele. Agora,  o homem principal na organizao de Orsatti.
 Ele fez uma pausa, fitando-a com admirao, antes de 
acrescentar:
 - E voc entrou na casa de Romano e apontou-lhe um revlver!
Tracy continuou sentada, atordoada e exausta. Finalmente 
perguntou:
- Acredita na minha histria?
 O advogado sorriu.
 - Voc est absolutamente certa.  tanta estupidez que s 
pode ser verdade.
 - Pode me ajudar?
Ele respondeu bem devagar:
 - Vou tentar. Eu daria qualquer coisa para pr todos eles por 
trs das grades. So os donos desta cidade e da maioria dos 
nossos juizes. Se voc for a julgamento, eles a enterraro to 
fundo que nunca mais tornar a ver a luz do dia.
 Tracy fitou-o, perplexa.
 - Se eu for a julgamento?
 Pope levantou-se e comeou a andar de um lado para outro da 
cela, enquanto dizia:

 - No quero lev-la  presena de um jri porque ser o jri 
dele. Pode estar certa disso. H somente um juiz que Orsatti 
nunca foi capaz de comprar. O nome dele  Henry Lawrence. Se 
eu puder dar um jeito para que ele assuma o caso, tenho 
certeza de que arrumarei um acordo para voc. No  
rigorosamente tico, mas conversarei com ele particularmente. 
Lawrence odeia Orsatti e Romano tanto quanto eu. Agora, tudo o 
que temos de fazer  atrair o Juiz Lawrence.

Perry Pope providenciou um telefonema de Tracy para Charles 
Tracy ouviu a voz famliar da secretria de Charles:
- Escritrio do Sr. Stanhope.
 - Harriet, aqui  Tracy Whitney. Eu...
 - Oh, Senhorita Whitney, ele vem tentando lhe falar h 
bastante tempo, mas no tnhamos o seu telefone. A Sra. 
Stanhope est ansiosa em acertar todas as providncias para o 
casamento. Se puder procure-a o mais depressa possvel...
- Harriet, posso falar com o Sr. Stanhope, por favor?
 - Lamento muito, Senhorita Whitney, mas no ser possvel. 
Ele est a caminho de Houston. para uma reunio. Se me der seu 
nmero tenho certeza de que ele lhe telefonar assim que 
puder.
- Eu...
Ela no podia deixar que Charles lhe telefonasse para cadeia. 
No antes de primeiro ter a oportunidade de lhe explicar tudo 
o que acontecera.
- Eu... eu telefonarei de novo para o Sr. Stanhope.
 Ela desligou. Amanh, pensou Tracy, cansada. Explicarei tudo 
a Charles amanh.
 Tracy foi transferida naquela tarde para uma cela maior. 
Foi-lhe servido um jantar delicioso no Cyalatoire's e pouco 
depois chegaram flores frescas com um bilhete. Ela abriu o 
envelope e tirou o carto: NIMO, VAMOS DERROTAR OS 
MISERVEIS. PERRY POPE.

Ele veio visitar Tracy na manh seguinte. Ela compreendeu que 
havia boas notcias no instante em que viu o sorriso em seu 
rosto. 
 - Estamos com sorte - declarou ele . - Acabei de conversar 
com o Juiz Lawrence e com Topper, o promotor distrital. Toppe 
protestou furiosamente, mas chegamos a um acordo.
 - Um acordo?
 - Eu contei a sua histria ao Juiz Lawrence. Ele concordou em 
aceitar um reconhecimento de culpa de sua parte.
 Tracy ficou chocada.
 - Um reconhecimento de culpa? Mas eu no...
 - Preste ateno. Declarando-se culpada, voc poupa ao Estado 
a despesa de um julgamento. Persuadi o juiz que voc no 
roubou o quadro. Ele conhece Joe Romano e acreditou em mim.
 - Mas... se eu me declarar culpada, o que eles faro comigo?
 - O Juiz Lawrence a condenar a trs meses de priso, com...
 - Priso!
- Espere um instante. Ele suspender a sentena e voc poder 
cumpri-la em liberdade condicional, fora do Estado. 
- Mas neste caso eu.- eu terei uma ficha policial.
 Perry Pope suspirou.
- Se a levarem a julgamento por assalto  mo armada e 
tentativa de homicdio, durante o ato, voc pode ser condenada 
a dez anos.
Dez anos de cadeia! Perry Pope observava pacientemente e 
acrescentou:

- S posso lhe oferecer o meu melhor conselho. J  um milagre 
o que eu consegui. Eles querem uma resposta agora. Voc no 
precisa aceitar o acordo. Pode arrumar outro advogado e...
 - No.
 Tracy sabia que aquele homem era honesto. Nas circunstncias, 
considerando o seu comportamento insano, ele fizera tudo o que 
era possvel por ela. Se ao menos pudesse falar com Charles... 
Mas eles precisavam de uma resposta agora. Ela provavelmente 
tinha sorte de escapar com uma sentena de trs meses em 
suspenso.
- Eu... eu aceitarei o acordo.
 Tracy teve de fazer muita fora para que as palavras sassem. 
O advogado assentiu.
Est sendo esperta.

Tracy no teve permisso de dar qualquer telefonema antes de 
voltar ao tribunal. Ed Topper postou-se num lado dela e Perry 
Pope no outro. Sentado no assento do juiz estava um homem de 
aparncia distinta, na casa dos 50 anos, o rosto liso, sem 
rugas, cabelos abundantes e impecveis. O Juiz Lawrence disse 
a Tracy:
 - O tribunal foi informado que a r deseja mudar sua alegao 
de inocente para culpada. Isso  correcto?
- , sim, Meritissimo.
- Todas as partes esto de acordo?
Perry Pope assentiu.
- Esto, Meritissimo.
- O Estado concorda, Meritissimo - acrescentou o promotor.
 O Juiz Lawrence permaneceu em silncio por um longo momento. 
Depois, inclinou-se para a frente e fitou Tracy nos olhos. 
 - Um dos motivos para que este nosso grande pas se encontre 
em situao to lamentvel  que as ruas fervilham de vermes 
que pensam que podem escapar impunes de qualquer coisa. 
Pessoas que zombam da lei. Alguns sistemas judiciais neste 
pas tratam bem os criminosos. Pois no agimos assim na 
Louisiana. Quando algum, ao cometer um assalto, tenta matar 
uma pessoa a sangue-frio, achamos que a culpada deve ser 
punida de maneira exemplar.
 Tracy comeou a experimentar as primeiras pontadas de pnico. 
Virou o rosto para Perry Pope. Os olhos do advogado fixavam-se 
no juiz.
- A r admitiu que tentou assassinar um dos cidados eminentes 
desta comunidade... um homem notrio por sua filantropia e 
boas aces. A r alvejou-o no ato de roubar um objecto de 
arte no valor de meio milho de dlares. - A voz do juiz 
tornou-se mais spera. - Pois este tribunal vai providenciar 
para que no possa desfrutar esse dinheiro... no durante os 
prximos 13 anos.  que durante os prximos 15 anos voc 
estar encarcerada na Penitenciria Meridional da Louisiana 
Para Mulheres.

 Tracy sentiu que algum gracejo horrvel lhe haviam impingido. 
O juiz era um actor seleccionado para o papel, mas estava 
lendo as linhas erradas. No deveria dizer nenhuma daquelas 
coisas. Ela virou-se para explicar isso a Perry Pope, mas ele 
desviou os olhos. Ele arrumava papis em sua pasta e pela 
primeira vez Tracy notou que suas unhas eram rodas at o 
sabugo. O Juiz Lawrence se levantara e comeava a recolher os 
seus papis. Tracy ficou parada ali, atordoada, incapaz de 
compreender o que estava-lhe acontecendo. Um guarda 
aproximou-se e segurou-a pelo brao.
 - Vamos embora.
 - No! - gritou Tracy. - No, por favor!
 Ela levantou os olhos para o juiz e acrescentou:
 - Houve um engano terrvel, Meritissimo. Eu...
 Enquanto sentia a mo do guarda lhe apertar o brao, Tracy 
compreendeu que no houvera qualquer erro. Fora enganada. Eles 
iam destrui-la.
 Assim como haviam destruido sua me.

4

A notcia dos crimes e da condenao de Tracy Whitney apareceu 
na primeira pgina do New Orleans Courier, acompanhada por uma 
fotografia sua, tirada pela polcia. Os principais servios 
noticiosos transmitiram a histria para jornais de todo o 
pas. Quando foi retirada do tribunal, a fim de aguardar a 
transferncia para a penitenciria estadual, Tracy foi 
confrontada por uma turma de reprteres de televiso. Escondeu 
o rosto em humilhao, mas no havia como escapar das cmaras. 
Joe Romano era uma notcia importante, e um atentado contra a 
sua vida por uma linda assaltante era notcia ainda mais 
sensacional. Tracy tinha a sensao de que se encontrava 
cercada por inimigos. Charles me tirar daqui, ela insistia em 
dizer a si mesma. Oh, por favor, Deus, permita que Charles me 
tire daqui. Nosso filho no pode nascer na priso.
 Foi somente na tarde seguinte que o sargento de planto 
permitiu que Tracy usasse o telefone. Harriet atendeu: 
 - Escritrio do Sr. Stanhope.
 - Harriet, aqui  Tracy Whitney. Eu gostaria de falar com o 
Sr. Stanhope.
 - Um momento, por favor, Senhorita Whitney. - Ela percebeu a 
hesitao na voz da secretria. Eu... vou verificar se o Sr. 
Stanhope est.
Depois de uma espera prolongada e angustiante, Tracy ouvia 
finalmente a voz de Charles. Quase chorou de alvio.
 - Charles...
 - Tracy?  voc, Tracy?
 - Sou eu mesma, querido. Oh, Charles, eu tentei falar com 
voc...
 - Eu estava enlouquecendo, Tracy. Os jornais daqui esto 
repletos de histrias terrveis a seu respeito. No posso 
acreditar no que eles dizem.
 - Nada  verdade, querido. Absolutamente nada. Eu...
 - Onde voc est agora?
 - Estou... estou numa cadeia em Nova Orleans. Eles vo me 
mandar para a priso por algo que no fiz, Charles.
 Para horror de Charles, Tracy comeou a chorar.
- Fique calma. E preste ateno. Os jornais dizem que voc 
atirou num homem. Isso no  verdade, no  mesmo?
- Atirei nele, mas...
 - Ento  verdade!
 - No  como parece, querido. A histria foi totalmente 
diferente. Posso explicar tudo. Eu...
- Tracy, voc se declarou culpada de tentativa de homicdio e 
de roubar um quadro?
-  verdade, Charles. Mas s fiz isso porque...
 - Se precisava de dinheiro to desesperadamente deveria ter 
falado comigo ... E tentar matar algum... No posso acreditar 
nisso. Nem meus pais. Voc  a manchete do Daily News de 
Filadlfia desta manh.  a primeira vez em que um sopro de 
escndalo atinge a famlia Stanhope.
 Foi o amargo autocontrole na voz de Charles que fez Tracy 
compreender os sentimentos profundos dele. Ela contara 
desesperadamente com Charles e agora descobria que seu noivo 
estava do lado deles. Fez um esforo para no gritar.
- Preciso de voc, querido. Por favor, venha at aqui. Pode 
endireitar tudo.

 Houve um silncio prolongado.
 - Parece que no h muita coisa para endireitar. No se voc 
confessou ter feito todas essas coisas. A famlia no pode se 
envolver em algo assim. E tenho certeza de que pode 
compreender isso. Foi um choque terrvel para ns. Obviamente, 
eu nunca a conheci de verdade.
Cada palavra era um tremendo golpe. O mundo desmoronava sobre 
Tracy. Ela sentia-se mais sozinha do que em qualquer outra 
ocasio anterior de sua vida. No havia agora ningum a quem 
pudesse recorrer, absolutamente ningum.
 - E... e o beb?
 - Ter de fazer o que julgar melhor com seu filho - disse 
Charles. - Lamento muito, Tracy.
 E a ligao foi cortada. Tracy ficou imvel, segurando o 
telfone mudo. Outro preso, por trs dela, disse:
 - Se j acabou com o telefone, meu bem, eu gostaria de chamar 
meu advogado.
 Quando Tracy voltou  cola, a guarda tinha instrues a lhe 
transmitir:
Esteja pronta para partir amanh de manh. Viro busc-la s 
seis horas .

Ela recebeu um visitante. Otto Schmidt parecia ter envelhecido 
muitos anos durante as poucas horas transcorridas desde que 
Tracy o vira pela ltima vez. Ele dava a impresso de estar 
doente.
- S vim lhe dizer o quanto minha mulher e eu lamentamos tudo 
isso. Sabemos que no foi culpa sua o que aconteceu. 
Se ao menos Charles tivesse dito isso...
 - Minha mulher e eu estaremos no enterro da Sra. Doris 
amanh,
 - Obrigada, Otto, 
 Eles enterraro ns duas amanh, pensou Tracy.
 Ela passou a noite acordada, deitada em seu estreito catre na 
priso, olhando fixamente para o teto. Reconstituiu 
mentalmente, por muitas vezes, a conversa com Charles. Ele 
nunca lhe dera a oportunidade de explicar.
 Ela tinha de pensar no filho. Lera sobre mulheres que tinham 
filhos na priso, mas as histrias eram to distantes de sua 
prpria vida que era como se estivesse tomando conhecimento de 
relatos sobre pessoas de outro planeta. Agora, porm, estava 
acontecendo com ela. Ter de fazer o que julgar melhor para 
seu filho, dissera Charles. Ela queria ter o filho. Mas eles 
no me deixaro mant-lo, pensou Tracy. Vo tir-lo de mim 
porque passarei os prximos 15 anos na priso.  melhor que 
ele nunca saiba quem  a me.
 E Tracy chorou.

s seis horas da manh, um guarda entrou na cela de Tracy, 
acompanhado pela matrona que, cuidava da priso.
- Tracy Whitney?
- Sou eu.
Ela ficou surpresa ao perceber como sua voz soava estranha - 
Por ordem do Tribunal de Justia Criminal do Estado da 
Louisiana, Condado de Orleans, voc ser transferida 
imediatamente para a Penitenciria Meridional da Louisiana 
Para Mulheres. Vamos embora, garota.

Ela foi conduzida por um corredor comprido, passando por celas 
cheias de reclusos. Houve uma poro de assobios. 
- Tenha uma boa viagem, querida...
- Diga-me onde aquele quadro est escondido, Tracy querida, e 
repartirei o dinheiro com voc...
- Se est indo para a casa grande, procure a Ernestine 
Littlechap. Ela cuidar direitinho de voc...
 Tracy passou pelo telefone do qual ligara para Charles. 
Adeus, Charles.

Ela estava do lado de fora, num ptio. Um nibus da priso, 
amarelo, as janelas gradeadas, esperava ali, o motor ligado. 
Meia dzia de mulheres j se encontravam sentadas no nibus, 
vigiadas por dois guardas armados. Tracy olhou para os rostos 
de suas companheiras de viagem. Uma delas mantinha uma atitude 
de desafio, outra se mostrava entediada, as demais exibiam 
expresses de desespero. As vidas que levaram at ento 
estavam prestes a terminar. Eram prias, sendo conduzidos a 
jaulas em que seriam trancafiadas como animais. Tracy se 
perguntou que crimes teriam cometido e se alguma era to 
inocente quanto ela... e tambm se perguntou o que as outras 
viam em seu rosto.
 A viagem no nibus da priso foi interminvel, o nibus 
quente e malcheiroso. Mas Tracy nem percebeu. Retrara-se para 
dentro de si mesma, no estava mais consciente dos campos 
verdes viosos pelos quais o nibus passava. Encontrava-se em 
outro tempo, em outro lugar.
Era uma garotinha na praia, com a me e o pai. O pai levava-a 
para o mar nos ombros e disse quando ela gritou: No seja como 
um beb, Tracy. E ele largou-a na gua fria. Quando a gua se 
fechou por cima de sua cabea, ela entrou em pnico e comeou 
a sufocar. O pai levantou-a e depois tornou a mergulh-la. 
Desse momento em diante ela tivera pavor da gua...
 O auditrio universitrio se apresentava lotado de 
estudantes, seus pais e parentes. Ela era a oradora da turma. 
Falou por 15 minutos e seu discurso estava impregnado de um 
idealismo elevado, com referncias engenhosas ao passado e 
sonhos fulgurantes para o futuro. O reitor a presenteara com 
uma chave de Phi Beta Kappa. Quero que voc fique com isto, 
Tracy dissera  me . E o orgulho no rosto da me fora 
maravilhoso...
Vou para Filadlfia, mame. Tenho um emprego num banco l. 
Annie Mahier, sua melhor amiga, estava telefonando. Voc vai 
adorar Filadlfia, Tracy. Tem todas as coisas culturais. Alm 
disso,  tambm uma linda cidade e tem escassez de mulheres. 
Ou seja, os homens daqui so realmente famintos! E posso lhe 
arrumar um emprego no banco em que trabalho...
 Charles estava lhe fazendo amor. Ela observou as sombras em 
movimento no teto e pensou: Quantas mulheres gostariam de 
estar no meu lugar? Charles era um grande prmio. E no mesmo 
instante ela sentiu-se envergonhada do pensamento. Amava 
Charles. Podia senti-lo dentro de si, arremetendo com mais 
fora, cada vez mais depressa, prestes a explodir. E ele 
balbuciou: Voc est pronta? E ela mentiu, dizendo que sim. 
Foi maravilhoso para voc? Foi, sim, Charles. E ela pensou: 
Isso  tudo o que existe? E novamente o sentimento de culpa...

- Voc! estou falando com voc. Por acaso  surda? Vamos logo.

Tracy levantou os olhos e se descobriu no nibus amarelo da 
priso. Parara num ptio cercado por uma pilha sombria de 
alvenaria. Uma sucesso de nove cercas, encimadas com arame 
farpado, cercava os 500 acres de pastagens e bosques que 
constituiam a Penitenciria Meridional da Louisiana Para 
Mulheres.
 - Saia - ordenou o guarda. - Estamos aqui.
Aqui era o inferno.

5

Uma mulher corpulenta, de rosto impassvel, cabelos pintados 
de castanho, falava para as recm-chegadas:
 - Algumas de vocs passaro uma longa temporada aqui. S h 
uma maneira de aguentarem e  a de esquecerem tudo sobre o 
mundo exterior. Podem fazer com que seu tempo aqui seja fcil 
ou difcil. Temos regulamentos aqui e vocs obedecero a esses 
regulamentos. Ns lhes diremos quando se levantarem, quando 
trabalharem, quando irem ao banheiro. Violem qualquer um dos 
regulamentos e desejaro estar mortas. Gostamos de manter as 
coisas pacficas por aqui e sabemos como lidar com as 
encrenqueiras.
 A mulher fez uma pausa, os olhos se fixando em Tracy.
- Sero levadas agora para os exames fsicos. Depois, passaro 
pelos chuveiros e iro para suas celas. Pela manh, recebero 
as suas tarefas. Isso  tudo.
 Ela comeou a se virar. Uma jovem plida, ao lado de Tracy, 
disse:
 - Com licena, por favor, mas eu... 
 A mulher tornou a se virar, bruscamente, o rosto dominado 
pela fria.
 - Cale a porra de sua boca. S pode falar quando lhe 
dirigirem a palavra. Entendido? Isso se aplica a todas vocs.
O tom, assim como as palavras, fora um choque para Tracy. A 
mulher fez um sinal para as duas guardas armadas no fundo da 
sala.
 - Tirem essas sacanas impestveis daqui.
 Tracy descobriu-se sendo retirada da sala junto com as 
outras, levada por um corredor comprido. As prisioneiras 
entraram numa sala grande, de ladrilhos brancos, onde um homem 
gordo, de meia-idade, numa bata suja, estava parado ao lado de 
uma mesa de exame. Uma das guardas ordenou:
 - Entrem em fila.
 As mulheres formaram uma fila comprida. O homem anunciou:
 - Sou o Dr. Glasco. Tirem as roupas.
 As mulheres se entreolharam, indecisas. Uma delas disse:
 - At onde precisamos...
 - No sabem o que significa tirem as roupas? Dispam-se... 
tirem todas as roupas!
 Lentamente, as mulheres comearam a se despir. Algumas se 
mostraram inibidas, algumas indignadas, algumas indiferentes. 
 esquerda de Tracy estava uma mulher quase chegando aos 50 
anos, tremendo violentamente;  sua direita, havia uma garota 
pateticamente magra, que parecia no ter mais do que 17 anos. 
Sua pele se achava coberta de espinhas. O mdico gesticulou 
para a primeira mulher na fila.
- Deite na mesa e ponha os ps nos estribos.
A mulher hesitou.
- Vamos logo. Est atrasando a fila.
Ela obedeceu. O mdico inseriu um espculo em sua vagina. 
Enquanto sondava, ele perguntou:
- Tem alguma doena venrea?
- No.
- Pois descobriremos em breve.
A mulher seguinte subiu na mesa. Quando o mdico fez meno de 
inserir-lhe o espculo, Tracy gritou:
- Espere um pouco!

O mdico parou, levantando os olhos, surpreso.
- Como?
Todos olhavam fixamente para Tracy. Ela disse:
- Eu... o senhor no esterilizou o instrumento.
O Dr. Glasco presenteou Tracy com um sorriso lento e frio.
- Ora, ora, temos uma ginecologista na casa! Est preocupada 
com os germes, hem? Pois passe para o fim da fila.
- Como?
- No entende ingls? V para o fim da fila.
 Sem compreender o motivo, Tracy deslocou-se para o ltimo 
lugar na fila.
 - E agora, se no se importam - disse o mdico - vamos 
continuar.
 Ele inseriu o espculo na mulher que se encontrava na mesa e 
Tracy compreendeu subitamente o motivo pelo qual se tornara a 
ltima. Ele examinaria a todas com o mesmo espculo 
no-esterilizado e ela seria a ltima em quem o usaria. Tracy 
sentiu a raiva fervendo dentro de si. O mdico poderia 
examin-las em separado, em vez de priv-las deliberadamente 
de sua dignidade. estavam deixando que ele escapasse impune 
com uma coisa assim. Se todas protestassem... Chegou a sua 
vez.
- Na mesa, Madame Doutora.
 Tracy ainda hesitou, mas no tinha opo. Subiu na mesa e 
fechou os olhos. Pde senti-lo a abrir suas pernas, depois o 
espculo frio a penetr-la, sondando, pressionando, 
machucando. Deliberadamente machucando. Ela rangeu os dentes.
 - Tem sifilis ou gonorreia? - indagou o mdico.
 - No.
 Ela no lhe falaria do filho. No quele monstro. Falaria a 
esse respeito com a directora. Sentiu o espculo sendo 
retirado bruscamente. O Dr. Glasco ps um par de luvas de 
borracha.
 - Muito bem - disse ele. - Entrem em fila e inclinem-se. 
Vamos examinar as suas lindas bundinhas.
 Antes que Tracy pudesse se conter, as palavras saram:
 - Por que est fazendo isso?
 O Dr. Glasco lanou-lhe um olhar irado.
 - Vou explicar porqu, Doutora. Porque os rabos so grandes 
esconderijos. Tenho uma coleco grande de marijuana e cocana 
que tirei de mulheres como voc. E agora trate de se inclinar.
Enquanto ele percorria a fila, enfiando os dedos num nus 
depois de outro, Tracy sentiu-se enjoada. Podia sentir a bilis 
quente subir pela garganta e comeou a ter nsias de vmitos.
 - Vomite aqui e esfregarei a sua cara na sujeira. - O mdico 
virou-se para as guardas. - Podem lev-las para os chuveiros. 
Elas fedem.
 Carregando as roupas, as presas nuas foram conduzidas por 
outro corredor, at uma sala grande de concreto, com uma dzia 
de boxes de chuveiro abertos.
 - Deixem as roupas no canto - ordenou uma das guardas. - E 
entrem nos chuveiros. Usem o sabo desinfectante. Lavem todas 
as partes do corpo, da cabea aos ps. E ensaboem bem os 
cabelos.

 Tracy passou do cho de cimento spero para o chuveiro. O 
jacto de gua era frio. Ela esfregou-se com toda a fora, 
pensando: Nunca mais voltarei a ser limpa. Que espcie de 
pessoas so estas? Como podem tratar outros seres humanos 
assim? No posso suportar 15 anos disso. Uma guarda 
gritou-lhe:
 - Ei, voc! O tempo j acabou. Saia logo.
 Tracy saiu do chuveiro e outra presa tomou o seu lugar. Tracy 
recebeu uma toalha fina e usada, enxugou mais ou menos o 
corpo.
 Depois que a ltima reclusa deixou o chuveiro, elas foram 
levadas a uma sala de suprimentos grande, onde havia 
prateleiras com roupas, aos cuidados de uma reclusa latina, 
que calculou o tamanho de cada uma e distribuiu os uniformes 
cinzas. Tracy e as outras receberam dois uniformes, duas 
calcinhas, dois soutiens, dois pares de sapatos, duas 
camisolas, um cinto sanitrio, uma escova de cabelos e um saco 
para a roupa suja. As guardas ficaram observando enquanto as 
prisioneiras se vestiam. Depois que terminaram, elas foram 
levadas a uma sala em que uma presa de confiana operava uma 
cmara fotogrfica grande, montada num trip.
 - Fiquem paradas ali naquela parede.
 Tracy foi para a parede.
 - Cara de frente.
 Ela olhou para a cmara. Clique.
- Vire a cabea para a direita. 
- Ela obedeceu. Clique.
 - Para a esquerda. - Clique. - V para a mesa.
 A mesa continha o equipamento para tirar impresses digitais. 
Os dedos de Tracy foram rolados por uma almofada com tinta, 
depois comprimidos contra um carto branco.
 - Mo esquerda. Mo direita. Limpe as mos com aquele pano. 
Voc est acabada.
Ela tem razo, pensou Tracy atordoada. Estou acabada. Sou um 
nmero. Sem nome, sem rosto. Uma guarda apontou para Tracy.
 - Whitney? O director quer falar com voc. Acompanhe-me.
 O corao de Tracy disparou, animado. Charles fizera alguma 
coisa, no final das contas! E claro que ele no a abandonara, 
assim como ela tambm nunca poderia abandon-lo. Fora o sbito 
choque que o levara a se comportar daquela maneira estranha. 
Ele j tivera tempo de pensar em tudo e compreender que a 
amava. Falara com o director e explicara o erro terrvel que 
fora cometido. Ela seria libertada.
 Tracy foi levada por um corredor diferente, passando por duas 
portas de barras grossas, vigiadas por guardas dos dois sexos. 
Ao ser admitida pela segunda porta, ela foi quase derrubada 
por uma presa. Era uma gigante, a maior mulher que Tracy j 
vira... chegando a 1,90 metros de altura, pesando em torno de 
130 quilos. Tinha um rosto achatado, bexiguento, os olhos de 
um amarelo-claro. Ela agarrou o brao de Tracy para firm-la, 
comprimiu seu prprio brao contra os seios de Tracy.
 - Ei! - disse a mulher  guarda - Temos franga nova. Por que 
no pe esta comigo?
 Ela tinha um forte sotaque sueco.
 - Sinto muito, Bertha, mas esta j foi designada.
 A amazona afagou o rosto de Tracy, que se afastou 
bruscamente. A gigante soltou uma risada.
- Est tudo bem, Littbam. Big Bertha a ver depois. Temos 
bastante tempo. Voc no vai sair daqui to cedo.

 Chegaram ao gabinete do director. Tracy estava trmula de 
expectativa. Charles estaria ali? Ou teria enviado seu 
advogado? A secretria do director acenou com a cabea para a 
guarda.
- Ele est esperando voc. Fique aqui.

O director George Brannigan estava sentado a uma escrivaninha 
escalavrada, estudando alguns documentos  sua frente. Era um 
homem de quarenta e poucos anos, magro, de aparncia ansiosa 
com um rosto sensvel, olhos fundos, castanhos-claros.
 Brannigan se achava no comando da Penitenciria Meridional da 
Louisiana Para Mulheres h cinco anos. Ali chegara com o 
preparo de um penologista moderno e o empenho de um idealista, 
determinado a efectuar profundas reformas na priso. Mas o 
sistema vigente o derrotara, como j o fizera com muitos 
outros antes.
 A priso fora originalmente construida para alojar duas 
prisioneiras em cada cela, mas agora havia quatro ou at mesmo 
seis. Ele sabia que a mesma situao se encontrava por toda a 
parte. As prises do pas sofriam de excesso de lotao e uma 
deficincia de funcionrios. Milhares de criminosos eram 
sentenciados dia e noite, nada tinham para fazer, alm de 
acalentar seu dio e tramar sua vingana. Era um sistema 
estpido e brutal, mas era tudo o que existia. Ele chamou a 
secretria.
 - Muito bem, pode mand-la entrar
A guarda abriu a porta para sua sala e Tracy entrou. O 
director Brannigan levantou os olhos para a mulher parada  
sua frente. Vestida no tosco uniforme da priso, rosto marcado 
pela fadiga, Tracy Whitney ainda parecia bonita. Tinha um 
rosto adorvel e franco, e Brannigan se perguntou por quanto 
tempo mais permaneceria assim. Ficou particularmente 
interessado naquela prisioneira porque lera a respeito de seu 
caso nos jornais e estudara a sua ficha. Ela era primria, no 
matara ningum e 15 anos era uma sentena excessivamente 
rigorosa. O fato de Joseph Romano ser o acusador fazia com que 
a sua condenao se tornasse ainda mais suspeita. Mas o 
director era simplesmente o guardio dos corpos. No podia 
investir contra o sistema. Ele era o sistema.
 - Sente-se, por favor.
 Tracy ficou contente pela oportunidade de se sentar. Sentia 
os joelhos fracos. Ele ia falar-lhe agora sobre Charles, 
inform-la que seria libertada em breve.
 - Estive verificando a sua ficha - comeou o director.
 Charles teria lhe pedido para fazer isso.
 - Vejo que passar uma longa temporada connosco. Sua sentena 
 de 15 anos.
 Tracy levou um momento para absorver as palavras. Alguma 
coisa estava terrvelmente errada.
 - No... fa-falou com... Char-Charles?
 Em seu nervosismo, ela estava gaguejando. O director fitou-a 
com uma expresso impassvel.
 - Charles?
 E Tracy compreendeu tudo. Teve a sensao de que o estmago 
se dissolvia em gua.
- Por favor... tem de me escutar, por favor. Sou inocente. No 
perteno a este lugar.
Quantas vezes ele j ouvira isso? Cem? Mil? Sou inocente. O 
director disse:

- O tribunal considerou-a culpada. O melhor conselho que posso 
dar  o de tentar fazer com que tudo lhe seja mais fcil aqui. 
A partir do momento em que aceitar os termos de sua priso, 
tudo se tornar mais fcil. No h relgios na priso, apenas 
calendrios. 
No posso ficar trancafiada aqui por 15 anos, pensou Tracy, 
desesperada. Quero morrer. Por favor, Deus, deixe-me morrer. 
Mas no posso morrer, no  mesmo? Eu mataria meu filho.  seu 
filho tambm, Charles. Por que no est aqui me ajudando? Foi 
nesse momento que ela comeou a odi-lo.
- Se tiver problemas especiais - disse Brannigan - se eu puder 
ajud-la de alguma forma, quero que venha me procurar.
 Mesmo enquanto falava, ele sabia como suas palavras eram 
inteis. Ela era jovem, bonita e viosa. As homossexuais da 
priso cairiam em cima dela como animais. Nem mesmo havia uma 
cela segura para a qual pudesse encaminh-la. Quase todas as 
celas eram controladas por uma homossexual. O director 
Brannigan ouvira rumores de estupros nos chuveiros, nos 
toaletes e nos corredores  noite. Mas eram apenas rumores, 
porque as vitimas sempre se mantinham em silncio depois. Ou 
morriam. Brannigan acrescentou, gentilmente:
- Com bom comportamento, voc pode ser libertada em doze ou...
 - No! 
 Era um brado de, profundo desespero. Tracy sentia as paredes 
da sala se comprimindo sobre ela. Estava de p, gritando. A 
guarda entrou correndo e agarrou-lhe os braos.
 - Calma, calma... - murmurou o director Brannigan.
 Ele ficou sentado ali. impotente, observando Tracy ser levada 
de sua sala.

Ela foi conduzida por uma srie de corredores, passando por 
celas cheias de detidas de todos os tipos . Havia pretas, 
brancas, mulatas e amarelas. Olhavam fixamente para Tracy, 
enquanto ela passava, gritando-lhe em uma dzia de sotaques. 
Os gritos no faziam o menor sentido para Tracy.
- Carta forte...
- Carro fino...
- Canto fresco...
- Carne fraca...
Foi somente quando chegou a seu bloco que Tracy compreendeu o 
que as mulheres estavam entoando:
 Carne fresca.

6

avia 60 mulheres no Bloco C, quatro em cada cela. Rostos 
espiavam de trs das barras, enquanto Tracy era conduzida pelo 
corredor comprido e malcheiroso. As expresses variavam da 
indiferena ao desejo e ao dio. Tracy tinha a sensao de que
andava por baixo d'gua, em alguma terra estranha e 
desconhecida, uma forasteira num sonho que se desenrolava 
lentamente. A chamada ao gabinete do director fora a sua 
ltima tnue esperana. Agora, nada mais restava. Nada alm da 
perspectiva atordoante de ficar encarcerada naquele purgatrio 
pelos prximos 15 anos. A guarda abriu a porta de uma cela.
 - Entre!
 Tracy piscou, olhou ao redor. Havia trs mulheres na cela, 
observando-a em silncio.
 - Vamos logo - insistiu a guarda. 
 Tracy hesitou por mais um instante, depois entrou na cela. 
Ouviu a porta bater nas suas costas.
 Estava em casa.
 Na cela apertada mal cabia os quatro catres, uma mesinha com 
um espelho quebrado por cima, quatro armrios pequenos, um 
vaso sem tampa no canto. As companheiras de cela fitavam-na 
fixamente. A mulher porto-riquenha rompeu o silncio:
- Parece que temos uma nova colega de cela.
Sua voz era profunda e gutural. Seria bonita se no fosse por 
uma cicatriz lvida de faca, que se estendia da tmpora  
garganta. Parecia no ter mais que 14 anos, at que se fitava 
seus olhos. Uma mexicana atarracada, de meia-idade, disse:
- Que surte verte! Prazer em v-la. Por que a mandaram para 
c, querida?
 Tracy estava paralisada demais para responder.
 A terceira mulher era preta. Tinha mais de 1,80 metros de 
altura, olhos estreitos e vigilantes, um rosto frio e duro, 
mais parecendo uma mscara. A cabea era rapada e o crnio 
tinha um brilho preto-azulado na dbil claridade.
 - Seu catre  ali no canto.
 Tracy aproximou-se do catre. O colcho era imundo, manchado 
com os excrementos que s Deus sabia de quantas ocupantes 
anteriores. Ela no foi capaz de toc-lo. E, 
involuntariamente, manifestou sua repulsa:
 - Eu... eu no posso dormir neste colcho...
 A gorda mexicana sorriu.
 - Nem precisa, meu bem. Hay tiempo. Pode dormir no meu.
 Tracy percebeu subitamente as tendncias ocultas na cela, 
atingindo-a como uma fora fsica. As trs mulheres 
observavam-na, atentamente, fazendo-a sentir-se nua. Carne 
fresca. Ela sentiu-se subitamente aterrorizada. Estou 
enganada, pensou Tracy. Oh, por favor, permita que eu esteja 
enganada. Ela recuperou a voz:
 - Quem... com quem eu posso falar para conseguir um colcho 
limpo?
 - Com Deus - grunhiu a preta, - Mas ele no tem aparecido por 
aqui ultimamente.
 Tracy virou-se para olhar novamente o colcho. Diversas 
baratas pretas e grandes rastejavam por cima. No posso ficar 
neste lugar, pensou Tracy. Acabarei louca. Como se lesse os 
seus pensamentos, a preta comentou nesse momento:
 - Siga com a correnteza, meu bem. 

O melhor conselho que posso dar  o de tentar fazer com que 
tudo lhe seja mais fcil aqui... A voz do director soava 
nitidamente nos ouvidos de Tracy. A preta continuou a falar: 
 - Sou Ernestine Littlechap. - Ela acenou com a cabea para a 
mulher da cicatriz. - Aquela  Lola.  de Porto Rico. E a 
gorda aqui  Paulita, do Mxico. Quem  voc?
- Eu... eu sou Tracy Whitney.
Ela quase dissera "Eu era Tracy Whitney" . Tinha a sensao de 
pesadelo de estar perdendo a identidade. Um espasmo de nusea 
percorreu-lhe o corpo e segurou-se na beira do catre para se 
firmar. 
- De onde voc vem, meu bem? - indagou a gorda.
- Desculpe, mas... mas no estou com vontade de conversar. 
Tracy sentia-se subitamente fraca demais para ficar de p. 
Arriou na beira do catre imundo, enxugou as gotas de suor frio 
no rosto com a saia. Meu filho, pensou ela. Eu deveria ter 
falado com o director que vou ter um filho. Ele me transferir 
para uma cela limpa. Talvez at me deixem ficar numa cela 
sozinha.
 Ela ouviu passos se aproximando pelo corredor. Uma guarda 
passava pela cela. Tracy adiantou-se rapidamente at  porta.
- Com licena, mas preciso falar com o director. Eu estou...
 - Mandarei cham-lo imediatamente - disse a guarda, virando a 
cabea para trs, enquanto continuava a seguir adiante.
- Voc no compreende. Eu estou...
 Mas a guarda j estava longe.
 Tracy comprimiu o punho contra a boca, com toda a fora, para 
no chorar.
 - Est doente ou algo parecido, meu bem? - perguntou a 
porto-riquenha.
 Tracy sacudiu a cabea, incapaz de falar. Voltou para o 
catre, contemplou-o por um momento, depois se deitou, 
lentamente. Era um acto de desesperana, um acto de rendio. 
Ela fechou os olhos.

O dcimo aniversrio fora o mais emocionante de sua vida. 
Vamos jantar no Antoine's, anunciou o pai.
 Antoine's! Era um nome que evocava outro mundo, um mundo de 
beleza, encanto e riqueza. Tracy sabia que o pai no tinha 
muito dinheiro: Poderemos sair em frias no prximo ano, era 
um refro constante na casa. E agora eles iam jantar no 
Antoine's! A me de Tracy vestiu-a com o casaco verde novo.
  maravilhoso olhar para vocs duas, o pai se gabou. Estou 
com as duas mais lindas mulheres de Nova Orleans. Todos 
ficaro com inveja de mim.
 O Antoine's era tudo o que Tracy sonhara que seria e ainda 
mais. Muito mais. Era um palcio encantado, elegante e 
decorado com bom gosto, a toalha de mesa branca, pratos com 
monograma, em prateado e dourado.  um autntico palcio, 
pensou Tracy. Aposto que reis e rainhas vm aqui. Ela estava 
excitada demais para comer, muito absorvida a contemplar todos 
os homens e mulheres to bem vestidos. Quando eu crescer, 
Tracy prometeu o mesmo: virei ao Antoine's todas as noites e 
trarei papai e mame comigo.
Voc no est comendo, Tracy, disse a me.

 E, para agrad-la, Tracy forou-se a comer um pouco. Havia um 
bolo para ela, com dez velas, os garons cantaram os Parabns 
Pra Voc, os outros fregueses se viraram e aplaudiram, Tracy 
sentiu-se como uma princesa. Podia ouvir l fora o barulho de 
um bonde passando.

A campainha do bonde era alta e insistente.
- Hora do jantar - anunciou Ernestine Littlechap.
Tracy abriu os olhos. Portas de celas se abriam 
estrepitosamente por todo o bloco. Tracy permaneceu deitada no 
catre, tentando desesperadamente se apegar ao passado.
 - Ei, hora do grude! - gritou a jovem porto-riquenha.
A simples idia de comida deixava-a enjoada.
- No estou com fome.
 Paulita, a gorda mexicana, falou:
- Es Ilano.  simples. No querem saber se voc est ou no 
com fome. Todo mundo tem de ir para o refeitrio.
As presas estavam entrando em fila no corredor l fora. 
-  melhor voc ir ou cairo em cima - advertiu Ernestine,
 No posso me mexer, pensou Tracy. Ficarei aqui.
 As companheiras de cela saram e entraram na fila dupla. Uma 
guarda baixa e atarracada, de cabelos oxigenados, viu Tracy 
deitada no catre e gritou:
 - Voc! No ouviu a campainha? Saia logo da!
 Tracy respondeu:
- Obrigada, mas no estou com fome. Gostaria que me 
dispensasse.
 Os olhos da guarda se arregalaram em incredulidade. Ela 
entrou furiosa na cela e se aproximou do catre de Tracy.
 - Que merda voc pensa que ? Est esperando pelo servio de 
quarto? Entre logo na porra da fila. Eu poderia inclui-la no 
relatrio por causa disso. Se acontecer novamente, voc vai se 
dar mal. Entendido?
 Tracy no entendia. No era capaz de entender coisa alguma do 
que estava lhe acontecendo . Ela deixou o catre quase se 
arrastando e foi para a fila. Ficou parada ao lado da preta.
- Por que eu...
- Cale a boca! - Ernestine Littlechap resmungou pelo canto da 
boca. - No fale na fila.
 As mulheres foram levadas por um corredor estreito e sem 
qualquer ventilao, passando por duas portas gradeadas e 
entrando num enorme refeitrio, cheio de mesas grandes de 
madeira e muitas cadeiras. Havia um balco de servio 
comprido, com compartimentos fumegantes, pelo qual as presas 
passavam para pegar a comida. O cardpio do dia consistia de 
um ensopado de atum aguado, vagens murchas, um creme plido e 
a opo entre um caf fraco ou um suco de fruta artificial. 
Conchas da comida de aspecto repulsivo eram despejadas nos 
pratos de metal das presas, enquanto elas avanavam pela fila. 
As reclusas que serviam por trs do balco gritavam 
incessantemente:
 - Todas andando na fila... A prxima... Mantenham a fila em 
movimento... A prxima...

Depois que foi servida, Tracy ficou parada por um momento, 
indecisa, sem saber para onde ir. Ela olhou ao redor,  
procura de Ernestine Littlechap, mas a preta desaparecera. 
Tracy encaminhou-se para o lugar em que estava sentada 
Paulita, a gorda mexicana. Havia 20 mulheres  mesa, devorando 
vorazmente a comida. Tracy olhou o que havia em seu prato, 
depois empurrou-o para o lado, enquanto a blis subia e 
aflorava em sua garganta. Paulita se inclinou e pegou o prato 
de Tracy.
- Se no vai comer, ento eu fico com isto.
 Lola disse:
 - Ei,  melhor voc comer ou no durar muito aqui.
Eu no quero durar, pensou Tracy, desesperada. Quero morrer. 
Como essas mulheres suportam viver assim? H quanto tempo 
estaro aqui? Meses? Anos? Ela pensou na cela ftida, no 
colcho imundo, sentiu vontade de gritar. Comprimiu as 
mandbulas com tanta fora que nenhum som podia escapar. A 
mexicana estava dizendo:
 - Se a pegarem sem comer, vo mand-la para a geladeira. - 
Ela viu a expresso de perplexidade no rosto de Tracy e 
explicou: -
O buraco ... a solitria. Voc no gostaria.
 Lola fez uma pausa, inclinando-se para a frente, antes de 
acrescentar:
 -  a sua primeira vez aqui, hem? Pois vou lhe dar um aviso, 
querida. Ernestine Littlechap, manda neste lugar. Seja 
boazinha com ela e estar feita.
Trinta minutos depois que as mulheres entraram no refeitrio, 
soou uma campainha alta e todas se levantaram. Paulita 
arrebatou uma vagem solitria de um prato a seu lado. Tracy 
juntou-se a ela na fila dupla e as mulheres comearam a 
marchar de volta s celas. O jantar terminara. Eram quatro 
horas da tarde... cinco longas horas suportar antes que as 
luzes se apagassem. 
 Quando Tracy voltou  cela, Ernestine Littlechap j estava 
l. Tracy se perguntou, sem qualquer curiosidade, onde ela 
estivera durante o jantar. Ela olhou para o vaso no canto. 
Precisava desesperadamente us-lo, mas no podia faz-lo na 
frente das outras. Esperaria at que as luzes se apagassem. 
Sentou na beira do catre.
 Ernestine Littlechap disse:
- Soube que voc no comeu nada do seu jantar. Isso  uma 
estupidez.
 Como ela poderia ter descoberto? E por que se Importaria?
 - Como posso falar com o director?
 - Apresente um pedido por escrito. As guardas usam para 
limpar a bunda. Acham que qualquer mulher que quer falar com o 
director  uma encrenqueira. - Ernestine aproximou-se de 
Tracy. - H uma poro de coisas que podem criar problemas 
para voc aqui. O que precisa  de uma amiga que possa manter 
voc fora de encrencas.
 Ela sorriu, mostrando um dente, da frente de ouro, antes de 
acrescentar, suavemente:
 - Algum que conhea os caminhos do jardim zoolgico.
 Tracy levantou os olhos para o rosto sorridente da preta. 
Parecia estar flutuando em algum lugar perto do teto.
 Era a coisa mais alta que ela j vira. 
Isto  uma girafa, disse o pai. 
Estavam no jardim zoolgico, no Audubon Park. Tracy adorava o 
parque. Sempre iam l aos domingos, a fim de escutar os 
concertos da banda. Depois, a me e o pai levavam-na ao 
aqurio ou ao zoolgico, Circulavam devagar, contemplando os 
animais em suas jaulas.
Eles no detestam ficar trancados, papai?
O pai riu. No, Tracy. Eles tm uma vida maravilhosa. So bem 
cuidados e alimentados, seus inimigos no podem peg-los.

 Os bichos pareciam infelizes a Tracy. Ela sentiu vontade de 
abrir as jaulas e deix-los escapar. Jamais vou querer ficar 
trancafiada assim, pensou.
A campainha de aviso soou por toda a priso s 8 e 45 da 
noite. As companheiras de cela de Tracy comearam a se despir. 
Tracy no se mexeu. Lola disse:
- Voc tem quinze minutos para se aprontar para dormir.
As mulheres puseram as camisolas. A guarda loura oxigenada 
passou pela cela. Parou ao ver Tracy estendida no catre.
 - Dispa-se. - Ela olhou para Ernestine e perguntou: - No 
disse a ela?
 - Claro. J falamos com ela. 
 A guarda tornou a se virar para Tracy, advertindo:
 - Temos um jeito todo especial de lidar com as encrenqueiras. 
Faa o que lhe for mandado ou vai se dar mal.
 A guarda afastou-se pelo corredor. Paulita avisou.
 -  melhor fazer o que ela diz, meu bem. A velha Calcinha de 
Ferro  uma sacana muito escruta.
 Lentamente, Tracy levantou-se e comeou a tirar as roupas, 
mantendo-se de costas para as outras. Tirou todas as roupas  
excepo das calcinhas e vestiu a camisola spera pela cabea. 
Sentia os olhos das outras a observarem-na.
- Voc tem um corpo muito bonito - comentou Paulita. 
- Isso mesmo, muito bonito - murmurou Lola.
 Tracy sentiu um calafrio percorrer-lhe. Ernestine 
aproximou-se.
 - Somos suas amigas. Cuidaremos direitinho de voc.
 Sua voz estava rouca de excitamento. Tracy virou-se 
bruscamente.
 - Deixem-me em paz! Todas vocs. Eu... eu no sou desse tipo.
 A preta soltou uma risada.
 - Voc ser qualquer coisa que a gente quiser, meu bem.
 - Hay tiempo. H bastante tempo.
 As luzes se apagaram.

A escurido era inimiga de Tracy. Ela sentou na beira do 
catre, o corpo tenso. Podia sentir as outras esperando para 
agarr-la. Ou era sua imaginao? Estava to nervosa que tudo 
lhe parecia uma ameaa: Elas haviam-na ameaado? No 
realmente. Provavelmente tentavam apenas ser amistosas e ela 
interpretara implicaes sinistras em tudo o que diziam. 
Ouvira falar de actividade homossexual nas prises, mas isso 
tinha de ser a excepo e no a regra. Uma priso no 
permitiria esse tipo de comportamento.
 Mesmo assim, persistia uma dvida inquietante. Ela decidiu 
que passaria a noite inteira acordada. Se uma delas fizesse 
qualquer movimento, ela gritaria por socorro. Era 
responsabilidade das guardas providenciar para que nada 
acontecesse s reclusas. Tracy
garantiu a si mesma que no havia motivo para se preocupar. 
Precisaria apenas se manter alerta.

 Tracy continuou sentada na beira do catre, no escuro, atenta 
a cada som. Uma a uma, ouviu as trs mulheres irem ao vaso, 
us-lo, voltar a seus catres. Quando no conseguia mais 
aguentar, Tracy tambm foi ao vaso. Tentou a descarga, mas no 
funcionava. O fedor era quase insuportvel. Ela voltou 
apressadamente ao catre e tornou a sentar-se na beira. Estar 
clareando em breve, pensou ela. E pela manh pedirei para 
falar com o director. Contarei a ele que espero um filho. Ele 
me transferir para outra cela.
 O corpo de Tracy estava tenso, cheio de cibras. Estendeu-se 
no catre e segundos depois sentiu uma coisa rastejar por seu 
pescoo. Sufocou um grito. Tenho de ficar acordada at de 
manh. Depressa ser manh, pensou Tracy. Um minuto de cada 
vez.
 s trs horas da madrugada ela no pde mais manter os olhos 
abertos. E mergulhou no sono.

Foi despertada com uma mo a lhe tapar a boca e outras duas 
lhe apertando os seios. Tentou sentar e gritar, sentiu que lhe 
arrancavam a camisola e a calcinha. Mos se insinuaram entre 
suas coxas abrindo-lhe as pernas. Tracy lutou selvagemente, 
fazendo o maior esforo para se levantar.
 - Fique calma e no sair machucada -sussurrou uma voz na 
escurido.
 Tracy golpeou com os ps na direco da voz. Acertou em carne 
slida.
 - Carajo! - balbuciou a voz. - Vamos dar uma lio na sacana. 
Ponham ela no cho.
 Um punho duro acertou o rosto de Tracy, outro atingiu-a na 
barriga. Algum estava por cima dela, imobilizando-a, 
sufocando-a, enquanto mos obscenas a violavam.
 Tracy desenvencilhou-se por um instante, mas uma das mulheres 
tornou a agarr-la, bateu com a sua cabea contra as grades. 
Ela sentiu o sangue esguichar de seu nariz. Foi derrubada 
outra vez no cho de concreto, imobilizaram suas mos e 
pernas. Tracy lutou como uma louca, mas no era uma adversria 
para as trs. Sentiu mos frias e lnguas quentes acariciando 
seu corpo. Suas pernas estavam abertas e um objecto duro e 
frio foi empurrado para dentro dela. Debateu-se impotente, 
tentando com desespero gritar. Um brao passou diante de sua 
boca e Tracy cravou-lhe os dentes, mordendo com toda a sua 
fora. Houve um grito abafado:
 - Sua puta!
 Punhos lhe socaram o rosto... Ela mergulhou no pavor, cada 
vez mais fundo, at que finalmente no sentia mais nada.

Foi o clangor metlico da campainha que a despertou. Estava 
deitada no cho frio de cimento da cela, nua. As trs 
companheiras de cela se achavam em seus catres. No corredor, 
Calcinha de Ferro gritava:
- Hora de levantar!
 Ao passar pela cela, a guarda viu Tracy estendida no cho, no 
meio de uma pequena poa de sangue, o rosto todo machucado, um 
olho fechado, de to inchado.
 - Que diabo est acontecendo por aqui?
 Ela destrancou a porta e entrou na cela. Ernestine Littlechap 
sugeriu:
 - Ela deve ter cado de seu catre.
 A guarda aproximou-se de Tracy e cutucou-a com o p.
 - Levante-se!
 Tracy ouviu a voz de uma longa distncia. Isso mesmo, pensou 
ela, tenho de me levantar. Tenho de sair daqui. Mas ela foi 
incapaz de se mexer. O corpo vibrava de dor.
 A guarda agarrou os cotovelos de Tracy e puxou-a para uma 
posio sentada. Tracy quase desmaiou da agonia.

 - O que aconteceu?
 Atravs de um olho, Tracy divisou os contornos meio 
indefinidos de suas companheiras de cela, esperando 
silenciosamente por sua resposta.
 - Eu... eu... - Tracy tentou falar, mas as palavras no 
saam. Ela tentou de novo e algum instinto atvico, 
profundamente arraigado, levou-a a balbuciar: - Ca do meu 
catre...
 A guarda disse rispidamente:
 - Detesto as espertinhas. Vamos met-la na geladeira at voc 
aprender algum respeito.

Era uma forma de esquecimento, um retorno ao tero. Ela estava 
sozinha no escuro. No havia mveis na sala de poro apertada, 
apenas um colcho fino e velho, sobre o cho frio de cimento. 
Um buraco ftido no cho servia como vaso. Tracy ficou deitada 
no escuro, cantarolando para si mesma cantigas folclricas que 
o pai lhe ensinara h muitos e muitos anos. No tinha noo de 
quo perto se encontrava da beira da insanidade.
 No sabia direito onde se achava, mas isso no tinha 
importncia. Somente o sofrimento de seu corpo viciado 
importava. Devo ter cado e me machucado, mas mame cuidar 
disso. Ela gritou em voz trmula.
 - Mame...
 Como no houvesse resposta, tornou a resvalar para o sono. 
Dormiu por 48 horas e a agonia finalmente desvaneceu para a 
dor, a dor foi diminuindo. Tracy abriu os olhos. Estava 
cercada pelo nada. Era to escuro que no podia sequer divisar 
os contornos da cela. Recordaes afloraram. Haviam-na levado 
ao mdico. Podia ouvir a voz dele:
- ... uma costela quebrada e um pulso fracturado. Faremos uma 
atadura... Os cortes e equimoses esto bem ruins, mas vo 
sarar. Ela perdeu o filho...
 Tracy balbuciou:
- Oh, meu filho... assassinaram meu filho...
 E ela chorou. Chorou pela perda do filho. Chorou por si 
mesma. Chorou por todo o mundo doente.
 Tracy continuou deitada no colcho fino, na escurido fria. 
Foi dominada por um dio to intenso que literalmente 
sacudiu-lhe o corpo. Os pensamentos ardiam e flamejavam, at 
que a mente se esvaziou de toda a emoo, a no ser uma nica: 
vingana. No era uma vingana dirigida contra as suas 
companheiras de cela. As trs eram to vitimas quanto ela. 
Nada disso. Ela queria vingana contra os homens que haviam 
destrudo a sua vida.
 Joe Romano: "Sua velha me enganou. No disse que tinha uma 
filha to gostosa."
Anthony Orsatti: "Joe Romano trabalha para um homem chamado 
Anthony Orsatti, Orsatti manda em Nova Orleans."
 Perry Pope: "Declarando-se culpada, voc poupa ao Estado a 
despesa de um julgamento..."
 Juiz Henry Lawrence: "Pelos prximos quinze anos voc estar 
encarcerada na Penitenciria Meridional da Louisiana Para 
Mulheres."
 Esses eram os seus inimigos. E havia ainda Charles, que no a 
escutara: "Se precisava de dinheiro to desesperadamente 
deveria ter falado comigo... Obviamente, eu nunca a conheci de 
verdade... Ter de fazer o que julgar melhor com seu filho..."

Ela faria com que todos pagassem. At o ltimo. No tinha 
idia como. Mas sabia que o faria. Amanh, pensou ela. Se 
houver amanh.

7

O tempo perdeu todo o significado. Nunca havia luz na cela e 
assim no havia qualquer diferena entre dia e noite. Ela no 
tinha a menor idia do tempo a que estava no confinamento 
solitrio. De vez em quando lhe empurravam refeies frias por 
uma abertura na base da porta. Tracy no sentia apetite, mas 
forava-se a comer cada poro. Tem de comer ou no vai durar 
muito aqui. Ela compreendia isso agora; sabia que precisaria 
de todas as suas energias para o que planejava fazer. 
Encontrava-se numa situao que qualquer outra pessoa 
consideraria desesperadora: condenada a 15 anos de priso, sem 
dinheiro, sem amigos, sem recursos de qualquer tipo. Mas havia 
uma fonte profunda de fora dentro dela. Eu sobreviverei, 
pensou Tracy. Enfrento meus inimigos nua e minha coragem  meu 
escudo. Sobreviveria como seus ancestrais haviam sobrevivido. 
Nela se misturava o sangue do ingls, irlands e escocs, 
herdara o melhor de suas qualidades, a inteligncia, a coragem 
e a determinao. Meus ancestrais sobreviveram  fome, pragas 
e inundaes. Eu sobreviverei, a isto. Estavam com ela agora 
naquela cela do inferno, os pastores e caadores, os 
camponeses e mercadores, os mdicos e professores. Os 
fantasmas do passado e todos eram uma parte dela. No os 
desapontarei, sussurrou Tracy para a escurido.
 Ela comeou a planejar sua fuga.

Tracy sabia que a primeira coisa que precisava fazer era 
recuperar a fora fsica. A cela era apertada demais para 
exerccios amplos, mas suficientemente grande para o t'ai chi 
ch'uan, a arte marcial milenar que era ensinada aos guerreiros 
que se preparavam para o combate. Os exerccios exigiam pouco 
espao e accionavam todos os msculos do corpo. Tracy 
levantou-se e executou os movimentos iniciais. Cada movimento 
possua um nome e um significado. Ela comeou pelo agressivo 
Socando os Demnios, passou para o Acumulando Luz, mais suave. 
Os movimentos eram fluidos e graciosos, executados bem 
devagar. Cada gesto provinha do tan tien, o centro psquico; 
todos os movimentos eram circulares. Tracy podia ouvir a voz 
de seu mestre: Desperte a sua chi, a sua energia vital. Comea 
pesada como uma montanha e se torna leve como a pena de um 
pssaro. Tracy podia sentir a chi fluindo por seus dedos. 
Concentrou-se at que todo o seu ser se focalizava em seu 
corpo se movimentando atravs de padres eternos.
Agarre a cauda da ave, torne-se a cegonha branca, repila o 
macaco, enfrente o tigre, deixe as mos se tornarem nuvens e 
circule a gua da vida. Deixe a serpente branca rastejar e 
monte no tigre. Abata o tigre, reuna a sua chi e volte ao tan 
tien, o centro.
O ciclo completo levou uma hora; quando acabou, Tracy estava 
exausta. Efectuava o ritual pela manh e  tarde, at que o 
corpo comeou a reagir, foi se tornando forte.

 Quando no estava exercitando o corpo, Tracy exercitava a 
mente. Deitada no escuro, Efectuava complexas equaes 
matemticas, operava mentalmente o computador do banco, 
recitava poesia, recordava as falas de peas em que 
participara na escola. Era um perfeccionista. Quando obtinha 
um papel numa pea em que exigia usar sotaques diferentes, 
estudava esses sotaques por semanas, antes que a pea fosse 
apresentada. Um caador de talentos a abordara certa vez, 
oferecendo-lhe um teste para o cinema em Hollywood.
 - No, obrigada - respondera Tracy. - No quero a fama.  uma 
coisa que no me serve.
 A voz de Charles: Voc  a manchete no Dady News desta manh.
 Tracy afastou a recordao. Havia portas em sua mente que 
tinham de permanecer fechadas por enquanto.
Ela lanou-se ao jogo do ensino: Indique trs coisas 
absolutamente impossveis de ensinar.
 Ensinar a uma formiga a diferena entre catlicos e 
protestantes.
Fazer uma abelha compreender que  a terra que viaja em torno 
do sol.
 Explicar a um gato a diferena entre comunismo e democracia.
 Mas ela se concentrava principalmente na maneira como 
destruiria seus inimigos, um de cada vez. Lembrou-se de um 
jogo que fazia quando era pequena. Levantando uma das mos 
para o cu, era possvel bloquear o sol, apag-lo por 
completo. Era o que haviam feito com ela. Levantaram a mo e 
apagaram a sua vida.

Tracy no tinha idia de quantas prisioneiras haviam sido 
quebradas pelo confinamento, na solitria e isso tambm no 
faria diferena para ela. No stimo dia, quando a porta da 
cela foi aberta, Tracy ficou ofuscada pela sbita luz que 
inundou a cela. Um guarda estava parado do lado de fora.
 - Levante-se. Voc vai subir agora.
 Ele se inclinou para ajudar Tracy. Contudo, para sua 
surpresa, ela se levantou facilmente e saiu da cela sem 
qualquer ajuda. As outras prisioneiras que tirara da solitria 
saam abaladas ou com uma atitude de desafio, mas aquela no 
exibia qualquer das duas reaces. Havia nela uma aura de 
dignidade, uma confiana que no condizia com aquele lugar. 
Tracy parou na claridade, deixando que os olhos gradativamente 
se acostumassem.  uma mulher e tanto, pensou o guarda . Com 
uma boa limpeza, d para se lev-la a qualquer lugar. E aposto 
que ela faria qualquer coisa por uns poucos de favores. Em voz 
alta, ele disse:
 - Uma garota bonita como voc no deveria passar por esse 
tipo de coisa. Se ns fssemos, amigos, eu cuidaria para que, 
isso nunca mais acontecesse.
Tracy virou-se para fit-lo; quando o guarda viu a expresso 
em seus olhos, decidiu prontamente no insistir. 
 Ele acompanhou Tracy at l em cima e entregou-a a uma 
inspectora, que farejou por um instante e murmurou:
 - Deus do cu, como voc fede! V tomar uma chuveirada. E 
queimaremos estas roupas.
 A gua fria estava maravilhosa. Tracy ensaboou os cabelos, 
esfregou-se vigorosamente da cabea aos ps com o sabo 
spero. Enxugou-se e vestiu-se. A inspectora estava  sua 
espera:
- O director quer falar com voc.
 Na ltima vez em que ouvira essas palavras, Tracy pensara que 
significassem a liberdade. Nunca mais seria to ingnua.
O director Brannigan estava de p junto a uma janela quando 
Tracy entrou em sua sala. Ele virou-se e disse:

- Sente-se, por favor. - Tracy ocupou uma cadeira. - Estive em 
Washington numa conferncia. Voltei esta manh e encontrei um 
relatrio sobre o que aconteceu. Voc no deveria ter sido 
confinada na solitria.
 Ela o observava atentamente, o rosto impassvel no traindo 
coisa alguma. O director olhou para um papel em sua mesa.
- Segundo este relatrio, voc foi agredida por companheiras 
de cela.
- No, senhor.
 Brannigan acenou com a cabea, uma expresso de compreenso.
- Entendo o seu medo, mas no posso permitir que as reclusas 
comandem esta priso. Quero punir quem fez isso com voc, mas 
preciso do seu testemunho. Providenciarei para que seja 
devidamente protegida. Quero agora que me conte o que 
aconteceu exactamente e quem foram as responsveis.
Tracy fitou-o nos olhos.
- Fui eu. Cai do catre.
 O director estudou-a por um longo tempo e ela percebeu o 
desapontamento em seu rosto.
 - Tem certeza?
 - Tenho, sim, senhor.
 - No vai mudar de idia?
 - No, senhor.
Brannigan suspirou.
- Est bem. Se  essa a sua deciso, mandarei transferi-la 
para outra cela...
- No quero ser transferida.
 Ele ficou surpreso.
 - Est querendo dizer que pretende voltar  mesma cela?
 - Isso mesmo, senhor.
 O director ficou perplexo. Talvez houvesse se enganado em 
relao a ela; talvez ela tivesse atrado o que lhe 
acontecera. S Deus sabia o que aquelas malditas presas 
estavam pensando ou fazendo. Ele gostaria de ser transferido 
para alguma penitenciria de homens, boa e s. Mas a esposa e 
Amy, a filha pequena, gostavam dali. Residiam num chal 
encantador, havia um terreno aprazvel em torno da priso. 
Para elas, era como viver no campo; mas ele, no entanto, tinha 
de lidar com aquelas mulheres doidas 24 horas por dia. O 
director olhou a mulher  sua frente e murmurou, contrafeito:
- Muito bem. Mas trate de se manter longe de encrencas no 
futuro.
- Est certo, senhor.

Voltar  cela foi a coisa mais difcil que Tracy j fizera. 
Foi dominada pelo horror do que acontecera ali no momento em 
que entrou. As companheiras de cela estavam ausentes, no 
trabalho. Tracy deitou no catre e ficou olhando para o teto, 
planeando. Finalmente se inclinou para baixo do catre e 
arrancou um pedao de metal solto no lado. Escondeu-o por 
debaixo do colcho. Quando soou a campainha do almoo, s 11 
horas, Tracy foi a primeira  entrada na fila do corredor.
No refeitrio, Paulita e Lola sentaram-se a uma mesa perto da 
entrada. No havia qualquer sinal de Ernestine Littlechap.
Tracy escolheu uma mesa ocupada por estranhas, sentou e comeu 
toda a refeio inspida. Passou o incio da tarde sozinha na 
cela. As trs companheiras de cela 2:45. Paulita sorriu de 
surpresa quando viu Tracy.
- Ento voltou para ns, coisinha bonita. Gostou do que lhe 
fizemos, hem?

- Isso  ptimo - disse Lola. - Temos mais para voc,
 Tracy no deu qualquer indicao de que ouvira as zombarias. 
Estava se concentrando na preta. Ernestine Littlechap era o 
motivo para Tracy voltar quela cela. Tracy no confiava 
absolutamente em Ernestine. Mas precisava dela.
- Vou lhe dar um aviso, querida. Ernestine Littlechap manda 
naquele lugar...
 Naquela noite, quando a campainha assinalou o prazo de 15 
minutos antes das luzes apagarem, Tracy levantou-se do catre o 
comeou a despir-se. No houve agora falso recato. Tirou todas 
as roupas. A mexicana deixou escapar um assobio longo e baixo 
ao contemplar os seios cheios e firmes de Tracy, as pernas 
compridas e bem torneadas, as coxas rolias. Lola respirava 
fundo. Tracy ps uma camisola e deitou-se de costas no catre. 
As luzes se apagaram. A cela mergulhou na escurido.
 Trinta minutos se passaram. Tracy permaneceu imvel, 
escutando a respirao das outras. Do outro lado da cela, 
Paulita sussurrou:
- Mame vai lhe dar um amor de verdade esta noite, meu bem. 
Tire a camisola
- Vamos ensinar voc a chupar uma cona e ter de fazer at 
aprender direito - murmurou Lola, soltando uma risadinha.
 Ainda no havia qualquer palavra da preta. Tracy sentiu o 
movimento quando Lola e Paulita se aproximaram. Mas estava 
pronta para elas. Levantou o pedao de metal que escondera e 
golpeou com toda a fora, atingindo uma das mulheres no rosto. 
Houve um grito de dor. Tracy desferiu um chute no outro vulto, 
que caiu no cho.
 - Cheguem perto de mim outra vez e eu as matarei - disse 
Tracy.
 - Sua puta!
 Tracy ouviu-as avanarem de novo em sua direco e levantou o 
pedao de metal. A voz de Ernestine soou abruptamente na 
escurido:
- J chega, Deixem a garota em paz.
- Estou sangrando, Ernie. Vou dar um jeito nela...
- Pare de merda e faa o que estou mandando.
 Houve um longo silncio. Tracy ouviu as duas mulheres 
voltaram a seus catres, a respirao ofegante. Ela continuou 
deitada, tensa, pronta para o prximo movimento delas. 
Ernestine Littlechap disse: 
- Voc tom coragem, menina.
Tracy ficou em silncio.
- No contou nada ao director. - Ernestine riu baixinho na 
escurido. - Se tivesse falado, seria carne morta.
Tracy acreditava nela.
- Por que no deixou que o director a transferisse para outra 
cela.
 Ento ela sabia at disso.
- Eu queria voltar para c.
-  mesmo? Por qu?
Havia um tom de perplexidade na voz de Ernestine Littlechap. 
Aquele era o momento que Tracy estava esperando.
- Porque voc vai me ajudar a fugir daqui.

8

Uma inspectora aproximou-se de Tracy e anunciou:
- Um visitante, Whitney.
Tracy fitou-a com uma expresso de surpresa.
- Um visitante?
Quem poderia ser? E subitamente ela compreendeu. Charles. Ele 
viera procur-la, no final das contas. Mas chegara atrasado 
demais. No estava ali quando precisava dele desesperadamente. 
Pois nunca mais precisarei dele. Nem de qualquer outra pessoa.
 Tracy acompanhou a inspectora pelo corredor at a sala das 
visitas.
 Tracy entrou.
 Um homem totalmente estranho estava sentado a uma pequena 
mesa de madeira. Era um dos homens mais desprovidos de 
atractivos que Tracy j conhecera. Era baixo, o corpo inchado, 
andrgino, um nariz saliente, a boca pequena, com uma 
expresso amargurada. Tinha a testa alta e projectada para a 
frente, olhos castanhos profundos, ampliados pelas lentes 
grossas dos culos. Ele no se levantou.
 - Meu nome  Daniel Cooper, O director me concedeu permisso 
para falar com voc.
- Sobre o qu? - indagou Tracy, desconfiada.
- Sou um investigador da AIPS... Associao Internacional de 
Proteco do Seguro, Um de meus clientes segurou o Renoir que 
voc roubou do Sr. Joseph Romano.
Tracy respirou fundo.
- No posso ajud-lo, pois no roubei o quadro,.
Ela encaminhou-se para a porta, mas parou ao ouvir as palavras 
seguintes de Cooper:
- Sei disso.
Tracy tornou a virar-se e fitou-o, todos os sentidos alerta, 
cautelosa.
- Ningum roubou o quadro. Foi vtima de uma armadilha, 
Senhorita Whitney.
 Lentamente, Tracy se arriou numa cadeira.

O envolvimento de Daniel Cooper com o caso comeou trs 
semanas antes, quando fora chamado  sala de seu superior, J. 
J. Reynolds, na sede da AIPS, em Manhattan.
 - Tenho um trabalho para voc, Dan.
 Daniel Cooper etestava ser chamado de Dan.
- Serei breve.

 Reynolds tencionava ser o mais breve possvel porque Cooper o 
pusera nervoso. Na verdade, Cooper o deixava nervoso. Na 
verdade, Cooper deixava a todos nervosos na organizao. Era 
um homem estranho - esquisito, como muitos o descreviam. 
Daniel Cooper se mantinha totalmente isolado. Ningum sabia 
onde ele morara, se era casado ou tinha filhos. No 
confraternizava com ningum, jamais comparecia s festas do 
escritrio ou mesmo s reunies. Era um solitrio. Reynolds s 
o tolerava porque o homem era um verdadeiro gnio. Era, 
excepcionalmente, tendo um computador como crebro. Daniel 
Cooper era responsvel sozinho por recuperar mais mercadorias 
roubadas e denunciar mais fraudes de seguros do que todos os 
outros investigadores da organizao reunidos. Mas Reynolds 
bem que gostaria de saber quem era Cooper afinal. Sentia-se 
inquieto s de ter o homem sentado  sua frente, com aqueles 
olhos castanhos profundos a fit-lo. Reynolds disse:
 - Um dos nossos clientes segurou um quadro por meio milho de 
dlares e...
 - O Renoir Nova Orleans, Joe Romano, Uma mulher chamada Tracy 
Whitney foi condenada a quinze anos. O quadro no foi 
recuperado.
Filho da puta!, - pensou Reynolds. Se fosse qualquer outro, eu 
pensaria que estava se exibindo.
- Isso mesmo - confirmou Reynolds, relutantemente. - A mulher 
Whitney escondeu o quadro em algum lugar e o queremos de 
volta. Cuide do caso.
Cooper deixou a sala sem dizer mais nada. Observando-o se 
retirar, J. J. pensou, no pela primeira vez: Algum dia 
descobrirei o que faz esse desgraado se mexer.
Cooper passou pelo escritrio, onde 50 funcionrios 
trabalhavam lado a lado, programando computadores, 
dactilografando relatrios, atendendo a telefonemas. Era um 
tumulto total. Quando Cooper passou por uma mesa, um colega 
comentou:
- Soube que pegou o caso de Romano. Sorte sua. Nova Orleans 
...
 Cooper seguiu adiante sem responder. Por que no podiam 
deix-lo em paz, era tudo o que pedia aos outros, mas estavam 
sempre atormentando-o com suas aberturas intrometidas.
 Tornara-se um jogo no escritrio. Todos estavam determinados 
a romper sua misteriosa reserva e descobrir quem ele era 
realmente
 - O que vai fazer na noite de sexta-feira, Dan...?
 - Se no  casado, Sarah e eu conhecemos uma garota 
sensacional, Dan...
 Ser que no podiam compreender que no precisava de nenhum 
deles... e no queria nenhum deles?
- Vamos tomar um drinque, Dan...
Mas Daniel Cooper sabia ao que isso podia levar. Um drinque 
inocente podia levar a um jantar, um jantar podia iniciar 
amizades, amizades podia levar a confidncias. Era perigoso 
demais.
Daniel Cooper vivia no terror mortal de que um dia algum 
pudesse descobrir o seu passado. Deixem que os mortos enterrem 
seus mortos, era uma mentira. Os mortos nunca permaneciam 
enterrados. A cada dois ou trs anos, uma das publicaes 
sensacionalistas desencabava o velho escndalo e Daniel Cooper 
desaparecia por vrios dias. Eram as nicas ocasies em que 
ele se embriagava.
 Daniel Cooper poderia manter-se ocupado em tempo integral, 
seria capaz de expor suas emoes. Mas nunca seria capaz de 
falar do passado a ningum. A nica pea de evidncia fsica 
que conservava daquele dia terrvel, h tanto tempo, era um 
recorte de jornal, desbotado e amarelo, trancado seguramente 
em seu quarto, onde ningum podia encontr-lo. Ele o olhava de 
vez em quando, como uma punio, mas cada palavra da notcia 
se achava gravada a fogo em sua mente.

Ele tomava um banho de chuveiro pelo menos trs vezes por dia, 
mas nunca se sentia limpo. Acreditava firmemente no inferno e 
no inferno, sabia que a sua nica Salvao neste mundo era a 
expiao. Tentara ingressar na fora polcial de Nova York, 
mas fora reprovado no exame fsico, por estar dez centmetros 
abaixo da altura mnima. Tornara-se ento um investigador 
particular. Pensava em si mesmo como um caador, perseguindo 
aqueles que violavam a lei. Era a vingana de Deus, o 
instrumento que lanava a ira de Deus sobre as cabeas dos 
malfeitores. Era a nica maneira pela qual podia expiar o 
passado e preparar-se para a eternidade.
 E ele especulou se haveria tempo de tomar um banho de 
chuveiro antes de pegar o avio.

A primeira parada de Daniel Cooper foi em Nova Orleans. Passou 
cinco dias na cidade. Antes de terminar, j sabia de tudo o 
que precisava saber a esse respeito de Joe Romano, Anthony 
Orsatti, Perry Pope e o Juiz Henry Lawrence. Cooper leu as 
transcries da audincia inicial de Tracy Whitney e da pena a 
que ela foi condenada. Conversou com o Tenente Miller e soube 
do suicdio da me de Tracy Whitney. Procurou Otto Schinidt e 
descobriu como a companhia das Whitneys fora roubada.. Daniel 
Cooper no tomou qualquer anotao em todas as conversas, mas 
poderia repetir cada uma literalmente. Tinha 99 por cento de 
certeza que Tracy Whitney era uma vtima inocente. Mas, para 
Daniel essa era uma precentagem inaceitvel. Ele voou para 
Filadlfia e conversou com Clarence Desmond, o vice-presidente 
do banco em que Tracy Whitney trabalhara. Charles Stanhope III 
recusou-se a receb-lo.

Agora, olhando para a mulher sentada  sua frente, Cooper 
estava cem por cento convencido de que ela nada tinha a ver 
com o roubo do quadro. Estava pronto para escrever seu 
relatrio.
- Romano a incriminou falsamente, Senhorita Whitney. Mais cedo 
ou mais tarde ele alegaria o roubo do quadro e reclamaria o 
seguro. Voc simplesmente apareceu por acaso no momento 
oportuno e facilitou-lhe tudo.
 Tracy podia sentir seu corao disparar. Aquele homem sabia 
que ela era inocente. Provavelmente dispunha de suficientes 
motivos contra Joe Romano para inocent-la. Falaria com o 
governador, haveria de tir-la daquele pesadelo, Descobriu 
subitamente que tinha dificuldade para respirar.
- Ento vai me ajudar?
 Daniel Cooper ficou perplexo.
- Ajud-la?
 - Isso mesmo. Obter um perdo ou.
 - No.
 A palavra foi como uma bofetada.
 - No? Mas por qu? Se sabe que sou inocente...
 Como as pessoas podiam ser to estpidas?
 - Meu trabalho est encerrado - murmurou Daniel Cooper, 
indiferente.

Quando voltou a seu quarto no hotel, a primeira providncia de 
Cooper foi despir-se e entrar debaixo do chuveiro. Esfregou-se 
da cabea aos ps, deixando que a gua quente enxaguasse o 
corpo por quase meia hora. Depois de se enxugar e vestir, 
sentou e escreveu seu relatrio.

 PARA: J. J. Reynolds                 Relatrio N? Y-72-830-412
 DE: Daniel Cooper
 ASSUNTO: Deux Femmes dans le Caf Rouge, Renoir - leo sobre 
Tela

  minha concluso que Tracy Whitney no est absolutamente 
envolvida no roubo do quadro acima. Creio que Joe Romano fez o 
seguro com a inteno de simular um roubo, cobrar a aplice e 
vender o quadro a um coleccionador particular. A esta altura, 
o quadro provavelmente j se encontra fora do pas. Como a 
obra  bastante conhecida, eu esperaria que aparecesse na 
Sua, onde existe uma lei de proteco  compra de boa f. Se 
um coleccionador declarar que comprou uma obra de arte em boa 
f, o governo suo permite que a mantenha, mesmo sendo 
roubada.

 Recomendao: Como no h prova concreta da culpa de Romano, 
nosso cliente ter de pagar. Alm disso, seria intil procurar 
Tracy Whitney para recuperao do quadro ou a cobrana de 
indemnizao, j que ela no tem conhecimento do quadro nem 
quaisquer bens para cobrir os prejuzos, ao que eu pudesse 
descobrir. Acresce que ela estar encarcerada na Penitenciria 
Meridional de Louisiana Para Mulheres pelos prximos 15 anos.

 Daniel Cooper fez uma pausa, pensando em Tracy Whitney. 
Calculou que outros homens poderiam consider-la bonita. E 
especulou, sem qualquer interesse real, o que 15 anos na 
priso lhe fariam. Mas no era relevante.
 Daniel Cooper assinou o relatrio e debateu se havia tempo 
para tomar outro banho de chuveiro.

9

Calcinha de Ferro providenciou para que Tracy Whitney fosse 
destacada para a lavanderia. Entre os 35 trabalhos disponveis 
para as prisioneiras, a lavanderia era o pior. A sala enorme e 
quente estava cheia de mquinas de lavar roupa e tbuas de 
passar, as cargas de roupa suja eram interminveis. Encher e 
esvaziar as mquinas de lavar e carregar os cestos pesados 
para a seco de passar era um trabalho brutal e exaustivo.
 O trabalho comeava s seis horas da manh e as prisioneiras 
tinham um descanso de dez minutos a cada duas horas. Ao final 
do dia de nove horas, a maioria das mulheres estava prestes a 
cair de exausto. Tracy cumpria seu trabalho mecanicamente, 
sem falar com ningum, encasulada em seus pensamentos. Ao 
saber do trabalho para o qual Tracy fora designada, Ernestine 
Littlechap comentou.
 - Calcinha de Ferro est mesmo a fim de arrancar o seu couro.
 Ao que Tracy respondeu:
 - Ela no me incomoda.
 Ernestine Littlechap estava espantada. Aquela era uma mulher 
completamente diferente da mocinha apavorada que chegara  
priso trs semanas antes. Alguma coisa a mudara e Ernestine 
Littlechap estava curiosa em descobrir o que fora.

No oitavo dia de trabalho de Tracy na lavanderia um guarda foi 
procur-la, no inicio da tarde.
 - Tenho aqui a sua transferncia. Voc foi destacada para a 
cozinha.
 O trabalho mais cobiado na priso. Havia dois padres de 
alimentao: as prisioneiras comiam picadinho, 
cachorro-quente, feijo ou guisados incomveis, enquanto as 
refeies para as guardas e as autoridades da penitenciria 
eram preparadas por cozinheiros profissionais, incluindo 
bifes, peixe fresco, costeletas, galinha, legumes e trutas 
frescas, sobremesas apetitosas. As condenadas que trabalhavam 
na cozinha tinham acesso a essas refeies e se aproveitavam 
ao mximo. Quando se apresentou na cozinha, Tracy no ficou 
surpresa ao deparar com Ernestine Littlechap ali. Aproximou-se 
dela e disse:
 - Obrigada.
 Com alguma dificuldade, ela forou um tom amistoso  voz. 
Ernestine soltou um grunhido, no disse nada.
 - Como conseguiu me livrar de Calcinha de Ferro?
 - Ela no est mais com a gente.
 - O que lhe aconteceu?
 - Temos um pequeno sistema. Se uma guarda  sacana e comea a 
nos criar muitos problemas, a gente se livra dela.
- Est querendo dizer que o director...
- Por que pensa que o director tem alguma coisa a ver com 
isso?
- Ento como conseguem...

-  fcil. Quando a guarda de quem a gente quer se livrar est 
de servio, comeam a surgir problemas. Vm as reclamaes. 
Uma presa informa que Calcinha de Ferro agarrou-a pela xoxota. 
E no dia seguinte outra presa a acusa de brutalidade. E depois 
algum reclama que ela tirou alguma coisa de sua cela... um 
rdio, por exemplo... e com toda a certeza vai aparecer no 
quarto de Calcinha de Ferro . E foi assim que acabamos tirando 
Calcinha de Ferro daqui. No so os guardas que mandam nesta 
priso, mas ns.
 - Por que voc est aqui? - perguntou Tracy. 
 Ela no tinha o menor interesse na resposta. O importante era 
estabelecer um relacionamento amistoso com aquela mulher.
 -  melhor acreditar que no foi por culpa de Ernestine 
Littlechap. Eu tinha todo um bando de garotas trabalhando para 
mim. 
 Tracy fitou-a nos olhos.
- Est querendo dizer como...
 Ela hesitou.
 - Como vigaristas? - Ernestine riu. - No. Elas trabalhavam 
como criadas em casas ricas. Abri uma agncia de empregos. 
Tinha pelo menos 20 garotas. A gente rica tem a maior 
dificuldade para arrumar criadas. Pus uma poro de anncios 
bonitos nos melhores jornais e mandava as minhas garotas 
quando telefonavam. As garotas estudavam as casas, e quando os 
patres estavam trabalhando ou viajando pegavam toda a 
pratearia, jias, peles e todo o resto que valesse alguma 
coisa, desaparecendo em seguida.
Ernestine fez uma pausa, suspirando.
- No acreditaria se eu lhe dissesse quanto dinheiro livre de 
impostos estvamos ganhando assim.
 - E como voc foi apanhada?
 - Foi o dedo caprichoso do destino, meu bem. Uma das minhas 
criadas estava servindo um banquete na casa do prefeito. Uma 
das convidadas era uma velha para a qual ela trabalhara e 
limpara. Quando a polcia encheu-a de porrada, minha garota se 
ps a falar e cantou a pera inteira. E aqui est a pobre 
Ernestine.
 Elas estavam paradas ao lado de um fogo, afastadas das 
outras.
 - No posso ficar aqui -sussurrou Tracy. -Tenho de cuidar de 
algum l fora. Vai me ajudar a fugir? Eu... 
 -  melhor comear a cortar as cebolas. Teremos guisado 
irlands esta noite.
 E Ernestine Littlechap se afastou.

O servio de informaes da priso era incrvel. As 
prisioneiras sabiam de tudo o que estava para acontecer muito 
antes que ocorresse. Reclusas conhecidas como ratazanas de 
lixo recolhiam os memorandos descartados, escutavam os 
telefonemas, liam a correspondncia do director. Todas as 
informaes eram cuidadosamente digeridas e transmitidas s 
presas importantes. Ernestine Littlechap figurava no alto da 
lista. Tracy percebeu como os guardas e as outras reclusas 
tratavam Ernestine com toda deferncia. Como as outras 
concluram que Ernestine se tornara a protectora de Tracy, ela 
foi deixada em paz. Tracy esperou cautelosamente que Ernestine 
lhe fizesse avanos, mas a preta enorme se manteve  
distncia. Por qu?, perguntou-se Tracy.
 A regra nmero 7, no folheto oficial de dez pginas entregue 
s prisioneiras novas, dizia: "Qualquer forma de sexo  
rigorosamente proibida. No haver mais que quatro reclusas em 
cada cela. No mais que uma prisioneira ter permisso para 
ocupar uma cama de cada vez."

 A realidade era to incrvelmente diferente que as 
prisioneiras se referiam ao folheto como o livro de piadas da 
priso.  medida que as semanas foram passando, Tracy observou 
as novas prisioneiras chegarem  priso todos os dias. O 
padro era sempre o mesmo. As criminosas primrias que eram 
sexualmente normais nunca tinham a menor chance. Entravam 
tmidas e assustadas, as homossexuais l estavam, esperando. O 
drama se desenrolava em actos planejados. Num mundo aterrador 
e hostil, a sapato se mostrava amistosa e simptica. 
Convidava a vitima ao salo de lazer, onde assistiam TV 
juntas; quando a outra lhe segurava a mo, a nova prisioneira 
deixava, com receio de ofender sua nica amiga. A prisioneira 
nova percebia rapidamente que as outras reclusas deixavam-na 
em paz;  medida que aumentava a sua dependncia da sapato, 
tambm se aprofundavam as intimidades, at que finalmente 
estava disposta a fazer qualquer coisa para manter sua nica 
amiga.
 As que se recusavam a ceder eram violentadas. Noventa por 
cento das mulheres que entravam na priso eram foradas a 
actividades homossexuais - voluntria ou involuntariamente - 
nos primeiros 30 dias. Tracy estava horrorizada.
 - Como as autoridades podem permitir que isso acontea? - ela 
perguntou a Ernestine.
 -  o sistema. Acontece a mesma coisa em todas as prises, 
meu bem. No h qualquer possibilidade de se separar mil e 
duzentas mulheres de seus homens e esperar que no fodam com 
algum. E no violentamos apenas por sexo.  tambm por poder, 
para mostrar quem  que manda. As garotas novas que entram 
aqui so alvos para todas que querem fod-las. A nica 
proteco delas  se tornarem a esposa de uma sapato. S 
assim ningum mais se mete com elas.
 Tracy tinha motivos para saber que estava ouvindo a anlise 
de uma profunda conhecedora.
 - E no so apenas as presas - continuou Ernestine. - As 
guardas so igualmente terrveis. Aparece uma carne fresca e 
est na pior. No se aguenta, precisa desesperadamente de uma 
dose. Est suando e tremendo, caindo aos pedaos. A guarda 
arruma uma dose de heroina para ela, mas em troca quer um 
favor. Entende? A carne fresca topa e a inspectora a mantm 
satisfeita. Os guardas machos so ainda piores. Eles tm 
chaves de todas as celas e, tudo o que precisam fazer  
aparecer  noite e se servir de xoxota de graa. Podem 
engravidar uma garota, mas tambm podem arrumar uma poro de 
seus favores. Voc quer uma barra de chocolate ou uma visita 
de seu namorado, pois basta dar para o guarda.  o que se 
chama de permuta e acontece em todas as prises do pas.
-  horrvel!
-  sobrevivncia. - A luz no teto da cela brilhava sobre a 
cabea rapada de Ernestine. - Sabe por que no permitem goma 
de mascar neste lugar?
 - No.
 - Porque as garotas usam para prender as fechaduras e impedir 
de trancarem, saindo  noite para se visitarem. Aceitamos as 
regras que queremos. As garotas que as fazem por aqui podem 
ser estpidas, mas so estpidas espertas.


 As relaes amorosas dentro dos muros da priso floresciam. O 
protocolo entre amantes era respeitado ainda mais 
rigorosamente do que no mundo exterior. Num mundo antinatural, 
os papis artificiais de maridos e mulheres eram criados e 
devidamente representados. As sapates assumiam um papel de 
homem num mundo em que no havia homens. Mudavam seus nomes. 
Ernestine era chamada Ernie; Tessie era Tex; Barbara se 
tornava Bob; Katherine era Keuy. Cortavam os cabelos bem 
curtos ou raspavam a cabea, no cuidavam dos chamados 
afazeres domsticos. A mary femme, a esposa, tinha de fazer a 
limpeza, costurar as roupas, pass-las para seu marido. Lola e 
Paulita competiam ferozmente pelas atenes de Ernestine, uma 
lutando para superar a outra. 
O cime era intenso e frequentemente levava  violncia; se a 
esposa era surpreendida a olhar para outra sapato ou a 
conversar no ptio da priso, os nimos se exaltavam. Cartas 
de amor circulavam constantemente pela priso, levadas pelas 
ratazanas de lixo.
 As cartas eram dobradas em pequenos formatos triangulares, 
conhecidos como pipas, podendo assim ser facilmente escondidas 
num soutien ou sapato. Tracy observava pipas sendo trocadas 
pelas mulheres, ao passarem umas pelas outras na entrada do 
refeitrio ou a caminho do trabalho.
 Tracy observou muitas vezes as reclusas se apaixonarem pelos 
guardas. Era um amor nascido do desespero, desamparo e 
submisso. As prisioneiras eram dependentes dos guardas em 
tudo: na comida, no bem-estar e s vezes nas prprias vidas. 
Mas Tracy no se permitia sentir emoo por ningum.
O sexo acontecia noite e dia. Ocorria nos chuveiros, nos 
banheiros, nas celas e  noite havia sexo oral atravs das 
grades. As mary femmes que pertenciam aos guardas dos dois 
sexos ficavam fora das celas  noite para irem aos alojamentos 
deles.
 Depois que as luzes se apagavam, Tracy ficava deitada em seu 
catre e tapava os ouvidos com as mos, num esforo para no 
escutar os sons.
 Houve uma noite em que Ernestine tirou uma caixa de sucrilhos 
de arroz de sob seu catre e se ps a espalh-los pelo corredor 
fora da cela. Tracy ouviu reclusas em outras celas fazendo a 
mesma coisa.
- O que est acontecendo? - perguntou ela.
 Ernestine virou-se para Tracy e disse asperamente:
 - No  da sua conta. Trate de ficar na sua cama. 
Simplesmente fique na porra da sua cama.
 Poucos minutos depois houve um grito aterrorizado numa cela 
prxima.
 - Oh, Deus, no! No! Por favor, deixem-me em paz!
 Tracy compreendeu ento o que estava acontecendo e sentiu uma 
nusea profunda. Os gritos continuaram por um longo tempo, at 
que finalmente se desvaneceram para soluos desamparados. 
Tracy apertou os olhos com toda a fora, dominada por uma 
raiva ardente. Como mulheres podiam fazer uma coisa assim a 
outras? Ela pensara que a priso a deixara calejada, mas 
quando despertou pela manh tinha o rosto manchado por 
lgrimas ressequidas. Ela estava determinada a no deixar 
transparecer seus sentimentos para Ernestine e perguntou-lhe 
casualmente:
 - Para qu os sucrilhos?
 -  o nosso sistema de aviso. Se os guardas tentam nos 
surpreender podemos ouvir se aproximando.


Tracy logo aprendeu por que as reclusas se referiam a uma pena 
na penitenciria como "ir ao colgio". A priso era uma 
experincia educacional, mas o que as prisioneiras aprendiam 
era heterodoxo.
A priso se achava repleta de especialistas em todos os tipos 
concebveis de crimes. Elas trocavam mtodos de vigarices, 
roubos em lojas, suadouros em bbados. Espalhavam informaes 
sobre alcaguetes e agentes policiais disfarados.
 Uma manh, no ptio de recreao, Tracy ouviu uma reclusa 
mais velha dar uma conferncia sobre punga para um grupo jovem 
fascinado.

- Os grandes profissionais vm da Colmbia. H uma escola em 
Bogot que  conhecida como a escola dos dez sinos. Paga-se 
duzentos e cinquenta dlares para se aprender a ser punguista. 
Eles penduram um boneco do teto, vestindo um terno com dez 
bolsos, cheios de dinheiro e jias.
- E qual  o truque?
- O truque  que cada bolso tem um sino. Ningum se forma at 
conseguir esvaziar todos os bolsos sem tocar um sino sequer.
Lola suspirou.
 - Eu costumava sair com um cara que circulava pelas multides 
num sobretudo, com as duas mos  vista, enquanto pungueava as 
pessoas como um louco.
- E como diabo ele conseguia fazer isso?
 - A mo direita era falsa. Ele estendia a mo verdadeira por 
uma abertura no sobretudo, fazia a festa com bolsos, carteiras 
e bolsas.
A educao continuava na sala de lazer.

- Gosto muito do golpe da chave - disse uma veterana. - A 
gente fica por uma estao ferroviria at aparecer uma 
velhinha tentando meter uma mala ou um pacote grande num 
desses armrios de aluguel. A gente ajuda e lhe entrega a 
chave. S que a chave  de um armrio vazio. Depois que ela 
vai embora, a gente esvazia seu armrio e some.
 No ptio, em outra tarde, duas reclusas condenadas por 
prostituio e, posse de cocana conversavam com uma 
recm-chegada, uma garota bonita, que parecia no ter mais do 
que 17 anos.
 - No  de admirar que voc tenha sido encanada, meu bem - 
disse uma das mulheres mais velhas. - Antes de falar em preo 
com um cara, voc tem de apalp-lo para se certificar de que 
ele no ia carregar uma arma. E nunca diga a ele o que voc 
vai fazer. Em vez disso, faa ele dizer o que quer. E se 
depois descobrir que ele  um tira, a coisa vira uma 
armadilha, entende?
A outra profissional acrescentou:
-  isso mesmo. E sempre examine as mos. Se um cara diz que  
operrio, veja se suas mos so calosas. Muitos tiras  
paisana usam roupas de operrios, mas esquecem que suas mos 
so lisas.

 O tempo no passava devagar nem depressa. Era simplesmente o 
tempo. Tracy pensava no aforismo de Santo Agostinho: "O que  
o tempo? Se ningum me pergunta, eu sei, Mas se tenho de 
explicar no sei."
 A rotina da priso jamais variava:
 4 e 40: Campainha de aviso

 4 e 45: Levantar e vestir
 5: Caf da manh
 5 e 30: Volta  cela
 5 e 55: Campainha de aviso
 6: Fila para o trabalho
 10: Ptio para exerccio
 10 e 30: Almoo
 11: Fila para o trabalho
 15 e 30: Jantar
 16: Volta  cela
 17: Salo de recreao
 18: Volta  cela
 20 e 45: Campainha de aviso
 21: Luzes apagadas

 As regras eram inflexveis. Todas as presas tinham de 
comparecer s refeies e no se permitiam conversas na fila. 
No se podia guardar mais de cinco itens cosmticos nos 
pequenos armrios antes do caf da manh e assim mantidas 
durante o dia inteiro.
 A penitenciria tinha a sua prpria msica: o retinir da 
campainha, o arrastar de ps pelo cimento, o bater de portas 
de ferro, os sussurros de dia e os gritos de noite... o 
crepitar rouco dos wakie-talkies dos guardas, o estrpito das 
bandejas nas refeies. E sempre havia o arame farpado, os 
muros altos, a solido e o isolamento, a aura penetrante de 
dio.
 Tracy tornou-se uma prisioneira exemplar. Seu corpo, reagia 
automaticamente aos sons da rotina da priso: a barra 
deslizando atravs da cela na hora de deitar e na hora de 
acordar; a campainha para se apresentar ao trabalho, a sirene 
quando o trabalho acabava.
 O corpo de Tracy era prisioneiro naquele lugar, mas a mente 
estava livre para planear a fuga. 

As presas no podiam dar telefonemas para fora, mas tinham 
permisso de receber dois telefonemas de cinco minutos por 
ms. Tracy recebeu um telefonema de Otto Schmidt.
- Achei que voc gostaria de saber - disse ele. - Foi um 
enterro muito bonito. E eu paguei todas as contas, Tracy.
 - Obrigada, Otto. Eu... obrigada,
 No havia mais nada que qualquer dos dois pudesse dizer. E 
no houve mais telefonemas para ela.
- Garota,  melhor voc esquecer o mundo exterior - advertiu-a 
Ernestine. - No tem ningum l fora para voc.
 Est enganada, pensou Tracy.
Joe Romano.
Perry Pope.
Juiz Henry Lawrence.
Anthony Orsatti.
Charles Stanhope III.


Foi no ptio de exerccio que Tracy tornou a encontrar Big 
Bertha. O ptio era um rectngulo grande, descoberto, limitado 
num lado pelo alto muro externo e no outro pelo muro interno. 
As reclusas tinham permisso de ficar no ptio por 30 minutos 
todas as manhs. Era um dos poucos lugares em que se permitia 
conversar e grupos de prisioneiras se reuniam para trocar as 
ltimas notcias e rumores, antes do almoo. Quando entrou no 
ptio pela primeira vez, Tracy experimentou uma sbita 
sensao de liberdade. Compreendeu que isso acontecia porque 
se encontrava ao ar livre. Podia ver o sol l no alto, assim 
como as nuvens; ouviu em algum lugar no cu azul distante o 
zumbido de um avio, voando livre.
 - Voc! - disse uma voz. - Eu estava  sua procura.
 Tracy virou-se para deparar com a enorme sueca que roara 
nela em seu primeiro dia na priso.
 - Soube que arrumou uma sapato negra.
 Tracy tentou se afastar, mas Big Bertha agarrou-a pelo brao, 
com uma presso implacvel.
 - Ningum se afasta de mim assim - sussurrou ela. - Seja 
boazinha, littbarn.
 Ela empurrava Tracy para o muro, comprimindo-se contra o seu 
corpo.
 - Largue-me!
 - O que voc est precisando  de uma boa chupada. Sabe do 
que estou falando? Pois  o que vou dar a voc. Vai ser toda 
minha, alskade.
Uma voz famliar soou irritada por trs de Tracy:
- Tire as porras das suas mos de cima dela, sua idiota.
Ernestine Littlechap estava parada ali, as enormes mos 
cerradas, os olhos faiscando, o sol se reflectindo em seu 
crnio rapado.
 - Voc no  homem bastante para ela, Ernie.
 - Sou homem bastante para voc - explodiu a preta. - Torne a 
chate-la e comerei seu rabo no caf da manh. Frito.
O ar estava subitamente carregado. As duas amazonas se fitavam 
com um dio intenso. Elas esto prestes a se matar por minha 
causa, pensou Tracy. E depois ela compreendeu que tinha muito 
pouco a ver com aquilo. Lembrou-se de uma coisa que Ernestine 
lhe dissera:
 - Neste lugar, voc tem de lutar, foder ou pular a cerca. Ou 
voc finca p ou est morta.
 Foi Big Bertha quem recuou. Ela lanou um olhar desdenhoso 
para Ernestine.
 - No tenho pressa. - Contemplando Tracy com um olhar 
lgubre, ela acrescentou: - Ficar por aqui durante muito 
tempo, meu bem. E eu tambm. Ainda tornaremos a nos encontrar.
Ela virou-se e afastou-se . Ernestine observou-a por um 
momento e comentou:
- Ela  uma terrvel me. Lembra daquela enfermeira em Chicago 
que matou todos os seus pacientes? Encheu-os de cianureto e 
ficou assistindo eles morrerem? Pois  esse anjo de 
misericrdia que est agora cheio de teso por voc, Whitney. 
Merda! Voc est mesmo precisando de uma porra de uma guardi. 
Ela no vai deixar voc em paz.
- Vai me ajudar a escapar?
Uma campainha soou.
- Est na hora da bia - disse Ernestine Littlechap.
Naquela noite, deitada em seu catre, Tracy ficou pensando em 
Ernestine. Apesar de Ernestine nunca mais tentar toc-la, 
Tracy ainda no confiava nela. Nunca poderia esquecer o que 
Ernestine e as outras companheiras de cela lhe haviam feito. 
Mas precisava dela.


Todas as tardes, depois do jantar, as reclusas tinham 
permisso para passar uma hora na sala de recreao, onde 
podiam assistir televiso, conversar ou ler as ltimas 
revistas e jornais. Tracy folheava uma revista quando uma 
fotografia atraiu sua ateno. Era uma foto de casamento de 
Charles Stanhope III, saindo da capela de brao dado com a 
esposa, rindo. Atingiu Tracy como um golpe fsico. 
Contemplando a foto, o sorriso feliz no rosto de Charles, ela 
foi invadida por uma angstia, que logo se transformou em 
fria fria. Planeara outrora partilhar sua vida com aquele 
homem, mas ele lhe virara as costas, deixara que a 
destrussem, deixara que o filho dos dois morresse. Mas isso 
acontecera em outro lugar, outro tempo. Aquilo era fantasia. 
Isto  a realidade.
 Tracy fechou a revista bruscamente.

Nos dias de visita era fcil saber quais as reclusas que 
tinham amigos ou parentes que vinham v-las. Elas tomavam um 
banho de chuveiro, punham roupas limpas, maquilavam-se. 
Ernestine geralmente voltava da sala de visitas sorridente e 
jovial.
 - Meu amor sempre vem me visitar - ela disse a Tracy. - 
Estar esperando quando eu sair. E sabe por qu? Porque dou a 
ele o que nenhuma outra mulher pode dar.
 Tracy no pde esconder a sua confuso.
 - Est querendo dizer... sexualmente?
 - Pode apostar que sim. O que acontece dentro destes muros 
no tem nada a ver com o mundo l fora. Aqui, a gente precisa 
s vezes de um corpo quente para abraar... algum para nos 
acariciar e dizer que nos ama. Temos de sentir que h algum 
que se importa com a gente. No importa que no seja real ou 
que no dure muito.  tudo o que temos. Mas quando estou l 
fora... - Ernestine se desmanchou num sorriso largo - ... 
ento me transformo numa sacana de uma ninfomanaca, entende?
 Havia uma coisa que deixava Tracy aturdida. Ela resolveu 
levantar o assunto agora.
- Ernie, voc est sempre me protegendo. Por qu?
Ernestine encolheu os ombros.
- Sei l.
- Eu gostaria realmente de saber. - Tracy escolheu 
cuidadosamente as palavras. - Todas as outras que so... suas 
amigas pertencem a voc. Elas fazem tudo o que voc manda.
- Se no quiserem se estripar,  isso mesmo.
- Mas no eu. Por qu?
- Est se queixando?
- No. Estou apenas curiosa.
Ernestine pensou a esse respeito por um momento.
- Muito bem. Voc tem uma coisa que eu quero. - Ela viu a 
expresso no rosto de Tracy. - No  isso. J tenho tudo o que 
quero, meu bem. Voc tem classe. E estou falando de classe de 
verdade. Como aquelas donas frias que a gente v em Vogue e 
Town and Country, todas muito bem vestidas e servindo ch em 
bules de prata.  o lugar a que voc pertence. Este no  o 
seu mundo. No sei como voc se envolveu com toda aquela merda 
l fora, mas meu palpite  que foi enganada por algum.
 Ela fez uma pausa, fitou Tracy nos olhos e acrescentou, quase 
timidamente:

 - No encontrei muitas coisas decentes na minha vida. Voc  
uma delas. - Ernestine virou-se e suas palavras seguintes 
soaram quase inaudveis. - E lamento muito sobre o seu garoto. 
Lamento de verdade.
 Naquela noite, depois que as luzes se apagaram, Tracy 
sussurrou no escuro:
- Ernestine, tenho de fugir. Ajude-me. Por favor. 
 - Estou tentando dormir, pelo amor de Deus         Cale essa boca, 
est bem?

 Ernestine iniciou Tracy na linguagem misteriosa da priso. 
Grupos de mulheres no ptio estavam falando:
 - A sapato largou o cinto em cima da garotinha e depois 
disso tinha de se dar comida a ela com uma colher de cabo bem 
comprido...
 Ela estava curta, mas a pegaram numa tempestade de neve e um 
tira de pedra entregou-a ao carniceiro. Isso acabou com a sua 
estrutura. Adeus, Ruby-do...
 Para Tracy, era como escutar uma conversa de marcianos. E ela 
perguntou:
 - Sobre o que esto falando?
 Ernestine explodiu numa gargalhada.
 - No sabe falar ingls, garota? Quando a lsbica "largou o 
cinto", significa que passou de machona para mary femme. 
Envolveu-se com uma "garotinha"... uma dona como voc. No 
merecia confiana, o que significava que voc se manteve  
distncia. Ela estava "curta", significando que se aproximava 
o fim de sua sentena de priso. Mas foi apanhada tomando 
heroina por um tira de pedra... isto , algum que vive pelos 
regulamentos e no d para comprar.. e despachada para o 
"carniceiro", o mdico da priso.
 - O que  "Ruby-do" e "estrutura"?
 - Ainda no aprendeu nada? "Ruby-do"  livramento 
condicional. E "estrutura"  o dia da libertao.
 Tracy sabia que no poderia esperar por nenhuma das duas 
coisas.

  A exploso entre Ernestine Littlechap e Big Bertha aconteceu 
no ptio no dia seguinte. As prisioneiras jogavam softball, 
uma variao mais suave do beisebol, sob a superviso dos 
guardas. Big Bertha, com o basto, acertou uma bola com toda a 
fora e correu para a primeira base, que Tracy estava 
cobrindo. Big Bertha golpeou Tracy, derrubando-a, depois 
montou em cima dela. Suas mos se insinuaram entre as pernas 
de Tracy, enquanto ela murmurava:
 - Ningum me diz no, sua puta. Vou agarr-la esta noite, 
littbam, vou foder voc at no aguentar mais. 
 Tracy lutou freneticamente para se desenvencilhar. 
Subitamente, sentiu que Big Bertha era arrancada de cima dela. 
Ernestine segurava a imensa sueca pelo pescoo e a sufocava.
 - Sua puta escrota! - Ernestine estava gritando. - Eu avisei!
 Ela meteu as unhas no rosto de Big Bertha, atingindo os 
olhos.
 - Estou cega! - berrou Big Bertha. - Estou cega!
 Ela agarrou os seios de Ernestine e comeou a pux-los. As 
duas mulheres estavam se esmurrando e se dilacerando quando 
quatro guardas se aproximaram correndo. Os guardas precisaram 
de cinco minutos para separ-las. As duas foram levadas para a 
enfermaria. J era noite quando Ernestine voltou  cela. Lola 
e Paulita foram para sua cama, a fim de consol-la.

 - Voc est bem? - sussurrou Tracy.
 - Claro que estou - respondeu Ernestine. A voz soava abafada 
e Tracy se perguntou at que ponto ela ficara gravemente 
ferida. - Recebi meu Ruby-do ontem e vou sair daqui. Voc est 
com um problema. Aquela mulher no vai deix-la em paz. De 
jeito nenhum. E quando acabar de fod-la, vai matar voc.
 Elas ficaram deitadas em silncio na escurido. Finalmente, 
Ernestine acrescentou:
 - Talvez esteja na hora da gente conversar sobre a maneira de 
tir-la daqui.

10

- Vai perder a sua governanta amanh - anunciou o director 
Brannigan  esposa.
 Sue Ellen Brannigan levantou os olhos, com uma expresso de 
surpresa.
 - Por qu? Judy  muito boa com Amy.
- Sei disso. Mas acontece que a sentena dela acabou. Ser 
solta pela manh.
Os dois tomavam o caf da manh no confortvel chal que era 
um dos privilgios do cargo de Brannigan. Outros benefcios 
incluam uma cozinheira, uma arrumadeira, um motorista e uma 
governanta para a filha Amy, que tinha quase cinco anos. Todas 
as criadas eram presas de confiana. Quando Sue Ellen 
Brannigan ali chegara, cinco anos antes, estava nervosa com a 
perspectiva de viver na rea de uma penitenciria e ainda mais 
apreensiva por ter a casa cheia de criadas que eram criminosas 
condenadas.
 - Como sabe que elas no nos roubaro e no nos cortaro a 
garganta no meio da noite? - perguntara Sue Ellen. 
 - Se fizerem isso - prometera Brannigan - sero devidamente 
punidas
 Ele persuadira a esposa, sem chegar a convenc-la plenamente. 
Mas ficara constatado que os temores de Sue Ellen eram 
infundados. As presas de confiana estavam ansiosas em causar 
uma boa impresso e reduzir sua pena ao mximo possvel, por 
isso se mostravam conscienciosas.
 - Logo agora que eu comeava a me sentir tranquila com a 
idia de deixar Amy aos cuidados de Judy - queixou-se a Sra. 
Brannigan.
 Ela gostava de Judy e lhe queria bem, mas no desejava que 
ela fosse embora. Quem podia saber que tipo de mulher seria a 
prxima governanta de Amy? Havia tantas histrias de horror 
sobre as coisas terrveis que estranhas faziam com crianas.
 - J tem em mente algum em particular para substituir Judy, 
George?

 O director pensara bastante a esse respeito. Havia uma dzia 
de presas de confiana em condies de assumir o encargo de 
cuidar de sua filha. Mas ele no conseguia tirar Tracy Whitney 
do pensamento. Havia alguma coisa no caso dela que ele achava 
profundamente perturbador. Era um criminologista profissional 
h 15 anos e se orgulhava de incluir entre suas qualidades a 
capacidade de avaliar prisioneiras. Algumas das condenadas aos 
seus cuidados eram criminosas empedernidas, outras se achavam 
na priso por terem cometido crimes de paixo ou sucumbido a 
uma tentao momentnea. Mas Brannigan tinha a impresso de 
que Tracy Whitney no pertencia a qualquer categoria. Ele no 
fora influenciado por seus protestos de inocncia, pois esse 
era o procedimento normal de todas as condenadas. O que o 
perturbava era o conhecimento das pessoas e haviam conspirado 
para enviar Tracy Whitney  priso. O director fora designado 
por uma comisso cvica de Nova Orleans, liderada pelo 
governador do Estado. Embora ele se recusasse firmemente a 
qualquer envolvimento em poltica, sabia quem eram todos os 
participantes do caso. Joe Romano era da Mfia, um subordinado 
de Anthony Orsatti. Perry Pope, o advogado que defendera Tracy 
Whitney, estava na folha de pagamento da Mfia, o mesmo 
acontecendo com o Juiz Henry Lawrence. No podia haver a menor 
dvida de que havia algo estranho na condenao de Tracy 
Whitney. E agora, Brannigan tomou finalmente uma deciso, 
declarando  esposa:
 - Tenho, sim... estou pensando numa certa pessoa.

Havia uma alcova na cozinha da priso, com uma pequena mesa de 
tampo de frmica e quatro cadeiras, o nico lugar em que era 
possvel se ter um mnimo de privacidade. Ernestine Littlechap 
e Tracy estavam sentadas ali, tomando caf, durante o 
intervalo de descanso de dez minutos.
 - Acho que est na hora de voc me contar por que toda a 
pressa de sair daqui - sugeriu Ernestine.
 Tracy hesitou por um instante. Podia confiar em Ernestine? 
Mas no tinha opo.
 - H... h algumas pessoas que fizeram coisas  minha famlia 
e a mim. Tenho de sair daqui para faz-las pagar.
 -  mesmo? E o que essas pessoas fizeram?
 As palavras de Tracy saram lentamente, cada palavra uma 
pontada de angstia:
 - Eles mataram minha me.
 - Quem so eles?
 - No creio que os nomes signifiquem alguma coisa para voc. 
Joe Romano, Perry Pope, um juiz chamado Henry Lawrence, 
Anthony Orsatti...
 Ernestine fitava-a fixamente, com a boca escancarada.
 - Santo Deus! Est querendo me gozar, garota?
 Tracy ficou surpresa.
 - J ouviu falar deles?
 - Se j ouvi? Mas quem no ouviu falar deles? Nada acontece 
em Nova Orleans se Orsatti ou Romano no permitirem. No pode 
se meter com eles. Vo explodir voc como fumaa, apag-la por 
completo.
 Tracy disse, sem qualquer inflexo na voz:
 - J me apagaram.
 Ernestine olhou ao redor, a fim de certificar-se que ningum 
podia ouvi-las.
 - Voc est louca ou ento  a mulher mais estpida que 
conheci. Como pode falar assim sobre os intocveis? - Ela 
sacudiu a cabea. - Esquea esses homens. E depressa! 
 - No posso. Tenho de sair daqui. Isso  possvel?
 Ernestine manteve-se em silncio por um longo tempo. E 
finalmente murmurou:
 - Conversaremos no ptio

Elas estavam no ptio, num canto, isoladas.
- J houve doze fugas daqui - disse Ernestine. - Duas das 
prisioneiras foram baleadas e mortas. As outras dez foram 
apanhadas e trazidas de volta.
 Tracy no fez qualquer comentrio e Ernestine continuou:

 - A torre  guarnecida vinte e quatro horas por dia por 
guardas armados de metralhadoras. Eles so uns filhos da puta. 
Se algum escapa, isso lhes custa o emprego. Por isso, no 
pensam duas vezes no momento de mat-la. H arame farpado em 
torno de toda a priso. Se voc conseguir passar pelo arame 
farpado e pelas metralhadoras, eles ainda tm cachorros que 
podem farejar o peido de um mosquito. H um quartel da Guarda 
Nacional a poucos quilmetros daqui. Quando uma prisioneira 
escapa, eles mandam helicpteros, armados e com holofotes. 
Ningum se importa se a trazem de volta viva ou morta, garota. 
Acham que morta  melhor. Desencoraja qualquer outra que 
esteja com planos.
 - Mas as pessoas ainda tentam - insistiu Tracy, 
obstinadamente.
 - As que conseguiram escapar tiveram ajuda do exterior... 
amigos que contrabandearam armas, dinheiro e roupas. Tinham 
carros de fuga  sua espera. - Ernestine fez uma pausa, a fim 
de aumentar o efeito. - E ainda assim elas foram recapturadas.
- No vo me recapturar - garantiu, Tracy.
Uma inspectora se aproximava. E gritou para Tracy.
- O director Brannigan quer falar com voc. Depressa!

- Precisamos de algum para cuidar de nossa filha pequena - 
disse Brannigan. -  um trabalho voluntrio. Voc no precisa 
aceitar, se no quiser.
Algum para cuidar de nossa filha pequena. A mente de Tracy 
estava em disparada. Isso poderia facilitar a sua fuga. 
Trabalhando na casa do director, poderia provavelmente 
aprender muito mais sobre a organizao da priso.
 - Eu gostaria de ficar com o trabalho - murmurou Tracy.
 O director Brannigan ficou satisfeito. Tinha o sentimento 
estranho e irracional de que devia alguma coisa quela mulher.
- ptimo. O salrio  de sessenta cntimos por hora. O 
dinheiro ser depositado numa conta em seu nome no final de 
cada ms.
 As prisioneiras no tinham permisso de manipular dinheiro, e 
tudo o que ganhavam lhes era entregue no momento em que saam 
da priso.
No estarei aqui no final do ms, pensou Tracy. Mas, em voz 
alta, ela disse:
 - Ser ptimo.
 - Pode comear pela manh. A inspectora-chefe lhe dar 
instrues detalhadas.
- Obrigada, senhor director.
 George Brannigan fitou Tracy e sentiu-se tentado a 
acrescentar mais alguma coisa. No tinha muita certeza do que 
era. Mas limitou-se a murmurar:
 - Isso  tudo.

Quando Tracy lhe transmitiu a notcia, Ernestine comentou, 
pensativa:
 - Isso significa que vo convert-la numa presa de confiana. 
Saber como a priso funciona. E isso pode tornar a fuga um 
pouco mais fcil.
 - Como posso fazer?. - perguntou Tracy.
 - Tem trs opes e todas so arriscadas. A primeira  uma 
fuga furtiva. Usa goma de mascar uma noite para prender as 
trancas de sua cela e das portas do corredor. Sai para o 
ptio, joga um cobertor sobre o arame farpado, pula para o 
lado de fora e comea a correr.
Com cachorros e helicpteros em seu encalo. Tracy podia 
sentir as balas das armas, dos guardas a lhe dilacerarem a 
carne. Ela estremeceu.
 - Quais so os outros meios?

 - A segunda opo  uma fuga na marra. Voc usa uma arma e 
leva um refm. Se a pegarem, vai levar um duque para quina. - 
Ela viu a expresso de perplexidade no rosto de Tracy e 
explicou. -  o aumento de sua sentena em dois a cinco anos.
- E qual  o terceiro meio?
 - Um passeio.  para as presas de confiana em servios 
especiais. Assim que voc se descobre fora dos muros, garota. 
comea a andar e no pra mais.
 Tracy pensou a esse respeito. Sem dinheiro, sem um carro e 
sem um lugar para se esconder, no teria muita chance. 
 - Eles descobririam a fuga na primeira chamada e partiriam  
minha procura.
 Ernestine suspirou.
 - No h plano de fuga perfeito, garota.  por isso que 
ningum jamais conseguiu escapar para sempre deste lugar.
Pois eu escaparei, jurou Tracy. Eu escaparei.

A manh em que Tracy foi levada para a casa do director 
Brannigan assinalou o seu quinto ms como prisioneira. Ela 
estava nervosa com a perspectiva de encontrar a esposa e a 
filha do director, pois queria o cargo desesperadamente. Seria 
a sua chave para a liberdade.
 Tracy entrou na cozinha grande e agradvel e sentou-se. Pde 
sentir a gota de suor aflorar na axila e escorrer. Uma mulher 
num chambre rosa-claro apareceu na porta, dizendo:
 - Bom dia.
 - Bom dia.
 A mulher fez meno de se sentar, mudou de idia e continuou 
de p. Sue Ellen Brannigan era uma loura de rosto simptico, 
trinta e poucos anos, um comportamento vago e distrado. Era 
esguia e nervosa, nunca sabia direito como tratar as presas 
que a serviam como criadas. Deveria se mostrar amistosa ou 
trat-las friamente como prisioneiras? Sue Ellen ainda no se 
acostumara  idia de viver no meio de viciadas em drogas, 
sequestradoras e assassinas.
 - Sou a Sra. Brannigan Amy tem quase cinco anos e voc sabe 
como as crianas so activas nesta idade. Infelizmente, ela 
precisa ser vigiada durante todo o tempo.
 Ela fez uma pausa, olhando para a mo esquerda de Tracy. No 
havia aliana ali, mas tambm isso nada significava 
actualmente. Particularmente com as classes inferiores, pensou 
Sue Ellen perguntou, delicadamente:
 - Voc tem filhos?
 Tracy pensou no filho que no chegara a nascer. 
 - No.
 - Entendo... - Sue Ellen sentia-se confusa com aquela mulher. 
No era absolutamente o que imaginara. Havia algo nela quase 
elegante. - Vou buscar Amy.
 Ela deixou apressadamente a cozinha. Tracy olhou ao redor. 
Era um chal relativamente grande, bem arrumado e 
atraentemente decorado. Pareceu-lhe que j se haviam passado 
muitos anos desde que entrara pela ltima vez na casa de 
alguma pessoa. Isso tudo era parte do outro mundo... o mundo 
exterior. Sue Ellen voltou, puxando uma garotinha pela mo.
 - Amy, esta ... - Devia chamar uma prisioneira pelo primeiro 
nome ou pelo sobrenome? Ela ficou num meio termo. Esta  Tracy 
Whitney.
 - Oi - disse Amy.

 Ela era esguia como a me, tinha os mesmos olhos 
castanhos-claros, fundos e inteligentes. No era uma criana 
bonita, mas irradiava uma cordialidade to franca que chegava 
a ser comovente.
No deixarei que ela me comova, jurou Tracy.
- Voc vai ser minha nova bab?
- Ajudarei sua me a cuidar de voc.
- Sabia que Judy saiu sob livramento condicional? Voc tambm 
vai embora sob livramento condicional?
 No, pensou Tracy.
 - Ficarei aqui por um longo tempo, Amy.
 - Isso  ptimo, - disse Sue Ellen, jovialmente. Ela ficou 
ruborizada em constrangimento, mordeu o lbio. - Isto ...
 Ps-se a andar nervosamente pela cozinha, explicando os 
deveres de Tracy:
 - Far as refeies com Amy. Pode preparar o caf da manh 
para ela e passar a manh a brincar. A cozinheira far o 
almoo aqui. Depois de comer, Amy sempre tira um cochilo.  
tarde, ela gosta de passear pelo terreno da fazenda. No acha 
que  bom para uma criana ver as coisas crescendo?
- Acho, sim.
A fazenda ficava no outro lado do conjunto principal da 
priso, tinha legumes e rvores frutferas, cultivados por 
reclusas de confiana. Havia um enorme lago artificial usado 
para a irrigao, cercado por um muro de pedra.

Os cinco dias subsequentes foram quase que uma vida nova para 
Tracy. Em circunstncias diferentes, ela teria desfrutado o 
fato de se afastar dos muros sombrios da priso, poder andar 
livremente pela fazenda, respirar o ar puro dos campos. Mas 
tudo o que podia pensar agora era em sua fuga. Quando no 
estava trabalhando com Amy, ela tinha de retornar  priso.  
noite, era sempre trancafiada, em sua cela; mas, durante o 
dia, tinha a iluso de liberdade. Depois do caf da manh na 
cozinha da priso, ela ia para o chal do director e preparava 
a primeira refeio de Amy. Tracy aprendera com Charles muita 
coisa sobre cozinhar e sentia-se tentada pela variedade de 
alimentos na despensa do director. Mas Amy preferia uma 
refeio simples, de mingau de aveia ou cereais com frutas. 
Depois, Tracy brincava com a menina ou lia para ela. Sem 
pensar, Tracy ps-se a ensinar a Amy as brincadeiras que 
aprendera com a me.
 Amy adorava marionetes. Tracy tentou lhe fazer uma cpia do 
cordeiro de Shari Lewis com uma meia velha do director, mas 
acabou saindo uma coisa intermediria entre uma raposa e um 
pato.
 - Acho que est muito bonito - comentou Amy, lealmente.
 Tracy fazia a marionete falar com sotaques diferentes: 
francs, italiano, alemo e o que Amy mais adorava, a cadncia 
mexicana de Paulita. Tracy contemplava o prazer no rosto da 
criana e pensava: No me deixarei envolver. Ela  apenas um 
meio para eu sair daqui.
 Depois do cochilo de Amy  tarde, as duas faziam longos 
passeios. Tracy sempre dava um jeito para que percorressem 
reas da priso que ainda no conhecia. Observava 
cuidadosamente cada entrada e sada e como as torres de guarda 
eram guarnecidas, registrava as mudanas de turno. Logo ficou 
patente que nenhum dos planos de fuga que discutira com 
Ernestine poderia dar certo.

 - Algum j tentou escapar escondendo-se num dos camies de 
entrega que trazem coisas para a priso? J vi camies de 
leite e de alimentos
 - Esquea - disse Ernestine, taxativamente. - Cada veculo 
que entra e sai do porto  revistado.

Uma manh, quando fazia a sua primeira refeio, Amy disse:
- Eu amo voc, Tracy. Quer ser minha me?
As palavras provocaram uma pontada de angstia em Tracy.
- Uma me j  suficiente. No precisa de duas.
- Preciso, sim. O pai de minha amiga Sally Ann casou de novo e 
ela tem agora duas mes.
- Voc no  Sally Ann - disse Tracy, bruscamente. - Acabe 
logo de comer.
 Amy fitava-a com uma expresso magoada.
 - No estou mais com fome.
 - Est bem. Vou ler para voc.
 Quando comeou a ler, Tracy sentiu a mozinha de Amy na sua.
 - Posso sentar no seu colo?
 - No.
D toda a sua ateno  sua prpria famlia, pensou Tracy. 
Voc no pertence a mim. Nada pertence a mim.

Os dias tranquilos, longe da rotina da priso, de certa forma 
tornavam as noites piores. Tracy detestava voltar  cela, 
detestava ser enjaulada como um animal. Ainda era incapaz de 
se acostumar aos gritos que partiam das celas prximas, na 
escurido indiferente.
Rangia os dentes at que as mandbulas doam. Uma noite de 
cada vez, ela prometia a si mesma. Posso suportar uma noite de 
cada vez.
 Ela dormia pouco, pois sua mente estava ocupada em planear. O 
primeiro passo era fugir. O segundo era cuidar de Joe Romano, 
Perry Pope, Juiz Henry Lawrence e Anthony Orsatti. O terceiro 
era Charles. Mas esse era angustiante demais at para pensar a 
esse respeito: Cuidarei disso quando chegar o momento, ela 
dizia a si mesma.

Comeava a se tornar impossvel ficar longe do caminho de Big 
Bertha. Tracy tinha certeza de que a enorme sueca a espionava. 
Se Tracy ia para o salo de recreao, Big Bertha aparecia 
poucos minutos depois; quando Tracy saia para o ptio, Big 
Bertha l se mostrava um momento mais tarde. Houve um dia em 
que Big Bertha se aproximou de Tracy e disse:
 - Est linda hoje, littbam. Mal posso esperar o momento em 
que estaremos juntas.
 - Fique longe de mim - advertiu Tracy.
 A amazona sorriu.
 - Ou o qu? Sua negra est saindo. E eu estou dando um jeito 
para que voc seja transferida para a minha cela.
 Tracy fitou-a nos olhos. Big Bertha assentiu.
 - Posso fazer isso, meu bem. Acredite em mim.
 O tempo de Tracy estava se esgotando . Ela tinha de fugir 
antes que Ernestine fosse solta.

O passeio predilecto de Amy era atravs da campina, onde havia 
um arco-ris de flores silvestres. O vasto lago artificial 
ficava prximo, cercado por um muro baixo de concreto, caindo 
por uma boa distncia para a gua profunda.

 - Vamos nadar - suplicou Amy. - Por favor, Tracy, podemos 
nadar?
 - No  para nadar - disse Tracy - Usam a gua para 
irrigao.
 A viso do lago frio, de aparncia assustadora, fazia Tracy 
sentir calafrios. O pai carregando-a para o mar nos ombros; 
quando ela gritava, o pai dizia: No seja criana, Tracy, 
largando-a na gua fria; e quando a gua se fechava sobre a 
sua cabea, ela entrava em pnico e comeava a sufocar...

Foi um choque quando a notcia chegou, embora Tracy j a 
esperasse.
 - Sairei daqui dentro de uma semana, a contar do sbado - 
informou Ernestine.
 As palavras provocaram um calafrio em Tracy. No falaria a 
Ernestine sobre a conversa com Big Bertha. Ernestine no 
estaria ali para ajud-la, Big Bertha provavelmente teria 
influncia suficiente para que Tracy fosse transferida para a 
sua cela. O nico jeito de Tracy evitar era falar com o 
director; mas ela sabia que, se fizesse isso, poderia se 
considerar morta. Cada presa se viraria contra ela. Voc tem 
de lutar, poder ou pular o muro. Pois ela pularia o muro.
 Tracy e Ernestine repassaram as possibilidades de fuga. 
Nenhuma delas era satisfatria.
 - Voc no tem carro e no tem ningum l fora para ajud-la. 
Certamente ser apanhada e ficar ento numa situao ainda 
pior.  melhor esfriar e terminar sua sentena.
 Mas Tracy sabia que no haveria tempo para isso. No com Big 
Bertha atrs dela. O simples pensamento do que a gigante sueca 
tencionava fazer com ela deixava-a fisicamente doente.

Foi na manh de sbado, sete dias antes da soltura de 
Ernestine. Sue Ellen Brannigan levara Amy para passar o fim de 
semana em Nova Orleans e Tracy trabalhava na cozinha da 
priso.
- Como vai o trabalho de bab? - perguntou Ernestine.
- Muito bem .
- J vi a garotinha. Ela parece sensacional.
- , sim .
O tom de Tracy era de indiferena.
- Terei o maior prazer em sair daqui. E vou lhe dizer uma 
coisa: nunca mais voltarei para este lugar. Se houver alguma 
coisa que Al ou eu pudermos fazer por voc l fora...
- Olha a passagem! - gritou uma voz de homem.
Tracy virou-se. Um homem empurrava um imenso carrinho de mo, 
empilhado at o alto com uniformes e outras roupas sujas. 
Tracy observou, perplexa, enquanto ele se encaminhava para a 
sada .
 - O que eu estava dizendo  que se Al e eu pudermos fazer 
alguma coisa por voc... sabe como  mandar coisas para voc 
ou...
 - Ernie, o que um camio de lavanderia est fazendo aqui? A 
priso dispe de sua prpria lavanderia.

 -  para os guardas. - Ernestine soltou uma risada. - Eles 
costumavam mandar os uniformes para a lavanderia da priso, 
mas todos os botes acabavam arrancados, as mangas se 
despregavam, bilhetes obscenos eram costurados por dentro, 
camisas encolhiam, tudo se rasgava misteriosamente. No  uma 
pena? Agora, os guardas mandam as suas coisas para uma 
lavanderia de fora.
 Ernestine tornou a rir, na sua imitao de Butterfly McQueen. 
Mas Tracy no prestava mais ateno.

11

- George, no tenho certeza se devemos manter Tracy.
O director Brannigan levantou os olhos de seu jornal.
- Por qu? Qual  o problema?
- No sei direito. Mas tenho a impresso de que Tracy no 
gosta de Amy. Talvez ela simplesmente no goste de crianas.
- Ela no tem sido m com Amy, no  mesmo? No tem lhe batido 
nem gritado?
- No.
- Ento o que ?
- Ontem Amy correu para ela e abraou-a, mas Tracy afastou-a. 
Isso me incomodou, porque Amy  louca por ela. Para dizer a 
verdade, acho que estou com um pouco de cime. Isso  
possvel?
 Brannigan riu.
- Pode explicar muita coisa, Sue Ellen. Creio que Tracy 
Whitney  a pessoa certa para o trabalho. Mas se ela lhe 
causar algum problema de verdade, trate de me comunicar 
imediatamente e tomarei uma providncia.
- Est bem, querido.
Mas Sue Ellen ainda no se sentia satisfeita. Ela pegou a 
agulha de tric e ps-se a trabalhar. O assunto ainda no 
estava encerrado. 

- Por que no pode dar certo?
 - J lhe disse, garota. Os guardas revistam todos os camies 
que passam pelo porto.
 - Mas um camio levando roupa suja... eles no vo tirar 
todas as roupas para verificar.
 - Nem precisam. O cesto de roupa suja  levado para uma sala, 
onde um guarda observa enquanto  enchido.
 Tracy pensou por um momento. 
 - Ernie... algum poderia distrair esse guarda por cinco 
minutos?
 - Mas de que diabo serviria... - Ela parou de falar 
subitamente, um sorriso iluminando seu rosto. - Enquanto 
algum distrai o guarda, voc se mete no fundo do cesto e se 
cobre de roupa suja!
 Ernestine balanou a cabea, acrescentando:
 - Quer saber de uma coisa? Acho que o negcio pode 
perfeitamente dar certo!
 - E vai me ajudar? 
 Ernestine pensou por um momento. E depois falou suavemente:
 - Claro que a ajudarei.  a minha ltima oportunidade de 
sacanear Big Bertha.
 O servio de informaes da priso fervilhou com a notcia da 
fuga iminente de Tracy Whitney. Uma fuga era um evento que 
afectava todas as prisioneiras. Elas viviam indirectamente 
cada tentativa, desejando ter a coragem de execut-la 
pessoalmente. Mas havia os guardas, os ces e os helicpteros; 
e, ao final, os corpos das prisioneiras que eram trazidos de 
volta.

 Com a ajuda de Ernestine, o plano de fuga entrou rapidamente 
em execuo. Ernestine tirou as medidas de Tracy, Lola desviou 
o material necessrio para um vestido da oficina de costura, 
Paulita providenciou uma costureira em outro bloco para 
faz-lo. Um par de sapatos da priso foi roubado do 
almoxarifado e pintado para combinar com o vestido. Apareceram 
chapu, luvas e uma bolsa, como num passe de mgica.
 - Agora temos de arrumar alguns documentos de identidade para 
voc - informou Ernestine a Tracy. - Precisar de uns dois 
cartes de crdito e carteira de motorista.
 - Mas como eu poderia...
 Ernestine sorriu.
- Basta deixar tudo isso aos cuidados da velha Ernie 
Littlechap.
Na noite seguinte, Ernestine entregou a Tracy trs cartes de 
crdito, em nome de Jane Smith.
- Voc precisa agora de uma carteira de motorista.

Em algum momento, depois da meia-noite, Tracy ouviu a porta da 
cela sendo aberta. Algum entrara sorrateiramente. Tracy 
sentou-se em sua cama, instantaneamente de guarda. Uma voz 
sussurrou:
 - Whitney? Vamos embora.
 Tracy reconheceu a voz de Lillian, uma presa de confiana.
 - O que voc quer?
 A voz de Ernestine soou na escurido:
- Que tipo de criana idiota sua me criou? Cale a boca e no 
faa perguntas.
Lillian acrescentou, baixinho:
- Temos de agir depressa. Se formos tiraro o couro. Vamos 
logo.
- Para onde estamos indo? - perguntou Tracy, enquanto seguia 
Lillian pelo corredor escuro, na direco de uma escada.
 Elas subiram para o patamar superior. Depois de se 
certificarem de que no havia guardas por perto, seguiram 
apressadamente por um corredor, at a sala em que Tracy fora 
fotografada e tirara as impresses digitais. Lillian empurrou 
a porta, sussurrando:
 -  aqui.
 Tracy seguiu-a pelo interior da sala . Outra prisioneira j 
estava ali, esperando.
 - Encoste na parede.
 A reclusa parecia bastante nervosa. Tracy foi se postar junto 
 parede, o estmago todo contrado.
 - Olhe para a cmara. Tente parecer relaxada.
Muito engraado, pensou Tracy. Ela nunca se sentira to 
nervosa, em toda a sua vida. A cmara disparou.
- A fotografia ser entregue pela manh - disse a presa. -  
para sua carteira de motorista. E agora saiam daqui... 
depressa!
 Tracy e Lillian voltaram pelo mesmo caminho. No caminho,
 Lillian comentou.
 - Ouvi dizer que voc vai mudar de cela.
 Tracy sentiu um calafrio.
 - Como?
 - No sabia? Vai para a cela de Big Bertha.

Ernestine, Lola e Paulita estavam  espera quando Tracy voltou 
 cela.
- Como foi?
- Tudo bem.
 No sabia? Vai para a cela de Big Bertha.
- Seu vestido ficar pronto no sbado - informou Paulita. 

O dia da soltura de Ernestine. Esse  o meu prazo final, 
pensou Tracy. Ernestine sussurrou:
 - Temos tudo sob controle. O recolhimento da lavanderia no 
sbado  s duas horas da tarde. Voc tem de estar na sala de 
servio  uma e meia. No precisa se preocupar com o guarda. 
Lola o manter ocupado na sala ao lado. Lola e Paulita estaro 
l  sua espera. Paulita levar suas roupas. O documento de 
identidade estar na bolsa. Voc atravessar os portes da 
priso s duas e quinze. 
 Tracy sentiu alguma dificuldade em respirar. S falar sobre a 
fuga j a fazia tremer. Ningum se importa se a trazem de 
volta viva ou morta... Acham at que morta  melhor.
 Dentro de poucos dias ela estaria tentando a sua fuga para a 
liberdade. No tinha iluses. Todas as chances eram contra 
ela. Acabariam por encontr-la e traz-la de volta. Mas tinha 
uma coisa que ela jurara resolver primeiro.

O servio de informaes da priso sabia de tudo sobre a 
competio entre Ernestine Littlechap e Big Bertha por causa 
de Tracy. Agora que circulara a notcia de que Tracy seria 
transferida para a cela de Big Bertha, no era por acaso que 
ningum lhe mencionara o plano de fuga de Tracy. Afinal, Big 
Bertha no gostava de ouvir ms notcias. Era propensa com 
frequncia a confundir a notcia com a portadora e tratar a 
pessoa de acordo. Big Bertha s teve conhecimento do plano na 
prpria manh em que deveria ocorrer a fuga de Tracy. Foi-lhe 
revelado pela presa de confiana que, tiraram a fotografia de 
Tracy.
 Big Bertha recebeu a notcia num silncio ominoso. Seu corpo 
pareceu se tornar ainda maior, enquanto escutava.
 - A que horas? - foi tudo o que ela perguntou.
 - Esta tarde, s duas horas, Bert. Vo escond-la no fundo de 
um cesto de roupa suja.
 Big Bertha pensou a esse respeito por um longo tempo. Depois, 
procurou uma inspectora e disse:
- Preciso falar imediatamente com o director Brannigan.

Tracy no dormira durante a noite inteira. Sentia-se nauseada 
de tanta tenso. Os meses que passara na priso pareciam uma 
dzia de eternidades. Imagens do passado afloraram em sua 
mente enquanto estava deitada, os olhos perdidos na escurido.
Eu me sinto como uma princesa num conto de fadas, mame. No 
sabia que algum podia ser to feliz.
Com que ento voc e Charles querem casar.
Esto planeando uma lua-de-mel por quanto tempo?
Voc me baleou, sua puta estpida!
Sua me cometeu suicdio...
Eu nunca a conheci de verdade...
A fotografia do casamento de Charles sorrindo para a noiva. 
H quantos sculos atrs? A quantos planetas de distncia?

A campainha da manh ressoou pelo corredor como uma onda de 
choque. Tracy sentou no catre, inteiramente alerta. Ernestine 
observava-a.
 - Como est se sentindo, garota?
 - Muito bem - mentiu Tracy.
 Ela sentia a boca ressequida, o corao batia 
descompassadamente.

 - Ns duas estaremos saindo daqui hoje.
 Tracy encontrou dificuldade para engolir em seco.
 - Hum-hum...
- Tem certeza de que pode sair da casa do director por volta 
da uma e meia?
- No h problema. Amy sempre tira um cochilo depois do 
almoo.
 Paulita disse.
 - No pode se atrasar ou no dar certo.
 - Estarei l.
 Ernestine meteu a mo por baixo de seu colcho e tirou um 
rolo de notas.
 - Precisar de algum dinheiro para circular. So apenas 
duzentos dlares, mas daro para voc se afastar.
 - Ernie, eu no sei o que...
 - Ora, garota, basta calar a boca e pegar logo o dinheiro.

Tracy forou-se a comer alguma coisa ao caf da manh. A 
cabea latejava, cada msculo do corpo doa. Nunca conseguirei 
sobreviver at o final do dia, pensou ela. Tenho de conseguir 
aguentar firme durante todo o dia.
 Havia um silncio tenso e anormal na cozinha. Tracy 
compreendeu subitamente que era a causa para isso. Era o alvo 
de olhares furtivos e sussurros nervosos. Uma fuga estava 
prestes a acontecer e ela era a heroina do drama. Dentro de 
poucas horas estaria livre. Ou morta.
Ela levantou-se do caf da manh inacabado e foi para a casa 
do director Warden. Enquanto esperava que um guarda abrisse a 
porta do corredor, Tracy deparou com Big Bertha. A enorme 
sueca estava lhe sorrindo.
Ela ter uma grande surpresa, pensou Tracy.
Ela ser toda minha agora, pensou Big Bertha.

A manh passou to devagar que Tracy teve a impresso de que 
acabaria perdendo o juzo. Os minutos pareciam se arrastar 
interminavelmente. Ela leu para Amy, mas no tinha a menor 
idia do que estava lendo. Percebeu que a Sra. Brannigan 
observava da janela.
- Tracy, vamos brincar de esconde-esconde.
Tracy se achava nervosa demais para brincadeiras, mas no se 
atrevia a fazer qualquer coisa que pudesse despertar as 
suspeitas da Sra. Brannigan.
 - Claro. Por que voc no se esconde primeiro, Amy?
Estavam no jardim na frente do chal.  distncia, Tracy podia 
divisar o prdio em que ficava a sala de servio. Tinha de 
estar ali exactamente  uma e meia. Vestiria as roupas que lhe 
haviam sido feitas e 15 minutos depois estaria deitada no 
fundo do enorme cesto de roupa suja, coberta por uniformes. s 
duas horas o cesto seria posto no camio e levado para fora da 
priso, seguindo para acidadezinha prxima, onde se localizava 
a lavanderia.

- O motorista no pode ver o que acontece na traseira l do 
banco da frente. Quando o camio chegar  cidade e parar num 
sinal vermelho, basta abrir a porta e saltar, parecendo 
absolutamente calma, pegar um nibus para qualquer lugar que 
queira ir.
- Pode me ver? - gritou Amy.

Ela se escondera parcialmente por trs do tronco de uma 
magnlia. Levou a mo  boca para reprimir uma risadinha.
Sentirei saudade dela, pensou Tracy. Quando for embora, as 
duas pessoas de que eu terei saudade sero, uma sapato negra 
e careca e uma garotinha. Ela se perguntou o que Charles 
Stanhope III pensaria disso.
 - J vou procur-la - disse Tracy.

Sue Ellen observava a brincadeira do interior da casa. 
Parecia-lhe que Tracy se comportava de maneira estranha. Ela 
passara a manh inteira olhando a todo instante para o 
relgio, como se esperasse algum; seus pensamentos no 
estavam obviamente concentrados em Amy.
Devo falar com George sobre isso quando ele chegar para o 
almoo, decidiu Sue Ellen. Insistirei para que ele a 
substitua.

No jardim, Tracy e Amy brincaram de amarelinha por algum 
tempo, depois Tracy leu para Amy- E finalmente, graas a Deus, 
era meio-dia e meia, hora do almoo de Amy. E hora de Tracy 
entrar em aco.
Ela levou Amy para a casa.
 - Vou embora agora, Sra. Brannigan.
 - Como? hen... Ningum lhe disse, Tracy? Temos hoje uma 
delegao de visitantes importantes. Almoaro aqui e por isso 
Amy no tirar seu cochilo. Pode lev-la com voc.
 Tracy ficou imvel, fazendo um tremendo esforo para no 
gritar.
 - Eu... eu no posso fazer isso, Sra. Brannigan.
 Sue Ellen Brannigan empertigou-se.
 - Que histria  essa de que no pode fazer isso?
 Tracy percebeu a ira no rosto da mulher e pensou: No posso 
irrit-la. Ela chamar o director e serei levada de volta  
minha cela. Tracy forou um sorriso.
 - Eu estava querendo dizer... Amy no almoou. Ela sentir 
fome.
 - Mandei a cozinheira preparar uma cesta de piquenique para 
vocs duas. Podem sair para um passeio pela campina e comer 
l. Amy adora piqueniques... no  mesmo, querida?
 - Adoro piqueniques. - Ela olhou para Tracy com uma expresso 
suplicante. - Podemos ir, Tracy? Podemos?
No! Sim. Cuidado. Ainda pode dar certo.
Esteja na sala de servio  uma e meia. No se atrase.
 Tracy virou-se para a Sra. Brannigan.
 - A que horas... quer que eu traga Amy de volta?
 - Por volta das trs horas. A esta altura, eles j devero 
ter ido embora.
E o camio da lavanderia tambm! O mundo desmoronava sobre 
Tracy.
 - Eu...
 - Sente-se bem? Parece muito plida.
Era isso! Ela diria que estava doente. Iria para o hospital. 
Mas, nesse caso, haveriam de querer examin-la e a manteriam 
l. Nunca conseguiria se esquivar a tempo. Tinha de haver 
algum outro meio. 
 A Sra. Brannigan fitava-a fixamente.
 - Estou bem.

H alguma coisa errada com ela, concluiu Sue Ellen Brannigan. 
No d mais para adiar. Pedirei a George que arrume outra 
pessoa. Os olhos de Amy brilhavam de alegria.
 - Eu darei a voc os sanduches maiores, Tracy. E vamos nos 
divertir muito, no  mesmo?
 Tracy no tinha resposta a dar.

Era uma visita de surpresa. O prprio Governador William, 
Haber acompanhava o comit de reforma penitenciria. Era uma 
coisa que Brannigan tinha de suportar uma vez por ano.
 -  algo inevitvel ao cargo, George - explicara o 
governador. - Basta limpar o lugar, mandar as suas mulheres 
sorrirem bonito e teremos outro aumento no oramento.
 O chefe da guarda dera o aviso naquela manh:
 - Livrem-se de todos os txicos, facas e consolos.
 O Governador Haber e sua comitiva deveriam chegar s 10 
horas, inspeccionariam primeiro o interior da penitenciria, 
visitariam a fazenda e depois almoariam no chal do director.

Big Bertha estava impaciente. Fora informada ao apresentar o 
pedido para falar com o director:
- O director estar muito ocupado hoje. Amanh seria mais 
fcil. Ele...
- Foda-se amanh! - explodira Big Bertha. - Quero falar com 
ele agora.  importante.
 Havia poucas reclusas que poderiam escapar impunes a uma 
reaco assim, mas Big Bertha era uma delas. As autoridades da 
priso estavam perfeitamente a par de seu poder. Haviam 
testemunhado Big Bertha desencadear motins e tambm 
suspend-los. Nenhuma priso do mundo podia ser controlada sem 
a cooperao dos lderes dos reclusos... e Big Bertha era uma 
lder.

 Ela se encontrava sentada na sala de espera do gabinete do 
director h quase uma hora, o corpo imenso transbordando da 
cadeira. Ela  uma criatura de aspecto repulsivo, pensou a 
secretria do director. E me deixa arrepiada.
 - Quanto tempo mais? - indagou Big Bertha.
 - No deve demorar muito mais. Ele est com um grupo 
importante esta manh, muito ocupado.
 Big Bertha disse:
 - Pois ele vai ficar ainda mais ocupado.
 Ela olhou para o relgio. Faltavam 15 minutos para uma hora. 
Tempo suficiente.

Era um dia perfeito, sem nuvens e quente, uma brisa amena 
espalhava uma mistura de fragrncias pela campina verdejante. 
Tracy estendera uma toalha sobre a relva, perto do lago, Amy 
mastigava feliz um sanduche de salada de ovo. Tracy olhou 
para seu relgio. J era uma hora da tarde. Ela no pde 
acreditar. A manh se arrastara lentamente, mas a tarde 
parecia voar. Tinha de pensar em alguma coisa depressa ou o 
tempo a privaria de sua ltima chance de alcanar a liberdade.

Uma e dez. No gabinete de Brannigan, sua secretria desligou o 
telefone e disse a Big Bertha:
 - Sinto muito. O director diz que  impossvel falar com voc 
hoje. Marcaremos outra reunio para...
 Big Bertha levantou-se abruptamente.

 - Mas ele tem de me receber! ...
 - Passaremos a reunio para amanh.
 Big Bertha j ia dizer "Amanh ser tarde demais", mas 
conteve-se a tempo. Somente o prprio director podia saber o 
que ela estava fazendo. As delatoras costumavam sofrer 
acidentes fatais. Mas ela no tinha a menor inteno de 
desistir. No havia possibilidade de permitir que Tracy 
Whitney lhe escapasse. Ela foi para a biblioteca da priso, 
sentou-se numa das mesas compridas no fundo da sala. Escreveu 
um bilhete. Assim que a inspectora se afastou por um corredor, 
a fim de ajudar uma reclusa, Big Bertha largou o bilhete em 
sua mesa e se retirou.
Quando a inspectora voltou, encontrou o bilhete e abriu-o. Leu 
duas vezes:
 MELHOR VERIFICAR O CamiO DA LAVANDERIA
HOJE

No havia assinatura. Uma brincadeira? A inspectora no tinha 
meio de saber com certeza. Ela pegou o telefone.
 - Ligue-me com o superintendente dos guardas...

Uma e doze.
- Voc no est comendo - disse Amy. - Quer um pedao do meu 
sanduche?
 - No! Deixe-me em paz!
 Tracy no tivera inteno de falar to asperamente. Amy parou 
de comer.
 - Est zangada comigo, Tracy? Por favor, no fique zangada 
comigo. Eu a amo muito. E nunca fiquei zangada com voc.
Os olhos ternos da menina estavam cheios de mgoa.
- No estou zangada.
Ela estava no inferno.
- Tambm no sinto fome, se voc no sente. Vamos jogar bola, 
Tracy.
 Amy tirou a sua bola de borracha do bolso.
Uma e dezasseis. Ela deveria estar a caminho. Levaria pelo 
menos 15 minutos para chegar  sala de servio. Poderia chegar 
a tempo, se se apressasse. Mas no podia deixar Amy sozinha. 
Tracy olhou ao redor. Avistou  distncia um grupo de presas 
de confiana, colhendo os produtos da plantao. E no mesmo 
instante Tracy compreendeu o que ia fazer.
 - No quer jogar bola, Tracy?
 Tracy levantou-se.
 - Quero, sim. Vamos fazer um jogo novo. Quem consegue jogar a 
bola mais longe. Eu jogarei primeiro e depois ser a sua vez. 
 Tracy pegou a bola de borracha dura e jogou o mais longe que 
podia, na direco das trabalhadoras.
 - Puxa, foi sensacional! - comentou Amy, com genuna 
admirao. -  um bocado longe.
 - Vou buscar a bola - disse Tracy. - Fique esperando aqui.
 E no instante seguinte ela estava correndo, correndo por sua 
vida, os ps voando pelos campos. Uma e dezoito. Se atrasasse 
um pouco, esperariam por ela. Ou no? Tracy correu ainda mais 
depressa. Por trs dela, ouviu Amy gritando, mas no deu 
ateno. As mulheres que trabalhavam na plantao se 
deslocavam agora na outra direco. Tracy gritou-lhes e elas 
pararam. Estava ofegante quando alcanou-as.
 - Algum problema? - perguntou uma delas.

 - No... nada. - Tracy ofegava, lutando para respirar. - A 
garotinha l atrs. Uma de vocs cuide dela. Tenho algo 
importante para fazer e...
 Ela ouviu seu nome ser chamado  distncia e virou-se. Amy 
estava em cima do muro de concreto que cercava o lago. E 
acenava. 
- Olhe para mim, Tracy.
 - No! - gritou Tracy. - Desa da!
 E enquanto Tracy observava, horrorizada, Amy perdeu o 
equilbrio e mergulhou no lago. 
 - Oh, Deus!
 O sangue esvaiu-se do rosto de Tracy. Ela tinha uma opo a 
fazer... s que no havia qualquer opo. No posso ajud-la. 
No agora. Algum mais a salvar. Eu tenho de salvar a mim 
mesma. Tenho de sair deste lugar ou morrerei. Era uma e vinte.
 Tracy virou-se e recomeou a correr, mais depressa do que 
jamais o fizera em toda a sua vida. As outras chamaram-na, mas 
ela no lhes deu ateno. Voava pelo ar, sem perceber que 
perdera os sapatos, sem se importar que o cho estivesse lhe 
cortando os ps. O corao batia forte, os pulmes pareciam 
prestes a estourar, mas ela se obrigava a correr cada vez mais 
depressa. Alcanou o muro em torno do lago e pulou em cima. L 
embaixo, podia avistar Amy na gua profunda e aterradora, 
debatendo-se para permanecer  tona. Sem um segundo de 
hesitao, Tracy pulou atrs dela. E, no instante em que bateu 
na gua, Tracy pensou: Oh, meu Deus! No sei nadar...

LIVRO DOIS

12

Nova Orleans
SEXTA-FEIRA, 25 DE AGOSTO - 10 HORAS

Lester Torrance, um caixa do First Mercharits Bank de Nova 
Orleans, orgulhava-se de duas coisas: suas proezas sexuais com 
as mulheres e sua capacidade de avaliar os clientes. Lester 
era um homem que se aproximava dos 50 anos, magro, rosto 
plido, um bigode de Tom Selleck, suias compridas. J fora 
preterido duas vezes numa promoo; em represlia, Lester 
usava o banco como um servio de encontros pessoa is. Podia 
reconhecer vigaristas a um quilmetro de distncia e gostava 
de tentar persuadi-las a lhe conceder seus favores de graa. 
As vivas solitrias eram presas especialmente fceis. 
Apresentavam-se em todos os formatos, idades e estados de 
desespero, mais cedo ou mais tarde surgiam no guinche de 
Lester. Se estavam temporariamente a descoberto, Lester se 
mostrava compreensivo e retardava os cheques que chegavam pela 
compensao. Em troca, no poderiam talvez ter um tranquilo 
jantar a ss? Muitas de suas clientes lhe solicitavam ajuda e 
confidenciavam segredos deliciosos: Precisavam de um 
emprstimo sem o conhecimento do marido... Queriam manter 
confidenciais determinados cheques que haviam emitido... 
Estavam cogitando de um divrcio; Lester no poderia ajudar a 
encerrar imediatamente a conta conjunta?... Lester mostrava-se 
sempre ansioso em agradar. E em ser agradado.
 Lester compreendeu que tirara a sorte grande naquela manh de 
sexta-feira em particular. Viu a mulher no momento em que ela 
passou pela porta do banco. Era absolutamente espectacular. 
Tinha cabelos pretos lustrosos caindo pelos ombros, usava uma 
saia e uma suter justas que delineavam um corpo que faria 
inveja a uma corista de Las Vegas.
 Havia quatro caixas no banco e os olhos da jovem se 
deslocaram de um guinche para outro, como se procurasse ajuda. 
Quando ela olhou para Lester, ele acenou com a cabea 
ansiosamente e presenteou-a com um sorriso encorajador. Ela se 
aproximou de seu guinche, como Lester sabia que aconteceria.
- Bom dia - disse Lester, efusivamente. - Em que posso 
servi-la?
 Ele podia ver os mamilos se comprimindo contra a suter de 
cashmere e pensou: Meu bem, quanta coisa eu gostaria de fazer 
por voc!
 - Receio estar com um problema - disse a mulher, suavemente.
 Ela possua o mais delicioso sotaque sulista que Lester j 
ouvira.
 -  para isso que estou aqui - disse ele, exuberante. - Para 
resolver problemas.
- Espero que sim. Infelizmente, fiz uma coisa horrvel.
 Lester ofereceu-lhe o seu melhor sorriso paternal, o sorriso 
pode-contar-comigo.
 - No consigo acreditar que algum to adorvel como voc 
tenha feito alguma coisa horrvel.

 - Mas eu fiz! - Os olhos castanhos suaves estavam arregalados 
pelo pnico. - Sou a secretria de Joseph Romano. Ele me 
mandou providenciar um novo talo de cheques de sua conta h 
uma semana e eu simplesmente esqueci. Os cheques agora 
acabaram e no sei o que ele far comigo quando descobrir que 
no providenciei outro talo.
 A explicao saiu num mpeto suave, aveludado. Lester 
conhecia muito bem o nome de Joseph Romano. Era um importante 
cliente do banco, embora mantivesse quantias relativamente 
reduzidas em sua conta. Todos sabiam que o seu verdadeiro 
dinheiro era "lavado" em outros lugares.
Ele certamente tem um excelente gosto em matria de 
secretrias, pensou Lester, tornando a sorrir.
- Ora, isso no  to srio assim, Sra....
 - Senhorita Hartford... Lureen Hartford.
Senhorita Era o seu dia de sorte. Lester pressentiu que tudo 
correria de maneira esplndida.
- Pedirei imediatamente um novo talo de cheques. Dever o 
receber dentro de duas ou trs semanas e...
Ela deixou escapar um pequeno gemido, um som que pareceu a 
Lester conter uma promessa infinita.
- Oh, mas isso j seria tarde demais e o Sr. Romano anda muito 
zangado comigo! No consigo manter meus pensamentos 
concentrados no trabalho, entende?
Ela inclinou-se para a frente, os seios tocando o guinche, e 
acrescentou, num sussurro:
- Se pudesse dar um jeito de apressar o talo, eu pagaria um 
preo extra.
Lester disse, pesaroso: 
- Infelizmente, Lureen, seria impossvel...
Ele parou de falar percebendo que ela estava  beira das 
lgrimas.
 - Para dizer a verdade, isso pode custar meu emprego. Por 
favor... farei qualquer coisa.
As palavras soaram como msica nos ouvidos de Lester.
 - Darei um jeito, Lureen. Pedirei um prazo especial e poder 
receber na segunda-feira. Est bom assim?
 - Oh, voc  maravilhoso!
 A voz dela transbordava de gratido.
 - Mandarei para o escritrio e...
 - Seria melhor se eu viesse buscar pessoalmente. No quero 
que o Sr. Romano saiba como fui estpida.
 Lester sorriu, indulgentemente.
 - No tem nada de estpida, Lureen. Todos esquecemos s vezes 
de algumas coisas.
 Ela murmurou:
 - Nunca o esquecerei. At segunda-feira.
 - Estarei  sua espera.
Seria preciso estar com as duas pernas quebradas para que ele 
ficasse em casa. Ela presenteou-o com um sorriso deslumbrante 
e saiu do banco, andando devagar, oferecendo um espectculo 
inesquecvel. Lester sorria ao se inclinar sobre um arquivo, 
verificando o nmero da conta de Joseph Romano e telefonando 
para pedir outro talo de cheques.

O hotel na Carmen Street no se distinguia de uma centena de 
outros hotis em Nova Orleans e fora justamente por isso que 
Tracy o escolhera. Ela ocupava um quarto pequeno, com uma 
decorao ordinria, h uma semana. Em comparao com a cela 
na penitenciria, era um palcio para ela.

 Ao voltar do encontro com Lester, ela tirou a peruca preta, 
passou os dedos por seus prprios cabelos abundantes, removeu 
as lentes de contacto e limpou com creme a maquilhagem escura. 
Sentou na nica cadeira no quarto e respirou fundo. Tudo 
estava correndo bem. Fora fcil descobrir onde Joe Romano 
tinha a sua conta bancria. Tracy verificara o cheque 
cancelado do esplio de sua me, emitido por Joe Romano.
Joe Romano? Voc no pode tocar nele, dissera Ernestine.
Pois Ernestine estava enganada. Joe Romano era apenas o 
primeiro. Os outros se seguiriam. Um a um.
 Ela fechou os olhos e reconstituiu o milagre que a levara at 
ali...

Ela sentiu as guas frias e escuras fechando-se sobre a sua 
cabea. Estava se afogando, dominada pelo terror. Mergulhou e 
suas mos encontraram a criana, agarrando-a e puxando-a para 
a superfcie. Amy debateu-se em pnico cego para se 
desenvencilhar, tornando a arrastar as duas para o fundo, 
sacudindo braos e pernas freneticamente. Os pulmes de Tracy 
pareciam prestes a estourar. Ela lutou para emergir daquele 
tmulo de gua, agarrando a menina firmemente. Sentiu que suas 
foras se desvaneciam. No vamos conseguir, pensou ela. 
Estamos perdidas. Vozes chamavam e ela sentiu o corpo de Amy 
escapar de seus braos. E gritou:
- Oh, Deus, no!
 Mos fortes seguravam a cintura de Tracy e uma voz disse:
 - Est tudo bem agora. Fique calma. J acabou.
 Tracy olhou ao redor, desesperada,  procura de Amy. 
Descobriu a menina s e salva nos braos de um homem. E 
momentos depois as duas foram retiradas da gua profunda e 
cruel...
O incidente no teria merecido mais que um pargrafo numa 
pgina interna dos jornais da manh se no fosse pelo fato de 
uma prisioneira que no sabia nadar ter arriscado a vida para 
salvar a filha do director. Da noite para o dia, os jornais e 
as emissoras de televiso transformaram Tracy numa heroina. O 
prprio Governador Haber foi ao hospital da priso junto com o 
director Brannigan para visitar Tracy.
 - Foi um ato de extrema coragem de sua parte - disse o 
director. - A Sra. Brannigan e eu queremos que saiba que, 
somos profundamente gratos.
 A voz dele estava embargada de emoo. Tracy ainda se sentia 
fraca e abalada da emoo.
 - Como est Amy?
 - Ela ficar boa.
 Tracy fechou os olhos. Eu no poderia suportar se alguma 
coisa acontecesse com a menina, pensou ela. Lembrou-se de sua 
frieza, quando tudo o que a menina queria era amor. E 
sentiu-se envergonhada. O incidente lhe custara a chance de 
escapar, mas Tracy sabia que, nas mesmas circunstncias, faria 
tudo de novo.
 Houve um inqurito sumrio sobre o acidente.
 - A culpa foi minha - disse Amy ao pai. - Estvamos jogando 
bola. Tracy correu atrs da bola e me disse para esperar. Mas 
eu subi no muro para poder ver Tracy melhor, acabei caindo na 
gua. Mas Tracy me salvou, papai.


Mantiveram Tracy em observao no hospital naquela noite. Ela 
foi conduzida ao gabinete do director Brannigan na manh 
seguinte. Os meios de comunicao a aguardavam. Sabiam 
reconhecer uma histria de interesse humano quando a 
encontravam e l estavam correspondentes da UPI e Associated 
Press. A emissora de televiso local mandara uma equipe.
 A notcia do herosmo de Tracy se espalhou naquela tarde. O 
relato do seu ato de salvao foi divulgado pela televiso 
nacional e transformou-se numa autntica bola de neve. Time, 
Newsweek, People e centenas de jornais de todo o pas 
publicaram a histria.  medida que a cobertura da imprensa 
continuava, cartas e telegramas se despejaram sobre a 
penitenciria, exigindo o perdo de Tracy Whitney.
O Governador Haber discutiu o assunto com o director 
Brannigan. 
- Tracy Whitney est aqui por crimes graves - comentou o 
director.
O governador ficou pensativo.
- Mas ela no tinha antecedentes, no  mesmo, George?
- No, senhor, no tinha.
- No me importo de lhe contar: estou sofrendo uma tremenda 
presso para fazer alguma coisa por ela.
 - Eu tambm, governador.
-  claro que no podemos deixar o pblico nos dizer como 
devemos dirigir nossas prises, no  mesmo?
 - Claro que no.
 - Por outro lado, a garota Whitney certamente demonstrou uma 
coragem extraordinria. E se tornou uma heroina.
- No resta a menor dvida.
 O governador fez uma pausa para acender um charuto.
 - Qual  a sua opinio, George?
George Brannigan escolheu suas palavras com todo cuidado. 
- Deve saber, governador, que tenho um interesse muito 
especial neste caso. Mas, mesmo pondo isso de lado, no creio 
que Tracy Whitney seja do tipo criminoso. No posso acreditar 
que ela constitusse uma ameaa  sociedade, se estivesse 
solta no mundo. Minha recomendao  que lhe conceda o perdo.
 O governador, que estava prestes a anunciar sua candidatura a 
um novo mandato, sabia reconhecer uma boa idia quando a 
ouvia.
- Vamos esperar mais um pouco.
Em poltica, a escolha do momento certo era tudo.

Depois de conversar sobre o assunto com o marido, Sue Ellen 
disse a Tracy:
 - O director Brannigan e eu gostaramos muito que viesse 
morar no chal. Temos um quarto vago nos fundos. Voc pode 
tomar conta de Amy a tempo integral.
 - Obrigada - disse Tracy, sinceramente agradecida. - Nada 
poderia me dar mais prazer.

Tudo corria  perfeio. No apenas Tracy no precisava mais 
passar a noite trancafiada numa cela, mas tambm o seu 
relacionamento com Amy mudou completamente. Amy adorava Tracy 
e Tracy retribua. Gostava da companhia daquela garota 
inteligente e amorosa. Divertiam-se com brincadeiras antigas, 
assistiam a filmes de Disney pela televiso, liam juntas. Era 
quase como ser parte da famlia.
 Mas sempre que tinha de fazer alguma coisa nas celas, Tracy 
invariavelmente esbarrava em Big Bertha.

 - Voc  uma sacana de sorte - resmungava Big Bertha. - Mas 
um dia, muito em breve, voltar para c, junto das presas 
comuns. Estou trabalhando para isso, littbam.

Trs semanas depois da salvao de Amy, Tracy brincava com a 
menina no jardim da frente quando Sue Ellen Brannigan saiu 
apressadamente da casa. Parou por um momento, observando-as, 
antes de dizer:
- Tracy, o director acaba de telefonar. Gostaria de lhe falar 
imediatamente em seu gabinete.
 Tracy foi invadida por um medo repentino. Aquilo significava 
que seria transferida de volta  priso? Big Bertha usara a 
sua influncia para conseguir isso? Ou a Sra. Brannigan 
chegara  concluso de que Amy e Tracy estavam se tornando 
chegadas demais?
 - Est bem, Sra. Brannigan.
 O director esperava na porta de sua sala quando Tracy chegou, 
devidamente escoltada.
 -  melhor voc sentar - disse ele.
 Tracy tentou descobrir uma indicao do seu destino pelo tom 
de voz de Brannigan.
 - Tenho notcias para voc. - Ele fez uma pausa, dominado por 
uma emoo que Tracy no podia compreender. - Acabei de 
receber uma ordem do governador da Louisiana, concedendo-lhe o 
perdo, a entrar em vigor imediatamente.
 Santo Deus, ele disse mesmo o que julgo ter ouvido? Tracy 
ficou com medo de falar.
 - Quero que saiba que isso no est sendo feito porque foi a 
minha filha que voc salvou - continuou o director. - Voc 
agiu instintivamente, como qualquer cidado decente teria 
feito. No h a menor possibilidade de eu acreditar que voc 
seria uma ameaa  sociedade.
 Ele fez uma pausa, sorrindo, antes de, acrescentar:
- Amy sentir muita saudade de voc. E ns tambm.
 Tracy no tinha palavras. Se o director soubesse a verdade... 
que seus homens a estariam caando como uma fugitiva, se o 
acidente no tivesse ocorrido...
 - Ser libertada depois de amanh.
 Tracy ainda no era capaz de absorver.
 - Eu... eu no sei o que dizer...
 - No precisa dizer nada. Todos aqui sentem muito orgulho de 
voc. A Sra. Brannigan e eu esperamos que faa grandes coisas 
l fora.
 Ento era verdade: Ela estava livre. Tracy sentia-se to 
fraca que teve de se apoiar na mesa do director. Mas sua voz 
era segura quando finalmente falou:
 - H muitas coisas que eu quero fazer, director Brannigan.

No seu ltimo dia na priso, Tracy foi procurada por uma 
companheira do seu antigo bloco.
 - Ento voc vai sair.
 -  verdade.
 A mulher, Betty Franciscus, tinha quarenta e poucos anos, 
ainda era atraente, com uma aura de orgulho.
 - Se precisar de ajuda l fora, h um homem em Nova York que 
deve procurar. O nome dele  Conrad Morgan. - Ela entregou um 
papel a Tracy. - Ele se empenha na reforma criminal. E gosta 
de ajudar as pessoas que j passaram pela priso.
 - Obrigada, mas acho que no precisarei...
 - Nunca se sabe. Guarde o endereo.

 Duas horas depois Tracy passava andando pelos portes da 
penitenciria, diante das cmaras de televiso. Ela no 
falaria com os reprteres. Mas quando Amy se desenvencilhou da 
me e correu para se jogar nos braos de Tracy, as cmaras 
enlouqueceram. Foi a imagem que apareceu em todos os servios 
noticiosos daquela noite.
 A liberdade para Tracy no era mais simplesmente uma palavra 
abstracta. Era uma coisa concreta, uma condio fsica a ser 
desfrutada e saboreada. Significava respirar ar fresco, 
privacidade, no entrar em fila para comer, no ouvir 
campainhas. Significava banhos quentes e sabonetes perfumados, 
lingerie macia, bonitos vestidos, sapatos de saltos altos. 
Significava ter um nome ao invs de um nmero. Liberdade 
significava escapar de Big Bertha e bandos de estupradoras, da 
terrvel monotonia da rotina da priso.
 A liberdade recm-descoberta de Tracy exigiu que ela se 
habituasse aos poucos. Andando por uma rua, ela tomava cuidado 
para no esbarrar em ningum. Na penitenciria, esbarrar em 
outra presa podia ser a fasca que desencadearia um incndio. 
O mais difcil para Tracy era se ajustar  ausncia de ameaa 
constante. Ningum a ameaava.
 Ela estava livre para executar seus planos.

Em Filadlfia, Charles Stanhope III viu Tracy pela televiso, 
saindo da penitenciria. Ela ainda  linda, pensou ele. 
Observando-a, pareceu-lhe impossvel que ela tivesse cometido 
os crimes pelos quais fora condenada. Ele olhou para sua 
esposa exemplar, sentada placidamente no outro lado da sala, 
tricotando. Ser que cometi um erro?

Daniel Cooper viu Tracy no servio noticioso da televiso em 
seu apartamento em Nova York. Manteve-se totalmente 
indiferente ao facto dela sair da priso. Desligou o aparelho 
e voltou a se concentrar no arquivo em que trabalhava.

Joe Romano soltou uma risada quando assistiu  notcia da 
televiso. A garota Whitney tinha muita sorte. Aposto que a 
priso foi uma boa coisa para ela. Deve estar com o maior 
teso a esta altura. Talvez um dia desses tornemos a nos 
encontrar.
 Romano estava muito satisfeito consigo mesmo. J entregara a 
um receptador o Renoir, que fora comprado por um coleccionador 
particular de Zurique. Meio milho de dlares da seguradora, 
outros 250 mil do receptador. Naturalmente, Romano dividira o 
dinheiro com Anthony Orsatti. Era muito meticuloso em suas 
transaces com Orsatti, pois j testemunhara o que acontecia 
com as pessoas que no eram correctas em seus negcios com o 
chefo de Nova Orleans.

Na segunda-feira, ao meio-dia, apresentando-se como Lureen 
Hartford, Tracy voltou ao First Merchants Bank de Nova 
Orleans, quela hora, apinhado de clientes. Diversas pessoas 
formavam uma fila diante do guinche de Lester Torrance. Tracy 
entrou na fila. Quando a viu, Lester ficou radiante e acenou 
com a cabea. Ela era ainda mais fina do que ele se lembrara. 
E quando Tracy chegou finalmente ao guinche, Lester disse, 
exultante:
- No foi fcil, Lureen, mas fiz isso por voc.

Um sorriso ardente iluminou o rosto de Lureen.
- Voc  maravilhoso.
- Est aqui mesmo. - Lester abriu uma gaveta, retirou o talo 
de cheques que guardara cuidadosamente e entregou a ela. - 
Aqui esto. So quatrocentos cheques. Ser suficiente?
- Oh, mais do que suficiente, a menos que o Sr. Romano resolva 
fazer uma orgia de preenchimento de cheques. - Ela fitou 
Lester nos olhos e suspirou. - Salvou-me a vida.
 Lester sentiu uma agradvel comicho na virilha.
 - Acredito que as pessoas devem ser prestativas com as 
outras. No concorda, Lureen?
 - Tem toda a razo, Lester.
 - Voc tambm deveria abrir uma conta aqui, Lureen. Eu 
cuidaria bem de voc. Muito bem mesmo.
 - Sei que cuidaria - respondeu Tracy, suavemente.
 - Por que ns dois no conversamos a esse respeito durante um 
jantar sossegado em algum lugar?
- Eu adoraria.
- Onde posso encontr-la, Lureen?
- Eu telefonarei para si, Lester.
Ela se afastou.
- Espere um...
O cliente seguinte j se adiantara, entregando ao frustrado 
Lester um saco com moedas.
 No meio do banco havia quatro mesas, em que se encontravam 
fichas de depsitos em branco. Todas as mesas se achavam 
ocupadas por pessoas empenhadas em preencher as fichas. Tracy 
afastou-se para um ponto em que Lester no poderia v-la. 
Assim que um cliente abriu vaga numa mesa, Tracy ocupou o seu 
lugar. Lester lhe entregara oito tales de cheques. Mas no 
era nos cheques que Tracy estava interessada e sim nas fichas 
de depsitos, no fundo dos tales.
Ele separou cuidadosamente as fichas de depsitos dos cheques; 
em menos de trs minutos tinha 80 fichas de depsitos na mo. 
Certificando-se de que no era observada, Tracy colocou 20 
fichas de depsitos na estante de metal sobre a mesa.
 Deslocando-se para a mesa seguinte, ela deixou ali outras 20 
fichas de depsitos. Em poucos minutos distribura todas pelas 
diversas mesas. As fichas de depsitos estavam em branco, mas 
cada uma continha um cdigo magnetizado na base; o computador 
creditaria automaticamente cada depsito na conta de Joe 
Romano. Pela sua experincia trabalhando num banco, Tracy 
sabia que em dois dias todas as fichas de depsitos 
magnetizadas teriam sido usadas e que transcorreriam pelo 
menos cinco dias antes que a confuso fosse descoberta. Isso 
lhe proporcionaria tempo mais do que suficiente para o que 
planeava fazer.
 Voltando para o hotel, Tracy largou os cheques em branco numa 
cesta de lixo. O Sr. Joe Romano no precisaria deles.
 A prxima parada de Tracy foi na Agncia de Viagens Holiday 
de Nova Orleans. A moa por trs do balco perguntou-lhe:
- O que deseja?
 - Sou a secretria de Joseph Romano. O Sr. Romano quer fazer 
uma reserva para o Rio de Janeiro. Tenciona viajar nesta 
sexta-feira.
 - S uma passagem?
 - Isso mesmo. Primeira classe. Uma poltrona no corredor. E na 
seco de fumantes, por favor.

 - Passagem de ida e volta?
 - S de ida.
 A moa virou-se para o terminal de computador. E informou 
alguns segundos depois:
 - Est tudo acertado. Uma poltrona em primeira classe no Voo 
728 da Pan American, partindo s 6 e 35 da tarde de 
sexta-feira, com uma rpida escala em Miami.
 - Ele ficar muito satisfeito - assegurou Tracy.
 - So 1.929 dlares. Pagamento  vista ou facturado?
 - O Sr. Romano sempre paga  vista. Na entrega. Pode fazer o 
favor de enviar a passagem a seu escritrio na quinta-feira?
 - Podemos entregar amanh, se quiser. 
 - O Sr. Romano no estar no escritrio amanh. Pode deixar 
para as onze horas de quinta-feira?
 - Claro. Qual  o endereo?
 - Sr. Joseph Romano, Poydras Street, 217, Sute 408.
 A mulher anotou.
 - Est certo. Providenciarei para que a passagem seja 
entregue na manh de quinta-feira.
 - s onze horas em ponto - disse Tracy. - Obrigada.
 A meio quarteiro de distncia ficava a Loja de Malas Acme. 
Tracy observou a vitrine antes de entrar. Um vendedor 
aproximou-se.
 - Bom dia. Em que posso servi-la?
 - Quero comprar uma mala para meu marido.
 - Pois veio ao lugar certo. Estamos fazendo uma liquidao. 
Temos algumas malas ptimas e baratas...
- No, obrigada.
Tracy encaminhou-se para um mostrurio de malas Vuitton, 
encostado numa parede.
 - Isto  mais o que estou procurando. Vamos fazer uma viagem.
 - Estou certo que ele ficar satisfeito com uma destas. Temos 
trs tamanhos diferentes. Qual deles...
 - Levarei uma mala de cada tamanho.
 - Ahn... ptimo. Pagamento  vista ou a prazo?
 - Contra entrega. O nome  Joseph Romano. Poderia entregar no 
escritrio de meu marido na manh de quinta-feira?
 - Claro, Sra. Romano.
 - s onze horas?
 - Providenciarei tudo pessoalmente.
 Como s agora se lembrasse disso, Tracy acrescentou:
 - Ah, sim.... poderia pr as iniciais de meu marido nas 
malas... em ouro? J. R.
 - Claro. Ser um prazer, Sra. Romano.
 Tracy sorriu e deu o endereo do escritrio.
 Numa agncia prxima da Westem Union, Tracy mandou um 
telegrama para o Rio Othon. Palace, na Praia de Copacabana, no 
Rio de Janeiro:
 QUERO RESERVAR SUTE, MAIS CARA A PARTIR DESTA
 SEXTA-FEIRA POR DOIS MESES. CONFIRMEM POR FAVOR
 EM TELEGRAMA A COBRAR. JOSEPH ROMANO, POYDRAS
 STREET, 217, SUTE, 408, NOVA ORLEANS, LOUISIANA,
 EUA.

 Tracy telefonou para o banco trs dias depois e pediu para 
falar com Lester Torrance. Ao ouvir a voz dele, ela disse 
suavemente: 

 - Provavelmente no se lembra de mim, Lester, mas aqui  
Lureen Hartford, a secretria do Sr. Romano...
No se lembrava dela? A voz de Lester soou extremamente 
ansiosa:
 - Mas  claro que me lembro de voc, Lureen! Eu...
 - Lembra mesmo? Ora, eu me sinto lisonjeada. Deve conhecer 
uma poro de pessoas.
 - Mas no como voc. No esqueceu o nosso compromisso para o 
jantar, no  mesmo?
 - No pode imaginar como estou ansiosa por essa oportunidade. 
Poderia ser na prxima tera-feira, Lester?
- Claro!
- Ento est combinado. Oh, mas que idiota que eu sou! Voc me 
deixou to excitada que quase esquecia o motivo para o 
telefonema. O Sr. Romano pediu-me para conferir seu saldo. 
Podia me dizer a cifra?
 - No h problema.
 Normalmente, Lester Torrance teria pedido a data de 
nascimento ou alguma forma de identificao da interlocutora. 
Mas, naquele caso, isso no era necessrio. De jeito nenhum. 
- Espere um instante, Lureen.
 Ele foi at o arquivo e puxou a ficha de Joseph Romano. Teve 
uma surpresa. Houvera diversos depsitos na conta de Romano 
durante os ltimos dias. Romano nunca mantivera tanto dinheiro 
em sua conta antes. Lester Torrance se perguntou o que estaria 
acontecendo. Obviamente, alguma transao em larga escala. 
Arrancaria toda a histria quando jantasse com Lureen 
Hartford. Uma pequena informao confidencial nunca fazia mal. 
Ele voltou ao telefone.
 - Seu patro vem nos mantendo bastante ocupados. Ele tem 
pouco mais de trezentos mil dlares em sua conta.
 - Isso  ptimo. Confere com os meus clculos.
 - Ele no gostaria que transferssemos uma parte para uma 
conta de investimentos? No haver juros como est e eu 
poderia...
- No. Ele quer deixar o dinheiro assim mesmo.
 - Muito bem.
 - Obrigada, Lester. Voc  maravilhoso.
 - Ei, espere um momento! Devo telefonar para o seu escritrio 
a fim de acertar o jantar na tera-feira?
- Eu telefonarei para voc.
 A ligao foi cortada.

O moderno prdio do escritrio pertencente a Anthony Orsatti 
ficava na Poydras Street entre a beira do rio e o gigantesco 
Louisiana Superdome. Os escritrios da Pacific Import-Export 
Company situavam-se no quarto andar. Numa extremidade ficava a 
sala de Orsatti e na outra a de Joe Romano. O espao entre as 
duas era ocupado por quatro jovens recepcionistas, sempre 
disponveis  noite para divertir os amigos e os associados de 
negcios de Anthony Orsatti. Na frente da sute de Orsatti 
sentavam-se dois homens enormes, cujas vidas eram devotadas a 
guardar o chefe. Tambm serviam como motoristas, massagistas e 
mensageiros do capo.
Orsatti estava em sua sala naquela manh de quinta-feira, 
conferindo as receitas do dia anterior do jogo dos nmeros, 
apostas em cavalos, prostituio e uma dzia de outras 
actividades lucrativas controladas pela Pacific Import-Export 
Company. 


Anthony Orsatti se achava prximo dos 70 anos. Era um homem de 
estranha constituio, com um tronco enorme e largo, pernas 
curtas e finas, que pareciam ter sido projectadas para um 
homem menor. De p, ele parecia um sapo sentado. Tinha o rosto 
coberto por uma teia irregular de cicatrizes que poderia ter 
sido feita por uma aranha embriagada, uma boca descomunal, 
olhos pretos e empapuados. Era totalmente calvo desde a idade 
de 15 anos, depois de um ataque de alopecia, usava uma peruca 
preta desde ento. No se ajustava a ele, ficava inteiramente 
deslocado, mas durante todos aqueles anos ningum se atrevera 
a fazer qualquer comentrio, na sua frente. Os olhos frios de 
Orsatti eram os de um jogador, nada deixando transparecer; o 
rosto, a no ser quando em companhia das cinco filhas, s 
quais adorava, era inexpressivo. A nica pista para as emoes 
de Orsatti estava na voz. Tinha a voz rouca e dissonante, 
resultado de um fio que fora apertado em seu pescoo quando 
contava 21 anos e o deram por morto. Os dois homens que 
cometeram esse erro apareceram no necrotrio na semana 
seguinte, Quando Orsatti ficava realmente furioso, sua voz 
baixava para um sussurro estrangulado que mal podia ser 
ouvido.
 Anthony Orsatti era um rei que comandava seus domnios com 
subornos, armas de fogo e chantagem. Controlava Nova Orleans e 
a cidade lhe prestava homenagem sob a forma de riquezas 
incalculveis. Os capos das outras famlias do pas 
respeitavam-no e constantemente, solicitavam os seus 
conselhos.
No momento, Anthony Orsatti achava-se num Animo benevolente. 
tomara o caf da manh com sua amante, a quem mantinha num 
prdio de apartamentos que possua em Lake Vista. Visitava-a 
trs vezes por semana e a visita daquela manh fora 
particularmente satisfatria. Ela fazia-lhe coisas na cama que 
nenhuma outra mulher jamais sonhara. Orsatti acreditava 
sinceramente que isso acontecia porque ela o amava muito. Sua 
organizao funcionava com perfeio. No havia qualquer 
problema, porque Anthony Orsatti sabia como resolver as 
dificuldades antes que se transformassem em problemas. Ele 
explicara um dia sua filosofia a Joe Romano:
- Nunca permita que um pequeno problema se transforme num 
grande problema, Joe, ou crescer como a porra de uma bola de 
neve descendo a ladeira. Tem um capito de delegacia que acha 
que deve receber uma grana maior... pois acabe com ele, 
entende? Nada de bola de neve. Tem algum cara de Chicago que 
pede permisso para abrir uma pequena operao sua aqui em 
Nova Orleans? Sabe que muito em breve essa "pequena" operao 
vai se tornar uma grande operao e comear a reduzir seus 
lucros. Pois diga que sim e quando ele chegar aqui acabe com o 
filho da puta. Nada de bola de neve. Entende a coisa?
Joe Romano entendia.
Anthony Orsatti amava Romano. Era como um filho para ele. 
Orsatti o recolhera quando Romano era um delinquente juvenil, 
roubando bbados nos becos. Treinara Romano pessoalmente e 
agora o garoto podia se igualar aos melhores. Era rpido, 
esperto e honesto. Em dez anos Romano subira ao posto de 
lugar-tenente de Anthony Orsatti. Supervisionava todas as 
operaes da Famlia e se reportava somente a Orsatti

 Lucy, a secretria particular de Orsatti, bateu na porta e 
entrou na sala. Ela tinha 24 anos, diploma universitrio, com 
um rosto e um corpo que haviam ganhado concursos de beleza 
locais. Orsatti gostava de ter finas mulheres ao seu redor.
 Ele olhou para o relgio em sua mesa. Eram 10 e 45. Dissera a 
Lucy que no queria interrupes antes do meio-dia. Orsatti 
franziu o rosto.
 - O que ?
 - Desculpe incomod-lo, Sr. Orsatti. Uma tal de Senhorita 
Gigi Dupres est ao telefone. Ela parece histrica, mas no 
quer me dizer o que deseja. Insiste em lhe falar pessoalmente. 
Achei que poderia ser importante.
Orsatti ficou imvel por um momento, passando o nome pelo 
computador em seu crebro. Gigi Dupres? No podia se lembrar e 
orgulhava-se de possuir uma mente que no esquecia coisa 
alguma. Por curiosidade, Orsatti pegou o telefone e acenou com 
a mo, dispensando Lucy.
- Quem est falando?
-  o Sr. Anthony Orsatti?
Ela tinha um sotaque francs. 
 - E da?
- Oh, graas a Deus que consegui lhe falar, Sr. Orsatti! 
Lucy tinha razo. A mulher era histrica. Anthony Orsatti 
perdeu o interesse pela mulher. Ele j ia desligar quando a 
voz acrescentou:
- Tem de impedi-lo, por favor!
- Dona, no tenho a menor idia de quem voc est falando e 
estou ocupado...
 - Meu Joe,... Joe Romano. Ele prometeu que me levaria junto, 
comprenez-vous?
 - Se tem alguma coisa a acertar com Joe, fale com ele 
directamente. No sou bab de Joe.
- Ele mentiu para mim! Acabei de descobrir que Joe vai viajar 
sozinho para o Brasil. E metade daqueles trezentos mil dlares 
me pertence.
Anthony Orsatti descobriu subitamente que, no final das 
contas, o caso interessava.
- Que dlares so esses de que est falando?
- O dinheiro que Joe est escondendo em sua conta no banco. O 
dinheiro que ele... como  mesmo que se diz?... desviou.
Anthony Orsatti estava muito interessado.
 - Por favor, diga a Joe que deve me levar tambm para o 
Brasil. Por favor! Pode fazer isso para mim?
- Claro - prometeu Anthony Orsatti. - Pode deixar que cuidarei 
de tudo.

A sala de Joe Romano era moderna, toda branca e cromada, feita 
por um dos decoradores mais em voga em Nova Orleans. Os nicos 
toques de cores eram os trs quadros valiosos de 
impressionistas franceses nas paredes. Romano orgulhava-se de 
seu bom gosto. Lutara muito para subir dos cortios de Nova 
Orleans, e no processo se instrura. Possua bom olho para 
quadros e um ptimo ouvido para msica. Quando jantava num 
restaurante, sustentava conversas longas e conhecedoras com o 
sommelier sobre vinhos. Isso mesmo, Joe Romano tinha todos os 
motivos para sentir-se orgulhoso. Enquanto seus contemporneos 
sobreviveram pelo uso dos punhos, ele usara o crebro. Se era 
verdade que Anthony Orsatti possua Nova Orleans, tambm era 
verdade que Joe Romano controlava a cidade para ele. Sua 
secretria entrou na sala.

- Sr. Romano, h um mensageiro aqui com sua passagem de avio 
para o Rio de Janeiro. Devo fazer um cheque.  pagamento 
contra entrega.
- Rio de Janeiro? - Romano sacudiu a cabea. - Diga a ele que 
houve algum engano.
O mensageiro uniformizado estava na porta.
- Mandaram entregar a Joseph Romano, neste endereo. 
- Pois ento mandaram errado. Que histria , hen? Uma idia 
de promoo de alguma nova empresa de aviao?
- No, senhor. Eu...
 - Deixe-me ver isso. - Romano arrancou a passagem da mo do 
mensageiro e deu uma olhada. - Sexta-feira... Por que eu 
haveria de viajar para o Rio na sexta-feira?
  uma boa pergunta - disse Anthony Orsatti, parado por trs 
do mensageiro. - Por que faria isso, Joe?
 -  algum erro estpido, Tony. - Romano devolveu a passagem 
ao mensageiro. - Leve isso de volta ao lugar de onde veio e...
 - No to depressa. - Anthony Orsatti pegou a passagem e 
examinou-a. - Aqui diz que  primeira classe, poltrona no 
corredor, seco de fumantes, para o Rio de Janeiro, na 
sexta-feira. Passagem s de ida.
 Joe Romano soltou uma risada.
- Algum cometeu um engano. - Ele virou-se para sua 
secretria. - Madge, telefone para a agncia de viagens e diga 
que deram uma mancada. Algum idiota vai perder a sua passagem 
de avio.
 Joleen, a outra secretria, entrou na sala.
 - Com licena, Sr. Romano. As malas acabaram de chegar. Quer 
que eu assine o recibo?
 Joe Romano fitou-a aturdido.
- Que malas? No encomendei mala nenhuma.
- Mande traz-las para c - ordenou Anthony Orsatti.
 - Santo Deus! - exclamou Joe Romano. - Ser que todo mundo 
enlouqueceu?
 Um mensageiro entrou na sala com as trs malas Vuitton.
 - Mas o que  isso? No encomendei essas malas.
 O mensageiro conferiu a factura de entrega.
 - Diz aqui Sr. Joseph Romano, Poydras Street, 217. Esta no  
a Sute 408?
 Joe Romano comeava a perder o controle.
 - No me interessa a porra que diz a. No encomendei coisa 
nenhuma. E agora leve essas malas daqui.
 Anthony Orsatti agora examinava as malas.
 - Elas tm as suas iniciais, Joe.
 - Como? Ei, espere, um instante! Provavelmente so um 
presente de algum.
-  seu aniversrio?
- No. Mas sabe como so as mulheres, Tony. Esto sempre dando 
presentes.
- Tem alguma coisa acontecendo no Brasil? - perguntou Anthony 
Orsatti.
- Brasil? - Joe Romano riu. - Deve ser a idia de brincadeira 
de algum, Tony.
Orsatti sorriu gentilmente, depois virou-se para as 
secretrias e os dois mensageiros.
- Saiam.
Depois que eles saram e a porta foi fechada, Anthony Orsatti 
acrescentou para Romano:

- Quanto dinheiro tem na sua conta bancria, Joe?
Joe Romano ficou perplexo.
- Acho que mil e quinhentos dlares, talvez dois mil, Tony. 
Por qu?
- Apenas por curiosidade, por que no liga para o seu banco e 
confere?
- Para qu? Eu...
- Verifique, Joe.
- Est certo, se isso o deixar feliz. - Romano chamou a 
secretria pelo intertelfone. - Ligue-me para a tesoureira no 
First Mercharits.
 Um minuto depois ela estava na linha.
 - Ol, meu bem. Aqui  Joseph Romano. Poderia me dar o saldo 
actual da minha conta? Minha data de nascimento  catorze de 
outubro.
Anthony Orsatti pegou a extenso do telefone. A tesoureira 
voltou  linha um momento depois.
- Desculpe mant-lo  espera, Sr. Romano. Nesta manh, o saldo 
em sua conta  de 310.905 dlares e 35 cents,
 Romano pde sentir o sangue se esvair de seu rosto.
 - Quanto?
 - O saldo  de 310.905 dlares e...
 - Sua puta estpida! - berrou Romano. - No tenho todo esse 
dinheiro na minha conta. Est cometendo um erro. Quero falar 
com...
 Ele sentiu o telefone ser retirado de sua mo. Anthony 
Orsatti reps o telfone, no gancho.
 - De onde saiu esse dinheiro, Joe?
O rosto de Joe Romano tornou-se muito plido.
- Juro por Deus, Tony, que no sei de nada a respeito desse 
dinheiro.
 - No?
 - Ei, voc tem de acreditar em mim! Sabe o que est 
acontecendo? Algum quer me meter numa encrenca!
 - Pois ento deve ser algum que gosta muito de voc. E lhe 
d um presente de 310 mil dlares.
 Orsatti arriou pesadamente na poltrona Scalamander forrada 
com seda e ficou olhando para Joe Romano por um longo tempo, 
antes de acrescentar, suavemente:
 - Tudo foi planeado, hem? Uma passagem s de ida para o Rio, 
malas novas... Parece at que voc estava preparando para si 
mesmo toda uma vida nova.
 - No! - Havia pnico na voz de Joe Romano. - Por Deus, Tony, 
voc me conhece. Sempre fui honesto com voc.  como um pai 
para mim.
 Ele estava suando agora. Houve uma batida na porta e Madge 
meteu a cabea. Tinha um envelope na mo.
 - Desculpe, interromper, Sr. Romano. Acaba de chegar um 
telegrama, mas o senhor tem de assinar o recibo.
 Com o instinto de um animal acuado, Joe Romano respondeu: 
- No agora. Estou ocupado.
- Pode deixar que eu recebo - disse Anthony Orsatti.
Ele se levantou antes que a secretria tivesse tempo de fechar 
a porta. Levou algum tempo a ler o telegrama e depois olhou 
atentamente para Joe Romano. E numa voz to baixa que Romano 
mal conseguiu ouvir, Anthony Orsatti disse:

- Lerei o telegrama para voc, Joe. "Confirmo sua reserva para 
nossa sute presidencial por dois meses a partir desta 
sexta-feira, primeiro de setembro. S. Montalband, gerente, Rio 
Othon Palace, Praia de Copacabana, Rio de Janeiro."  sua 
reserva, Joe. Mas no vai precisar, no  mesmo?

13

Andr Gillian estava na cozinha, preparando o spaghetti alla 
carbonara, uma grande salada italiana e uma torta de pra, 
quando ouviu um estalo alto e ominoso; um momento depois, o 
confortvel zumbido do ar-condicionado central silenciou. 
Andr bateu com o p no cho e disse.
- Merde! No na noite do jogo!
Ele foi apressadamente para a caixa de controle elctrico e 
puxou os disjuntores, um a um. Nada aconteceu.
 O Sr. Pope ficaria furioso. Simplesmente furioso! Andr sabia 
o quanto seu patro apreciava o jogo de pquer semanal, na 
noite de sexta-feira. Era uma tradio que se mantinha h anos 
e sempre com o mesmo grupo de elite. Sem ar-condicionado, a 
casa ficaria insuportvel. Simplesmente insuportvel! Nova 
Orleans em setembro era apenas para os brbaros. Mesmo depois 
do pr-do-sol, no havia qualquer alvio do calor e da 
humidade.
 Andr voltou  cozinha e olhou para o relgio na parede. 
Quatro horas. Os convidados chegariam s oito horas. Andr 
pensou em telefonar para o Sr. Pope e comunicar-lhe o 
problema. Mas, depois, lembrou-se que o advogado dissera que 
estaria ocupado no tribunal durante o dia inteiro. O pobre 
coitado vivia sempre to ocupado... Precisava de sua 
distraco. E agora acontecia isto!
 Andr tirou de uma gaveta da cozinha um pequeno caderninho 
preto de endereos, procurou um nmero e discou. Depois de 
trs toques de campainha, uma voz metlica entoou:
- Aqui  o Servio de Ar-Condicionado Esquim. Nossos tcnicos 
no esto disponveis neste momento. Se deixar seu nome e 
telefone, assim como uma breve mensagem, entraremos em 
contacto o mais depressa que for possvel. Por favor, espere 
pelo bip.
Foutre! Somente na Amrica  que se era obrigado a conversar 
com uma mquina. Um bip estridente e irritante soou no ouvido 
de Andr. Ele disse pelo telefone:
 - Aqui  a residncia de Monsieur Perry Pope, Charles Street, 
42. Nosso ar-condicionado parou de funcionar. Devem mandar 
algum aqui o mais depressa possvel. Vite!
Ele bateu com o telfone.  claro que no havia ningum 
disponvel. O ar-condicionado provavelmente estava pifando por 
toda aquela horrvel cidade. Era impossvel aos aparelhos de 
ar-condicionado acabar com o maldito calor e humidade. Pois 
era melhor que algum viesse logo. O Sr. Pope era um homem que 
se irritava com facilidade.
Nos trs anos em que trabalhava como cozinheiro para o 
advogado, Andr Gillian aprendera como seu patro era 
influente. Era simplesmente espantoso. Toda aquela importncia 
em algum to jovem. Perry Pope simplesmente conhecia todo 
mundo. Quando ele estalava os dedos, as pessoas pulavam. 
 Andr Gillian, teve a sensao de que a casa j estava mais 
quente. a va chier dur. Se alguma coisa no for feita 
depressa, a merda vai bater no ventilador.
Voltando a cortar em fatias finas como papel o salame e o 
queijo provolone, Andr no pde se desenvencilhar do terrvel 
pressentimento de que a noite estava condenada a ser um 
desastre.

Quando a campainha da porta tocou, meia hora depois, as roupas 
de Andr se achavam encharcadas de suor e a cozinha parecia um 
forno. Gillian foi apressadamente abrir a porta dos fundos.
 Dois operrios de macaco achavam-se parados ali, carregando 
caixas de ferramentas. Um deles era um negro alto. Seu 
companheiro era branco, vrios centmetros mais baixo, com uma 
expresso sonolenta e entediada no rosto. Um furgo estava 
parado l atrs.
 - Algum problema com o ar-condicionado? - perguntou o negro.
 - Sim! Graas a Deus que vocs esto aqui. Precisam pr a 
coisa para funcionar imediatamente. Os convidados no demoram 
a chegar.
 O preto passou pelo fogo, farejou a torta no forno e 
comentou:
- O cheiro  gostoso.
- Por favor! - exortou Gillian. - Faam alguma coisa! 
- Vamos dar uma olhada no aparelho - disse o homem baixo. - 
Onde fica?
 - Por aqui.
 Andr levou-os por um corredor at a sala em que estava a 
unidade de ar-condicionado.
- Esta  uma boa unidade, Ralph - disse o preto a seu 
companheiro.
- Tem razo, Al. No fazem mais com essa qualidade.
 - Mas ento por que no est funcionando, pelo amor de Deus? 
- perguntou Gillian.
 Os dois se viraram para fit-lo.
- Acabamos de chegar - comentou Ralph, em tom de censura.
 Ele ajoelhou-se e abriu uma portinhola na base da unidade, 
pegou uma lanterna, deitou-se de barriga e espiou o interior. 
Levantou-se depois de um momento.
 - O problema no  aqui.
 - Onde  ento? - indagou Andr.
 - Deve ter havido um curto em alguma sada. E provavelmente 
parou todo o sistema. Quantas so as sadas do 
ar-condicionado? 
 - Cada cmodo tem uma. Deixe-me ver... Deve haver pelo menos 
nove.
 - Provavelmente,  esse o problema. Excesso de carga. Vamos 
dar uma olhada.
 Os trs voltaram pelo corredor. Ao passarem pela sala de 
estar, Al disse:
 -  um bonito lugar o que o Sr. Pope tem aqui.
 A sala de estar era decorada com requinte, com muitas 
antiguidades autenticadas que valiam uma fortuna. O assoalho 
era coberto por tapetes persas de cores suaves.  esquerda 
ficava uma ala de jantar, grande e formal,  direita outra 
sala, com uma mesa de jogo grande no centro. Num canto dessa 
sala havia uma mesa redonda, j posta para o jantar. Os dois 
tcnicos entraram ali. Al iluminou com a lanterna a sada do 
ar-condicionado no alto da parede.
 - Hum...- Ele olhou para o teto, por cima da mesa de jogo. - 
O que tem acima desta sala?
 - O sto.
 - Vamos dar uma olhada.
Os tcnicos seguiram Andr para o sto comprido, de teto 
baixo, empoeirado e com muitas teias de aranha. Al 
encaminhou-se para uma caixa elctrica na parede, examinou o 
emaranhado de fios.

- Ah!
- Descobriu alguma coisa? - indagou Andr, ansiosamente.
- Problema de condensador.  a humidade. Devemos ter recebido 
uma centena de chamadas esta semana. Entrou em curto. Teremos 
de substituir o condensador.
 - Oh, Deus! Vai demorar muito?
 - No. Temos um condensador novo no carro.
 - Por favor, apressem-se - suplicou Andr. - O Sr. Pope 
estar em casa daqui a pouco.
- Deixe tudo com a gente - disse Al.
 De volta  cozinha Andr confidenciou:
 - Preciso terminar de preparar o molho da salada. Podem 
encontrar sozinhos o caminho de volta ao sto?
Al levantou a mo.
- No se preocupe, companheiro. Cuide do seu trabalho e ns 
cuidaremos do nosso.
 - Obrigado... muito obrigado
 Andr observou os homens sarem para o furgo e voltarem um 
instante depois com duas bolsas grandes de lona.
 - Se precisarem de alguma coisa - disse ele, - basta me 
chamarem.
 - Est certo.
 Os tcnicos subiram a escada e Andr voltou  cozinha. 
Chegando ao sto, Ralph e Al abriram as bolsas de lona e 
removeram uma pequena cadeira dobrvel de acampamento, uma 
perfuradora com broca de ao, uma bandeja com sanduches, duas 
latas de cerveja, um binculo Zeiss 12 por 40 para observar 
objectos distantes com pouca claridade e dois hamsters vivos, 
que haviam sido injectados com trs quartos de miligrama de, 
promazine acetifica.
 Os dois homens se puseram a trabalhar.
- A velha Ernestine ficar orgulhosa de mim - comentou Al, com 
uma risadinha.

 A princpio, Al resistira obstinadamente  idia.
 - Deve ter perdido o juzo, mulher. No vou me meter com 
Perry Pope. O cara vai me dar uma porrada to forte que nunca 
mais verei a luz do dia.
- No precisa se preocupar com ele. O cara nunca mais tornar 
a sacanear ningum.
 Os dois se encontravam nus, na cama de gua, no apartamento 
de Ernestine.
 - Afinal, meu bem, o que est ganhando com esse negcio? - 
perguntou Al.
 - Ele  um filho da puta.
 - Ora, querida, o mundo est cheio de filhos da puta, mas 
voc no passa a vida cortando os colhes deles.
 - Tem razo. Estou fazendo isso por uma amiga .
 - Tracy?
 - Exactamente.
Al gostava de Tracy. Haviam jantado juntos no dia em que ela 
sara da priso.
 - Ela  uma dona de classe - admitiu Al. - Mas por que 
estamos arriscando nossos pescoos por ela?
 - Porque se no a ajudarmos, ela ter de arrumar algum que 
no  to bom quanto voc nem de longe, e se a apanharem ser 
despachada de volta  priso.
Al sentou na cama e olhou para Ernestine, curioso.

 - Isso significa tanto para voc?
 - Significa, sim, querido.
 Ela nunca poderia faz-lo compreender, mas a verdade pura e 
simples era que Ernestine no podia suportar a idia de Tracy 
voltar  priso e ficar  merc de Big Bertha. E no era 
apenas com Tracy que Ernestine se preocupava, mas tambm 
consigo mesma. Assumira o papel de protectora de Tracy e se 
Big Bertha pusesse as mos nela seria uma derrota para a 
prpria Ernestine. E, por isso, ela acrescentou:
- E significa muito. Far isso por mim?
- No d para fazer sozinho - resmungou Al.
 E Ernestine compreendeu que vencera. Ela comeou a mordiscar 
seu caminho pelo corpo comprido e esguio de Al, murmurando:
 - O velho Ralph no dever ser libertado dentro de poucos 
dias?

Eram seis e meia quando os dois homens voltaram  cozinha de 
Andr, cobertos de suor e poeira.
 - Est consertado? - indagou Andr, ansiosamente.
 - No foi fcil - informou Al. - O que tem aqui  um 
condensador com um dispositivo AC/DC que...
 No se preocupe com isso - interrompeu-o Andr, 
impacientemente. - Deram um jeito?
 - Claro. Est tudo consertado. Em cinco minutos voltar a 
funcionar, como se estivesse novo.
- Formidvel! Se deixarem a conta na mesa da cozinha...
Ralph sacudiu a cabea.
- No se preocupe com isso. A companhia mandar a conta 
depois.
 - Abenoados sejam vocs dois. Au revoir.
 Andr observou os dois homens sarem pela porta dos fundos, 
carregando as bolsas de lona. Fora de vista, eles contornaram 
o ptio e foram abrir a caixa que alojava o condensador 
externo da unidade de ar-condicionado. Ralph segurou a 
lanterna, enquanto Al religava os fios que soltara duas horas 
antes. A unidade de ar-condicionado voltou a funcionar 
imediatamente.
 Al anotou o nmero do telefone na etiqueta presa no 
condensador. Pouco depois, fez a ligao; ao ouvir a mensagem 
gravada do Servio de Ar-Condicionado Esquim, Al disse:
 - Aqui  da residncia de Perry Pope, na Charles Street, 42. 
Nosso ar-condicionado est funcionando direito agora. No 
precisam mais mandar algum. Obrigado.

O jogo de pquer semanal, na noite de sexta-feira, na casa de 
Perry Pope, era um evento aguardado ansiosamente por todos os 
jogadores. Era sempre o mesmo grupo selecto: Anthony Orsatti, 
Joe Romano, Juiz Henry Lawrence, um vereador, um senador 
estadual e o anfitrio. As apostas eram altas, a comida 
sensacional e a companhia representava o poder.
Perry Pope se achava em seu quarto, vestindo uma cala branca 
de seda e uma camisa que combinava. Cantarolava feliz, 
pensando na noite pela frente. Estava numa mar vencedora 
ultimamente. Na verdade, toda a minha vida  uma grande mar 
vencedora, pensou ele.

 Se algum precisava de um favor judicial em Nova Orleans, 
Perry Pope era o advogado que devia procurar. Seu poder 
derivava das Ligaes com a Famlia Orsatti. Era conhecido 
como O Arrumador e podia dar um jeito em qualquer coisa, de 
uma multa de trnsito a uma acusao de trfico de txicos ou 
de homicdio. A vida era boa.
 Anthony Orsatti chegou com um convidado e anunciou:
 - Joe Romano no estar mais jogando connosco. Todos vocs
conhecem o Inspector Newhouse.
 Os homens trocaram apertos de mo.
- Os drinques esto no aparador - informou Perry Pope. - E 
teremos uma ceia mais tarde. Por que no entramos logo em 
aco?
 Os homens ocuparam seus lugares habituais em torno da mesa de 
feltro verde. Orsatti apontou para a cadeira vazia de Joe 
Romano e disse ao Inspector Newhouse:
 - Aquele ser o seu lugar daqui por diante, Mel.
 Enquanto um dos homens abria os baralhos novos, Pope comeou 
a distribuir as fichas. Ele explicou ao Inspector Newhouse:
 - As fichas pretas valem cinco dlares, as vermelhas dez, as 
azuis cinquenta e as brancas cem. Cada homem comea comprando 
quinhentos dlares de fichas. Jogamos o pquer  escolha de 
quem d as cartas, com trs aumentos.
 - Est ptimo para mim - comentou o Inspector. 
 Anthony Orsatti parecia de mau humor.
 - Vamos comear logo de uma vez.
 Sua voz era um sussurro estrangulado, o que no constitua um 
bom sinal. Perry Pope daria muito para saber o que acontecera 
com Joe Romano, mas a experincia lhe dizia que era melhor no 
levantar o assunto. Orsatti falaria com ele a esse respeito 
quando achasse que o momento era oportuno.
 Os pensamentos de Orsatti eram sombrios: Fui como um pai para 
Joe Romano. Confiei nele, promovi-o a meu lugar-tenente. E o 
filho da puta me apunhalou pelas costas. E se aquela francesa 
maluca no tivesse me telefonado, ele poderia escapar impune. 
Mas agora nunca mais escapar de coisa alguma. No onde est. 
Se ele  to esperto, que trate de poder com os peixes l 
embaixo.
- Tony, voc entra ou passa?
Anthony Orsatti tornou a concentrar sua ateno no jogo. 
Enormes quantias haviam sido ganhas e perdidas naquela mesa. 
Anthony Orsatti sempre ficava aborrecido ao perder, embora 
isso nada tivesse a ver com o dinheiro. Ele no podia suportar 
estar no lado perdedor de qualquer coisa. Pensava em si mesmo 
como um vencedor natural. Somente os vencedores ascendiam  
sua posio na vida. Nas ltimas seis semanas Perry Pope 
estava numa mar vencedora e naquela noite Anthony Orsatti 
queria romp-la de qualquer maneira.
Como a variedade de pquer era determinada por quem dava as 
cartas, cada um escolhia aquela em que se considerava mais 
forte. Jogavam o pquer fechado comum, o stick, o canadense de 
cinco e sete cartas... naquela noite, porm, no importava o 
jogo escolhido, pois Anthony Orsatti se descobria sempre no 
lado perdedor. Ele passou a aumentar as apostas, jogando 
temerariamente, tentando recuperar os prejuzos. Por volta da 
meia-noite, quando pararam para comer a refeio que Andr 
preparara, Orsatti j estava a perder 50 mil dlares e Perry 
Pope era o grande vencedor. 
A comida estava deliciosa. Geralmente Anthony Orsatti gostava 
da refeio prtica  meia-noite. Naquele dia, no entanto, ele 
ansiava em voltar  mesa.

 - No est comendo, Tony - comentou Perry Pope.
 - No sinto fome.
 Orsatti pegou o bule de prata com caf ao seu lado, encheu 
uma xcara de porcelana Herend e sentou  mesa de pquer. 
Ficou observando os outros comerem, desejando que se 
apressassem. Estava impaciente em recuperar seu dinheiro. 
Quando comeou a mexer o caf, uma pequena partcula caiu na 
xcara. Com repugnncia, Orsatti removeu a partcula com a 
colher e examinou-a. Parecia um pedao de reboco. Ele levantou 
os olhos para o teto e nesse instante alguma coisa bateu em 
sua testa. E percebeu subitamente um rudo de correria por 
cima.
 - Que diabo est acontecendo l em cima? - indagou Anthony 
Orsatti.
 Perry Pope estava no meio de uma piada que contava ao 
Inspector Newhouse.
 - Desculpe, mas o que foi mesmo que disse, Tony?
 O barulho de correria era mais perceptvel agora. Fragmentos 
de reboco se despejavam sobre o feltro verde.
 - A impresso  de que so camundongos - disse o senador.
 - No nesta casa - protestou Perry Pope, indignado.
 - Mas com toda a certeza tem alguma coisa - resmungou 
Orsatti.
 Um pedao maior de reboco caiu sobre o feltro verde da mesa.
 - Terei de mandar Andr cuidar disso - declarou Pope. - Se 
todos j terminaram de comer, por que no voltamos ao jogo?
 Anthony Orsatti olhava fixamente para um pequeno buraco no 
teto, bem por cima de sua cabea.
 - Espere um pouco. Vamos primeiro dar uma olhada l em cima.
 - Para qu, Tony? Andr pode...
 Orsatti j se levantara e se encaminhava para a escada. Os 
outros se entreolharam por um instante e depois partiram atrs 
dele.
 - Provavelmente um esquilo entrou no sto - sugeriu Perry 
Pope. - Eles esto por toda a parte nesta poca do ano. 
Provavelmente escondendo as suas nozes para o inverno.
 Ele riu de sua piada. Quando chegaram ao sto, Anthony 
Orsatti abriu a porta bruscamente. Perry Pope acendeu a luz. 
Vislumbraram dois hamsters brancos correndo freneticamente de 
um lado para outro.
 - Santo Deus! - exclamou Perry Pope. - Tenho ratos no meu 
sto!
 Anthony Orsatti no estava prestando ateno. Olhava 
fixamente para o meio do sto. Havia ali uma cadeira dobrvel 
de acampamento, com uma bandeja de sanduches por cima e duas 
latas de cerveja. Havia um binculo no cho, ao lado.
 Orsatti adiantou-se, pegou os objectos, um a um, 
examinando-os cuidadosamente. Depois ficou de joelhos no cho 
empoeirado, removeu o pequeno cilindro de madeira que escondia 
um buraco perfurado no teto. Encostou o olho nesse buraco. A 
mesa de jogo era claramente visvel por baixo. Perry Pope 
estava parado no meio do sto, atordoado.
 - Quem trouxe todas estas porcarias aqui para cima? Andr vai 
se ver comigo por causa disso.
 Orsatti levantou-se lentamente, limpou a poeira das calas. 
Perry Pope baixou os olhos para o cho.
 - Olhem s! - exclamou ele. - Deixaram um buraco no cho. Os 
operrios atuais no valem mais merda nenhuma.

 Ele agachou-se e deu uma espiada pelo buraco. O rosto 
empalideceu de repente. Levantou-se e olhou ao redor, 
desesperado, encontrando todos os homens a fit-lo fixamente.
 - Ei! - disse Perry Pope. - Vocs no podem estar pensando 
que eu... Ora, pessoal, sou eu. No sei de nada a respeito 
disso. Eu no enganaria vocs. Por Deus, somos amigos!
 Sua mo voou para a boca e ele se ps a roer furiosamente as 
cutculas. Orsatti apalpou-lhe o brao. 
 - No se preocupe com isso.
 Sua voz era quase inaudvel. Perry Pope continuou a roer 
desesperadamente a carne do polegar direito.

14

- Agora j so dois, Tracy - disse Ernestine Littlechap, 
soltando uma risadinha. - A notcia pelas ruas  de que seu 
amigo advogado Perry Pope no poder mais exercer a sua 
profisso. Ele sofreu um terrvel acidente.
 As duas tomavam caf au tait com beignets num pequeno caf 
com mesinhas na calada, perto da Royal Street. Ernestine 
soltou outra risada e acrescentou:
 - Voc tem cabea, garota. No gostaria de entrar no negcio 
comigo?
 - Obrigada, Ernestine, mas tenho outros planos.
 Ernestine indagou, ansiosamente:
 - Quem  o prximo?
 - Juiz Henry Lawrence.

Henry Lawrence iniciara sua carreira como um advogado de 
cidade pequena, em Leesville, Louisiana. No tinha muita 
aptido para a advocacia, mas possua dois atributos muito 
importantes: era fisicamente impressivo e moralmente flexvel. 
Sua filosofia era de que a lei no passava de uma vara frgil, 
destinada a ser entortada de acordo com as necessidades de 
seus clientes. Com essa orientao, no era de surpreender 
que, pouco depois de se transferir para Nova Orleans, o 
escritrio de advocacia de Henry Lawrence comeasse a 
prosperar, com um grupo especial de clientes. Ele passou de 
contravenes e acidentes de trnsito para crimes mais graves. 
Ao subir para os altos escales, j era um especialista em 
comprar jurados, desacreditar testemunhas e subornar qualquer 
um que pudesse ajudar em seus casos. Em suma, era o tipo de 
advogado que Anthony Orsatti queria. Assim, era inevitvel que 
os caminhos dos dois se cruzassem. Foi um casamento efectuado 
no paraso da Mfia. Lawrence tornou-se o porta-voz da Famlia 
Orsatti. E quando chegou o momento oportuno, Orsatti 
providenciou a sua promoo a juiz.

- No sei como voc poder pegar o juiz - comentou Ernestine - 
Ele  rico, poderoso e intocvel.
 - Ele  rico e poderoso, mas no  intocvel - corrigiu-a 
Tracy.
 Tracy j elaborara seu plano, mas quando telefonou para o 
gabinete do Juiz Lawrence compreendeu imediatamente que teria 
de mud-lo.
- Eu gostaria de falar com o Juiz Lawrence, por favor.
 A secretria respondeu:
 - Lamento, mas o juiz no est.
 - Quando poderei encontr-lo?
 - No sei dizer.
 -  muito importante. Ele estar a amanh?
 - No. O Juiz Lawrence est viajando.
 - E eu no poderia localiz-lo em algum lugar?
 - Infelizmente, no ser possvel. O juiz est fora do pas.
 Tracy tomou o cuidado de impedir que o desapontamento 
transparecesse em sua voz.
 - Posso saber onde ele se encontra?
 - O juiz est na Europa, participando de um simpsio 
judicirio internacional.
 - Mas que pena!

 - Quem est falando, por favor?
 A mente de Tracy estava em disparada.
 - Aqui  Elizabeth Rowane Dastin, presidente da diviso sul 
da Associao Americana de Advogados Criminais. Vamos promover 
o nosso banquete anual de reconhecimentos em Nova Orleans, no 
dia 20 deste ms, e escolhemos o Juiz Henry Lawrence para ser 
o nosso homem do ano.
 - Isso  maravilhoso! - exclamou a secretria. - Mas, 
infelizmente, o juiz no estar de volta antes disso.
-  uma pena. Aguardvamos com ansiedade a oportunidade de 
ouvir um dos seus famosos discursos. O Juiz Lawrence foi a 
escolha unnime de nosso comit de seleco.
- Tenho certeza que ele ficar desapontado por perder essa 
oportunidade.
- Estou certa que voc compreende como isso  uma grande 
honra. Alguns dos juizes mais proeminentes do pas j foram 
eleitos no passado. E, espere um pouco! Tenho uma idia. O 
juiz no poderia gravar um pequeno discurso de aceitao para 
ns... umas poucas palavras de agradecimentos?
 - Bom... no posso responder por ele. O juiz anda muito 
ocupado...
 - Haver uma grande cobertura nacional de jornais e emissoras 
de televiso.
 Houve um momento de silncio. A secretria do Juiz Lawrence 
sabia o quanto o Meritssimo apreciava a cobertura dos meios 
de comunicao. Na verdade, at onde ela podia saber, a viagem 
que ele fazia parecia ter justamente esse propsito.
 - Talvez ele encontre tempo para gravar algumas palavras. 
Posso perguntar a ele.
 - Mas isso seria sensacional - declarou Tracy, entusiasmada. 
- O grande momento da noite!
 - Gostaria que o juiz fizesse os seus comentrios sobre 
alguma coisa especfica?
 - Claro que sim. Gostaramos que ele falasse sobre... - Tracy 
hesitou. - Receio que seja um pouco complicado. Seria melhor 
se eu pudesse explicar a ele directamente.
 Houve outro silncio momentneo. A secretria enfrentava um 
dilema. Tinha ordens para no revelar o itinerrio de seu 
chefe. Por outro lado, seria tpico do juiz culp-la se 
deixasse de receber uma distino to importante.
- Eu no deveria dar qualquer informao, mas tenho certeza de 
que o juiz gostaria que se abrisse uma excepo para algo to 
prestigioso. Poder encontr-lo em Moscovo, no Hotel Rossia. 
Ele estar l durante os prximos cinco dias e depois disso.
 - Isso  ptimo! Entrarei em contacto com ele imediatamente. 
Muito obrigada.
- Eu  que lhe agradeo, Senhorita Dastin.

 Os telegramas eram endereados ao Juiz Henry Lawrence, Hotel 
Rossia, Moscovo. O primeiro dizia: CONSELHO JUDICIRIO PRXIMO 
ENCONTRO PODE AGORA SER ACERTADO. CONFIRME DATA CONVENIENTE 
COMO ESPAO A SER SOLICITADO BORIS.
 O segundo telegrama, que chegou no dia seguinte, dizia: 
ACONSELHE SOBRE PROBLEMAS PLANOS VIAGEM. AVIO IR. CHEGOU 
ATRASADO MAS POUSOU SEGURANA. PERDEU PASSAPORTE E DINHEIRO. 
ELA VAI SER COLOCADA HOTEL PRIMEIRA CLASSE Sua. MAIS TARDE 
ACERTAREMOS CONTAs. BORIS.

 O ltimo telegrama dizia: SUA IRM VAI TENTAR EMBAIXADA 
AMERICANA PARA OBTER PASSAPORTE TEMPORRIO. SEM INFORMAES 
Disponveis SOBRE O NOVO VISTO. SUO FAZ RUSSO PARECER SANTO. 
DE NAVIO ELA PARTIR MAIS DEPRESSA POSSVEL. BORIS.
 Os homens do NKVD ficaram aguardando a chegada de novos 
telegramas. Como no houvesse mais nenhum, eles prenderam o 
Juiz Lawrence.
 O interrogatrio durou dez dias e noites.
 - Para quem enviou as informaes?
 - Que informaes? No sei do que esto falando.
 - Estamos falando sobre os planos. Quem lhe deu os planos?
 - Que planos?
 - Os planos do novo submarino atmico sovitico.
 - Vocs devem estar loucos. O que pensam que eu sei sobre 
submarinos soviticos?
-  o que tencionamos descobrir. Com quem foi o seu encontro 
secreto?
- Que encontro secreto? No tenho nada de secreto.
- ptimo. Pode ento nos dizer quem  Boris.
- Que Boris?
- O homem que depositou o dinheiro em sua conta na Sua
- Que conta na Sua?
 Eles estavam furiosos.
 - Voc  um idiota obstinado. Vamos fazer um exemplo de voc 
e de todos os outros espies americanos que tentam solapar a 
nossa grande ptria.
 Quando o embaixador americano teve permisso para visit-lo, 
o Juiz Henry Lawrence j perdera sete quilos. No podia se 
lembrar da ltima vez em que seus algozes lhe haviam permitido 
dormir, transformara-se num trmulo farrapo humano.
- Por que esto fazendo isso comigo? - lamuriou-se o juiz. - 
Sou um cidado americano. E um juiz. Pelo amor de Deus, 
tire-me daqui!
- Estou fazendo tudo o que posso. 
O embaixador ficou chocado com a aparncia de Lawrence. 
Recepcionara o Juiz Lawrence e os outros membros do Comit 
Judicirio ao chegarem, duas semanas antes. O homem que o 
embaixador conhecera ento no tinha qualquer semelhana com a 
criatura trmula e apavorada que agora rastejava  sua frente.
Que diabo os russos esto querendo desta vez?, especulou o 
embaixador. O juiz no  mais espio do que eu. Uma pausa e 
ele pensou, ironicamente: Eu poderia ter escolhido um exemplo 
melhor.
 O embaixador exigiu uma audincia com o presidente do 
Politburo. O pedido foi recusado e ele se contentou com um dos 
ministros.
 - Devo apresentar um protesto formal - declarou o embaixador, 
furioso. - O comportamento de seu pas no tratamento 
dispensado ao Juiz Henry Lawrence  indesculpvel. Classificar 
um homem de sua estatura de espio  um absurdo.
 - Se j acabou de falar - disse o ministro, friamente - eu 
gostaria que desse uma olhada nisto.
 Ele entregou cpias dos telegramas ao embaixador. Depois de 
ler, o embaixador levantou os olhos, perplexo.
 - O que h de errado com estes telegramas? So perfeitamente 
inocentes.
 - Acha mesmo? Talvez seja melhor l-los de novo. Devidamente 
decifrados.
 Ele entregou ao embaixador outras cpias dos telegramas.

Cada quarta palavra estava sublinhada.

CONSELHO JUDICIRIO PRXIMO ENCONTRO PODE AGORA SER ACERTADO, 
CONFIRME DATA CONVENIENTE COMO ESPAO A SER SOLICITADO.
BORIS

ACONSELHE SOBRE PROBLEMAS PLANOS VIAGEM. AVIO IRMA CHEGOU 
ATRASADO MAS POUSOU SEGURANA. PERDEU PASSAPORTE E DINHEIRO. 
ELA VAI SER COLOCADA HOTEL PRIMEIRA CLASSE SUA. MAIS TARDE 
ACERTAREMOS CONTAs.
 BORIS

SUA IRM VAI TENTAR EMBAIXADA AMERICANA PARA OBTER PASSAPORTE 
TEMPORRIO. SEM INFORMAES DISPONVEIS SOBRE O NOVO VISTO. 
SUO FAZ RUSSO PARECER SANTO. DE NAVIO ELA PARTIR MAIS 
DEPRESSA POSSVEL.
 BORIS

 Mas que filho da puta!, pensou o embaixador.

A imprensa e o pblico no tiveram acesso ao julgamento. O 
prisioneiro permaneceu obstinado at o fim, continuando a 
negar que estivesse na Unio Sovitica em misso de 
espionagem. A promotoria prometeu clemncia se ele revelasse 
quem eram os seus superiores. O Juiz Lawrence daria a prpria 
alma para poder fazer isso, mas infelizmente no era possvel.
 No dia seguinte ao julgamento saiu uma pequena notcia no 
Pravda, informando que o notrio espio americano Juiz Henry 
Lawrence fora considerado culpado de espionagem e condenado a 
14 anos de trabalhos forados na Sibria.
 A comunidade de informaes americana estava espantada com o 
Caso Lawrence. Os rumores fervilhavam na CIA, FBI, Servio 
Secreto e Departamento do Tesouro.
 - Ele no  um dos nossos - garantiu a CIA. - Provavelmente 
pertence ao Tesouro.
 O Departamento do Tesouro negou qualquer conhecimento do 
caso:
- Nada disso. No temos nada a ver com Lawrence. Provavelmente 
 a porra do FBI se intrometendo mais uma vez em nosso 
territrio.
 Mas o FBI afirmou:
 - Nunca ouvimos falar do homem. Provavelmente ele era 
controlado pelo Departamento de Estado ou pela Agncia de 
Informaes do Departamento de Defesa. 
A Agncia de Informaes do Departamento de Defesa estava to 
no escuro quanto as outras organizaes, mas limitou-se a 
declarar, astutamente:
 - Sem comentrios
 Cada servio estava absolutamente convencido de que o Juiz 
Henry Lawrence fora enviado ao exterior por um dos outros. 
 - No podemos deixar de reconhecer a sua coragem - comentou o 
director da CIA. - Ele  dos mais duros. No confessou e no 
revelou o nome de ningum. Para dizer a verdade, eu bem que 
gostaria de ter muitos agentes como ele.


As coisas no corriam bem para Anthony Orsatti e o capo era 
incapaz de compreender o motivo . Pela primeira vez em sua 
vida, a sorte lhe era adversa. Comeara com a desero de Joe 
Romano, depois viera a traio de Perry Pope e agora era o 
juiz que se envolvia em alguma histria maluca de espionagem. 
Todos eram partes intrnsecas da mquina de Orsatti, homens em 
quem se apoiava.
 Joe Romano era a alavanca na organizao da Famlia e Orsatti 
no encontrara ningum para substitui-lo. Os negcios estavam 
agora descuidados, comeavam a se acumular queixas de pessoas 
que nunca antes haviam se atrevido a reclamar. Espalhara-se a 
notcia de que Tony Orsatti estava ficando velho, no era mais 
capaz de manter os seus homens na linha, sua organizao 
comeava a desmoronar.
 A gota d'gua final foi um telefonema de Nova Jersey. 
 - Soubemos que est com um pequeno problema por a, Tony. 
Gostaramos de ajudar.
 - No tenho problema nenhum - respondeu Orsatti, bruscamente. 
-  verdade que tivemos duas dificuldades recentemente, mas j 
foi tudo resolvido.
 - No  o que soubemos, Tony. A informao  de que sua 
cidade se encontra  deriva. No h ningum para control-la.
- Eu estou controlando.
- Talvez tenha se tornado demais para voc. Quem sabe voc no 
tem trabalhado excessivamente? Talvez precise de um pequeno 
descanso.
- Esta  a minha cidade. Ningum vai tir-la de mim.
- Ora, Tony, quem falou em tir-la de voc? S queremos 
ajudar. As Famlias aqui no leste se reuniram e decidiram 
mandar alguns dos nossos homens para lhe dar uma mozinha. No 
h nada de errado numa colaborao entre velhos amigos, no  
mesmo?
 Anthony Orsatti sentiu um calafrio subir-lhe pela espinha. S 
havia uma coisinha errada com aquilo: a mozinha se 
transformaria numa enorme mo, viraria uma bola de neve
.

Ernestine fizera camaro corri quiabo para o jantar e estava 
fervendo no fogo em fogo brando, enquanto elas esperavam pela 
chegada de Al. A onda de calor de setembro j afectara 
profundamente os nervos de todo mundo. Quando Al finalmente 
entrou no pequeno apartamento, Ernestine gritou:
- Onde diabo voc se meteu? A porra do jantar est queimando e 
eu tambm!
 Mas Al se achava eufrico demais para se incomodar com a 
rispidez de Ernestine.
 - Eu estava ocupado a saber das notcias, mulher, E espere s 
at ouvir o que descobri. - Ele virou-se para Tracy. - A Mfia 
agarrou Tony Orsatti pelo colarinho. A Famlia de Nova Jersey 
vem assumir tudo aqui.
 Al fez uma pausa, o rosto se desmanchando num largo sorriso.
- Voc liquidou mesmo o filho da puta! - Ele fitou Tracy nos 
olhos e o sorriso se desvaneceu. - No est feliz, Tracy?
Que estranha palavra, pensou Tracy. Feliz. Ela esquecera o que 
isso significava. E se perguntou se algum dia poderia ser 
feliz outra vez, se algum dia tornaria a sentir quaisquer 
emoes normais. H muito tempo que todo seu pensamento em 
viglia se concentrava em vingar o que haviam feito  sua me 
e a si mesma. Agora que, estava quase acabado, restava apenas 
um vazio interior.


Tracy foi a um florista na manh seguinte.
- Quero mandar flores para Anthony Orsatti. Uma coroa fnebre, 
de cravos brancos, montada numa estante, com uma fita larga. E 
quero que na fita esteja escrito "DESCANSE EM PAZ".
Ela pegou um pequeno carto em branco e escreveu, para 
acompanhar a coroa: "DA FILHA DE DORIS WHITNEY."

LIVRO TRS

15

Filadlfia
TERA-FEIRA, 7 DE OUTUBRO - 16 HORAS

Chegara a hora de cuidar de Charles Stanhope III. Os outros 
eram estranhos. Charles fora seu amante, o pai de seu filho 
que no nascera... e ele virara as costas a ambos.

Ernestine e Al foram ao aeroporto de Nova Orleans para se 
despedirem de Tracy.
 - Sentirei sua falta - dissera Ernestine - Voc ps esta 
cidade de pernas pro ar. Deveriam eleg-la prefeita do povo.
- O que vai fazer em Filadlfia? - perguntara Al.
Ela respondera a metade da verdade:
- Voltarei a meu antigo emprego no banco.
Ernestine e Al trocaram um olhar.
 - Eles... ahn... sabem que voc est voltando?
 - No. Mas o vice-presidente gosta de mim. No haver 
qualquer problema.  difcil encontrar pessoas qualificadas, 
para operar nos computadores.
 - Boa sorte. Mantenha-se em contacto, est bem? E no se meta 
em encrencas, garota.
 Meia hora depois Tracy seguia de avio rumo a Filadlfia.

Ela hospedou-se no Hilton Hotel e lavou a vapor o seu nico 
vestido bom, por cima da banheira cheia de gua quente. s 11 
horas da manh seguinte foi para o banco e procurou a 
secretria de Clarence Desmond.
 - Ol, Mae.
 Ela olhou aturdida para Tracy, como se estivesse vendo um 
fantasma.
 - Tracy! - A moa ficou visivelmente embaraada. - Eu... Como 
vai?
 - Muito bem. O Sr. Desmond est?
- Eu... eu no sei. Deixe-me verificar. Com licena.
 Ela se levantou, afogueada, entrou apressadamente na sala do 
vice-presidente. Voltou um momento depois.
 - Pode entrar.
 Mae ficou de lado quando Tracy se encaminhou para a porta. O 
que h com ela?, pensou Tracy.
 Clarence Desmond estava de p, ao lado de sua mesa. 
- Ol, Sr. Desmond - disse Tracy, jovialmente. - Eu voltei.
 - Para qu?
 O tom era inamistoso. Decididamente hostil. Pegou Tracy de 
surpresa. Ela insistiu:
 - Disse que eu era a melhor operadora de computador que j 
conheceu e pensei...
- Pensou que eu lhe devolveria o seu antigo emprego?
 - Isso mesmo, senhor. No esqueci nada do que sabia. Ainda 
posso...

 - Lamento muito, Senhorita Whitney. - No era mais Tracy. - O 
que est me pedindo  inteiramente impossvel. Tenho certeza 
de que pode compreender que nossos clientes no ficariam 
satisfeitos em lidar com uma pessoa que cumpriu pena numa 
penitenciria por assalto  mo armada e tentativa de 
homicdio. Isso no estaria de acordo com a nossa imagem 
tica. E acho improvvel que, tendo em vista os seus 
antecedentes, qualquer banco possa contrat-la. Sugiro que 
tente encontrar emprego mais condizente com as suas 
circunstncias. E espero que compreenda que no h nada de 
pessoal nesta deciso.
 Tracy escutou as palavras primeiro com choque e depois com 
uma raiva crescente. Ele a fazia parecer uma pria, uma 
leprosa. No gostaramos de perd-la.  uma de nossas 
funcionrias mais valiosas.
- Deseja mais alguma coisa, Senhorita Whitney?
 Era uma maneira de encerrar a entrevista. Havia uma centena 
de coisas que Tracy sentia vontade de dizer, mas sabia que de 
nada adiantariam.
 - No. Acho que voc j disse tudo.
 Tracy virou-se e deixou a sala, o rosto ardendo. Todos os 
funcionrios do banco pareciam observ-la. Mae espalhara a 
notcia: A condenada voltara. Tracy encaminhou-se para a 
sada, a cabea erguida, morrendo por dentro. No posso 
permitir que faam isso comigo. O orgulho  tudo o que me 
resta e ningum vai tir-lo de mim.

Tracy passou o dia inteiro no quarto, angustiada. Como pudera 
ser to ingnua para acreditar que a receberiam de braos 
abertos? Era agora uma pessoa notria.
- Voc  a manchete no Daily News de Filadlfia.
Pois Filadlfia que se dane, pensou Tracy. Tinha um negcio 
inacabado ali, mas iria embora depois que o conclusse. 
Seguiria para Nova York, onde seria annima. A deciso f-la 
sentir-se melhor.
Tracy presenteou-se naquela noite com um jantar no Caf Royal, 
um dos melhores restaurantes de Filadlfia. Depois do srdido 
encontro com Clarence Desmond naquela manh, ela precisava do 
clima tranquilizador de luzes suaves, ambiente elegante e 
msica de fundo. Pediu um martni de vodca. Quando o garom o 
trouxe, Tracy levantou os olhos e sentiu que o corao 
subitamente parava. Sentados num reservado, no outro lado da 
sala, estavam Charles e sua esposa. Ainda no a tinham visto. 
O primeiro impulso de Tracy foi se levantar e ir embora. Ainda 
no se sentia preparada para enfrentar Charles, enquanto no 
tivesse uma oportunidade de pr seu plano em execuo.
 - Gostaria de pedir o jantar agora? - o garon estava 
perguntando.
 - Eu... eu esperarei mais um pouco. Obrigada.

 Ela precisava de decidir se ia ou no ia ficar. Olhou 
novamente para Charles e um fenmeno espantoso ocorreu: Era 
como se contemplasse um estranho. Viu um homem plido, de 
meia-idade, aparncia cansada, calvo, ombros encurvados, tendo 
no rosto uma expresso de inefvel tdio. Era impossvel 
acreditar que ela tivesse pensado outrora que amava aquele 
homem, fora para a cama com ele, planeara passar o resto da 
vida em sua companhia. Tracy olhou para a esposa. Ela exibia a 
mesma expresso entediada de Charles. Davam a impresso de 
duas pessoas encurraladas juntas pela eternidade, congeladas 
no tempo. Simplesmente se sentavam ali, sem dizerem uma s 
palavra um para o outro. Tracy pde visualizar os anos 
tediosos e interminveis que os dois teriam pela frente. Sem 
amor. Sem alegria. Essa  a punio de Charles, pensou ela, 
experimentando uma repentina sensao de alvio, uma 
libertao das profundas e sinistras correntes emocionais que 
antes a agrilhoavam. Tracy fez sinal para o garon e disse:
- Estou pronta para pedir agora. 
Estava acabado. O passado fora finalmente sepultado.
Foi somente quando voltou ao quarto no hotel, naquela noite, 
que Tracy se lembrou que tinha dinheiro a receber do fundo dos 
funcionrios do banco. Sentou-se e calculou a quantia. Dava 
exactamente 1.376 dlares e 65 cents.
 Ela escreveu uma carta para Clarence Desmond e dois dias 
depois recebeu uma resposta de Mae:

 Prezada Senhorita Whitney:
 Em resposta a seu pedido, o Sr. Desmond pediu-me que lhe 
comunicasse que, por causa da poltica moral do plano 
financeiro dos funcionrios, sua cota reverteu para o fundo 
geral. O Sr. Desmond pede tambm para lhe assegurar que no 
guarda qualquer ressentimento pessoal.

                                                 Atenciosamente,
                                                 Mae Trenton
                                                 Secretria do Vice-Presidente 
Snior.

Tracy no podia acreditar. Estavam roubando o seu dinheiro, 
sob o pretexto de resguardar a moral do banco! Ela sentiu-se 
indignada. E jurou: No deixarei que me enganem. Nunca mais 
deixarei que qualquer pessoa me engane.

Dois dias depois Tracy se achava parada do lado de fora da 
entrada familiar do Trust and Fidelity Bank de Filadlfia. 
Usava uma peruca preta comprida, uma maquilhagem morena, uma 
cicatriz vermelha no queixo. Se alguma coisa sasse errada, 
seria da cicatriz que se lembrariam. Apesar do disfarce, Tracy 
tinha a sensao de estar nua, pois trabalhara naquele banco 
durante cinco anos e os empregados eram pessoas que haviam-na 
conhecido muito bem. Teria de tomar todo cuidado para no se 
trair.
Ela entrou claudicando no banco. Havia muitos clientes l 
dentro, pois Tracy escolhera deliberadamente a hora do pique 
do movimento. Aproximou-se de uma das mesas de atendimento dos 
clientes. O homem sentado por trs concluiu um telefonema e 
disse:
- Pois no?
Era Jon Creighton, o fantico do banco. Odiava judeus, pretos 
e porto-riquenhos, mas no necessariamente nessa ordem. Sempre 
fora um motivo de irritao para Tracy durante os anos em que 
ali trabalhara. Agora, no houve qualquer sinal de 
reconhecimento no rosto dele.
- Buenos das, senhor. Eu gostaria de abrir uma conta 
corrente, agora.
O sotaque de Tracy era mexicano, o mesmo sotaque que ouvira 
por tantos meses de Paulita, sua companheira de cela. Havia 
uma expresso de desdm no rosto de Creighton.
 - Nome?
 - Rita Gonzales.
 - E quanto gostaria de depositar em sua conta?
 - Dez dlares.
 A voz de Creighton era escaminha:
 - Em cheque ou em dinheiro?

 - Acho que em dinheiro.
 Ela tirou cuidadosamente da bolsa uma nota de dez dlares, 
toda amassada, meio rasgada, entregou a Creighton. Ele 
estendeu um formulrio em branco para ela.
- Preencha isto.
Tracy no tinha a menor inteno de escrever qualquer coisa 
com sua letra. Franziu o rosto.
- Desculpe, senhor. Machuquei minha mo... num acidente. 
Importa-se de escrever para mim, se faz favor.
Creighton, bufou. Esses mexicanos analfabetos!
- Disse que seu nome  Rita Gonzales?
 - Sim.
 - Endereo?
 Tracy forneceu o endereo e o telefone do hotel em que estava 
hospedada.
- Nome de solteira de sua me?
- Gonzales. Minha me casou com seu tio.
- E sua data de nascimento?
- 20 de dezembro de 1958.
- Lugar de nascimento?
- Gudad de Mxico.
- Cidade do Mxico. Assine aqui.
- Terei de usar a mo esquerda.
Tracy pegou uma caneta e desajeitadamente escreveu uma 
assinatura ilegvel. Jon Creighton preencheu uma ficha de 
depsito. 
- Eu lhe darei um talo de cheques provisrio. Seus cheques 
impressos sero remetidos pelo correio dentro de trs ou 
quatro semanas.
- Bom. Muito agradecida, senhor.
- De nada.
Ele observou-a sair do banco. Malditos mexicanos.

H diversos meios ilegais de se obter acesso a um computador e 
Tracy era uma especialista no assunto. Ajudara a montar o 
sistema de segurana do banco e agora estava prestes a 
contorn-lo.
 Seu primeiro passo era encontrar uma loja de computadores, 
onde poderia usar um terminal para fazer contacto com o 
computador do banco. Encontrou uma a vrios quarteires do 
banco, quase vazia. Um vendedor ansioso se aproximou.
- Em que posso servi-la, dona?
- Eso si que no, senhor. Estou apenas dando uma olhada.
 Os olhos dele foram atrados por um adolescente empenhado num 
jogo de computador.
 - Com licena.
 O vendedor afastou-se apressadamente. Tracy virou-se para o 
computador  sua frente, um modelo de mesa, ligado a um 
telefone. Entrar no sistema seria fcil, mas ela estaria 
obstruda sem o cdigo de acesso apropriado. Esse cdigo era 
mudado diariamente. Tracy participara da reunio em que fora 
decidido o cdigo de autorizao original.
 - Devemos mud-lo constantemente - dissera Clarence Desmond - 
a fim de que ningum possa viol-lo. Contudo, queremos que 
seja bastante simples para as pessoas que esto autorizadas a 
us-lo.
 O cdigo finalmente escolhido usava as quatro estaes do ano 
e o dia corrente.

Tracy ligou o computador e bateu o cdigo para o Trust and 
Fidelity Bank de Filadlfia. Ouviu um zumbido estridente e ps 
o receptor do telefone no mdulo do computador. Um aviso 
apareceu na pequena tela: SEU CDIGO DE AUTORIZAO, POR 
FAVOR?
 Era o dia 10.
 OUTONO 10, bateu Tracy.
ESTE  UM CDIGO DE AUTORIZAO IMPRPRIO. A tela do 
computador ficou em branco.
Eles teriam mudado o cdigo? Pelo canto do olho, Tracy 
percebeu o vendedor a se aproximar novamente. Ela deslocou-se 
para outro computador, lanando-lhe um olhar casual e seguindo 
para o corredor. O vendedor diminuiu as passadas. Uma curiosa, 
concluiu ele. E adiantou-se apressadamente para cumprimentar 
um casal de aparncia prspera que entrava na loja. Tracy 
voltou ao primeiro computador.
 Tentou se situar na mente de Clarence Desmond. Ele era um 
homem de hbitos e Tracy tinha certeza de que no teria 
variado demais o cdigo. Provavelmente mantivera o conceito 
original das estaes e dos nmeros. Mas como os mudara? Seria 
complicado demais inverter todos os nmeros; portanto, era 
provvel que ele tivesse apenas trocado as estaes.
Tracy tentou de novo.
SEU CDIGO DE AUTORIZAO, POR FAVOR?
INVERNO 10.
 ESTE  UM CDIGO DE AUTORIZAO IMPRPRIO. A tela tornou a 
ficar vazia.
No vai dar certo, pensou Tracy, desesperada. Farei s mais 
uma tentativa.
SEU CDIGO DE AUTORIZAO, POR FAVOR?
PRIMAVERA 10.
A tela ficou vazia por um instante e depois a mensagem 
apareceu: CONTINUE, POR FAVOR.
Ento Desmond trocara mesmo as estaes. Ela bateu 
rapidamente: TRANSAO INTERNA DE DINHEIRO.
 No mesmo instante, o cardpio do banco, as categorias de 
transaces disponveis, apareceu na tela:
VOC DESEJA
A) DEPSITO DE DINHEIRO
B) TRANSFERENCIA DE DINHEIRO
C) RETIRADA DE DINHEIRO DE CONTA DE POUPANA
D) TRANSFERENCIA ENTRE SUCURSAIS
E) RETIRADA DE DINHEIRO DE CONTA CORRENTE
REGISTRE POR FAVOR SUA OPO

Tracy escolheu o B. A tela tornou a se apagar e logo um novo 
cardpio apareceu.

VALOR DA TRANSFERNCIA?
PARA ONDE?
DE ONDE?

Ela bateu: DO FUNDO DE RESERVA GERAL PARA RITA GONZALES. 
Quando chegou o momento de indicar o valor, ela hesitou por um 
instante. Tentador, pensou Tracy. Como tinha acesso, no havia 
limite para a quantia que o computador agora subserviente 
poderia lhe dar. Se quisesse, tomaria milhes. Mas no era uma 
ladra. Tudo o que queria era o que lhe pertencia por direito. 

Ela bateu 1.375,65 dlares e acrescentou o nmero da conta de 
Rita Gonzales.
A tela comunicou: TRANSAO CONCLUDA, DESEJA EFECTUAR OUTRAS 
OPERAES?
NO.
SESSO ENCERRADA. OBRIGADO.
O dinheiro seria automaticamente transferido pela Cmara de 
Compensao Interbancria que manipulava os 220 bilhes de 
dlares deslocados entre os bancos todos os dias 
O vendedor se aproximava outra vez de Tracy, o rosto franzido. 
Tracy se apressou em apertar uma tecla e a tela do computador 
apagou,
- Est interessada em comprar esse aparelho, dona?
 - No, obrigada. No consigo mesmo entender esses 
computadores.
 Ela telefonou para o banco de uma drugstore na esquina e 
pediu para falar com o chefe dos caixas.
- Ol. Aqui  Rita Gonzales. Eu gostaria que minha conta 
corrente fosse transferida para a matriz do First Hanover 
Bank, em Nova York, por favor.
- O nmero de sua conta, Senhorita Gonzales?
Tracy deu a informao.
Uma hora depois, Tracy deixou o Hilton e partiu para a cidade 
de Nova York.
Quando o First Hanover Bank de Nova York abriu, s 10 horas da 
manh seguinte, Rita Gonzales ali estava, a fim de retirar 
todo o dinheiro de sua conta.
- Quanto tem? perguntou ela.
O caixa verificou.
- Tem 1.385 dlares e 65 cents.
- Sim, est correcto.
- Gostaria de levar um cheque visado nesse valor, Senhorita 
Gonzales?
 - No, obrigada. No confio em bancos. Quero tudo em 
dinheiro.

Tracy recebera os 200 dlares habituais ao deixar a 
penitenciria estadual e mais a pequena quantia que ganhara 
tomando conta de Amy. Contudo, mesmo com o dinheiro do fundo 
do banco, ela no tinha segurana financeira. Era 
indispensvel que conseguisse um emprego o mais depressa 
possvel.
 Ela hospedou-se num hotel barato na Lexington Avenue e 
comeou a enviar seu currculo aos bancos de Nova York, 
solicitando um emprego como tcnica em computadores. Logo 
descobriu que o computador se tornara subitamente o seu 
inimigo. Sua vida no era mais particular. Os bancos de 
memria dos computadores continham a histria de sua vida e 
prontamente a revelavam a qualquer um que apertasse as teclas 
certas. E no instante em que a ficha criminal de Tracy 
aparecia, seu pedido de emprego era rejeitado. 

Acho improvvel que, tendo em vista os seus antecedentes, 
qualquer banco possa contrat-la. Clarence Desmond estava 
certo.
 Tracy enviou outros pedidos de empregos a seguradoras e 
outras empresas que operavam com computadores. As respostas 
eram sempre iguais: negativo.

 Muito bem, pensou Tracy, sempre posso fazer outra coisa. Ela 
comprou um exemplar de The New York Times e comeou a procurar 
os anncios de emprego.
 Havia uma vaga de secretria numa firma de exportao. No 
momento em que Tracy passou pela porta, o gerente de pessoal 
disse:
 - Ei, eu a vi na televiso . Voc salvou uma garota na 
priso, no  mesmo?
 Tracy virou-se e fugiu.
 No dia seguinte ela foi contratada como vendedora no 
departamento infantil da Saks, na Quinta Avenida. O salrio 
era muito menor do que ganhava antes, mas pelo menos daria 
para se sustentar. 
 Em seu segundo dia de trabalho, uma freguesa histrica 
reconheceu-a e comunicou ao gerente do andar que se recusava a 
ser servida por uma assassina que afogara uma criancinha. 
Tracy no teve sequer a oportunidade de explicar. Foi 
imediatamente despedida.
 Parecia a Tracy que os homens contra os quais executara a sua 
vingana estavam dando a ltima palavra, no final de contas, 
convertendo-a numa criminosa pblica, uma pria. A injustia 
do que estava lhe acontecendo era corrosiva. No tinha idia 
de como odiaria viver e pela primeira vez comeou a 
experimentar um sentimento de desespero. Ela vasculhou a bolsa 
naquela noite para verificar quanto dinheiro lhe restava. Num 
canto da carteira viu o pedao de papel que Betty Franciscus 
lhe dera na priso. CONRAD MORGAN, JOALHEIRO, QUINTA AVENIDA, 
640, CIDADE DE NOVA YORK. Ele se empenha na reforma criminal. 
E gosta de ajudar as pessoas que j passaram pela priso.

Conrad Morgan et Cie Joalheiros era um estabelecimento 
elegante, com um porteiro de libr do lado de fora e um guarda 
armado dentro. A loja propriamente dita era simples, mas as 
jias eram requintadas e caras. Tracy disse  recepcionista:
 - Eu gostaria de falar com o Sr. Conrad Morgan, por favor. 
 - Tem um encontro marcado?
 - No. Uma... uma amiga comum sugeriu que eu o procurasse.
 - Seu nome?
 - Tracy Whitney.
 - Um momento, por favor.
 A recepcionista pegou um telefone e murmurou alguma coisa que 
Tracy no pde entender. Ela reps o telefone no gancho.
 - O Sr. Morgan est muito ocupado neste momento Pergunta se 
poderia voltar s seis horas.
 - Posso, sim. Obrigada.
 Tracy saiu da loja e parou na calada, indecisa. Vir para 
Nova York fora um erro. Provavelmente no havia nada que 
Conrad Morgan pudesse fazer por ela. E por que deveria fazer? 
Ela era uma estranha total. Ele me far uma preleco e me 
dar uma esmola. No preciso de qualquer das duas coisas. Nem 
dele nem de qualquer outra pessoa. Sou uma sobrevivente. Darei 
um jeito, de alguma forma. Que se dane Conrad Morgan. No 
voltarei a procur-lo.
Tracy vagueou pelas ruas a esmo, passando pelos sales 
reluzentes da Quinta Avenida, os prdios de apartamentos 
guardados na Park Avenue, as lojas movimentadas na Lexington e 
na Terceira Avenida. Passeava pelas ruas de Nova York sem 
pensar, sem ver nada, dominada por uma amarga frustrao.

s seis horas descobriu-se de volta  Quinta Avenida, diante 
de Conrad Morgan et Cie Joalheiros. O porteiro se fora e a 
porta estava trancada. Tracy bateu na porta, num gesto de 
desafio, depois virou-se. Mas, para sua surpresa, a porta 
abriu-se abruptamente. 
Um homem de aparncia paternal estava parado ali, a fit-la. 
Era calvo, com tufos de cabelos brancos por cima das orelhas, 
um rosto rubicundo e jovial, olhos azuis faiscantes. Parecia 
um alegre gnomo.
-  a Senhorita Whitney?
- SOU...
- E eu sou Conrad Morgan. No quer entrar, por favor?
Tracy entrou na loja deserta.
- Eu estava  sua espera - disse Conrad Morgan. - Vamos para o 
meu escritrio, onde poderemos conversar mais  vontade.
Ele conduziu-a atravs da loja at uma porta fechada, que 
destrancou com uma chave. O escritrio era elegantemente 
mobiliado e mais parecia um apartamento que um lugar de 
negcios, sem escrivaninhas, apenas sofs, cadeiras e mesas 
distribudas com bom gosto. As paredes estavam cobertas por 
quadros de velhos mestres.
- Gostaria de tomar um drinque? - ofereceu Conrad Morgan. - 
Usque, conhaque ou talvez um xerez? 
- No quero nada, obrigada.
Tracy sentia-se subitamente nervosa. Descartara a idia de que 
aquele homem faria alguma coisa para ajud-la; contudo, ao 
mesmo tempo, descobriu-se a torcer desesperadamente para que 
ele pudesse faz-lo.
- Betty Franciscus sugeriu que eu o procurasse, Sr. Morgan. 
Ela disse que o senhor... ajudava pessoas que j estiveram... 
em dificuldades.
 Ela no foi capaz de dizer priso. Conrad Morgan cruzou as 
mos e Tracy notou que as unhas eram impecavelmente cuidadas. 
- Pobre Betty. Uma moa maravilhosa. Mas no teve sorte.
- No teve sorte?
- Isso mesmo. Foi apanhada.
- Eu... eu no compreendo...
-  realmente muito simples, Senhorita Whitney. Betty 
trabalhava para mim. Era bem protegida. Mas a pobre coitada se 
apaixonou por um chofer de Nova Orleans, e resolveu operar por 
conta prpria. E... acabou sendo apanhada.
Tracy estava confusa.
- Ela trabalhou aqui como uma vendedora?
Conrad Morgan recostou-se na cadeira e riu at que os olhos 
ficaram mareejados de lgrimas.
 - No, minha cara - disse ele, enxugando as lgrimas. - 
Obviamente, Betty no lhe explicou tudo.
 Ele tornou a se recostar e uniu as pontas dos dedos, antes de 
continuar:
 - Tenho um pequeno negcio paralelo muito lucrativo, 
Senhorita Whitney. Sinto o maior prazer em partilhar esses 
lucros com meus colegas. Sou bem-sucedido em contratar pessoas 
como voc... se me perdoa diz-lo ... que j cumpriram uma 
pena de priso.
 Tracy estudou o rosto dele, mais perplexa do que nunca.

 - Deve compreender que me encontro numa posio singular. 
Tenho uma clientela extremamente rica. Meus clientes tornam-se 
meus amigos E me fazem suas confidncias. - Ele bateu com os 
dedos, delicadamente. - Sei quando meus clientes viajam. Bem 
poucas pessoas viajam com jias nestes tempos perigosos. 
Assim, suas jias ficam guardadas em casa. Recomendo as 
medidas de segurana que devem adoptar para proteg-las. Sei 
exactamente quais as jias que possuem, pois as compraram de 
mim. E os clientes.
 Tracy descobriu-se de p.
 - Obrigada por seu tempo, Sr. Morgan.
 - J vai embora?
 - Se est dizendo o que eu penso...
 - Claro que estou.
 Tracy podia sentir as suas faces ardendo.
 - No sou uma criminosa. Vim aqui  procura de um emprego.
 - E  justamente o que estou lhe oferecendo, minha cara. 
Ocupar uma ou duas horas de seu tempo e posso lhe prometer 
vinte e cinco mil dlares. - Ele sorriu maliciosamente. - E 
livre de impostos,  claro.
 Tracy fazia um grande esforo para controlar sua raiva.
- No estou interessada. Pode me deixar sair, por favor?
- Pois no, se  isso o que deseja. - Ele levantou-se e 
acompanhou-a at  porta. - Deve compreender, Senhorita 
Whitney, que se houvesse o menor perigo de algum ser apanhado 
eu no estaria envolvido. Tenho uma reputao a zelar.
- Prometo que no falarei nada a esse respeito - disse Tracy 
friamente.
Morgan tornou a sorrir.
- No h nada que possa dizer, minha cara, no  mesmo? 
Afinal, quem acreditaria em voc? Eu sou Conrad Morgan.
 Ao chegarem  porta da loja, ele acrescentou:
 - No quer me avisar se mudar de idia? O melhor momento para 
me telefonar  depois das seis horas da tarde. Ficarei  
espera de sua ligao.
 - Pois no fique - disse Tracy bruscamente.
 Ela saiu para a noite que caa. Ainda tremia quando chegou a 
seu quarto.
 Mandou um empregado do hotel buscar um sanduche e caf. No 
tinha vontade de falar com ningum. A conversa com Conrad 
Morgan deixara-a com a sensao de ter sido contaminada. Ele a 
confundira com todas as criminosas tristes, confusas e 
derrotadas que a cercavam na Penitenciria Meridional da 
Louisiana Para Mulheres. Mas ela no era uma delas. Era Tracy 
Whitney, uma perita em computadores, uma cidad decente, que 
respeitava as leis.
A quem ningum queria contratar.
 Tracy passou a noite inteira acordada, pensando em seu 
futuro. No tinha emprego e lhe restava muito pouco dinheiro. 
Tomou duas decises: Pela manh, iria se mudar para um lugar 
mais barato e arrumaria um emprego. Qualquer tipo de emprego.

O lugar mais barato em um horrvel apartamento de um s 
cmodo, no quarto andar de um prdio sem elevador, no Lower 
East Side. De seu quarto, atravs das paredes finas como 
papel, Tracy podia ouvir os vizinhos gritando uns para os 
outros, em lnguas estrangeiras. As janelas e portas das lojas 
que margeavam as ruas eram gradeadas e Tracy podia compreender 
por qu. A rea parecia povoada por bbados, prostitutas e 
mendigos.

 A caminho do supermercado para fazer compras, Tracy foi 
abordada trs vezes... duas vezes por homens e a outra por uma 
mulher.
No posso suportar isso. No ficarei aqui por muito tempo, 
Tracy garantiu a si mesma.

Ela foi a uma pequena agncia de empregos, a poucos 
quarteires de seu apartamento. Era dirigida por uma certa 
Sra. Murphy, uma mulher corpulenta, de aparncia matronal. Ela 
examinou o currculo de Tracy com uma expresso irnica.
- No sei para que precisa de mim. Deve haver pelo menos uma 
dzia de empresas que brigariam para ter algum como voc.
 Tracy respirou fundo.
 - Acontece que tenho um problema.
 Ela explicou tudo. A Sra. Murphy escutou em silncio e disse, 
quando Tracy terminou:
- Pode esquecer a procura de um emprego em computadores.
- Mas acabou de dizer...
- As companhias andam muito preocupadas actualmente com os 
crimes por computador. No contrataro ningum que tenha uma 
ficha criminal.
- Mas preciso de um emprego. Eu...
 - H outros tipos de emprego. J pensou em trabalhar como 
vendedora?
Tracy lembrou-se de sua experincia na loja de departamentos. 
No podia suportar passar de novo pela mesma situao.
- H mais alguma coisa?
 A mulher hesitou. Tracy Whitney era obviamente algum muito 
acima do emprego que tinha em mente.
 - Sei que no  da sua classe, mas h uma vaga de garonete 
no Jackson Hole.  uma lanchonete no Upper East Side.
 - Um emprego de garonete?
 - Isso mesmo. Se quiser aceitar, no cobrarei qualquer 
comisso. Acabei de ser informada.
 Tracy ficou em silncio por um momento, pensando. Servira a 
mesas no refeitrio da universidade. Fora ento divertido. 
Agora, era uma questo de sobrevivncia.
 - Vou experimentar.

Jackson Hole era um tumulto, com fregueses ruidosos e 
impacientes, cozinheiros mortificados e irritados. A comida 
era boa e os preos razoveis, a lanchonete estava sempre 
apinhada. As garonetes trabalhavam num ritmo frentico, sem 
tempo para descansar. Ao final do primeiro dia, Tracy 
encontrava-se exausta. Mas estava ganhando dinheiro.
 No segundo dia, por volta de meio-dia, quando Tracy servia a 
uma mesa cheia de vendedores, um dos homens subiu a mo por 
baixo de sua saia. Tracy deixou cair um pote de chili em sua 
cabea. Foi o fim do emprego.
 Ela voltou  Sra. Murphy e relatou o que acontecera.
 - Talvez eu tenha uma boa notcia - disse a Sra. Murphy. - O 
Wellington Arnis precisa de uma arrumadeira-assistente. 
Mandarei voc para l.
 O Wellington Arais, era um hotel pequeno e elegante na Park 
Avenue que atendia aos ricos e famosos. Tracy foi entrevistada 
pela chefe das arrumadeiras e contratada. O trabalho no era 
difcil, as colegas simpticas e o horrio razovel.
Uma semana depois, Tracy foi chamada  sala de sua superior. O 
gerente-assistente tambm estava ali.

- Verificou a Sute 827 hoje? - perguntou-lhe a sua superior.
A Sute era ocupada por Jennifer Marlowe, uma actriz de 
Hollywood. Parte das funes de Tracy era inspeccionar cada 
sute e verificar se as arrumadeiras tinham feito seu trabalho 
direito.
- Verifiquei, sim.
- A que horas?
- s duas. Algum problema?
O gerente-assistente interveio:
- A Senhorita Marlowe voltou s trs horas e descobriu que um 
valioso anel de diamante desaparecera.
Tracy pde sentir seu corpo ficar tenso.
- Voc entrou no quarto, Tracy?
- Claro. Verifico todos os cmodos.
- Viu alguma jia quando esteve no quarto?
- Bom... no. Acho que no.
O gerente-assistente insistiu:
- Voc acha que no? No tem certeza?
- Eu no estava procurando por jias - respondeu Tracy. - 
Apenas verificava as camas e as toalhas.
- A Senhorita Marlowe afirma que deixou o anel na penteadeira 
quando saiu da sute.
- No sei de nada a esse respeito.
- Ningum mais tem acesso  sute. E as arrumadeiras j esto 
connosco, h muitos anos.
- No peguei nenhum anel.
O gerente-assistente suspirou.
- Teremos de chamar a polcia para investigar.
- S pode ter sido outra pessoa - protestou Tracy. - Ou talvez 
a Senhorita Marlowe tenha esquecido onde guardou o anel..
- Com a sua ficha...
 L estava, s claras. Com a sua ficha...
 - Terei de pedir-lhe que faa o favor de esperar no 
escritrio da segurana at a chegada da polcia.
Tracy sentiu o rosto corar.
- Est bem, senhor.
Ela foi acompanhada at  sala por um dos agentes de 
segurana, teve a sensao de que estava de volta  priso. 
Lera sobre ex-condenados que eram perseguidos porque tinham 
passado pela priso, mas nunca lhe ocorrera que isso pudesse 
acontecer com ela. Haviam-lhe posto um rtulo e esperavam que 
ela vivesse de acordo. Ou em desacordo, pensou Tracy, 
amargurada.
Meia hora depois o gerente-assistente entrou na sala e disse, 
sorrindo:
 - A Senhorita Marlowe encontrou seu anel. No final das 
contas, ela esquecera onde o guardara. Foi apenas um pequeno 
equvoco.
- Maravilhoso - murmurou Tracy.
Ela deixou o hotel e seguiu directamente para Conrad Morgan, 
et Cie Joalheiros.

-  ridiculamente simples - Conrad Morgan estava dizendo. - 
Uma cliente minha, Lois Bellamy, acaba de viajar para a 
Europa. Sua casa  em Sea Cliff, Long Island. Os empregados 
tiram folga nos fins de semana e no h ningum por l. Uma 
patrulha particular efectua uma inspeco a cada quatro horas. 
Voc pode entrar e sair da casa em poucos minutos.

Eles estavam sentados no escritrio de Conrad Morgan.
- Conheo o sistema de alarme e tenho a combinao do cofre. 
Tudo o que voc tem de fazer, minha cara,  entrar, pegar as 
jias e sair. Traga-me as jias, eu tiro as pedras dos 
engastes, torno a lapidar as maiores e as vendo.
 - Se  to simples assim, por que voc no faz tudo 
pessoalmente? - indagou Tracy, bruscamente.
 Os olhos azuis de Morgan faiscaram.
 - Porque estou saindo da cidade a negcios. Sempre que um 
desses pequenos incidentes ocorre", eu me encontro 
invariavelmente fora da cidade a negcios.
 - Entendo...
 - Se est com escrpulos sobre a possibilidade de o roubo 
afectar a Sra. Bellamy, pode esquecer. Ela  uma mulher 
horrvel, que tem casas por todo o mundo, cheias das coisas 
mais caras. Alm disso, segurou as jias pelo dobro do valor 
real. Naturalmente, eu fiz todas as avaliaes.
 Tracy olhava fixamente para Conrad Morgan, pensando: Devo ter 
ficado louca. Aqui estou a discutir calmamente um roubo de 
jias com este homem.
- No quero voltar  priso, Sr. Morgan.
- No h qualquer perigo. Nenhuma das pessoas que trabalhou 
para mim foi apanhada. Pelo menos no enquanto trabalhavam 
para mim. E ento... o que me diz?
 A resposta era bvia. Ela diria que no. Toda a idia era 
insana.
- Voc disse vinte e cinco mil dlares?
- Pagamento contra entrega.
Era uma fortuna, o suficiente para sustent-la at poder 
definir o que fazer com sua vida. Tracy pensou no apartamento 
sinistro em que vivia, nos berros dos inquilinos. Lembrou-se 
da mulher a gritar: 
- No quero uma assassina me servindo.
E lembrou-se das palavras do gerente-assistente do hotel:
- Teremos de chamar a polcia para investigar.
Mas Tracy ainda no tinha condies de dizer sim.
- Eu sugeriria esta noite de sbado - acrescentou Conrad 
Morgan. - Os empregados saem ao meio-dia de sbado. 
Providenciarei uma carteira de motorista para voc, sob um 
nome falso. Alugar um carro aqui em Manhattan e seguir para 
Long Island, l chegando s onze horas. Pegar as jias, 
voltar a Nova York e devolver o carro... Sabe guiar, no  
mesmo?
- Sei, sim.
- Excelente. H um trem partindo para St. Louis s 7 e 45. 
Reservarei um compartimento para voc. Irei encontr-la na 
estao em St. Louis e voc me entregar as jias. Eu lhe 
darei ento os vinte e cinco mil dlares.
Ele fazia com que tudo parecesse muito simples.
Aquele era o momento de dizer no, levantar e ir embora... ir 
embora para onde?
- Precisarei de uma peruca loura - disse Tracy, falando muito 
devagar.


Depois que Tracy se retirou, Conrad Morgan permaneceu sentado 
em seu escritrio, no escuro, pensando nela. Uma fina mulher. 
Muito fina. Era uma pena. Talvez devesse t-la avisado que no 
estava realmente to familiarizado assim com aquele sistema de 
alarme contra ladres em particular.

16

Com os mil dlares que Conrad Morgan lhe adiantara, Tracy 
comprou duas perucas, uma loura e uma preta, com uma 
infinidade de pequenas tranas. Comprou uma cala comprida 
azul-marinho, um macaco preto e uma valise, imitao de 
Gucci, num ambulante que estava na Lexington Avenue. At 
agora, tudo corria perfeitamente. Conforme Morgan prometera, 
Tracy recebeu um envelope contendo uma carteira de motorista, 
em nome de Ellen Branch, um diagrama do sistema de segurana 
da casa da Sra. Bellamy, a combinao do cofre no quarto e uma 
passagem da Amtrack para St. Louis, numa cabina particular. 
Tracy recolheu seus poucos pertences e partiu. Nunca mais 
tornarei a viver num lugar como este, ela prometeu a si mesma. 
Alugou um carro e seguiu para Long Island. Estava indo cometer 
um roubo.
 O que fazia tinha a irrealidade de um sonho e ela sentia-se 
apavorada. E se fosse apanhada? O que estava prestes a fazer 
valia o risco?
 ridiculamente simples, dissera Conrad Morgan.
Ele no estaria envolvido em qualquer coisa assim se no 
tivesse certeza absoluta. Ele tem sua reputao a zelar. Eu 
tambm tenho uma reputao, pensou Tracy, amargurada, s que  
a pior possvel. A qualquer momento que uma jia esteja 
desaparecida, eu serei culpada at que se prove a minha 
inocncia.
Tracy sabia o que estava fazendo. Tentava se pr num estado de 
raiva, tentava se preparar psicologicamente para cometer um 
crime. Mas no deu certo. Ao chegar a Sea Cliff, era um 
destroo nervoso. Por duas vezes quase saiu com o carro da 
estrada. Talvez a polcia me detenha por conduo perigosa, 
pensou ela, esperanosa. Poderei ento dizer ao Sr. Morgan que 
tudo saiu errado antes mesmo de comear.
Mas no havia qualquer carro da polcia  vista. Claro, pensou 
Tracy, furiosa, eles nunca esto por perto quando se precisa.
 Ela foi para o estreito de Long Island, seguindo a orientao 
de Conrad Morgan. A casa fica  beira do mar. Tem o nome de 
Embers.  uma antiga manso vitoriana. No pode errar.
Por favor, Deus, faa-me errar, rezou Tracy.
Mas l estava a casa, assomando da escurido, como algum 
castelo de ogre num pesadelo. Parecia deserta. Como os criados 
se atrevem a tirar folga no sbado!, pensou Tracy, indignada. 
Todos deveriam ser despedidos.
Ela levou o carro para trs de um grupo de enormes salgueiros, 
onde ficaria escondido . Desligou o motor. Ficou escutando os 
rudos nocturnos dos insectos. Nada mais perturbava o 
silncio. A casa ficava longe da estrada principal e no havia 
qualquer trfego quela hora.
A propriedade  protegida por rvores, minha cara, o vizinho 
mais prximo est a acres de distncia. Portanto, no precisa 
se preocupar com a possibilidade de ser vista. A patrulha de 
segurana efectua a sua inspeco s dez horas da noite e 
novamente s duas da madrugada. Voc j estar muito longe s 
duas da madrugada.

 Tracy olhou para o seu relgio. Eram 11 horas. A primeira 
inspeco j fora feita. Ela tinha trs horas antes que a 
patrulha voltasse para a segunda inspeco. Ou trs segundos 
para fazer a manobra com o carro e voltar a Nova York, 
esquecer toda aquela loucura. Mas voltar para o qu? As 
imagens afloraram espontneas em sua mente. O 
gerente-assistente no Saks: "Lamento profundamente, Senhorita 
Whitney, mas devemos fazer a vontade de nossos fregueses." 
"Pode esquecer a idia de trabalhar com um computador. Eles 
no contrataro algum que tenha uma ficha criminal.. . "So 
25 mil dlares, livres de impostos, por uma ou duas horas. Se 
tem escrpulos, saiba que ela  realmente uma mulher 
horrvel."
O que estou fazendo?, pensou Tracy. No sou realmente uma 
ladra. No uma ladra genuna. Sou uma estpida amadora, que 
est prestes a sofrer um colapso nervoso.
Se eu tivesse metade de um crebro, escaparia daqui enquanto 
ainda h tempo. Antes que os homens da SWAT me encontrem, haja 
um tiroteio e levem meu corpo crivado de balas para o 
necrotrio. Posso ver a manchete: PERIGOSA CRIMINOSA MORTA 
DURANTE TENTATIVA DE ROUBO FRUSTRADA.
Quem haveria de chorar em seu enterro? Ernestine e Amy, Tracy 
olhou para o relgio.
- Oh, Deus!
Estava sentada ali, pensando, h 20 minutos. Se vou fazer,  
melhor comear logo.
Ela no podia se mexer. Estava paralisada pelo medo. No posso 
ficar sentada aqui eternamente, disse a si mesma. Por que no 
dou uma olhada na casa? Apenas isso, nada mais.
 Tracy respirou fundo e saiu do carro. Usava o macaco preto. 
Podia sentir os joelhos tremendo. Aproximou-se da casa 
lentamente e constatou que se achava completamente s escuras.
No se esquea de usar luvas.
Tracy meteu a mo no bolso, tirou um par de luvas, vestiu-as. 
Oh, Deus, eu vou fazer!, pensou ela. Vou realmente seguir em 
frente e cometer um roubo. Seu corao batia to alto que no 
podia mais ouvir quaisquer outros sons.
O alarme fica  esquerda da porta da frente. H cinco botes. 
A luz vermelha estar acesa, o que significa que o alarme se 
acha activado. O cdigo para deslig-lo  
trs-dois-quatro-um-um. Quando a luz vermelha se apagar, voc 
saber que o alarme est desactivado. Aqui est a chave da 
porta da frente. Depois de entrar, no se esquea de fechar a 
porta. Use esta lanterna. No acenda nenhuma das luzes da 
casa, pois sempre  possvel que algum passe de carro. O 
quarto principal fica no segundo andar,  esquerda, de frente 
para o mar. Encontrar o cofre por trs de um retracto de Lois 
Bellamy.  um cofre muito simples. Tudo o que tem a fazer  
seguir esta combinao.
Tracy ficou imvel, tremendo, pronta para fugir ao menor 
rudo. Silncio. Lentamente, ela se inclinou e apertou a 
sequncia dos botes do alarme, rezando para que no desse 
sinal. A luz vermelha se apagou. O passo seguinte a 
comprometeria irremediavelmente. Ela lembrou-se de que os 
pilotos de avio tinham uma frase para isso: o ponto do qual 
no se podia mais voltar.

 Tracy inseriu a chave na fechadura e a porta se abriu. Ela 
esperou um minuto inteiro antes de entrar. Todos os nervos de 
seu corpo vibravam num ritmo frentico quando parou no 
vestbulo, escutando, com medo de se mexer. Um silncio de 
deserto povoava a casa. Ela pegou a lanterna, acendeu-a, viu a 
escada. Adiantou-se e comeou a subir. Tudo o que queria agora 
era acabar com aquilo o mais depressa possvel e fugir.
O vestbulo superior parecia fantasmagrico ao claro da 
lanterna, o facho bruxuleante fazia com que as paredes 
tremessem. Tracy espiou em cada cmodo por que passou. Estavam 
todos vazios. 
O quarto principal ficava no final do corredor, dando para o 
mar, exactamente como Morgan o descrevera. Era aconchegante, 
numa tonalidade rosa suave, uma cama de dossel e uma cmoda 
adornada com rosas. Havia duas poltronas, uma lareira e uma 
mesa pequena de refeio na frente. Eu quase vivi numa casa 
assim, com Charles e nosso filho, pensou Tracy.
Ela foi at a janela panormica e contemplou os barcos 
distantes, ancorados na baa. Diga-me, Deus, o que o levou a 
decidir que Lois Bellamy deveria viver nesta linda casa e que 
eu deveria estar aqui para roub-la? Vamos, menina, ela disse 
a si mesma, no se torne filosfica. Ser uma vez s. Tudo 
acabar em poucos minutos, mas no se ficar parada aqui sem 
fazer nada.
Tracy virou-se e foi at o retracto que Morgan descrevera. 
Lois Bellamy tinha uma expresso dura e arrogante.  verdade. 
Ela parece mesmo uma mulher horrvel. O quadro virava para 
fora, afastando-se da parede, havia um pequeno cofre por trs. 
Tracy memorizara a combinao. Trs voltas para a direita, 
pare em quarenta e dois. Duas voltas para a esquerda, pare em 
dez. Uma volta para a direita, pare em trinta. Suas mos 
tremiam tanto que ela teve de comear duas vezes. Ouviu um 
clique. A porta do cofre estava aberta.
Em seu interior havia diversos envelopes grossos e documentos, 
mas Tracy ignorou-os. L no fundo, sobre uma pequena 
prateleira, ela viu um saco de jias de camura. Tracy 
estendeu a mo e levantou-o da prateleira. E foi nesse 
instante que o alarme comeou a soar, o barulho mais alto que 
Tracy j ouvira em toda a sua vida. Parecia reverberar de 
todos os cantos da casa, gritando o seu alerta. Ela ficou 
imvel, paralisada pelo choque.
O que sara errado? Conrad Morgan no sabia do alarme dentro 
do cofre, que era accionado quando se removiam as jias da 
prateleira?
Ela tinha de sair dali rapidamente. Meteu a bolsa de camura 
no bolso e comeou a correr para a escada. E de repente, acima 
do som do alarme, ouviu outro rudo, o barulho de sirenes se 
aproximando. Tracy parou no alto da escada, apavorada, o 
corao disparado, a boca seca. Correu em direco a uma 
janela, entreabriu uma cortina, espiou. Uma radiopatrulha 
preta e branca estava parando diante da casa. Enquanto Tracy 
observava, um policial uniformizado correu para os fundos do 
prdio, enquanto um segundo se encaminhava para a porta da 
frente. No havia escapatria. O alarme ainda ressoava e 
subitamente parecia a terrvel campainha nos corredores da 
Penitenciria Meridional da Louisiana Para Mulheres.
No!, pensou Tracy. No permitirei que me mandem de volta para 
l.
A porta da frente soou estridentemente.


O Tenente Melvin Durkin integrava a fora policial de Sea 
Cliff h dez anos. Sea Cliff era uma cidadezinha tranquila e a 
principal actividade da polcia era reprimir o vandalismo, uns 
poucos roubos de carros e ocasionais brigas de bbados nas 
noites de sbado. A activao do alarme Bellamy se enquadrava 
numa categoria diferente, Era o tipo de actividade criminosa 
pelo qual o Tenente Durkin ingressara na polcia . Ele 
conhecia Lois Bellamy e tinha conhecimento da valiosa coleco 
de quadros e jias que ela possua. E com a Sra Bellamy 
viajando, ele fizera questo de inspeccionar a casa 
periodicamente, pois constitua um alvo tentador para qualquer 
ladro. E agora, pensou o Tenente Durkin, parece que peguei um 
ladro. Ele se encontrava apenas a dois quarteires de 
distncia quando recebera a chamada pelo rdio da companhia de 
segurana. Isto ficar sensacional na minha folha,
 O Tenente Durkin apertou a campainha da porta da frente. 
Queria poder registrar em seu relatrio que tocara a campainha 
trs vezes, antes de forar a entrada . Seu companheiro cobria 
os fundos e assim no havia qualquer possibilidade de o ladro 
escapar. Ele tentaria provavelmente se esconder no interior da 
casa, mas teria uma surpresa. Ningum podia se esconder de 
Melvin Durkin.
Quando o tenente estendia a mo para tocar a campainha pela 
terceira vez, a porta da frente se abriu subitamente. Ele 
ficou aturdido. Parada  sua frente se achava uma mulher, numa 
camisola fina, que deixava muito pouco  imaginao. O rosto 
se apresentava coberto por um creme escuro, os cabelos metidos 
numa touca. Ela perguntou:
 - Que diabo est acontecendo?
 Tenente Durkin engoliu em seco.
 - Eu... quem  voc?
 - Sou Ellen Branch. Uma hspede de Lois Bellamy. Ela est na 
Europa.
 - Sei disso. - O tenente ficou confuso. - Ela no nos disse 
que teria uma hspede.
A mulher na porta balanou a cabea ironicamente.
- Isso no  tpico de Lois? Com licena, mas no posso 
suportar este barulho.
Enquanto o Tenente Durkin observava, a hspede de Lois Bellamy 
estendeu a mo para os botes do alarme, apertou uma sequncia 
de nmeros. O som cessou.
 - Assim est melhor. - Ela suspirou. - No posso lhe dizer o 
quanto estou contente em v-lo.
 A mulher fez uma pausa, rindo, trmula.
 - Eu estava me aprontando para deitar quando o alarme comeou 
a tocar. Tinha certeza de que havia ladres na casa e me 
encontro sozinha aqui. Todos os criados saram de folga ao 
meio-dia.
- No se importa se dermos uma olhada?
 - Por favor, eu insisto!
 O tenente e seu companheiro levaram apenas poucos minutos 
para se certificarem de que no havia ningum  espreita no 
interior da residncia.
 - Tudo certo - anunciou o Tenente Durkin. - Alarme falso. 
Algum defeito deve t-lo activado. Nem sempre se pode confiar 
nesses inventos electrnicos. Eu ligaria para a companhia de 
segurana e pediria que verificassem o sistema.
-  exactamente o que vou fazer.
- Acho melhor eu ir. . .
- Obrigada por ter vindo. Eu me sinto muito mais segura agora.

Ela tem mesmo um corpo sensacional, pensou o Tenente Durkin. 
Ele se perguntou como a mulher pareceria sem o creme no rosto 
e sem a touca.
 - Ficar aqui muito tempo, Senhorita Branch?
 - Mais uma ou duas semanas, at Lois voltar.
 - Se houver algo que eu possa fazer, basta me avisar.
 - Obrigada. No esquecerei.
 Tracy ficou observando enquanto o carro da polcia se 
afastava pela noite. Sentiu que podia desmaiar de alvio. 
Depois que o carro sumira, ela subiu correndo a escada, tirou 
do rosto o creme que encontrara no banheiro, arrancou a touca 
e a camisola de Lois Bellamy, tornou a vestir o seu macaco 
preto e saiu pela porta da frente, tornando cuidadosamente a 
ligar o alarme.
Foi somente quando j atingira a metade do caminho de volta a 
Manhattan que Tracy absorveu completamente a audcia do que 
fizera. Ela soltou uma risadinha, que acabou se transformando 
em gargalhadas trmulas e incontrolveis, at que finalmente 
parou o carro  beira da estrada. E continuou a rir, as 
lgrimas escorrendo pelas faces. Era a primeira vez que ria em 
um ano inteiro. E a sensao era maravilhosa.

17

Somente depois que o trem Amtrack partiu da Estao 
Pensilvnia  que Tracy comeou a relaxar. Esperara a cada 
segundo que uma mo pesada pousasse em seu ombro e uma voz 
dissesse:
- Voc est presa.
Ela observara atentamente os outros passageiros que haviam 
embarcado no trem e nada percebera de alarmante . Mesmo assim, 
os ombros de Tracy se achavam contrados em tenso. Ela 
insistia em garantir a si mesma que era improvvel que algum 
tivesse descoberto o roubo to cedo; e mesmo que isso 
acontecesse, no havia nada que pudesse lig-la. Conrad Morgan 
estaria  sua espera em St. Louis, com 25 mil dlares. Todo 
esse dinheiro para fazer o que bem lhe aprouvesse! Teria de 
trabalhar um ano inteiro no banco para ganhar tanto dinheiro. 
Viajarei para a Europa, pensou Tracy. Paris. No. Paris, no. 
Charles e eu passaramos l a nossa lua-de-mel. Irei para 
Londres. Ali no serei uma ex-condenada. De certa forma, a 
experincia por que passou fazia com que Tracy se sentisse uma 
pessoa diferente. Era como se tivesse renascido.
 Ela trancou a porta da cabina, pegou a bolsa de camura e 
abriu-a. Uma cascata de cores faiscantes despejou-se em suas 
mos. Havia trs enormes anis de diamantes, um broche de 
esmeralda, uma pulseira de safira, trs pares de brincos e 
dois colares, um de rubis, outro de prolas.
Estas jias devem valer mais de um milho de dlares, 
especulou Tracy. Enquanto o trem rolava pelos campos, ela 
recostou-se no banco e reconstituiu mentalmente a noite. 
Alugando o carro... seguindo para Sea Cliff... o silncio da 
noite... desligando o alarme e entrando na casa... abrindo o 
cofre... o choque do alarme disparando, a polcia aparecendo. 
Nunca lhes ocorrera que a mulher de creme no rosto, com uma 
camisola transparente e uma touca na cabea, era a ladra que 
procuravam.
 Agora, sentada na cabina do trem, seguindo para St. Louis, 
Tracy permitiu-se um sorriso de satisfao. Gostara de enganar 
a polcia. Havia alguma coisa de maravilhosamente inebriante 
de se colocar  beira do perigo. Ela sentia-se ousada, 
inteligente e invencvel. Sentia-se absolutamente sensacional.
 Houve uma batida na porta da cabina. Tracy tornou a guardar 
as jias na bolsa de camura apressadamente e ps a bolsa em 
sua mala. Pegou a passagem e destrancou a porta para 
entreg-la ao cabineiro.
 Dois homens de terno cinza estavam parados no corredor. Um 
deles parecia ter trinta e poucos anos, o outro era uns dez 
anos mais velho. O mais jovem era atraente, com o corpo de um 
atleta. Tinha um queixo forte, bigode pequeno e aparado, usava 
culos de aros de osso, por trs dos quais brilhavam olhos 
azuis inteligentes. O mais velho tinha uma vasta cabeleira 
preta e era corpulento, os olhos castanhos se mostravam frios. 
- Desejam alguma coisa? - perguntou Tracy.
- Desejamos, sim.
O homem mais velho tirou uma carteira do bolso e exibiu uma 
identificao:
FBI
DEPARTAMENTO DE JUSTIA DOS ESTADOS UNIDOS

- Sou o Agente Especial Dennis, Trevor. E este  o Agente 
Especial Thomas Bowers.
 Tracy sentiu a boca subitamente ressequida. Forou um 
sorriso. 
- Eu... eu receio no estar entendendo. Algum problema?
- Infelizmente, sim, madame - disse o agente mais jovem, com 
um suave sotaque sulista. - Este trem cruzou a fronteira de 
Nova Jersey h poucos minutos. Transportar mercadoria roubada 
por uma fronteira estadual constitui um crime federal.
 Tracy teve a sensao de que ia desmaiar. Uma pelcula 
vermelha surgiu diante de seus olhos, tornando tudo 
indefinido. O homem mais velho, Dennis Trevor, estava dizendo:
 - Poderia abrir sua bagagem, por favor?
 No era um pedido, mas sim uma ordem. A nica esperana de 
Tracy era blefar.
 - Claro que no! Como se atreve a entrar em minha cabina 
desse jeito? - A voz dela transbordava de indignao. - Isso  
tudo o que vocs tm a fazer... andar por a incomodando 
cidados inocentes? Vou chamar o cabineiro.
 - J falamos com o cabineiro - informou Trevor.
O blefe no estava funcionando.
 - Vocs... vocs tm um mandato judicial?
O homem mais jovem disse, gentilmente:
 - No precisamos de um mandado judicial, Senhorita Whitney. 
Estamos prendendo-a em flagrante.
 Eles sabiam at o seu nome. Ela estava acuada. No havia 
sada. Absolutamente nenhuma.
Trevor j se adiantara para a sua mala, comeava a abri-la. 
Era intil tentar impedi-lo. Tracy observou enquanto ele 
retirava a bolsa de camura. O agente abriu-a, olhou para o 
seu companheiro, acenou com a cabea. Tracy arriou no banco, 
sentindo-se de repente fraca demais para ficar de p.
 Trevor tirou uma lista do bolso, conferiu o contedo da 
bolsa, guardou-a consigo.
- Est tudo aqui, Tom.
- Como... como descobriram? - indagou Tracy, desesperada. 
- No temos permisso para fornecer qualquer informao - 
respondeu Trevor. - Voc est presa. Tem o direito de 
permanecer em silncio e chamar um advogado antes de falar 
qualquer coisa. E tudo o que disser poder ser usado como 
prova contra voc.
A resposta de Tracy foi um sussurro quase inaudvel.
- Entendido.
 Tom Bowers disse.
- Lamento muito. Sei de seus antecedentes e lamento 
sinceramente.
 - Pelo amor de Deus - interveio o homem mais velho - isto no 
 um encontro social.
 - Sei disso. Mesmo assim...
O homem mais velho estendeu um par de algemas para Tracy.
- D os pulsos, por favor.
Tracy sentia o corao se contorcendo em agonia. Lembrou-se do 
aeroporto em Nova Orleans, quando haviam-na algemado, as 
pessoas se virando para olhar.
 - Por favor! Tem mesmo... de fazer isso?
 - Tenho, sim, madame.
O homem mais jovem interveio.
- Posso lhe falar a ss por um instante, Dennis?
 Dennis Trevor encolheu os ombros.

 - Est certo.
 Os dois homens saram para o corredor. Tracy continuou 
sentada, atordoada, dominada pelo desespero. Podia ouvir 
trechos da conversa dos dois.
- Pelo amor de Deus, Dennis, no h necessidade de algem-la. 
Ela no vai fugir...
 - Quando voc vai parar de se comportar como um escoteiro? 
Depois que estiver no FBI h tanto tempo quanto eu...
 - Ora, deixe disso. D uma chance  moa. Ela j est 
bastante constrangida e...
 - Ainda no  nada em comparao com o que ela vai...
 Ela no pde ouvir o resto da conversa. Os agentes voltaram  
cabina um momento depois. O mais velho parecia irritado.
 - Est bem - disse ele. - No vamos algem-la. Voc 
desembarcar na prxima estao. Pediremos pelo rdio um carro 
do FBI. At l, no deixar esta cabina. Entendido?
Tracy acenou com a cabea, angustiada demais para falar. O 
homem mais jovem, Tom Bowers, encolheu os ombros com uma 
expresso compreensiva, como a dizer: "Bem que gostaria que 
houvesse mais alguma coisa que eu pudesse fazer."
 Mas no havia nada que algum pudesse fazer. No agora. Era 
tarde demais. Ela fora apanhada em flagrante . De alguma 
forma, a polcia a descobrira e comunicara ao FBI.
 Os agentes estavam no corredor, conversando com o cabineiro. 
Trevor apontou para Tracy e disse alguma coisa que ela no 
pde ouvir. O cabineiro assentiu. Trevor fechou a porta da 
cabina. Para Tracy, foi como bater a porta de uma cela.
 Os campos passavam velozmente, parecendo vinhetas emolduradas 
brevemente pela janela. Mas Tracy tornou-se indiferente  
paisagem. Achava-se paralisada pelo medo. Havia um troar em 
seus ouvidos que nada tinha a ver com os rudos do trem. No 
existiria uma segunda oportunidade. Era uma criminosa 
condenada. Receberia agora a sentena mxima e desta vez no 
haveria a filha do director para salvar, no haveria coisa 
alguma alm dos anos terrveis e interminveis de priso pela 
frente. E Big Bertha. Como conseguiram agarr-la? A nica 
pessoa que sabia do roubo era Conrad Morgan e ele no teria 
qualquer motivo possvel para entreg-la e s jias ao FBI. 
Possivelmente algum empregado de sua loja tomara conhecimento 
do plano e comunicara  polcia. Mas no fazia a menor 
diferena como acontecera. Ela fora apanhada. E na prxima 
estao desembarcaria e seguiria outra vez para a priso. 
Passaria por uma audincia preliminar, em seguida o julgamento 
e depois...
Tracy apertou os olhos com toda fora, recusando-se a pensar 
mais a esse respeito. Sentiu lgrimas quentes lhe escorrerem 
pelas faces.


O trem comeou a reduzir a velocidade. Tracy comeou a 
sufocar. No conseguia absorver ar em quantidade suficiente. 
Os dois agentes do FBI viriam busc-la a qualquer momento. Uma 
estao surgiu  frente e o trem parou poucos segundos depois, 
com um solavanco. Estava na hora de partir. Tracy fechou a 
mala, levantou-se para vestir o casaco, tornou a se sentar. 
Ficou olhando fixamente para a porta fechada da cabina, 
esperando que se abrisse. minutos foram passando. Os dois 
agentes no apareciam. O que poderiam estar fazendo? Ela 
recordou o que lhe haviam dito: "Voc desembarcar na prxima 
estao. Pediremos pelo rdio um carro do FBI. At l, no 
deixar esta cabina."
 Ela ouviu o chefe do trem gritar:
 - Todos a bordo!
 Tracy comeou a entrar em pnico. Talvez os agentes tivessem 
dito que a esperariam na plataforma. Devia ser isso. Se ela 
ficasse no trem, seria acusada de tentar fugir, o que, 
tornaria sua situao ainda pior. Tracy pegou a mala, abriu a 
porta da cabina, e afastou-se apressadamente pelo corredor. O 
cabineiro, se aproximou.
 - Vai saltar aqui, dona?  melhor se apressar. Deixe-me 
ajud-la. Uma mulher no seu estado no deveria carregar peso.
 Ela fitou-o, aturdida.
 - No meu estado?
 - No precisa se sentir embaraada. Seus irmos me disseram 
que est grvida e, me pediram para ficar de olho em voc.
 - Meus irmos ... ?
 - ptimos rapazes. Pareciam realmente preocupados com voc.
O mundo girava vertiginosamente. O mundo estava virado pelo 
avesso.
 O cabineiro levou a mala at a extremidade do vago e ajudou 
Tracy a descer os degraus. O trem comeou a andar.
 - Sabe para onde meus irmos foram? - gritou Tracy.
 - No, dona. Eles pegaram um txi assim que o trem parou.
 Levando jias no valor de um milho de dlares.

Tracy seguiu para o aeroporto. Foi o nico lugar em que pde 
pensar. Se os homens pegaram um txi, isso significava que no 
dispunham de transporte prprio e certamente haveriam de 
querer deixar a cidade o mais depressa possvel. Ela 
recostou-se no banco do txi, dominada por uma raiva intensa 
pelo que lhe haviam feito e com vergonha por ter sido enganada 
to facilmente. Mas no podia negar que os dois eram bons. 
Realmente bons. Haviam-se mostrado extremamente convincentes. 
Tracy corou ao pensar como cara no golpe antigo do tira mau e 
tira bonzinho.
Pelo amor de Deus, Dennis, no h necessidade de algem-la. 
Ela no vai fugir..
Quando voc vai parar de se comportar com um escoteiro? Depois 
que estiver no FBI h tanto tempo quanto eu...
 O FBI? Eles eram provavelmente fugitivos da lei. Mas ela 
haveria de recuperar as jias. Sofrera demais para se deixar 
enganar por dois vigaristas. Tinha de chegar ao aeroporto a 
tempo. Ela inclinou-se para a frente e disse ao motorista:
 - Pode ir mais depressa, por favor?

Eles estavam parados na fila de embarque, no porto de 
partida. Tracy no os reconheceu imediatamente. O mais jovem, 
que dissera chamar-se Thomas Bowers, no mais usava culos, os 
olhos haviam passado de azuis para cinzas, o bigode 
desaparecera. O outro homem, Dennis Trevor, que tinha uma 
vasta cabeleira preta, era agora completamente calvo, Mesmo 
assim, no havia possibilidade de equvoco. Eles no tiveram 
tempo para trocar as roupas. J estavam quase passando pelo 
porto de embarque quando Tracy os alcanou.
 - Esqueceram-se uma coisa - disse ela.
 Os dois se viraram para fit-la, surpresos. O mais jovem 
franziu o rosto.

- O que faz aqui? Um carro do servio deveria estar na estao 
para recolh-la.
O sotaque sulista no mais existia.
- Ento por que no voltam e verificam se est mesmo l? - 
sugeriu Tracy.
 - No podemos, pois j comeamos a trabalhar em outro caso - 
explicou Trevor. - Temos de pegar este avio.
- Devolvam-me as jias antes.
 - Lamento, mas no podemos fazer isso - protestou Thomas 
Bowers. -  a prova. Ns lhe mandaremos um recibo.
- No quero um recibo. Quero as jias.
 - Lamento, mas no podemos entreg-las - disse Trevor. 
 Eles j se achavam no porto. Trevor entregou os passes de 
embarque ao atendente. Tracy olhou ao redor, desesperada. 
Avistou um guarda do aeroporto parado ali perto. E chamou:
 - Guarda! Guarda!
 Os dois homens se entreolharam, espantados.
 - Que diabo pensa que est fazendo? - sussurrou Trevor. - 
Quer que todos ns sejamos presos?
 O guarda estava se aproximando. 
- Pois no, madame? Algum problema?
- No h problema nenhum - respondeu Tracy, jovialmente. - 
Estes dois cavalheiros maravilhosos encontraram algumas jias 
valiosas que eu havia perdido e esto me devolvendo. Eu j 
pensava em procurar o FBI e pedir que as procurassem.
 Os dois homens trocaram um olhar frentico.
 - Eles sugeriram que seria melhor se um guarda me escoltasse 
at um txi - acrescentou Tracy.
 - Certamente. Terei o maior prazer.
Tracy virou-se para os dois homens.
-  seguro me entregarem as jias agora. Este simptico guarda 
tomar conta de mim..
- No h necessidade - protestou Tom Bowers. - Ser melhor se 
ns...
 - Oh, no, eu insisto! - disse Tracy. - Sei como  importante 
para vocs pegarem seu avio.
 Os dois homens olharam para o guarda, depois um para o outro, 
impotentes. No havia nada que pudessem fazer. Relutantemente, 
Tom Bowers tirou a bolsa de camura de seu bolso.
-  isso! - Tracy pegou a bolsa, abriu-a, deu uma espiada. - 
Graas a Deus! Est tudo aqui.
 Tom Bowers ainda fez uma ltima e desesperada tentativa: 
- Por que no ficamos com as jias, por segurana, at voc...
- Isso no ser necessrio - disse Tracy, jovialmente.
Ela abriu sua bolsa de uso prprio, guardou as jias, tirou 
duas notas de cinco dlares. Entregou uma a cada homem.
 - Aqui est um pequeno smbolo da minha gratido.
Todos os outros passageiros j haviam passado pelo porto. O 
atendente disse:
 - Esta foi a ltima chamada. Vocs tero de embarcar agora, 
senhores.
 - Outra vez obrigada - disse Tracy, radiante, j se afastando 
com o guarda. -  to raro encontrar pessoas honestas 
actualmente...

18

Thomas Bowers - nascido Jeff Stevens - sentou-se junto  
janela do avio e ficou olhando para fora, enquanto o aparelho 
descolava. Levantou o leno para os olhos, enquanto seus 
ombros subiam e desciam.
 Dennis Trevor - tambm conhecido como Brandon Higgins - 
sentado ao seu lado, fitou-o espantado.
 - Ei, era apenas dinheiro! - disse ele. - No h motivo para 
chorar.
 Jeff Stevens virou-se para ele, as lgrimas escorrendo pelas 
faces. Espantado, Higgins, descobriu que Jeff se encontrava 
convulsionado pelo riso.
 - Que diabo deu em voc? - indagou Higgins. - Tambm no  
motivo para rir.
Para Jeff, em, sim. A maneira como Tracy Whitney os enganara 
no aeroporto era o golpe mais engenhoso que ele j 
testemunhara. Um golpe por cima de um golpe. Conrad Morgan 
lhes dissera que a mulher era uma amadora. Por Deus, pensou 
Jeff, como seria se ela fosse uma profissional? Tracy Whitney 
era certamente a mulher mais linda que Jeff Stevens j vira. E 
esperta. Jeff orgulhava-se de ser o melhor vigarista em aco 
e ela conseguira pass-lo para trs. Tio Willie a teria 
adorado, pensou Jeff

Foi tio Willie quem educou Jeff. A me de Jeff era a herdeira 
confiante de uma fortuna em implementos agrcolas, casada com 
um homem improvidente, com muitos projectos de enriquecer 
depressa que nunca davam certo. O pai de Jeff era encantador, 
moreno, bonito, persuasivo. Conseguiu acabar com a herana da 
esposa nos primeiros cinco anos de casamento. As recordaes 
mais antigas de Jeff eram do pai e a me brigando por causa de 
dinheiro e das ligaes extraconjugais do pai. Era um 
casamento amargo e o garoto resolvera: Nunca me casarei. 
Nunca.
 O irmo do pai, tio Willie, possua um pequeno parque de 
diverses ambulante. Sempre que passava perto de Marion, Ohio, 
onde os Stevens viviam, ele ia visit-los. Era o homem mais 
jovial que Jeff j conhecera, transbordando de optimismo, e 
promessas de um amanh rseo. Sempre dava um jeito de levar 
para o garoto presentes emocionantes. Ensinou a Jeff truques 
de mgica maravilhosos. Tio Willie comeara como mgico num 
parque de diverses e assumira o comando quando a empresa 
falira.
 Jeff tinha 14 anos quando a me morreu num acidente de 
automvel. Dois meses depois, o pai de Jeff casou com uma 
garonete de 19 anos, explicando:
 - No  natural um homem viver sozinho.
 Mas o rapaz experimentou um profundo ressentimento, 
sentindo-se trado pela insensibilidade do pai.
O pai de Jeff arrumou um emprego de caixeiro-viajante e 
passava trs dias por semana viajando. Uma noite, quando 
somente Jeff e a madrasta se encontravam na casa, ele foi 
acordado pelo barulho da porta de seu quarto se abrindo. E 
momentos depois ele sentiu um corpo macio e nu se estendendo 
ao lado do seu. Jeff sentou-se na cama, alarmado.
- Abrace-me, Jeffie - sussurrou a madrasta. Estou com medo da 
trovoada.

- Mas... mas no est trovejando - balbuciou Jeff.
 - Pode trovejar. O jornal dizia que ia chover. - Ela 
comprimiu o corpo contra o dele. - Faa amor comigo, meu bem.
 O garoto entrou em pnico.
 - Est bem. Mas podemos fazer na cama de papai?
 - Claro. - Ela riu. - Taradinho, hem?
 - Irei para l num instante.
 Ela saiu da cama e foi para o outro quarto. Jeff nunca se 
vestira to depressa em sua vida. Saiu pela janela e seguiu 
para Cimarron, Kansas, onde o parque de diverses de tio 
Willie estava se apresentando. Nunca olhou para trs.
 Quando tio Willie perguntou por que ele fugira de casa, Jeff 
limitou-se a responder:
 - No me dou bem com minha madrasta.
 Tio Willie telefonou para o pai de Jeff. Depois de uma longa 
conversa, ficou decidido que o garoto permaneceria no parque 
de diverses. Tio Wille prometeu:
 - Ele ter aqui uma educao melhor do que qualquer escola 
poderia oferecer.

O parque de diverses era um mundo em si mesmo.
 - No promovemos um show de escola de catecismo - explicou 
tio Willie a Jeff. - Somos artistas da vigarice. Mas nunca se 
esquea, filho, que no se pode enganar pessoas que no sejam 
gananciosas para comear. W.C. Fieids estava certo. No se 
pode passar para trs um homem honesto.
 Todos no parque se tornaram amigos de Jeff. Havia os homens 
da "fachada", que tinham as concesses, e a turma dos 
"bastidores", que comandava os espectculos, como a mulher 
gorda e a dama tatuada, sem falar nos operadores das barracas 
em que se promoviam os jogos. O parque tinha a sua cota de 
moas nbeis e todas se sentiram atradas pelo rapaz. Jeff 
herdara a sensibilidade da me e a beleza morena do pai. As 
moas disputaram quem aliviaria Jeff de sua virgindade. Sua 
primeira experincia sexual foi com uma linda contorcionista e 
durante anos ela foi a nota alta a que todas as outras 
mulheres tinham de corresponder.
Tio Willie providenciou para que Jeff trabalhasse em diversas 
funes no parque.
- Algum dia tudo isto lhe pertencer - disse tio Willie ao 
rapaz. - A nica maneira de voc conservar  conhecer mais do 
parque que qualquer outra pessoa.
 Jeff comeou com o golpe dos seis gatos. Os fregueses pagavam 
para jogar bolas, tentando derrubar numa rede seis gatos 
feitos de lona, com uma base de madeira. O operador dirigindo 
a barraca mostrava como era fcil derrubar os gatos. Mas 
quando o fregus tentava, um "artilheiro" escondido por trs 
da lona da barraca levantava uma vareta para firmar as bases 
de madeira. Nem mesmo Sandy Koufax podia afogar aqueles gatos.
 - Ei, voc acertou muito baixo! - dizia o operador. - Tudo o 
que precisa fazer  jogar firme e forte.
Firme e forte em a senha. No momento em que o operador a 
dizia, o artilheiro retirava a vareta. Assim, o operador no 
tinha a menor dificuldade para derrubar o gato. Ele 
acrescentava ento:
- V como  fcil?

 Esse era o sinal para que o artilheiro tornasse a levantar a 
vareta. Havia sempre um caipira que queria mostrar  namorada 
risonha como tinha o brao forte e certeiro.
 Jeff trabalhou tambm com a barraca dos pinos. Os fregueses 
tinham de jogar argolas de borracha sobre pinos numerados, 
dispostos em filas; se o total fosse de 29, ele ganharia um 
brinquedo caro. Mas o que o otrio no sabia era que os pinos 
tinham nmeros diferentes nas duas extremidades e que o 
operador podia esconder o nmero que daria a soma de 29, 
providenciando assim para que ele jamais ganhasse. E tio 
Willie disse um dia a Jeff.
- Voc est indo muito bem, garoto. Sinto-me orgulhoso de 
Voc. o Est pronto para ser promovido ao skillo.
Os operadores do skillo eram o mximo, convidados por todos os 
parques. Ganhavam mais dinheiro que qualquer outro, 
hospedavam-se nos melhores hotis e guiavam carros vistosos. O 
jogo de skillo consistia de uma roda horizontal, com uma 
flecha equilibrada cuidadosamente em vidro e um pedao de 
papel fino no centro. Cada seco era numerada; o fregus 
girava a roda, a agulha apontava para um nmero ao parar, esse 
nmero era tapado. O fregus pagava para girar outra vez a 
roda, outro nmero ficava tapado. O operador do skillo 
explicava que o fregus ganharia uma quantia fabulosa quando 
todos os nmeros estivessem tapados.  medida que o fregus se 
aproximava da cobertura de todos os nmeros, o operador 
encorajava-o a aumentar suas apostas. Ele olhava nervosamente 
ao redor e sussurrava:
- No sou o dono deste jogo e gostaria que voc vencesse. Se 
isso acontecer, talvez me d uma pequena comisso.
 O operador chegava mesmo a entregar sub-repticiamente ao 
fregus uma nota de cinco ou dez dlares, murmurando:
 - Aposte isso por mim, est bem? Voc no pode perder agora.
 O otrio sentia que conquistara um cmplice. Jeff tornou-se 
um perito em ordenhar os fregueses.  medida que diminuram os 
espaos abertos no tabuleiro e aumentavam as chances de 
ganhar, o excitamento se intensificava.
- Voc no pode perder agora! - exclamava Jeff.
Ansiosamente, o jogador empenhava mais dinheiro. Por fim, 
quando s restava um espao a preencher, o excitamento chegava 
ao clmax. O otrio jogava todo o dinheiro que tinha, muitas 
vezes ia apressadamente a casa para buscar mais. O fregus 
nunca vencia, no entanto, porque o operador ou seu preposto 
dava um empurro imperceptvel na mesa e a flecha passava a 
parar invariavelmente no lugar errado.
Jeff aprendeu rapidamente os termos do parque. "Fisgar" 
significava arrumar os jogos para que os otrios nunca 
pudessem ganhar. Os homens que se postavam na frente de uma 
barraca, anunciando seu espectculo, eram conhecidos como 
"faladores". O falador ganhava dez por cento por aumentar a 
ponta... a "ponta" sendo uma multido. "Cortio" era um prmio 
dado. O "carteiro" era um tira que precisava ser subornado.
Jeff tomou-se um perito na "exploso". Quando os fregueses 
pagavam para assistir a um espectculo, Jeff jogava a sua 
conversa:

 - Senhoras e senhores, vero no interior desta barraca tudo 
por que pagaram e est anunciado no lado de fora. Mas... 
imediatamente depois que a moa na cadeira elctrica terminar 
de ser torturada, o pobre corpo atormentado por 50 mil watts 
de electricidade, temos uma atraco extra que no tem 
absolutamente nada a ver com o espectculo e no est 
anunciada no lado de fora. L dentro vocs vero algo 
realmente extraordinrio, to assustador e arrepiante que no 
nos atrevemos a mostrar do lado de fora, porque no deve ser 
visto por crianas inocentes ou mulheres impressionveis.
 E depois que os otrios pagavam um dlar extra, Jeff os 
introduzia para verem uma mulher sem a parte do meio do corpo 
ou um beb com duas cabeas... tudo,  claro, um jogo de 
espelhos.
 Um dos jogos mais lucrativos do parque era a "corrida de 
camundongo". Um camundongo vivo era posto no centro de uma 
mesa, com uma tigela por cima. Havia dez buracos em torno do 
permetro da mesa e o camundongo podia correr para qualquer 
um, quando a tigela fosse levantada. Cada fregus apostava num 
buraco numerado. O prmio ficava para quem acertasse o buraco 
para o qual o camundongo corria.
 - Como fisga uma coisa assim? - perguntou Jeff a tio Willie - 
Usa camundongos treinados?
 Tio Willie explodiu em gargalhadas.
 - Quem tem tempo para treinar camundongos? Nada disso. A 
coisa  muito simples. O operador v qual  o nmero em que 
ningum apostou, pe um pouco de vinagre na ponta do dedo e 
toca na beira do buraco em que quer que o camundongo corra. E 
o camundongo seguir invariavelmente para esse buraco.
 Karen, uma jovem e atraente danarina do ventre, introduziu 
Jeff no golpe da "chave".
 - Depois de jogar a sua conversa na noite de sbado - 
disse-lhe Karen - chame alguns fregueses para um lado, um de 
cada vez, venda-lhes uma chave do meu trailer.
 As chaves custavam cinco dlares. Por volta da meia-noite, 
uma dzia ou mais de homens circulavam em torno do trailer. A 
esta altura, Karen j se achava num hotel na cidade, passando 
a noite com Jeff. Quando os otrios voltavam ao parque na 
manh seguinte, a fim de se vingarem, as barracas j tinham 
sido desmontadas e h muito que o pessoal cara na estrada.

Jeff aprendeu muita coisa sobre a natureza humana durante os 
quatro anos seguintes. Descobriu como era fcil atiar a 
ganncia, como as pessoas podiam ser crdulas. Acreditavam em 
histrias inacreditveis porque a ganncia as levava a 
quererem acreditar. Aos 18 anos, Jeff era excepcionalmente 
bonito. At mesmo a observadora feminina mais casual notava 
instantaneamente os seus olhos cinzas, bem espaados, o corpo 
alto e forte, os cabelos pretos crespos. Os homens gostavam de 
sua inteligncia e de seu bom humor. At as crianas, como se 
falassem a uma criana receptiva nele, concediam-lhe a sua 
confiana imediata. As freguesas flertavam abertamente com 
Jeff, mas tio Willie no perdia a oportunidade de advertir:
 - Fique longe das garotas das cidades, rapaz. Os pais delas 
so sempre os xerifes.

Foi a mulher do lanador de facas que levou Jeff a deixar o 
parque. Haviam acabado de chegar a Milledgeville, Gergia, as 
barracas estavam sendo armadas. Um novo actor fora contratado, 
um atirador de facas siciliano conhecido como Grande Zorbini e 
sua atraente esposa loura. Enquanto o Grande Zorbini se 
encontrava no parque, preparando seu equipamento, a mulher 
convidou Jeff para uma visita a seu quarto no hotel na cidade.

- Zorbini estar ocupado durante o dia inteiro - ela disse a 
Jeff. - Vamos nos divertir um pouco.
Parecia bastante promissor.
- D-me uma hora e depois suba para o quarto - disse ela. 
- Por que esperar uma hora? - indagou Jeff.
Ela sorriu e respondeu:
-  o tempo que precisarei para aprontar tudo.
 Jeff esperou, a curiosidade aumentando. Quando finalmente 
chegou ao quarto do hotel, ela recebeu-o na porta inteiramente 
nua. Jeff agarrou-a, mas ela tirou sua mo e disse:
 - Entre aqui.
 Ele foi para o banheiro e ficou espantado com o que viu. Ela 
enchera a banheira com seis sabores de gelatina, misturada com 
gua quente.
- O que  isso? - perguntou Jeff.
 -  a sobremesa. Dispa-se, meu bem.
 Jeff despiu-se.
 - E agora entre na banheira.
 Ele entrou na banheira e sentou. Foi a sensao mais incrvel 
que j experimentara. A gelatina macia e escorregadia parecia 
preencher todas as fendas de seu corpo, massageando-o por 
completo. A loura tambm entrou na banheira.
 - Agora - disse ela - o almoo.
 A loura comeou pelo peito de Jeff e foi descendo para a 
virilha, lambendo a gelatina pelo caminho. 
 - Hum... Voc tem um gosto delicioso. Gosto mais do 
morango...
 Entre a lngua veloz da loura e a frico da gelatina quente 
e viscosa, era uma experincia ertica incrvel. No meio da 
coisa, porm, a porta do banheiro abriu-se bruscamente e o 
Grande Zorbini entrou. O siciliano lanou um olhar para a 
esposa e o aturdido Jeff, depois berrou:
 - Tu sei una puttana! Vi ammazzo e duel Dove sono i miei 
coltelli?
Jeff no reconheceu qualquer das palavras, mas o tom era 
familiar. Enquanto o Grande Zorbini saia correndo do banheiro 
para buscar suas facas, Jeff pulou da banheira, o corpo 
parecendo um arco-ris com a gelatina multicolorida grudada, 
pegou suas roupas. Pulou pela janela, nu, desatou a correr 
pelo beco. Ouviu um grito atrs dele e sentiu uma faca passar 
zunindo perto de sua cabea. Zing! Outra faca e depois ele se 
achava fora do alcance. Vestiu-se num bueiro, pondo a camisa e 
a cala por cima da gelatina viscosa. Foi para a estao 
rodoviria, onde pegou o primeiro nibus que saa da cidade.
 Seis meses depois estava no Vietname.
Cada soldado luta uma guerra diferente e Jeff saiu da 
experincia do Vietname com um profundo desprezo pela 
burocracia e um ressentimento permanente contra a autoridade. 
Passou dois anos numa guerra que nunca poderia ser vencida, 
ficou consternado com o desperdcio de dinheiro, material e 
vidas, revoltado com a traio e fraude dos generais e 
polticos que executavam a sua prestidigitao verbal. Fomos 
levados como otrios a uma guerra que ningum quer, pensou 
Jeff.  uma vigarice. A maior vigarice do mundo.
 Uma semana antes da baixa, Jeff recebeu a notcia da morte de 
tio Willie. O parque de diverses se dissolvera. O passado 
acabara. Estava na hora de ele comear a desfrutar o futuro.


Os anos subsequentes foram repletos de aventuras. Para Jeff, o 
mundo inteiro era um parque de diverses e as pessoas que 
continha eram os seus otrios. Ele criava os seus prprios 
golpes. Colocava anncios nos jornais oferecendo uma 
fotografia a cores do Presidente dos Estados Unidos por um 
dlar. Quando recebia o dlar, mandava para a vitima um selo 
postal com um retracto do presidente.
 Ps anncios em revistas avisando ao pblico que restavam 
apenas 60 dias para o envio de cinco dlares; depois disso, 
seria tarde demais. O anncio no especificava o que os cinco 
dlares comprariam, mas o dinheiro se despejou.
Por trs meses Jeff trabalhou numa sala de caldeira, vendendo 
falsas aces de companhias petrolferas pelo telefone.
 Adorava barcos, e, quando um amigo ofereceu-lhe emprego numa 
escuna de partida para o Taiti, Jeff assinou um contrato como 
marujo.
 A escuna era uma beleza, branca, com 165 ps, rebrilhando ao 
sol, todas as velas enfunadas. Tinha o de que de teca, 
pinheiro do Oregon no casco, um salo de jantar que acomodava 
12 pessoas, uma cozinha moderna, com foges elctricos. Os 
alojamentos da tripulao eram no poro de vante. Alm do 
comandante, do camareiro e do cozinheiro, havia cinco marujos. 
O trabalho de Jeff consistia em ajudar a iar as velas, polir 
as vigias de lato, subir pelo enfrechate para mastrear a vela 
principal. A escuna estava transportando oito passageiros.
- A pessoa que possui a escuna se chama Hollander - informou o 
amigo de Jeff.
Hollander era Louise Hollander, uma beldade loura de 25 anos, 
cujo pai possua metade da Amrica Central. Os outros 
passageiros eram seus amigos, aos quais os amigos de Jeff se 
referiam desdenhosamente como "jest set", usando o jest 
(pilhria) para alterar a expresso "jest set".
 Em seu primeiro dia no mar, Jeff trabalhava ao sol, polindo 
os metais no deque, quando Louise Hollander se aproximou e 
parou ao seu lado.
- Voc  novo a bordo.
Ele levantou os olhos.
- Isso mesmo.
- Tem um nome?
- Jeff Stevens.
- Um nome bonito. - Ele no fez qualquer comentrio. - Sabe 
quem eu sou?
- No.
- Louise Hollander. Dona deste barco.
- Ou seja, estou trabalhando para voc.
Ela presenteou-o com um sorriso lento.
- Isso mesmo.
- Pois ento, se quer que eu merea o dinheiro que me paga,  
melhor deixar-me continuar a trabalhar.
 E Jeff passara para o espeque seguinte.

Em seus alojamentos,  noite, os tripulantes depreciavam os 
passageiros e contavam piadas a seu respeito. Mas Jeff admitia 
para si mesmo que os invejava - por sua criao, instruo e 
vida fcil. Tinham famlias ricas e haviam cursado as melhores 
escolas. A sua escola fora tio Willie e o parque de diverses.

Um dos homens do parque fora professor de arqueologia, at ser 
expulso da universidade por roubar e vender relquias 
valiosas. Ele e Jeff mantinham longas conversas. O professor 
incutira em Jeff um entusiasmo pela arqueologia.
 - Pode-se ler todo o futuro da humanidade no passado - dizia 
o professor. - Pense nisso, filho. H milhares de anos 
existiam pessoas como voc e eu, acalentando sonhos, 
inventando histrias, vivendo as suas vidas, gerando os nossos 
ancestrais.
 Os olhos do ex-professor assumiam uma expresso distante, 
enquanto continuava a falar:
- Cartago...  l que eu gostaria de fazer uma escavao. Era 
uma grande cidade, muito antes de Cristo nascer, a Paris da 
antiga frica. O povo tinha seus jogos, banhos, as corridas de 
carros. O Circo Mximo era to grande quanto cinco campos de 
futebol americano.
 Os olhos do rapaz se iluminavam de interesse.
 - Sabe como Cato, o Velho, terminava seus discursos no 
Senado romano? Ele dizia: Delenda est Cartago. Cartago deve 
ser destruda. Seu desejo finalmente se consumou. Os romanos 
reduziram a cidade a escombros, mas voltaram 25 anos depois 
para construir uma grande cidade sobre as cinzas. Eu gostaria 
de poder lev-lo algum dia para fazermos uma escavao, meu 
rapaz.
 O professor morrera de alcoolismo um ano depois, mas Jeff 
prometera a si mesmo que um dia se empenharia numa escavao. 
Cartago primeiro, pelo professor.

Na ltima noite, antes da escuna atracar em Taiti, Jeff foi 
chamado ao camarote de Louise Hollander. Ela usava um chambre 
de seda.
- Queria me falar, madame?
 - Voc  homossexual, Jeff?
 - No creio que isso seja da sua conta, Senhorita Hofiander, 
mas a resposta  no. Apenas sou exigente.
 A boca de Louise Hollander se contraiu.
 - Que tipo de mulheres voc aprecia? Suponho que prostitutas.
 - s vezes - disse Jeff, amavelmente. - Deseja mais alguma 
coisa, Senhorita Hollander?
 - Desejo, sim. Oferecerei um jantar amanh de noite. Gostaria 
de comparecer?
 Jeff fitou-a em silncio por um longo tempo antes de 
responder:
 - Por que no?
 E foi assim que comeou.

Louise Hollander j tivera dois maridos antes de completar 21 
anos. Seu advogado fez um acordo com o terceiro marido quando 
ela conheceu Jeff. Na segunda noite em que estavam ancorados 
na enseada de Papeete, enquanto passageiros e tripulantes iam 
para a terra, Jeff recebeu outro chamado ao camarote de Louise 
Hollander. Quando Jeff ali chegou, ela vestia um preo de seda 
colorido, aberto no lado at a coxa.
- Estou tentando tirar isto, mas estou tendo dificuldade com o 
zper - disse ela.
Jeff adiantou-se e examinou o preo.
- No tem nenhum zper.
 Ela virou-se para fit-lo e sorriu.
 - Sei disso.  justamente o meu problema.

 Eles fizeram amor no tombadilho, onde o suave ar tropical 
lhes acariciava os corpos como um blsamo. Depois, ficaram de 
lado, fitando-se. Jeff soergueu-se, apoiado no cotovelo, 
contemplou Louise de alto a baixo.
 - Seu pai no  o xerife, no  mesmo?
 Ela sentou, surpresa.
 - Como?
 - Voc  a primeira garota de cidade com quem fao amor. Tio 
Willie costumava me avisar que os pais delas sempre eram os 
xerifes.
 Depois disso, eles passavam todas as noites juntos. A 
princpio, os amigos de Louise acharam divertido. Ele  outro 
dos caprichos de Louise, pensaram. Mas ficaram frenticos 
quando ela informou-os que tencionava casar com Jeff.
 - Pelo amor de Deus, Louise, ele  um nada! Ele trabalhou num 
parque de diverses. Por Deus,  a mesma coisa que casar com 
um cavalaria. Ele  bonito... no se pode deixar de admitir. 
E tem um corpo fabuloso. Mas, fora do sexo, vocs no tm 
absolutamente nada em comum, querida.
 - Louise, Jeff  para o caf da manh, no para um jantar.
 - Voc tem uma posio social a resguardar.
 - Francamente, meu anjo, ele no vai se adaptar, no  mesmo?
 Mas nada do que disseram os amigos pde dissuadir Louise. 
Jeff era o homem mais fascinante que ela j conhecera. 
Descobrira que os homens extraordinariamente bonitos eram 
monumentalmente estpidos ou insuportavelmente inspidos. Jeff 
era inteligente e divertido, o que fazia uma combinao 
irresistvel.
 Quando Louise falou em casamento, Jeff ficou to surpreso 
quanto os amigos dela.
 - Para qu casamento? Voc j tem meu corpo. No posso lhe 
dar qualquer coisa que j no possua.
 -  muito simples, Jeff. Eu o amo. Quero partilhar o resto da 
minha vida com voc.
 O casamento fora uma idia estranha, mas subitamente deixou 
de ser. Sob o verniz mundano e sofisticado de Louise Hollander 
havia uma garotinha vulnervel e perdida. Ela precisa de mim, 
pensou Jeff. A perspectiva de uma vida domstica estvel e 
filhos tornou-se subitamente atraente. Jeff tinha a impresso 
de que vivia correndo desde que podia se lembrar. Chegara o 
momento de parar.
 Eles casaram na prefeitura de Taiti trs dias depois.

Quando voltaram a Nova York, Jeff foi convocado ao escritrio 
de Scott Fogarty, o advogado de Louise Hollander, um homem 
pequeno e frio, de lbios comprimidos.
- Tenho um documento aqui para voc assinar - anunciou o 
advogado
- Que documento?
-  uma declarao. Diz simplesmente que no caso de dissoluo 
de seu casamento com Louise Hollander...
- Louise Stevens.
- .. . Louise Stevens, voc no participar financeiramente de 
qualquer...
Jeff sentiu os msculos das mandbulas se contraindo.
- Onde eu assino?
- No quer que eu termine de ler?
- No. Acho que voc no entendeu. No casei com ela pela 
porra do dinheiro.
 - Por favor, Sr. Stevens! Eu apenas...

 - Quer que eu assine ou no?
O advogado estendeu o documento para Jeff. Ele assinou e saiu 
furioso do escritrio. A limusine e o motorista de Louise 
estavam  sua espera l embaixo. Ao embarcar, Jeff teve de rir 
para si mesmo. Por que diabo estou to furioso? Fui um 
vigarista durante toda a minha vida; quando me torno honesto 
pela primeira vez e algum pensa que estou dando um golpe, eu 
me comporto como a porra de um professor de catecismo.

Louise levou Jeff ao melhor alfaiate de Manhattan, comentando:
- Voc ficar fantstico num smoking.
 E foi exactamente o que aconteceu. Antes do segundo ms de 
casamento, cinco das melhores amigas de Louise j haviam 
tentado seduzir o atraente recm-chegado a seu crculo. Mas 
Jeff ignorou-as. Estava determinado a fazer com que seu 
casamento desse certo. Budge Hofiander, o irmo de Louise, 
apresentou a proposta de Jeff para scio do exclusivo Pilgrim. 
Club, de Nova York. Jeff foi aceite. Budge era corpulento, de 
meia-idade, ganhara esse apelido, que significava mover, na 
equipe de futebol americano de Harvard, pela reputao de ser 
um jogador que os oponentes no podiam deslocar. Possua uma 
empresa de navegao, uma plantao de banana, ranchos de 
gado, um frigorifico e inmeras outras empresas, mais do que 
Jeff podia contar. Budge Hofiander no era sbtil em esconder 
seu desdm por Jeff Stevens.
 - Voc  realmente abaixo de nossa classe, no  mesmo, meu 
velho? Mas no tem problema enquanto divertir Louise na cama. 
Gosto muito de minha irm.
 Jeff teve de recorrer a toda a sua fora de vontade para se 
controlar. No estou casado com este idiota. Casei com Louise.
 Os outros scios do Pilgrim Club se mostravam igualmente 
ofensivos. Mas achavam Jeff muito engraado. Almoavam no 
clube todos os dias e pediam a Jeff que lhes contasse 
histrias sobre os seus dias no parque de diverses. E Jeff 
fazia questo de contar histrias cada vez mais chocantes.

Jeff e Louise viviam numa casa de vinte cmodos, cheia de 
criados, no East Side de Manhattan. Louise tinha propriedades 
em Long Island e nas Bahamas, uma villa na Sardenha e um 
enorme apartamento na Avenue Foch, em Paris. Alm do iate, ela 
possua uma Maserati, um RolIs Corniche, um Lamborgbini e um 
Daimler.
 fantstico, pensou Jeff.
 sensacional, pensou Jeff.
 tedioso, pensou Jeff. E degradante.
Ele levantou-se uma manh da cama de dossel do o XVIII, ps um 
chambre Sulka e foi procurar Louise. Encontrou-a na sala do 
caf da manh.
 - Tenho de arrumar um emprego - declarou Jeff. 
- Pelo amor de Deus, querido, por qu? No precisamos do 
dinheiro.
 - No tem nada a ver com dinheiro. Voc no pode esperar que 
eu passe a vida toda refestelado, com algum a me dar comida 
na boca. Preciso trabalhar.
 Louise pensou por um momento.
- Est bem, meu anjo. Falarei com Budge. Ele possui uma firma 
de corretagem de valores. Voc gostaria de ser um corrector, 
querido?

 - Quero apenas comear a trabalhar - murmurou Jeff.

Ele foi trabalhar para Budge. Nunca antes tivera um emprego de 
horrio regular. Vou adorar, pensou Jeff.
Ele detestou. S continuou porque queria levar seu pagamento 
para a esposa.
- Quando vamos ter um filho? - ele perguntou a Louise numa 
tarde de domingo, depois de um almoo prolongado.
- Em breve, querido. Estou tentando.
- Pois ento vamos para a cama. Tentemos de novo.

Jeff estava sentado  mesa reservada para seu cunhado e meia 
dzia de outros lideres industriais da Amrica, no Pilgrim 
Club. Budge anunciou:
 - Acabamos de divulgar nosso relatrio anual do frigorfico. 
- Os lucros aumentaram em 40 por cento.
 - Por que no haveriam de aumentar? - disse um dos homens  
mesa, rindo. - Voc subornou os inspectores.
 Ele virou-se para os outros  mesa e explicou:
 - O velho Budge, sempre esperto, compra carne de terceira, 
obtm a classificao de carne de primeira e depois vende por 
uma fortuna.
Jeff ficou chocado.
- Mas as pessoas comem essa carne, pelo amor de Deus! E do 
para seus filhos! Ele est brincando, no  mesmo, Budge?
Budge sorriu e gritou:
- Olhem s quem est querendo bancar o moralista!

Durante os trs meses seguintes Jeff passou a conhecer muito 
bem os seus companheiros de mesa. Ed Zeller pagara um milho 
de dlares em subornos para construir uma fbrica na Lbia. 
Mike Quincy, o lder de um conglomerado, era um trapaceiro que 
adquiria empresas e ilegalmente avisava aos amigos quando 
comprar e vender as aces. Alan Thompson, o homem mais rico  
mesa, gabava-se da poltica de sua companhia:
- Antes de mudarem, a maldita lei, costumvamos despedir os 
velhos um ano antes de terem direito a suas penses. E com 
isso poupvamos uma fortuna.
Todos os homens sonegavam impostos, cometiam fraudes de 
seguros, falsificaes nas contas de representao e punham as 
amantes correntes na folha de pagamento, como secretrias ou 
assistentes.
Por Deus, pensou Jeff, eles so simplesmente vigaristas bem 
vestidos. Todos do os seus golpes sujos.
 As esposas no eram melhores. Agarravam tudo o que podiam com 
suas mos gananciosas e enganavam os maridos abertamente. Elas 
esto no jogo da chave, pensava Jeff. Quando tentou explicar a 
Louise como se sentia, ela riu.
 - No seja ingnuo, Jeff. Voc est gozando a vida, no  
mesmo?
 A verdade  que ele no sentia assim. Casara com Louise 
porque acreditava que ela precisava dele. Achava que os filhos 
mudariam tudo.
 - Vamos ter um casal. Est na hora. Afinal, j estamos 
casados h um ano.
 - Seja paciente, meu anjo. Fui ao mdico e ele me disse que 
estou bem. Talvez voc devesse fazer um checkup para descobrir 
se tambm est certinho.

 Foi o que Jeff fez.
 - Voc no deve ter qualquer problema para gerar filhos 
saudveis - garantiu o mdico.
 E nada acontecia.

O mundo de Jeff desmoronou na Segunda-Feira Negra. Comeou 
pela manh, quando foi ao armarinho de remdios de Louise para 
pegar uma aspirina. Encontrou uma prateleira cheia de vidros 
de plulas anticoncepcionais. Um dos vidros estava quase 
vazio. Ao lado, inocentemente, havia um frasco com um p 
branco e uma colherzinha de ouro. E isso foi apenas o comeo 
do dia.
Ao meio-dia, Jeff se encontrava sentado numa poltrona 
profunda, no Pilgrim Club, esperando por Budge, quando ouviu 
dois homens por trs dele conversando.
- Ela jura que o pau do seu italiano tem mais de vinte e cinco 
centmetros de comprimento.
 Houve uma risadinha.
- Louise, sempre gostou de pau grande.
Eles esto falando sobre outra Louise, disse Jeff a si mesmo.
- Provavelmente foi por isso que ela casou com aquele sujeito 
do parque de diverses. Mas Louise conta as histrias mais 
engraadas a respeito dele. No vai acreditar no que ele fez 
outro dia...
 Jeff levantou e saiu do clube s cegas.
 Estava dominado por uma raiva como nunca conhecera. Tinha 
vontade de matar. Queria matar o italiano desconhecido. Queria 
matar Louise. Com quantos outros homens ela se teria deitado 
durante o ltimo ano? Riam dele sem parar. Budge, Ed Zeller, 
Mike Quiney e Alan Thompson. e suas esposas vinham-se 
divertindo enormemente  sua custa. E Louise, a mulher que ele 
quisera proteger. A reaco imediata de Jeff era pegar suas 
coisas e ir embora. Mas isso no era suficiente. No tinha a 
menor inteno de permitir que os filhos da puta rissem por 
ltimo.
 Louise no estava quando Jeff chegou em casa naquela tarde. 
Pickens, o mordomo, informou:
 - Madame saiu de manh. Creio que tinha diversos 
compromissos.
Aposto que tinha mesmo, pensou Jeff. Deve estar fodendo com a 
porra do italiano com um pau de vinte e cinco centmetros. Oh, 
Deus!
Quando Louise chegou, Jeff j conseguira recuperar um controle 
firme e perguntou-lhe:
 - Teve um bom dia?
 - As coisas tediosas de sempre, querido. Uma hora no salo de 
beleza, compras... E como foi o seu dia, meu anjo?
 - Foi interessante - respondeu Jeff, com toda a sinceridade. 
- Aprendi uma poro de coisas.
- Budge me disse que voc est indo muito bem. 
- Estou, sim. E muito em breve, estarei ainda melhor.
 Louise afagou-lhe a mo.
 - Meu marido brilhante. Por que no vamos cedo para a cama?
 - No esta noite - disse Jeff. - Estou com dor de cabea.

Ele passou a semana seguinte fazendo seus planos. E comeou 
pelo almoo no clube.

 - Algum de vocs sabe qualquer coisa sobre as fraudes de 
computador?
 - Por qu? - perguntou Ed Zeller. - Est planejando cometer 
alguma?
 Houve uma exploso de risos.
 - Estou falando srio - insistiu Jeff. -  um grande 
problema. Muitas pessoas esto interferindo nos computadores e 
roubando bilhes de dlares dos bancos, seguradoras e outras 
empresas. E a coisa se torna pior a cada dia.
 - Parece matria que voc conhece muito bem - murmurou Budge.
 - Conheci um homem que afirma ter inventado um computador que 
  prova de interferncia.
- E voc quer mandar liquid-lo por causa disso - gracejou 
Mike Quincy.
- Para dizer a verdade, estou interessado em levantar um 
dinheiro para financi-lo. E pensei que algum de vocs poderia 
conhecer um pouco de computadores.
 - No, no sabemos. - Budge sorriu. - Mas conhecemos tudo 
sobre o financiamento a inventores. No  mesmo, pessoal?
 Houve outra exploso de risos.
 Dois dias depois, no clube, Jeff passou por sua mesa habitual 
e explicou a Budge:
 - Desculpe, mas no poderei me juntar a vocs hoje. Tenho um 
convidado para o almoo.
 Depois que Jeff se afastou para outra mesa, Alan Thompson 
comentou, sorrindo:
 - Provavelmente ele vai almoar com a mulher barbada do 
circo.
 Um homem grisalho e meio encurvado entrou no restaurante e 
foi conduzido  mesa de Jeff.
- Ei, aquele no  o Professor Ackerman? - indagou Mike 
Quiney.
 - E quem  o Professor Ackerman?
 - Nunca l qualquer coisa alm dos relatrios financeiros, 
Budge? Vernon Ackerman saiu na capa do Time no ms passado.  
o presidente do Conselho Cientifico Nacional que assessora o 
nosso presidente. O cientista mais brilhante do pas.
 - Que diabo ele est fazendo com o meu caro cunhado?
 Jeff e o professor se mantiveram absorvidos em profunda 
conversa durante todo o almoo. Budge e seus amigos foram 
ficando cada vez mais curiosos. Depois que o professor foi 
embora, Budge fez sinal para que Jeff viesse at sua mesa.
 - Quem era aquele, Jeff?
 Jeff assumiu uma expresso culpada.
 - Oh... est se referindo a Vernon?
 - Isso mesmo. Sobre o que estavam conversando?
 - Ns... ahn... - Os outros quase que podiam observar o 
processo de pensamento de Jeff, enquanto tentava se esquivar  
pergunta. - Eu... ahn... posso escrever um livro sobre ele.  
uma personalidade muito interessante.
 - Eu no sabia que voc era escritor.
 - Ora, acho que todos temos de comear algum dia.

Trs dias depois Jeff teve outro convidado para o almoo. 
Desta vez foi Budge quem o reconheceu:
 - Ei, aquele  Seymour Jarrett, presidente do Conselho de 
Administrao da Jarrett Internacional Computer. Que diabo ele 
est fazendo aqui com Jeff?

 Jeff e seu convidado tiveram uma conversa longa e animada. 
Depois que o almoo terminou, Budge foi sondar Jeff:
 - Jeffrey, meu rapaz, o que estava fazendo com Seymour 
Jarrett?
 - Nada - disse Jeff rapidamente. - Apenas conversando.
 Ele comeou a se afastar, mas Budge deteve-o.
 - No to depressa, meu velho. Seymour Jarrett  um homem 
muito ocupado. Ele no se senta com os outros s para ter uma 
conversa fiada.
 Jeff disse, ansiosamente:
 - Est bem, Budge. A verdade  que Seymour colecciona selos e 
eu lhe falei sobre um selo raro que posso lhe arrumar.
 A verdade coisa nenhuma, pensou Budge.

Na semana seguinte, Jeff almoou no clube com Charlie Bardett, 
presidente da Bardett & Bardett, um dos maiores grupos de 
capital de risco do mundo. Budge, Ed Zeller, Alan Thompson e 
Mike Quincy observaram fascinados, enquanto os dois homens 
conversavam, muito absortos.
 - Seu cunhado tem voado alto ultimamente - comentou Zeller. - 
Que tipo de negcio ele est preparando, Budge?
 Budge respondeu, irritado:
 - No sei, mas pode ter certeza de que vou descobrir. Se 
Jarrett e Bardett esto interessados, deve haver muito 
dinheiro envolvido.
 Eles observavam quando Bardett se levantou, apertou 
efusivamente a mo de Jeff e depois foi embora. Quando Jeff 
passava por sua mesa, Budge agarrou-o pelo brao.
 - Preciso voltar ao escritrio - protestou Jeff. - Eu...
 - Voc trabalha para mim, est lembrado? Sente-se. - Jeff 
obedeceu. - Com quem voc almoou hoje?
 Jeff hesitou por um instante.
 - Ningum especial. Um velho amigo.
 - Charlie Barflett  um velho amigo?
 - De certa forma
- Sobre o que voc e seu velho amigo Charlie conversaram, 
Jeff?
 - Ahn... principalmente sobre carros. O velho Charlie gosta 
de carros antigos e eu soube de um Packard 37, quatro portas, 
conversvel...
 - Pare com essa merda! - disse Budge bruscamente. - Voc no 
colecciona selos, no vende carros antigos e no escreve livro 
nenhum. O que est realmente fazendo?
 - Nada. Eu...
 - Est levantando dinheiro para alguma coisa, no  mesmo, 
Jeff? - indagou Ed Zeller.
 - No!
 Mas Jeff foi precipitado demais na negativa. Budge passou o 
brao enorme em torno de Jeff.
 - Ei, companheiro, sou o seu cunhado. Da mesma famlia, 
lembra? - Ele deu um aperto efusivo em Jeff. -  alguma coisa 
sobre aquele computador  prova de interferncia que voc 
mencionou na semana passada, no  mesmo?
 Todos puderam perceber, pela expresso no rosto de Jeff, que 
ele estava acuado.
 - Ahn... , sim...
 Era como arrancar dentes para tirar alguma coisa do filho da 
puta.

- Por que no nos disse que o Professor Ackerman estava 
envolvido?
- Achei que vocs no estavam interessados.
- Pois se enganou. Quando precisa de capital, deve procurar 
primeiro os amigos.
- O professor e eu no precisamos de capital - disse Jeff. - 
Jarrett e Bartiett...
 - Jarrett e Bartiett so autnticos tubares e vo devor-lo 
vivo! - interveio Alan Thompson.
Ed Zeller aproveitou a deixa:
 - Mas quando lida com amigos, Jeff, no h qualquer risco de 
sair machucado.
- J est tudo acertado - confessou Jeff. - Charlie 
Bartlett...
- Assinou alguma coisa?
- Ainda no. Mas dei minha palavra...
- Ento nada est acertado. Mas que diabo, Jeff, nos negcios 
as pessoas mudam de idia a cada hora.
- Eu nem deveria estar discutindo o assunto com vocs - 
protestou Jeff. - O nome do Professor Ackerman no pode ser 
mencionado. Ele tem contrato com uma agncia do governo.
 - Sabemos disso - interveio Thompson, suavemente. - O 
professor acha que a coisa funcionar?
 - Ele sabe disso com certeza.
 - Se  bom o bastante para Ackerman, ento o  tambm para 
ns... no  mesmo, pessoal?
 Houve um coro de assentimento.
 - Ei, no sou um cientista! - disse Jeff. - No posso 
garantir qualquer coisa. Pelo que sei, a coisa pode no ter o 
menor valor.
- Claro, claro... Compreendemos perfeitamente. Mas suponhamos 
que tenha um valor, Jeff. Quais poderiam ser as dimenses?
- O mercado para isso  mundial, Budge. No d nem para 
comear a fixar um valor. Todo mundo poder usar. 
 - Qual  o financiamento inicial que voc est procurando?
- Dois milhes de dlares. Mas tudo o que precisamos  de 250 
mil dlares de entrada. Bardett prometeu...
 - Esquea Bardett. Isso  uma ninharia, companheiro. 
Entraremos com essa quantia pessoalmente. E manteremos tudo em 
famlia. Certo, pessoal?
 - Certo!
 Budge levantou os olhos e estalou os dedos. Um garon 
aproximou-se apressadamente.
- Dominick, traga papel e uma caneta para o Sr. Stevens.
O pedido foi atendido prontamente.
- Podemos fechar o negcio agora mesmo - disse Budge a Jeff. - 
Basta escrever uma cesso dos direitos para ns. Todos 
assinaremos e pela manh voc ter um cheque visado no valor 
de 250 mil dlares. Est bom assim para voc?
Jeff mordia o lbio inferior.
- Budge, prometi ao Sr. Bardett...
- Foda-se Bartlett! - rosnou Budge. - Casou-se com a irm dele 
ou com a minha? E agora escreva.
- No temos uma patente e...
- Escreva logo!

Budge empurrou a caneta para a mo de Jeff. Relutantemente, 
Jeff comeou a escrever: "Por este documento transfiro todos 
os meus direitos, titulo e interesse num computador matemtico 
chamado SUCABA, aos compradores Donald 'Budge' Hollander, Ed 
Zeller, Alan Thompson e Mike Quincy, em troca de um pagamento 
de 250 mil dlares na assinatura. O SUCABA foi amplamente 
testado,  barato, no apresenta problemas e consome menos 
energia do que qualquer outro computador actualmente no 
mercado. O SUCABA no precisar de manuteno ou peas por um 
perodo mnimo de dez anos." Todos olhavam por cima do ombro 
de Jeff, enquanto ele escrevia.
- Santo Deus! - exclamou Ed Zeller. - Dez anos! No h um s 
computador no mercado que oferea essa vantagem!
 Jeff continuou a escrever: "Os compradores sabem que nem o 
Professor Ackerman, nem eu temos uma patente sobre o SUCABA 
..."
 - Ns cuidaremos disso - interveio Alan Thompson, impaciente. 
- Tenho o melhor advogado de patentes.
 Jeff continuou a escrever: "Expliquei aos compradores que o 
SUCABA pode no ter qualquer valor e que nem o Professor 
Vernon Ackerman nem eu assumimos quaisquer responsabilidades 
ou garantias sobre o SUCABA, a no ser as que esto 
relacionadas acima." Ele assinou e estendeu o documento, 
indagando:
- Est bom assim?
- Tem certeza sobre os dez anos? - perguntou Budge.
- Garantia absoluta. Vou escrever uma cpia.
Eles ficaram observando enquanto Jeff escrevia uma cpia do 
documento. Ao final, Budge pegou as duas cpias e assinou, 
seguido por Zeller, Quincy e Thompson. Budge estava radiante. 
 - Uma cpia para ns e uma cpia para voc. O velho Seymour 
Jarrett e Charlie Bartlett ficaro furiosos, hem? Mal posso 
esperar para ver a cara dos dois quando souberem que os 
passamos para trs neste negcio.
 Na manh seguinte, Budge entregou a Jeff um cheque visado no 
valor de 250 mil dlares.
- Onde est o computador? - perguntou Budge.
- Providenciei para que seja entregue no clube ao meio-dia. 
Achei que seria apropriado que todos estivssemos juntos 
quando o receberem.
Budge bateu afectuosamente no ombro do cunhado.
- Sabe, Jeff, voc  um cara esperto. At  hora do almoo.
Pontualmente ao meio-dia um mensageiro entrou no restaurante 
do Pilgrim Club e foi conduzido  mesa de Budge, que ali 
estava com Zeller, Thompson e Quincy. O mensageiro entregou um 
pacote.
- Aqui est! - exclamou Budge.- Santo Deus! A coisa  at 
porttil!
- Devemos esperar por Jeff? - indagou Thompson.
- Ele que se dane. A coisa agora nos pertence.
Ele rasgou o papel e abriu a caixa. Havia palha l dentro. 
Cuidadosamente, quase com reverncia, Budge tirou o objecto 
que repousava sobre a palha. Os homens ficaram olhando 
fixamente. Era uma estrutura quadrada, com cerca de 30 
centmetros de dimetro, contendo uma srie de fios com 
contas. Houve um silncio prolongado.
- O que  isso? - perguntou Quincy finalmente.
 Foi Alan Thompson quem respondeu:
 -  um baco. Uma dessas coisas que os orientais usavam para 
fazer contas... - Sua expresso mudou abruptamente. - Ei, 
SUCABA  abacus, a palavra em ingls, soletrada ao contrrio!
 Ele virou-se para Budge, acrescentando:

 - Essa  a sua idia de brincadeira?
 Zeller falou atabalhoadamente:
Pouca energia, sem problemas, usa menos fora do que qualquer 
computador
actualmente no mercado... Cancelem o maldito cheque!
Houve uma corrida colectiva para o telefone.
 - O cheque visado? - disse o gerente. - No precisa se 
preocupar. O Sr. Stevens descontou-o esta manh.

Pickens, o mordomo, lamentava muito, mas o Sr. Stevens fizera 
as malas e partira.
 - Ele falou alguma coisa sobre uma longa viagem.

Naquela tarde, um frentico Budge conseguiu finalmente entrar 
em contacto com o Professor Vernon Ackerman.
 - Claro que lembro de Jeff Stevens. Um homem muito simptico. 
Ele  seu cunhado?
 - Professor, sobre o que conversou com Jeff? 
 - Acho que no  segredo. Jeff est querendo escrever um 
livro a meu respeito. Ele me convenceu de que, o mundo est 
interessado no homem por trs do cientista...

Seymour Jarrett mostrou-se reticente:
- Por que quer saber o que conversei com o Sr. Stevens?  um 
coleccionador de selos rival?
 - No. Eu...
- Pois no vai adiantar bisbilhotar. S existe um selo desse 
tipo e o Sr. Stevens concordou em vend-lo a mim assim que o 
obtiver.
 E ele bateu o telefone.

Budge sabia o que Charlie Bartlett ia dizer antes mesmo de 
ouvir as palavras:
- Jeff Stevens? Ah, sim... Colecciono carros antigos. Jeff 
sabe onde existe um Packard 37, quatro portas, conversvel, em 
excelente estado..
Desta vez foi Budge quem desligou.
- No se preocupem - disse ele a seus companheiros. - 
Recuperaremos o nosso dinheiro e ainda meteremos o filho da 
puta na cadeia pelo resto da vida. H leis contra a fraude.

O grupo foi ao escritrio de Scott Fogarty.
- Ele nos tomou duzentos e cinquenta mil dlares - explicou 
Budge ao advogado. - Quero met-lo atrs das grades pelo resto 
da vida. Providencie um mandato para...
- Est com o contrato, Budge?
- Estou, sim.
Ele entregou a Fogarty o documento que Jeff escrevera. O 
advogado examinou-o rapidamente, depois leu mais devagar. 
- Ele falsificou as assinaturas de vocs neste documento?
- Claro que no - respondeu Mike Quincy. - Fomos ns mesmos 
que assinamos.
 - E leram antes?
 Ed Zeller disse, irritado:
 - Claro que lemos. Acha que somos estpidos?

 - Deixarei que vocs mesmos julguem isso, senhores. Assinaram 
um contrato em que foram informados que estavam comprando, com 
uma entrada de 250 mil dlares, uma coisa que no tinha 
patente e podia ser completamente sem valor. Nos termos legais 
de um velho professor meu: "Vocs se foderam" .

Jeff obteve o divrcio em Reno. Foi quando estava l, fixando 
residncia como era necessrio para a concesso do divrcio 
automtico, que se encontrou com Conrad Morgan. Morgan 
trabalhara outrora para tio Willie.
 - Poderia me fazer um pequeno favor, Jeff? - perguntou Conrad 
Morgan. - H uma jovem viajando num trem de Nova York para St. 
Louis com algumas jias...
 Agora, Jeff olhou pela janela do avio e pensou em Tracy. 
Havia um sorriso em seu rosto.

 Quando voltou a Nova York, o primeiro lugar a que Tracy 
compareceu foi Conrad Morgan et Cie Joalheiros. Conrad Morgan 
levou Tracy para sua sala e fechou a porta. Ele esfregou as 
mos e disse:
- Eu estava comeando a ficar preocupado, minha cara. Esperei 
por voc em St. Louis e...
- Voc no estava em St. Louis.
- Como? O que disse?
Os olhos azuis de Morgan pareciam faiscar.
- Disse que no foi a St. Louis. Nunca teve a inteno de se 
encontrar comigo.
- Mas claro que tinha! Voc est com as jias e eu...
- Mandou dois homens me tirarem as jias.
Uma expresso de perplexidade se insinuou no rosto de Morgan.
- No compreendo...
- A princpio, pensei que houvesse um vazamento em sua 
organizao. Mas no havia, no  mesmo? Foi voc. Disse-me 
que comprou pessoalmente a minha passagem de trem. Portanto, 
era a nica pessoa que sabia o nmero da cabina. Usei um nome 
diferente e um disfarce, mas seus homens sabiam exactamente 
onde me encontrar.
A surpresa no rosto de querubim de Morgan era agora total.
- Est tentando me dizer que alguns homens lhe roubaram as 
jias?
 Tracy sorriu.
 - Estou tentando dizer que eles no roubaram. 
 E desta vez o espanto no rosto de Morgan era genuno.
- Voc est com as jias?
- Isso mesmo. Seus amigos ficaram com tanta pressa de pegar um 
avio que as deixaram para trs.
Morgan estudou Tracy em silncio por um momento.
- Com licena.
Ele passou por uma porta particular e Tracy continuou sentada 
no sof, esperando, perfeitamente relaxada.
Conrad Morgan se ausentou por quase 15 minutos. Quando voltou, 
havia uma expresso de consternao em seu rosto.
- Receio que um erro tenha sido cometido. Um grande erro.  
uma jovem muito esperta, Senhorita Whitney. Mereceu os seus 25 
mil dlares. - Ele sorriu em admirao. - D-me as jias e...
- Agora so cinquenta mil.
- Como?
- Tive de roubar as jias duas vezes. E por isso o preo agora 
 de cinquenta mil, Sr. Morgan.
- No. - Os olhos dele perderam o brilho. - No posso lhe dar 
tanto .

Tracy levantou-se.
- No tem problema. Tentarei encontrar algum em Las Vegas que 
ache que as jias valem isso.
Ela se encaminhou para a porta.
- Cinquenta mil dlares? - murmurou Conrad Morgan.
- Cinquenta mil.
- Onde esto as jias?
- Num armrio que aluguei na Estao de Pensilvnia. Assim que 
me der o dinheiro e me puser num txi, eu lhe entregarei a 
chave.
Conrad Morgan deixou escapar um suspiro de derrota.
- Negcio fechado.
- Obrigada - disse Tracy, jovialmente. - Foi um prazer fazer 
negcios com voc.

19

Daniel Cooper j sabia qual o propsito da reunio daquela 
manh na sala de J. J. Reynolds, pois todos os investigadores 
da companhia haviam recebido no dia anterior um memorando 
sobre o roubo de Lois Bellamy, que ocorrera uma semana antes. 
Daniel Cooper detestava reunies. Era impaciente demais para 
ficar sentado a escutar uma conversa estpida.
Ele chegou ao gabinete de J. J. Reynolds com 45 minutos de 
atraso. Reynolds estava no meio de um discurso.
 - Foi muita gentileza sua aparecer - comentou J. J. Reynolds, 
sarcasticamente.
 No houve reaco.  uma perda de tempo, concluiu Reynolds. 
Cooper no compreendia o sarcasmo... nem qualquer outra coisa, 
na opinio de Reynolds. S sabia como pegar criminosos.  
nisso, ele tinha de admitir, o homem era um verdadeiro gnio.
 Trs dos principais investigadores da organizao estavam 
sentados na sala: David Swift, Robert Schiffer e Jerry Davis.
- Todos vocs leram o relatrio sobre o roubo Bellamy - disse 
Reynolds. - Mas uma coisa nova foi acrescentada. Acontece que 
Lois Bellamy  prima do comissrio de polcia e ele est 
furioso.
- E o que a polcia tem feito? - perguntou Davis.
- Tem-se escondido da imprensa. No posso culp-lo por isso. 
Os agentes que foram investigar se comportaram como Keystone 
Kops. Chegaram a falar com a ladra, que surpreenderam na casa, 
mas deixaram-na escapar.
- Ento devem ter uma boa descrio dela - sugeriu Swift.
- Eles tm uma boa descrio de sua camisola - respondeu 
Reynolds, fulminante. - Ficaram to impressionados com o corpo 
da mulher que seus crebros se derreteram. Nem mesmo sabem a 
cor de seus cabelos. Ela usava uma touca e o rosto se achava 
coberto por um creme escuro de maquilhagem. A descrio que 
forneceram  de uma mulher de vinte e poucos anos, com um 
corpo fantstico e peitos maravilhosos. No h uma nica 
pista. No temos qualquer informao em que nos basear. 
Absolutamente nada.
Daniel Cooper falou pela primeira vez:
- Isso no  verdade.
Todos se viraram para fit-lo, com graus variados de averso.
- Do que est falando? indagou Reynolds.
- Sei quem  ela.
Depois de ler o relatrio, na manh anterior, Cooper resolvera 
dar uma olhada na casa Bellamy, como o primeiro passo lgico. 
Para Daniel Cooper, a lgica era a ordenao da mente de Deus, 
a soluo bsica para todos os problemas; aplicando-se a 
lgica, sempre se comeava pelo comeo. Cooper seguira de 
carro para a propriedade Bellamy, em Long Island, dera uma 
olhada e voltara para Manhattan, sem saltar. Descobrira tudo o 
que precisava saber. A casa era isolada e no havia meio de 
transporte pblico nas proximidades, o que significava que a 
ladra s poderia ter chegado l de carro particular. E ele 
explicou seu raciocnio aos homens na sala de Reynolds:
- Como ela provavelmente relutaria em usar seu prprio carro, 
que poderia levar  sua identificao, o veculo tinha de ser 
roubado ou alugado. Resolvi verificar primeiro as agncias de 
aluguel. Presumi que ela teria alugado o carro em Manhattan, 
onde lhe seria mais fcil cobrir sua pista.

Jerry Davis no ficou impressionado.
- Voc deve estar brincando, Cooper. Milhares de carros so 
alugados todos os dias em Manhattan.
Cooper ignorou a interrupo.
- Todas as operaes de aluguel de carros so 
computadorizadas. Relativamente poucos carros so alugados por 
mulheres. Verifiquei todas. A mulher em questo foi  Budget 
Rent-a-Car, na Rua 23-Oeste, alugou um Chevy Caprice s oito 
horas da noite do roubo, devolveu-o s duas horas da 
madrugada.
- E como sabe que foi o carro usado no roubo? - perguntou 
Reynolds.
 Cooper sentia-se entediado com as perguntas estpidas.
 - Verifiquei a quilometragem. So 51 quilmetros at a casa 
de Lois Bellamy e outros 51 quilmetros para voltar. Confere 
exactamente com o velocmetro no Caprice. O carro foi alugado 
em nome de Ellen Branch.
- Um nome falso - disse David Swift.
- O verdadeiro nome dela  Tracy Whitney.
Todos o fitavam aturdidos e foi Schiffer quem indagou:
- Como sabe disso?
- Ela deu um nome e endereo falsos, mas tinha de assinar o 
contrato de aluguel. Levei o original para a polcia e pedi 
que verificassem as impresses digitais. Eram as de Tracy 
Whitney. Ela cumpriu uma pena na Penitenciria Meridional da 
Louisiana Para Mulheres. Se esto lembrados, conversei com ela 
h cerca de um ano, a propsito daquele Renoir roubado.
- Claro que me lembro - disse Reynolds. - Falou na ocasio que 
ela era inocente.
- E era mesmo... naquela ocasio. No  mais inocente. Cometeu 
o roubo na casa Bellamy.
O filho da puta conseguira novamente! E fizera com que tudo 
parecesse muito simples. Reynolds, fez um esforo para no se 
mostrar relutante:
- Foi... foi um ptimo trabalho, Cooper. Um trabalho realmente 
excelente. Vamos agarr-la. Entraremos em contacto com a 
polcia e...
- Sob que acusao? - perguntou Cooper, suavemente. - Alugar 
um carro? A polcia no pode identific-la e no h qualquer 
vestgio de prova contra ela.
- O que devemos fazer ento? - indagou Schiffer. - Deixar que 
ela escape impune?
- Desta vez, sim - respondeu Cooper. - Mas sei agora quem ela 
. Tentar alguma coisa outra vez. E quando isso acontecer, eu 
a pegarei.
A reunio finalmente terminou. Cooper queria desesperadamente 
tomar um banho de chuveiro. Tirou do bolso um caderninho preto 
e anotou com extremo cuidado: TRACY WHITNEY.


20

Est na hora de comear minha vida nova, decidiu Tracy. Mas 
que tipo de vida? Passei de uma vitima inocente e ingnua para 
uma... uma o qu? Uma ladra - simplesmente isso. Ela pensou em 
Joe Romano, Anthony Orsatti, Perry Pope e o Juiz Lawrence. 
No. Uma vingadora.  isso o que me tornei. E talvez uma 
aventureira. Ela fora mais esperta do que a polcia, dois 
vigaristas profissionais e um joalheiro traidor. Pensou em 
Ernestine e Amy, sentiu uma pontada de saudade. Num sbito 
impulso, foi a F.A.O. Schwarz e comprou um teatro de 
marionetes, completo, com meia dzia de tipos. Mandou 
despachar para Amy. O carto dizia: ALGUNS NOVOS AMIGOS, PARA 
VOC. SINTO SAUDADE. AMOR TRACY.
Ela foi em seguida a um peleteiro na Madison Avenue, comprou 
um bo de raposa azul para Ernestine e remeteu, junto com uma 
ordem de pagamento de 200 dlares. O carto dizia apenas: 
OBRIGADA, ERNIE. TRACY.
Todas as minhas dvidas esto pagas agora, pensou Tracy. Era 
uma sensao agradvel. Estava livre para ir a qualquer lugar 
que quisesse, fazer o que bem lhe aprouvesse.
Resolveu comemorar sua independncia hospedando-se numa Sute 
da Torre, no Helmsley Palace Hotel. De sua sala de estar, no 
quadragsimo sptimo andar, podia ver a Catedral de St. 
Patrick e a Ponte George Washington,  distncia. Somente a 
poucos quilmetros dali, em outra direco, ficava o terrvel 
lugar em que vivera recentemente. Nunca mais, jurou Tracy.
Ela abriu a garrafa de champanha que a gerncia mandara para a 
sute e sentou para beber, contemplando o sol se pr sobre os 
edifcios de Manhattan. Quando a lua surgiu no cu, Tracy j 
tomara uma deciso. Iria para Londres. Estava pronta para 
todas as coisas maravilhosas que a vida tinha a oferecer. 
Paguei minhas dvidas, pensou Tracy. Mereo um pouco de 
Felicidade.

Deitou na cama e ligou a televiso para assistir ao ltimo 
servio noticioso. Dois homens estavam sendo entrevistados. 
Boris Melnikov era um russo baixo e corpulento, vestindo um 
temo marrom malfeito, Pietr Negulesco era o oposto, alto e 
magro, de aparncia elegante. Tracy se perguntou o que os dois 
homens poderiam ter em comum.
 Onde ser realizada a partida de xadrez? - perguntou o 
locutor,
- Em Sotchi, no lindo Mar Negro - respondeu Melnikov.
- Ambos so grandes mestres internacionais e esta partida tem 
despertado o maior interesse, senhores. Em partidas 
anteriores, arrebataram o ttulo um do outro. A ltima partida 
foi um empate. Sr. Negulesco, o Sr. Melnikov detm o ttulo 
actualmente. Acha que poder conquist-lo novamente?
- Claro - respondeu o romeno.
- Ele no tem a menor chance - garantiu o russo.
Tracy nada sabia de xadrez, mas havia uma arrogncia nos dois 
homens que achou extremamente desagradvel. Ela apertou o 
boto do controle remoto que desligava o aparelho de televiso 
e foi dormir.


Na manh seguinte, bem cedo, Tracy foi a uma agncia de 
viagens e reservou uma Sute no Signal Deck do Queen Elizabeth 
II, Estava to excitada como uma criana com a sua primeira 
viagem ao exterior e passou os trs dias seguintes comprando 
roupas e malas.
 Na manh da partida, Tracy alugou uma limusine para lev-la 
ao per. Quando chegou ao Per 90, na esquina da Rua 55 com a 
dcima segunda Avenida, onde o navio estava atracado, deparou 
com uma multido de fotgrafos e reprteres de televiso. Por 
um momento, Tracy foi dominada pelo pnico. Mas logo 
compreendeu que tinham ido ali para entrevistar os dois homens 
posando na base da prancha de embarque - Mehukov e Negulesco, 
os dois grandes mestres internacionais. Tracy passou por eles, 
mostrou seu passaporte a um oficial do navio e subiu para 
bordo. No convs, um camareiro verificou a passagem de Tracy e 
conduziu-a a seu camarote. Era uma sute maravilhosa, com um 
terrao particular. Sara absurdamente cara, mas Tracy 
concluiu que valera a pena.
 Ela arrumou suas coisas e depois saiu para o corredor. Havia 
festas de despedida em quase todos os camarotes, com risos, 
champanha e conversas. Ela sentiu uma repentina pontada de 
solido. No havia ningum para se despedir dela, ningum com 
quem ela se preocupasse, ningum para se preocupar com ela. 
Isso no  verdade, disse Tracy a si mesma. Big Bertha me 
quer. E ela riu alto.
Subiu para o convs superior, sem perceber os olhares de 
admirao dos homens e os invejosos das mulheres lanados  
sua passagem. Tracy ouviu o som de um apito rouco de navio e 
gritos avisando:
- Vamos zarpar! Todos que no viajaro devem desembarcar!
Ela foi dominada por um intenso excitamento. Partia rumo a um 
futuro completamente desconhecido. Sentiu o navio estremecer, 
quando os rebocadores comearam a pux-lo para fora do porto. 
Ficou na amurada, junto com incontveis outros passageiros, 
contemplando a Esttua da Liberdade desaparecer lentamente, 
depois saiu para explorar o navio.
 O Queen Elizabeth II era uma cidade, com quase 300 metros de 
comprimento e 13 andares de altura. Tinha quatro restaurantes, 
seis bares, dois sales de baile, duas boates e um "Balnerio 
Dourado ao Mar". Havia dezenas de lojas, quatro piscinas, um 
ginsio, um pequeno campo de golfe, uma pista de corrida. 
Talvez eu nunca mais queira deixar este navio, pensou Tracy.

Ela reservara uma mesa no Princess Grill, que era menor e mais 
elegante do que o restaurante principal. Mal se sentara quando 
uma voz familiar disse:
- Ora, ora, voc aqui!
Tracy levantou os olhos e l estava Tom Bowers, o falso agente 
do FBI. Oh, no, eu no mereo isso, pensou Tracy. 
- Mas que surpresa agradvel! Importa-se que eu me sente com 
voc?
- Claro que me importo.
Ele se instalou numa cadeira diante de Tracy e presenteou-a 
com um sorriso cativante.
- Podemos muito bem ser amigos. Afinal, ambos estamos aqui 
pelo mesmo motivo, no  mesmo?
Tracy no tinha a menor idia do que ele estava falando.
- Escute aqui, Sr. Bowers...
- Stevens - disse ele, suavemente. - Jeff Stevens.
- O nome no importa.

Tracy comeou a se levantar.
- Espere um momento. Explicarei tudo sobre a ltima vez em que 
nos encontramos.
- No h nada a explicar. Uma criana idiota poderia ter 
calculado tudo... e foi o que aconteceu.
- Eu devia um favor a Conrad Morgan. - Ele sorriu tristemente. 
- E receio que ele no tenha ficado muito feliz comigo.
L estava o mesmo charme insinuante e infantil que a enganara 
completamente antes. Pelo amor de Deus, Dennis, no h 
necessidade de algem-la. Ela no vai fugir. Tracy disse, com 
evidente hostilidade:
 - Eu tambm no estou feliz com voc. O que faz a bordo deste 
navio? No deveria estar numa barca do Mississipi?
Ele riu.
- Com Maximilian Pierpont a bordo, o navio vira uma barca do 
Mississipi.
- Quem?
Ele fitou-a surpreso.
- Ora, deixe disso. Est querendo dizer que realmente no 
sabe?
- No sei o qu?
- Max Pierpont  um dos homens mais ricos do mundo. Seu hobby 
 forar empresas concorrentes a fecharem. Adora cavalos 
lentos e mulheres rpidas, possui uma poro de ambos.  o 
ltimo dos grandes perdulrios.
- E voc tenciona alivi-lo de um pouco desse excesso de 
riqueza.
- Mais do que um pouco, para dizer a verdade. - Ele a fitava 
com uma expresso especulativa. - Sabe o que voc e eu 
deveramos fazer?
 - Claro que sei, Sr. Stevens. Deveramos nos despedir para 
sempre.
 Ele permaneceu sentado, observando, enquanto Tracy se 
levantava e saa do restaurante.
 Ela jantou em seu camarote. Enquanto comia, perguntou-se qual 
o azar que pusera Jeff Stevens novamente em seu caminho. 
Queria esquecer o medo que sentira no trem, quando pensava que 
estava presa. Mas vou deixar que ele estrague esta viagem. 
Simplesmente o ignorarei.
Tracy subiu para o convs superior depois do jantar. Era uma 
noite fantstica, com um dossel mgico de estrelas se 
espalhando contra o cu aveludado. Ficou parada ao luar, na 
amurada, contemplando a suave fosforescncia das ondas e 
escutando os sons do vento nocturno, quando ele veio se postar 
ao seu lado.
 - No faz idia de como est linda parada aqui. Acredita em 
romances de bordo?
- Claro. O que no acredito  em voc.
Tracy comeou a se afastar.
 - Espere um instante. Tenho notcias para voc. Acabei de 
descobrir que o Sr. Pierpont no est a bordo, no final das 
contas. Cancelou a viagem no ltimo minuto.
- Ora, mas que pena! Desperdiou a sua passagem. 
- No necessariamente. - Ele tornou a fit-la com uma 
expresso especulativa. - Gostaria de ganhar uma pequena 
fortuna nesta viagem?
O homem  incrvel.

- A menos que tenha um submarino ou um helicptero no bolso, 
no creio que possa partir impune, se roubar algum a bordo.
 - E quem falou em roubar algum? J ouviu falar de Boris 
Melnikov ou Pietr Negulesco?
 - E se j ouvi?
 - Melnikov e Negulesco, esto a caminho da Rssia para uma 
disputa do campeonato. Se eu der um jeito para voc jogar com 
os dois, poderemos ganhar muito dinheiro.  um golpe perfeito.
 Tracy estava incrdula.
 - Se puder arrumar para eu jogar com os dois?  esse o seu 
golpe perfeito?
 - Exactamente. O que acha?
 - Eu adoraria. S h um pequeno problema.
 - Qual ?
 - No sei jogar xadrez.
 Ele sorriu afavelmente.
 - No tem importncia. Eu lhe ensinarei.
 - Voc  louco. Se quer um conselho, procure imediatamente um 
bom psiquiatra. Boa noite.

 Na manh seguinte, Tracy esbarrou literalmente em Boris 
Melnikov. Ele corria pelo tombadilho quando Tracy virou um 
canto, esbarrou nela e derrubou-a. 
 - Olhe para onde vai! - resmungou Melnikov, continuando a 
correr.
Tracy ficou sentada no cho, olhando para ele. Um camareiro 
aproximou-se.
- Est machucada, madame? Eu o vi...
- No se preocupe. Estou bem, obrigada.
Ningum estragaria aquela viagem.
Quando voltou a seu camarote, Tracy encontrou seis recados 
para procurar o Sr. Jeff Stevens. Ignorou-os. Nadou  tarde, 
leu, fez uma massagem. Ao entrar no bar, ao cair da noite, a 
fim de tomar um coquetel antes do jantar, sentia-se 
maravilhosa. Mas a euforia foi de curta durao. Pietr 
Negulesco, o romeno, estava sentado no bar. Quando viu Tracy, 
ele levantou-se e disse:
- Posso lhe oferecer um drinque, linda dama?
Tracy hesitou, depois sorriu.
- Aceito, obrigada.
- O que gostaria de tomar?
- Uma vodca com tnica, por favor.
Negulesco fez o pedido ao barman e tornou a virar-se para 
Tracy.
- Sou Pietr Negulesco.
- Sei disso.
- Claro. Todo mundo me conhece. Sou o maior jogador de xadrez 
do mundo. E sou um heri nacional no meu pas. - Ele 
inclinou-se para Tracy, ps a mo em seu joelho - E sou tambm 
uma grande foda.
Tracy achou que entendera mal.
- Como?
 - Sou uma grande foda.
 A primeira reaco de Tracy foi jogar o drinque na cara dele, 
mas controlou-se. Tinha uma ideia melhor.
- Com licena - disse ela. - Tenho de me encontrar com um 
amigo.

Ela foi procurar Jeff Stevens. Encontrou-o no Princess Grill. 
Mas quando se adiantou para a sua mesa, percebeu que ele 
jantava com uma loura atraente. Eu deveria ter imaginado, 
pensou Tracy, Ela virou-se e afastou-se pelo corredor. Jeff 
estava a seu lado um momento depois.
- Tracy... voc queria me falar?
- No quero afast-lo do seu... jantar.
- Ela  a sobremesa - disse Jeff, jovialmente - O que posso 
fazer por voc?
- Falava srio sobre Melnikov e Negulesco?
- Absolutamente srio. Por qu?
- Acho que ambos precisam de uma lio de boas maneiras. 
- Eu tambm acho. E ganharemos dinheiro enquanto lhes damos a 
lio.
- ptimo. Qual  o seu plano?
- Voc vencer os dois no xadrez.
- Estou falando srio.
 - Eu tambm.
- J lhe disse que no sei jogar xadrez. No sei distinguir um 
peo de um rei. Eu...
- No se preocupe - prometeu Jeff. - Basta um par de lies 
minhas e massa os dois.
- Os dois?
- No lhe falei ainda? Jogar com os dois simultaneamente. 

Jeff estava sentado ao lado de Boris Melnikov no Double Down 
Piano Bar.
- A mulher  uma enxadrista fantstica - confidenciou Jeff a 
Melnikov. - Viaja incgnita.
O russo soltou um grunhido.
- As mulheres nada sabem de xadrez. No so capazes de pensar.
- Pois esta pode, E ela diz que pode venc-lo facilmente. 
Boris Melnikov soltou uma gargalhada.
- Ningum pode me vencer... facilmente ou no.
- Ela est disposta a apostar dez mil dlares que pode jogar 
com voc e Pietr Negulesco ao mesmo tempo e conseguir um 
empate, pelo menos com um dos dois.
 Boris Melnikov engasgou-se com seu drinque.
- O qu? Isso... isso  absurdo! Jogar com os dois ao mesmo 
tempo? Esta... esta mulher amadora?
 - Isso mesmo, Por dez mil dlares cada.
 - Eu deveria aceitar s para dar uma lio  idiota estpida. 
- Se voc ganhar, o dinheiro ser depositado em qualquer pas 
que escolher.
 Uma expresso gananciosa se insinuou no rosto do russo.
 - Nunca sequer ouvi falar dessa mulher. E jogar com ns dois 
simultaneamente! Ela deve ser louca.
 - Ela tem vinte mil dlares em dinheiro.
 - E qual  a nacionalidade dela?
 - Americana.
 - Ol, isso explica tudo. Todos os americanos ricos so 
doidos, especialmente as mulheres.
 Jeff comeou a se levantar.
- Bem, acho que ela ter de jogar somente com Pietr Negulesco.
- Negulesco jogar com ela?
 - Isso mesmo. No lhe contei? Ela queria jogar com os dois, 
mas se voc est com medo...
 - Com medo? Boris Melnikov com medo? - A voz do russo era um 
rugido. - Eu a destruirei! Quando essa partida ridcula 
ocorrer?

 - Ela pensou que poderia ser na sexta-feira. A ltima noite 
da viagem.
 Boris Melnikov pensava rapidamente.
 - Melhor de trs?
 - No. Apenas uma partida.
 - Por dez mil dlares?
 - Correcto.
O russo suspirou.
 - No tenho tanto dinheiro comigo.
 - No h problema - garantiu Jeff - Tudo o que a Senhorita 
Whitney realmente quer  a glria de jogar contra o grande 
Boris Melnikov. Se voc perder, d a ela um retracto 
autografado. Se ganhar, leva dez mil dlares.
 - Quem fica com as apostas?
Havia um tom de suspeita na voz do russo.
- O comissrio de bordo.
- Muito bem - decidiu Melnikov. - Sexta-feira  noite. 
Comearemos s dez horas, pontualmente.
- Ela ficar satisfeita.
Na manh seguinte, Jeff conversou com Pietr Negulesco no 
ginsio, onde ambos se exercitavam.
- Ela  americana, hem? - disse Pietr Negulesco. - Eu devia 
ter imaginado que Todos os americanos so doidos.
- Ela  uma grande enxadrista.
Pietr Negulesco fez um gesto desdenhoso.
- Grande no  o suficiente. Melhor  o que conta. E eu sou o 
melhor.
 -  por isso que ela est to ansiosa em jogar contra voc. 
Se voc perder, d a ela um retracto autografado. Se vencer, 
recebe dez mil dlares em dinheiro...
- Negulesco no joga com amadoras.
 - depositados em qualquer pais que quiser.
 - No h a menor possibilidade.
 - Nesse caso, acho que ela ter de jogar somente contra Boris 
Melnikov.
 - Como? Est dizendo que Melnikov concordou em jogar contra 
essa mulher?
 - Exactamente. Mas ela tinha a esperana de jogar contra os 
dois simultaneamente.
 - Nunca ouvi falar de nada to... to... - Negulesco - 
titubeou, a palavra lhe faltando. - A arrogncia! Quem  essa 
mulher que pensa que pode derrotar os dois maiores enxadristas 
do mundo? Ela deve ter escapado de algum hospcio.
 - Ela  um pouco excntrica - reconheceu Jeff - mas seu 
dinheiro  bom.
 - Voc disse dez mil dlares para derrot-la?
 - Isso mesmo.
 - E Boris Melnikov recebe a mesma quantia?
 - Se ele a vencer.
 Pietr Negulesco sorriu.
 - Ora, ele vai venc-la. E eu tambm.
 - Aqui entre ns, eu no ficaria absolutamente surpreso com 
isso.
 - Quem ficar com as apostas?
 - O comissrio de bordo.
Por que Melnikov deveria ser o nico a tirar o dinheiro 
daquela mulher?, pensou Pietr Negulesco.
- Negcio fechado, meu amigo. Onde e quando?

- Na noite de sexta-feira. s dez horas. Na Sala da Rainha.
 - Pietr Negulesco sorriu gananciosamente.
- Estarei l.

- Est querendo dizer que eles concordaram? - murmurou Tracy.
 - Exactamente.
 - Acho que vou vomitar.
 - Pegarei uma toalha molhada.
 Jeff correu para o banheiro da sute de Tracy, molhou uma 
--toalha e levou para ela. Tracy estava deitada na 
espreguiadeira. Ele ps a toalha em sua testa.
 - Como se sente?
 - Horrvel. Acho que terei uma enxaqueca.
 - J teve enxaqueca antes?
 - Nunca.
 - Ento no ter uma agora.  perfeitamente natural ficar 
nervosa antes de uma coisa assim, Tracy.
 Ela levantou-se de um pulo, jogou a toalha no cho.
 - Alguma coisa assim? Nunca houve nada assim. Jogarei com 
dois mestres internacionais do xadrez depois de receber uma 
nica lio do jogo de voc e...
 - Duas - corrigiu-a Jeff. - Voc possui um talento natural 
para o xadrez.
 - Oh, Deus, por que deixei que voc me metesse nisso?
 - Porque vamos ganhar muito dinheiro.
 - No quero ganhar muito dinheiro - lamuriou-se Tracy. - 
Quero que este navio afunde! Por que no podemos estar no 
Titanic?
 - Basta ficar calma - disse Jeff, suavemente. - Vai ser...
- Vai ser um desastre! Todos neste navio estaro observando.
- No  isso exactamente o que estamos querendo? - comentou 
Jeff, radiante.

Jeff combinara tudo com o comissrio de bordo. Entregara-lhe 
as apostas - 20 mil dlares em traveler's checks - e pedira 
que reservasse as duas mesas de xadrez para a noite de 
sexta-feira. A notcia espalhou-se rapidamente pelo navio. Os 
passageiros comearam a abordar Jeff para indagar se as 
partidas ocorreriam mesmo.
 - Claro - assegurou Jeff a todos que perguntaram. -  uma 
coisa inacreditvel. A pobre Senhorita Whitney acredita mesmo 
que pode vencer. E est at apostando nisso.
 - Ser que eu poderia fazer uma pequena aposta? - indagou um 
passageiro.
 - Claro. Tanto dinheiro quanto quiser. A Senhorita Whitney 
pede apenas uma vantagem de dez para um.
Uma proporo de um milho para um teria feito mais sentido. 
Desde o momento em que a primeira aposta foi aceite, as 
comportas se abriram. Parece que todos a bordo, inclusive os 
homens da casa de mquinas e os oficiais do navio, queriam 
apostar nas partidas. As quantias variavam de cinco a cinco 
mil dlares e todas as apostas eram no russo e no romeno.
 O desconfiado comissrio de bordo resolveu alertar o 
comandante.
 - Nunca vi nada parecido, senhor. Parece um estouro da 
boiada. Quase todos os passageiros apostaram. Devo estar 
guardando no mnimo duzentos mil dlares em apostas.

 O comandante fitou-o em silncio por um momento, com uma 
expresso pensativa.
 - Diz que a Senhorita Whitney vai jogar com Melnikov e 
Negulesco ao mesmo tempo?
 - Exactamente, comandante.
 - J confirmou que os dois homens so mesmo Pietr Negulesco e 
Boris Melnikov?
 - Claro, senhor.
 - E no h qualquer possibilidade de eles perderem as 
partidas deliberadamente?
 - No com seus egos, senhor. Acho que eles prefeririam 
morrer. E se perderem para essa mulher,  provavelmente o que 
acontecer quando voltarem para suas terras.
 O comandante passou os dedos pelos cabelos, o rosto franzido 
em perplexidade.
 - Sabe alguma coisa sobre a Senhorita Whitney ou esse Sr. 
Stevens?
 - Absolutamente nada, senhor. At onde posso determinar, eles 
viajam separadamente.
 O comandante tomou a sua deciso.
 - Parece alguma espcie de vigarice e normalmente eu no 
permitiria que continuasse. Contudo, acontece que tambm gosto 
de xadrez. E se h uma coisa em que eu apostaria a minha vida 
 no facto de que no h possibilidade de trapacear no xadrez. 
Vamos deix-los jogar. - Ele foi at sua mesa e pegou uma 
carteira preta de couro. - Aposto cinquenta libras para mim. 
Nos mestres.

s nove horas da noite de sexta-feira, a Sala da Rainha se 
encontrava apinhada de passageiros da primeira classe, os que 
haviam se esgueirado da segunda e terceira classe, os oficiais 
do navio e tripulantes que se achavam de folga. A pedido de 
Jeff Stevens, dois lugares haviam sido reservados para o 
torneio. Uma mesa de xadrez fora armada no centro da Sala da 
Rainha e a outra no salo adjacente. Havia cortinas arriadas 
para separar os dois lugares. 
 -  para que os jogadores no sejam distrados um pelo outro 
- explicou Jeff Stevens. - E gostaramos tambm que os 
espectadores no sassem da sala que escolhessem. 
 Cordas de veludo foram estendidas em torno das duas mesas, a 
fim de conter as multides. Os espectadores estavam prestes a 
testemunhar algo que certamente nunca mais tornariam a ver. 
Nada sabiam a respeito da linda e jovem americana, a no ser 
que seria impossvel para ela - ou para qualquer outra pessoa 
- jogar contra os grandes Negulesco e Melnikov simultaneamente 
e obter sequer um empate com qualquer dos dois. 
 Jeff apresentou Tracy aos dois grandes mestres pouco antes 
das partidas comearem. Tracy parecia uma pintura grega, num 
vestido Galanos de chiffon verde suave, que deixava um ombro a 
descoberto. Seus olhos pareciam enormes no rosto plido. Pietr 
Negulesco contemplou-a atentamente e perguntou:
 - Venceu todos os torneios nacionais de que participou?
 - Venci - respondeu Tracy, com absoluta sinceridade.
O romeno encolheu os ombros.
 - Nunca ouvi falar a seu respeito.
 Boris Melnikov mostrou-se igualmente rude:
 - Vocs, americanos, no sabem o que fazer com seu dinheiro. 
Eu gostaria de agradecer-lhe antecipadamente. O ganho deixar 
minha famlia muito feliz.

 Os olhos de Tracy eram de um verde vivo.
 - Ainda no venceu, Sr. Melnikov.
 O riso de Melnikov ressoou pela sala.
- Minha cara, no sei quem voc , mas sei quem eu sou... e eu 
sou o grande Boris Melnikov.
 Eram 10 horas. Jeff olhou ao redor e constatou que os dois 
sales se apresentavam repletos de espectadores.
 - Est na hora de as partidas comearem.
 Tracy sentou-se  mesa, diante de Melnikov, perguntou-se pela 
centsima vez como se metera naquilo.
 - No h problema nenhum - garantira Jeff. - Confie em mim.
 E ela, como uma idiota, confiara. Devo ter perdido o juzo, 
pensou Tracy. Ela estava jogando contra os dois maiores 
enxadristas do mundo e nada sabia do jogo, excepto o que 
aprendera com Jeff em quatro horas de aulas.
 O grande momento chegara. Tracy sentia as pernas tremendo. 
Melnikov virou-se para a multido em intensa expectativa e 
sorriu. Fez sinal para um camareiro.
 - Traga-me um conhaque. Napolon.
 Jeff dissera a Melnikov:
 - A fim de ser justo com todos, sugiro que voc jogue com as 
brancas e comece. E na partida com o Sr. Negulesco, ser a vez 
da Senhorita Whitney jogar com as brancas e comear.
 Os dois grandes mestres haviam concordado.
 Enquanto a audincia permanecia em silncio, Boris Melnikov 
inclinou-se sobre o tabuleiro e fez a abertura do gambito da 
rainha, avanando por duas casas o peo da rainha. No vou 
simplesmente vencer esta mulher. Vou arras-la.
 Ele olhou para Tracy. Ela estudou o tabuleiro, acenou com a 
cabea e levantou-se, sem mover qualquer pea. Um camareiro 
abriu caminho atravs da multido para que Tracy se dirigisse 
ao segundo salo, onde Pietr Negulesco se encontrava sentado a 
uma mesa, esperando-a. Havia pelo menos cem pessoas no salo 
quando Tracy sentou-se diante de Negulesco.
- Ah, minha pombinha! J derrotou Boris?
 Pietr Negulesco riu ruidosamente de seu gracejo.
 - Estou trabalhando nisso, Sr. Negulesco - disse Tracy, 
calmamente.
 Ela se inclinou para a frente, e deslocou por duas casas o 
peo da rainha. Negulesco levantou os olhos e sorriu. Marcara 
uma massagem para dentro de uma hora, mas planejava terminar 
aquela partida antes. Ele inclinou-se e deslocou por duas 
casas o peo de sua rainha preta. Tracy estudou o tabuleiro 
por um momento, depois levantou-se. O camareiro escoltou-a de 
volta a Boris Melnikov.
 Tracy sentou-se  mesa e deslocou o peo de sua rainha preta 
por duas casas. Ao fundo, percebeu o aceno de aprovao quase 
imperceptvel de Jeff.
 Sem hesitao, Boris Melnikov deslocou por duas casas o peo 
do bispo da rainha branca.
 Dois minutos depois,  mesa de Negulesco, Tracy deslocou por 
duas casas o seu peo do bispo da rainha.
 Negulesco accionou por uma casa o seu peo do rei.
 Tracy levantou-se e voltou ao salo em que Boris Melnikov 
esperava. Avanou uma casa o seu peo do rei.
Com que ento ela no  uma total amadora!, pensou Melnikov, 
surpreso. Mas vejamos o que ela faz com isto. Ele jogou o 
cavalo da rainha para a casa 3 do bispo da rainha.

 Tracy estudou o movimento, acenou com a cabea, voltou a 
Negulesco, repetiu o movimento de Melnikov.
 Com crescente espanto, os dois grandes mestres compreenderam 
que enfrentavam uma brilhante oponente. No importava quo 
espertos fossem os seus movimentos, aquela amadora conseguia 
neutraliz-los.
Como estavam separados, Boris Melnikov e Pietr Negulesco no 
tinham a menor idia de que, na realidade, jogavam um contra o 
outro. Cada movimento que Melnikov fazia contra Tracy, ela 
repetia contra Negulesco. E quando Negulesco contra-atacava 
com esse movimento, Tracy usava-o contra Melnikov.
 No meio da partida os grandes mestres no estavam mais 
presunosos. Agora lutavam por suas reputaes. Andavam de um 
lado para outro enquanto planejavam seus movimentos, fumando 
furiosamente. Tracy parecia ser a nica calma.
 No comeo, a fim de tentar terminar a partida rapidamente, 
Melnikov tentara um sacrifcio de cavalo, a fim de permitir 
que seu bispo branco exercesse presso sobre o lado do rei 
preto. Tracy levara o movimento para Negulesco. O romeno 
examinara o movimento cuidadosamente, depois recusara o 
sacrifcio com a cobertura do lado exposto. Quando Negulesco 
ofereceu um bispo, a fim de avanar uma torre pela defesa 
branca, Melnikov se recusou a aceitar, antes que a torre preta 
pudesse abalar a sua estrutura de pees.
 No havia como deter Tracy. A partida vinha sendo travada h 
quatro horas e nenhuma pessoa em qualquer das audincias se 
mexia.
 Cada grande mestre tem na cabea centenas de partidas jogadas 
por outros grandes mestres. Foi quando aquela partida em 
particular se aproximava do final que tanto Melnikov como 
Negulesco, reconheceram a marca registrada do outro.
A sacana, pensou Melnikov. Ela estudou com Negulesco. Ele lhe 
ensinou tudo.
 E Negulesco pensou: Ela  protegida de Melnikov. O filho da 
puta ensinou-a a jogar.
 Quanto mais eles lutavam contra Tracy, mais chegavam  
concluso de que no havia como derrot-la. A partida se 
aproximava do empate.
Na sexta hora de jogo, s quatro da madrugada, as peas em 
cada tabuleiro estavam reduzidas a trs pees, uma torre e um 
rei. No havia como qualquer dos lados vencer. Melnikov 
estudou o tabuleiro por um longo tempo, depois respirou fundo, 
meio sufocado, e murmurou:
 - Ofereo o empate.
Por cima do burburinho, Tracy respondeu:
- Eu aceito.
A multido delirou.
Tracy levantou-se e atravessou a multido para o salo ao 
lado. Quando se sentava, Negulesco disse, a voz meio 
estrangulada: 
- Ofereo o empate.
E a comoo do outro salo se repetiu. A multido no podia 
acreditar no que acabara de testemunhar. Uma mulher surgira do 
nada e obtivera um empate simultaneamente com os dois maiores 
enxadristas do mundo. Jeff apareceu ao lado de Tracy e disse, 
sorrindo:
 - Vamos embora. Ambos precisamos de um drinque.

 Quando eles saram, Boris Melnikov e Pietr Negulesco ainda 
estavam arriados em suas cadeiras, olhando apaticamente para 
seus tabuleiros.

Tracy e Jeff sentaram-se a uma mesa para dois no bar do convs 
superior.
 - Voc esteve maravilhosa. - Jeff riu. - Notou a expresso de 
Melnikov? Pensei que ele ia ter um enfarte.
 - Pensei que eu fosse ter um enfarte - murmurou Tracy. - 
Quanto ganhamos?
 - Cerca de duzentos mil dlares. Receberemos do comissrio de 
bordo pela manh, quando atracarmos em Southampton. 
Encontrarei com voc para o caf da manh no restaurante.
 - Est bem.
 - Acho que vou me recolher agora. Acompanharei voc at seu 
camarote.
 - Ainda no me sinto pronta para deitar, Jeff. Estou excitada 
demais. V na frente.
 - Voc foi uma autntica campe. - Jeff inclinou-se e 
beijou-a de leve na face. - Boa noite, Tracy.
 - Boa noite, Jeff.
 Ela observou-o se afastar. Ir dormir? Impossvel! Fora uma 
das noites mais fantsticas de sua vida. O russo e o romeno 
haviam-se mostrado muito confiantes, terrivelmente arrogantes. 
Jeff dissera: "Confie em mim"... e ela confiara. No tinha 
iluses sobre o que ele era. Um vigarista. Inteligente, 
divertido e esperto, uma companhia agradvel. Mas  claro que 
ela nunca poderia se interessar a srio por ele.

Jeff estava a caminho de seu camarote quando encontrou um dos 
oficiais do navio.
 - Um grande espectculo, Sr. Stevens. A notcia sobre a 
partida j foi transmitida pelo telgrafo. Prevejo que a 
imprensa estar  espera de vocs em Southampton.  o agente 
da Senhorita Whitney?
 - No. Somos apenas conhecidos de bordo - respondeu Jeff, 
afavelmente. 
Mas sua mente funcionava com rapidez. Se o ligassem a Tracy, 
poderia parecer um golpe . Talvez at houvesse uma 
investigao. Ele resolveu recolher o dinheiro antes que 
houvesse uma investigao. 
 Escreveu um bilhete para Tracy: PEGUEI O DINHEIRO E ESTAREI  
SUA ESPERA PARA UM CAF DA MANH DE COMEMORAO NO SAVOY 
HOTEL. VOC ESTEVE MAGNFICA. JEFF. Ele ps o bilhete num 
envelope fechado e entregou a um camareiro.
- Por favor, entregue isto  Senhorita Whitney pela manh, o 
mais cedo possvel.
- Pois no, senhor.
 Jeff foi para a sala do comissrio de bordo.
 - Lamento incomod-lo, mas atracaremos dentro de poucas horas 
e sei como estar ocupado ento. Sendo assim, importa-se de me 
pagar agora?
- Claro que no. - O comissrio sorriu. - A moa  realmente 
extraordinria, no  mesmo?
 -  sim.
 - Se no se importa que eu pergunte, Sr. Stevens, onde ela 
aprendeu a jogar xadrez assim?
 - Soube que ela estudou com Bobby Fischer.
O comissrio tirou do cofre dois envelopes pardos grandes.

-  muito dinheiro para se andar por a. No preferia que eu 
lhe desse um cheque pela quantia?
 - No precisa se incomodar. Posso perfeitamente ficar com o 
dinheiro. Ser que se importaria de me fazer um favor? O barco 
de correspondncia vem ao encontro do navio antes de 
atracarmos, no  mesmo?
- Exactamente. Estamos esperando-o s seis horas da manh. 
- Eu agradeceria se pudesse providenciar para que eu partisse 
no barco de correspondncia. Minha me est gravemente doente 
e eu gostaria de encontr-la antes... - Ele fez uma pausa e 
baixou a voz para acrescentar - ...antes que seja tarde 
demais.
 - Oh, lamento profundamente, Sr. Stevens. E  claro que posso 
dar um jeito. Falarei com o pessoal da alfndega.

Eram 6:15 da manh quando Jeff Stevens, os dois envelopes 
pardos cuidadosamente guardados em sua mala, desceu a escada 
do navio para o barco de correspondncia. Ele virou-se para 
lanar uma ltima olhada aos contornos do enorme navio, 
pairando acima. Os passageiros do transatlntico ainda dormiam 
profundamente. Jeff estaria no cais muito antes que o Queen 
Elizabeth II atracasse.
 - Foi uma bela viagem - comentou Jeff para um dos tripulantes 
do barco de correspondncia.
 - Foi mesmo - concordou uma voz.
 Jeff virou-se, Tracy estava sentada num rolo de corda, os 
cabelos flutuando suavemente em torno de seu rosto.
- Tracy! O que est fazendo aqui?
- O que acha que estou fazendo?
Ele percebeu a expresso no rosto dela.
- Ei, espere um pouco! No pensou que eu fosse fugir de voc, 
no  mesmo?
- Por que eu pensaria assim? 
O tom dela era irnico.
 - Deixei um bilhete para voc, Tracy. Ia encontr-la no Savoy 
e...
 - Claro que ia - disse ela, incisivamente. - Voc nunca 
desiste, no  mesmo?
 Ele fitou-a e nada mais tinha a dizer.

Em sua sute, no Savoy, Tracy observava atentamente, enquanto 
Jeff contava o dinheiro.
- Sua parte d cento e um mil dlares.
- Obrigada.
O tom dela era gelado.
- Est enganada a meu respeito, Tracy. E gostaria que me, 
desse uma chance de explicar. Quer jantar comigo esta noite?
Ela hesitou por um instante depois assentiu.
- Est bem.
- ptimo. Virei busc-la s oito horas.

Quando Jeff Stevens chegou ao hotel naquela noite e pediu para 
falar com Tracy, o recepcionista informou:
- Lamento muito, senhor. A Senhorita Whitney deixou o hotel 
esta tarde. E no deixou seu novo endereo.

21

Foi o convite, manuscrito, Tracy concluiu mais tarde, que 
mudou sua vida,
 Depois que, Jeff Stevens lhe entregou a sua parte do 
dinheiro, Tracy deixou, o Savoy e foi para Park Street, 47, um 
hotel sossegado, semi-residencial, com quartos grandes e 
agradveis, um servio impecvel.
 No seu segundo dia em Londres, o convite foi entregue em sua 
Sute pelo porteiro. Estava escrito numa letra pomposa: "Um 
amigo comum sugeriu que poderia ser proveitoso para ns dois 
se nos conhecssemos. No gostaria de tomar ch comigo esta 
tarde, no Ritz, s quatro horas? Se me perdoar o clich, 
estarei usando um cravo vermelho." A assinatura era "'Gunther 
Hartog".
 Tracy nunca ouvira falar dele. Sua primeira inclinao foi 
ignorar o bilhete, mas a curiosidade acabou prevalecendo. s 
16:45 estava na entrada do elegante restaurante do Ritz Hotel. 
Notou-o imediatamente. Era um homem na casa dos 60 anos, 
calculou Tracy, de aparncia atraente, um rosto fino, 
intelectual. A pele era lisa e clara, quase translcida. 
Vestia um terno cinza de corte perfeito, com um cravo vermelho 
na lapela. Quando Tracy se aproximou da mesa, ele levantou-se 
e se inclinou ligeiramente.
 Obrigado por ter aceito meu convite.
Ele sentou-a com um galanteio antiquado que Tracy achou muito 
atraente. Parecia pertencer a outro mundo. Tracy no podia 
imaginar o que um homem assim haveria de querer com ela. 
 - S vim porque estava curiosa - confessou Tracy. - Mas tem 
certeza de que no me confundiu com outra Tracy Whitney?
 Gunther Hartog sorriu.
 - Pelo que ouvi dizer, s pode existir uma nica Tracy 
Whitney.
 - O que exactamente ouviu?
 - No  melhor conversarmos sobre isso enquanto tomamos o 
ch?
 O ch consistia de pequenos sanduches, com ovo picado, 
salmo, pepino, agrio e galinha. Havia bolinhos quentes, com 
manteiga ou gelia, doces frescos, tudo acompanhado por ch 
Twinings. Eles conversaram enquanto comiam.
- Seu bilhete mencionava um amigo comum - comentou Tracy.
- Conrad Morgan. Tive negcios ocasionais com ele.
Fiz negcios com ele uma vez, pensou Tracy, sombriamente . E 
ele tentou me passar para trs.
 - Ele  um grande admirador seu - acrescentou Gunther Hartog.
 Tracy observou mais atentamente o seu anfitrio. Tinha o 
porte de um aristocrata e a aparncia de riqueza. O que ele 
quer comigo?, especulou Tracy novamente. Ela resolveu deix-lo 
continuar, mas no houve meno adicional a Conrad Morgan ou a 
qualquer possvel beneficio mtuo que pudesse decorrer de uma 
ligao entre Gunther Hartog e Tracy Whitney.
 Tracy achou o encontro extremamente agradvel e absorvente. 
Gunther lhe falou a respeito de suas origens.

- Nasci em Munique. Meu pai era um banqueiro, um homem rico. 
Infelizmente, cresci um tanto mimado, cercado por belos 
quadros e antiguidades. Minha me era judia. Quando Hitler 
subiu ao poder, meu pai recusou-se a abandon-la. Por isso, 
foi despojado de tudo o que possua. Ambos morreram nos 
bombardeios. Amigos me mandaram s escondidas da Alemanha para 
a Sua. Depois que a guerra terminou, resolvi no voltar  
Alemanha. Vim para Londres e abri uma pequena loja de 
antiguidades na Motint Street. Espero que a visite um dia.
Ento isso  tudo, pensou Tracy, surpresa. Ele quer me vender 
alguma coisa.
Mas ela descobriu que estava enganada.
Enquanto pagava a conta, Gunther Hartog disse, casualmente:
- Tenho uma pequena casa de campo em Hampshire. Receberei 
alguns amigos para o fim de semana e ficaria deliciado se 
quisesse se juntar a ns.
 Tracy hesitou. O homem era um completo estranho e no tinha a 
menor idia do que ele queria dela. Mas acabou chegando  
concluso que nada tinha a perder.

O fim de semana foi fascinante. A "pequena casa de campo" de 
Gunther Hartog era um findo solar do o XVII, numa propriedade 
de 30 acres. Gunther era vivo e vivia sozinho, excepto pelos 
criados. Levou Tracy para uma excurso pela propriedade. Havia 
um estbulo com meia dzia de cavalos, uma rea em que ele 
criava galinhas e porcos.
 - Assim, nunca passaremos fome - disse ele, solenemente. - 
Mas vou lhe mostrar agora o meu verdadeiro hobby.
 Ele conduziu Tracy a um galpo cheio de pombos.
- Estes so pombos-correio. - A voz de Gunther transbordava de 
orgulho. - Veja s que belezas! Est vendo aquela cinzenta 
ali?  Margo.
 Ele pegou a pomba, afagou-a.
 - Sabia que voc  uma garota terrvel? Ela implica com os 
outros. Mas  a mais inteligente.
 Hartog alisou as penas por cima da cabea pequena e largou-a 
com todo cuidado. As cores dos pombos eram espectaculares. 
Havia uma ampla variedade de azul-preto, azul-cinza com 
diversos padres, prateado.
 - Mas no h brancos - comentou Tracy.
 - Os pombos-correio nunca so brancos - explicou Gunther. - 
As penas brancas se soltam facilmente, e quando os pombos 
voltam para casa voam a uma velocidade mdia de 65 quilmetros 
horrios.
 Tracy observou enquanto Gunther alimentava as aves com uma 
rao especial de corrida, contendo vitaminas extras.
 - Os pombos-correio constituem uma espcie espantosa - disse 
Gunther. - Sabia que so capazes de encontrar seu pombal a uma 
distncia superior a 800 quilmetros?
- Isso  fascinante...
 Os outros convidados eram igualmente fascinantes. Havia um 
ministro de Estado, com sua esposa; um conde; um general e sua 
amante; a Maharani de Morvi, uma jovem muito atraente e 
simptica.
 - Por favor, chame-me de V. J. - disse ela, numa voz quase 
sem sotaque.
 Ela usava um sari vermelho, com fios de ouro, as jias mais 
lindas que Tracy j vira.
 - Guardo a maioria das minhas jias num cofre-forte - 
explicou V. J. - H tantos roubos actualmente...


Na tarde de domingo, pouco antes do momento em que Tracy 
deveria voltar a Londres, Gunther convidou-a para seu estdio. 
Sentaram-se com uma bandeja de ch entre os dois. Enquanto 
servia o ch nas delicadas xcaras Belleek, Tracy disse:
 - No sei por que me convidou para vir aqui, Gunther, mas 
qualquer que seja o motivo tive um fim de semana maravilhoso.
 - Fico satisfeito por isso, Tracy. - Depois de um momento, 
ele acrescentou: - Estive observando-a.
 - Entendo...
 - Tem planos para o futuro?
 Ela hesitou.
 - No. Ainda no decidi o que vou fazer.
 - Creio que poderamos trabalhar muito bem juntos.
 - Na loja de antiguidades?
 Gunther riu.
 - No, minha cara. Seria uma pena desperdiar os seus 
talentos. Sei de sua aventura com Conrad Morgan. E devo dizer 
que controlou tudo de maneira brilhante.
 - Gunther... tudo isso pertence ao passado.
 - Mas o que tem pela frente? Disse que no fez planos. Deve 
pensar em seu futuro. No importa quanto dinheiro possua 
agora, certamente acabar um dia. Estou sugerindo uma 
sociedade, Eu frequento crculos influentes, internacionais. 
Compareo a bailes de caridade, caadas e passeios de iate. 
Conheo as idas e vindas dos ricos.
 - Ainda no entendi o que isso tem a ver comigo...
 - Posso introduzi-la nesse crculo dourado. E dourado, Tracy, 
no caso,  mesmo por causa do ouro. Posso fornecer informaes 
sobre jias fabulosas e quadros extraordinrios, como 
consegui-los com absoluta segurana. Posso vend-los 
particularmente. Voc estaria equilibrando um pouco a situao 
de pessoas que enriqueceram demais  custa de outras. Tudo 
seria dividido igualmente entre ns. O que me diz?
 - Digo que no.
 Ele estudou-a com um ar pensativo.
 - Entendo. Poderia me procurar, se por acaso mudar de idia?
 - No mudarei de idia, Gunther.
 Tracy retornou a Londres ao final daquela tarde.

Tracy adorou Londres. Jantou em Le Gavroche, Bill Bentley's e 
Coin du Feu, foi ao Drones depois do teatro para comer 
autnticos hambrgueres americanos e chili apimentado. Foi ao 
National Theatre e Royal Opera House, compareceu a leiles no 
Christie's e Sotheby's. Fez compras na Harrods, Fonnum e 
Mason's, folheou livros na Hatchards e Foyles. Alugou um carro 
com motorista e passou um fim de semana memorvel no Chewton 
Glen Hotel, em Hampshire,  beira da New Forest, onde o 
cenrio era espectacular e o servio impecvel.
 Mas todas essas coisas eram caras. No importa quanto 
dinheiro possua agora, certamente acabar um dia. Gunther 
Hartog estava certo. Seu dinheiro no duraria para sempre e 
Tracy compreendeu que precisaria fazer planos para o futuro.

Ela foi convidada para outros fins de semana na casa de campo 
de Gunther, apreciando intensamente cada visita e a companhia 
dele. 
 Um domingo, ao jantar, um membro do Parlamento virou-se para 
Tracy e disse:
 - Nunca conheci um verdadeiro texano, Senhorita Whitney. Como 
eles so?

 Tracy se lanou a uma imitao maliciosa de uma matrona 
nova-rica do Texas, arrancando risos efusivos de todos. Mais 
tarde, quando ficou a ss com ela, Gunther indagou:
 - No gostaria de ganhar uma pequena fortuna fazendo essa 
imitao?
 - No sou uma actriz, Gunther.
 - Est se subestimando. H uma joalheria em Londres... Parker 
& Parker.., que sentem a maior delcia... como dizem os 
americanos... em explorar seus clientes. Voc me deu uma idia 
sobre a maneira de faz-los pagar por sua desonestidade.
 Ele exps a idia a Tracy, que respondeu no final:
 - No.
 Quanto mais pensou a respeito, no entanto, mais se sentiu 
atrada. Lembrou-se da emoo de ser mais esperta do que a 
polcia em Long Island, de Boris Melnikov, Pietr Negulesco e 
Jeff Stevens. Fora uma emoo indescritvel. Mesmo assim, isso 
era parte do passado.
 - No, Gunther - insistiu ela.
 Mas desta vez no havia tanta certeza em sua voz.

Londres estava excepcionalmente quente para outubro e ingleses 
e turistas aproveitavam igualmente o sol forte. O trfego de 
meio-dia era intenso, com paralisaes em Trafalgar Square, 
Charing Cross e Piccadilly Circus. Um Daimler branco saiu da 
Oxford Street e entrou na New Bond Street, avanando pelo 
trfego, passando por Roland Cartier, Geigers e Royal Bank of 
Scotland. Poucas portas alm da Hermes o Daimler parou diante 
de uma joalheria. Uma discreta placa polida no lado da porta 
anunciava: PARKER & PARKER. Um motorista de libr saltou da 
limusine e deu a volta apressadamente para abrir a porta da 
passageira. Uma jovem loura, com um excesso de maquilhagem e 
um vestido italiano de tric muito justo, sob o casaco de 
zibelina, totalmente imprprio para o tempo, saltou do carro.
 - Onde fica a espelunca, jnior? - perguntou ela, em voz 
muito alta, com um desagradvel sotaque texano.
 O motorista indicou a entrada.
 - Ali, madame.
 - OK, meu bem. Fique esperando. A coisa no vai demorar 
muito.
 - Talvez eu tenha de dar uma volta pelo quarteiro, madame. 
No me permitiro ficar estacionado aqui.
 A mulher deu-lhe um tapinha nas costas.
 - Faa o que tiver de fazer, cara.
Cara! O motorista estremeceu. Era sua punio por estar 
reduzido a guiar carros de aluguel. Ele detestava todos os 
americanos, particularmente os texanos. Eram selvagens... mas 
selvagens com dinheiro. Ele ficaria espantado se soubesse que 
sua passageira nunca estivera no Texas, o Estado da Estrela 
Solitria.
 Tracy verificou seu reflexo na vitrine, armou um sorriso e 
avanou para a porta, que foi aberta por um empregado 
uniformizado.
 - Boa tarde, madame.
 - Boa tarde, cara. Vende alguma coisa nesta espelunca alm de 
jias de fantasia?
Ela riu de sua piada. O porteiro empalideceu. Tracy entrou 
pela loja, deixando em sua esteira uma fragncia irresistvel 
de ChIo. Arthur Chilton, um vendedor de fraque, adiantou-se.

 - Posso ajud-la, madame?
 - Talvez sim, talvez no. O velho P. J. disse para eu comprar 
um presentinho de aniversrio para mim mesma. E aqui estou. O 
que tem para me mostrar?
 - Madame est interessada em alguma coisa em particular?
- Ei, parceiro, vocs ingleses no perdem tempo, hem? - Ela 
riu escandalosamente e bateu em seu ombro. Chilton precisou de 
fazer um grande esforo para permanecer impassvel. - Talvez 
alguma coisa de esmeraldas. O velho P. J. adora quando eu 
compro esmeraldas.
 - Se quiser me acompanhar, por favor...
 Chilton conduziu-a a um mostrurio em que havia diversas 
bandejas com esmeraldas. A loura oxigenada lanou um olhar 
desdenhoso para as pedras.
- Estas so as bebs. Onde esto os papais e mames?
Chilton, disse, tensamente:
 - Estas peas tm um preo que vo at trinta mil dlares.
- Ora, isso eu dou de gorjeta ao meu cabeleireiro. - A mulher 
soltou uma risada. - O velho P. J. ficaria insultado se eu 
voltasse com uma dessas pedrinhas.
 Chilton visualizou o velho P. J. Gordo e barrigudo, to 
escandaloso e repulsivo quanto aquela mulher. Eles bem que se 
mereciam. Por que o dinheiro sempre corre para quem no o 
merece?
- Em que nvel de preo madame est interessada?
 - Por que no comeamos logo por alguma coisa em torno dos 
cem bagarotes?
 Ele permaneceu impassvel.
 - Cem bagarotes?
 - Ora essa, pensei que todos vocs falassem a lngua do rei. 
Cem mil dlares.
 Chilton engoliu em seco.
 - Nesse caso, talvez seja melhor falar com o nosso 
director-executivo.
 O director-executivo, Gregory Halston, insistia em cuidar 
pessoalmente de todas as vendas grandes. Como os empregados da 
Parker & Parker no recebiam comisso, no fazia a menor 
diferena para eles. Com uma cliente to desagradvel quanto 
aquela, Chilton sentia-se aliviado em pass-la para Halston. 
Ele apertou um boto por baixo do balco e um momento depois 
um homem plido e magro saiu de uma sala nos fundos. Olhou 
para a loura vestida to afrontosamente e rezou para que 
nenhum de seus clientes regulares aparecesse at que a mulher 
fosse embora. Chilton disse:
- Sr. Halston, esta  a Sra.... ahn...
 Ele virou-se para a mulher.
 - Benecke, meu bem. Mary Lou Benecke. A esposa do velho P. J. 
Benecke. Aposto que todos j ouviram falar de P. J. Benecke.
 - Claro.
Gregory Halston concedeu  mulher um sorriso que mal tocava 
seus lbios.
 - A Sra. Benecke est interessada em comprar uma esmeralda, 
Sr. Halston.
 Gregory Halston indicou as bandejas de esmeraldas.
- Temos aqui algumas esmeraldas excelentes que...
- Ela queria alguma coisa em torno aproximadamente de cem mil 
dlares.

 Desta vez o sorriso que iluminou o rosto de Gregory Halston 
era genuno. Uma ptima maneira de comear o dia.
 -  o meu aniversrio e o velho P. J. quer que eu compre 
alguma coisa bem bonita.
 - Pois no - disse Halston. - Quer me acompanhar, por favor?
- Ora, seu pequeno patife, o que est pensando em fazer 
comigo?
A loura soltou uma risadinha. Halston e Chilton trocaram um 
olhar angustiado. Malditos americanos!
Halston conduziu a mulher a uma porta trancada, tirou uma 
chave do bolso e abriu-a. Entraram numa sala pequena, 
intensamente iluminada. Halston tornou a trancar a porta, 
cuidadosamente, explicando: 
 -  aqui que guardamos as nossas mercadorias para os clientes 
mais importantes.
 Havia no centro da sala um mostrurio com uma coleco 
espectacular de diamantes, rubis e esmeraldas, faiscando.
 - Assim est melhor. O velho P. J. ficaria doido aqui dentro.
 - Madame v alguma coisa que lhe agrade?
 - Vamos ver o que tem aqui . - Ela foi at a caixa contendo 
as esmeraldas. - Deixe-me dar uma olhada nestas coisas.
 Halston tirou outra chave do bolso, destrancou o mostrurio e 
tirou uma bandeja com esmeraldas, colocando em cima da mesa. 
Havia dez esmeraldas na bandeja de veludo. Halston observava, 
enquanto a mulher pegava a maior, um broche requintado, 
engastado em platina.
 - Como diria o velho P. J., esta aqui tem o meu nome escrito 
nela.
 - Madame tem excelente gosto. Esta  uma colombiana de dez 
quilates, impecvel e...
 - As esmeraldas nunca so impecveis.
 Halston ficou aturdido por um momento.
 - Madame est correcta,  claro. O que eu quis dizer foi... 
 Pela primeira vez, ele notou que os olhos da mulher eram to 
verdes quanto a pedra que ela virava nas mos, estudando as 
suas facetas.
 - Temos uma coleco maior se...
 - No se afobe, queridinho. Ficarei com esta aqui.
 A venda levara menos de trs minutos.
 - Esplndido! - Uma pausa e Halston acrescentou: - Em 
dlares, d cem mil. Como madame vai pagar?
 - No se preocupe, Halston, doura. Tenho uma conta em 
dlares num banco aqui de Londres. Farei um chequinho pessoal. 
P. J. pode me pagar depois.
 - Excelente. Mandarei limpar a pedra e depois entregar em seu 
hotel.
 A pedra no precisava de limpeza, mas Halston no tinha a 
menor inteno de entreg-la antes que o cheque fosse 
devidamente descontado, pois eram muitos os joalheiros que 
haviam sido enganados por vigaristas espertos. Halston 
orgulhava-se de jamais ter sido trapaceado em uma libra 
sequer.
 - Onde devo entregar a esmeralda?
 - Estamos na Sute Oliver Messel, no Dorch.
 Halston escreveu uma anotao.
 - O Dorchester.

 - Eu chamo de Sute Oliver Baguna. - Ela riu. - Uma poro 
de gente no gosta mais do hotel porque vive cheio de rabes. 
Mas o velho P. J. faz uma poro de negcios com eles. "O 
petrleo  o seu prprio pas", como ele sempre diz. P. J. 
Benecke  um cara muito esperto.
- Tenho certeza que sim - respondeu Halston, afavelmente.
 Ele observou-a pegar um cheque e comear a preencher. Notou 
que era do Barclays Bank. ptimo. Tinha um amigo ali que 
poderia verificar a conta dos Beneckes. Halston, pegou o 
cheque.
- Mandarei entregar-lhe a esmeralda pessoalmente amanh de 
manh.
- O velho P. J. vai adorar - comentou a mulher, radiante.
- No tenho a menor dvida - comentou Halston, polidamente.
 Ele acompanhou-a at  porta da loja.
 - Halston...
 Ele quase corrigiu-a, mas depois se decidiu contra. Por que 
se incomodar? Nunca mais tornaria a ver aquela mulher, graas 
a Deus! 
- Pois no, madame?
 - Tem de aparecer para tomar um ch com a gente um dia 
desses. Vai adorar o velho P. J.
 - Tenho certeza que sim, madame. Mas, infelizmente, trabalho 
durante a tarde.
 -  uma pena.
 Ele observou a cliente sair para a calada. Um Daimler branco 
parou um momento depois, um motorista saltou e abriu a porta. 
A loura fez um sinal com o polegar para cima na direco de 
Halston, enquanto o carro se afastava.
 Halston voltou  sua sala, pegou o telefone e ligou para seu 
amigo no Barclays:
 - Peter, meu caro, tenho aqui um cheque de cem mil dlares de 
uma certa Sra. Mary Lou Benecke.  bom?
 - Espere um instante, meu velho.
 Halston esperou. Contava que o cheque fosse bom, pois os 
negcios andavam meio parados ultimamente. Os sovinas irmos 
Parker, que possuam a loja, viviam constantemente reclamando, 
como se fosse ele o responsvel e no a recesso.  claro que 
os lucros no haviam cado tanto quanto poderiam, pois Parker 
& Parker tinha um departamento que se especializava na limpeza 
de jias; a intervalos frequentes, a jia devolvida ao cliente 
era inferior  que fora recebida. J houvera queixas, mas nada 
fora provado. Peter voltou ao telefone:
 - No h problema, Gregory. Tem dinheiro mais do que 
suficiente na conta para cobrir o cheque.
 Halston sentiu um tremor de alvio.
 - Obrigado, Peter.
 - No h de qu.
 - Vamos almoar juntos na prxima semana... por minha conta.

 O cheque foi compensado sem problemas na manh seguinte, e a 
esmeralda colombiana foi entregue por um mensageiro de 
confiana  Sra. P. J. Benecke, no Dorchester Hotel. 
 Naquela tarde, pouco antes da hora de fechar, a secretria de 
Gregory Halston informou-o:
 - Uma certa Sra. Benecke est aqui e deseja lhe falar, Sr. 
Halston.
 Ele sentiu um aperto no corao. Ela viera devolver o broche 
e ele no podia se recusar a aceit-la. Malditas sejam as 
mulheres, todos os americanos e todos os texanos! Halston 
afixou um sorriso e saiu para cumpriment-la.

 - Boa tarde, Sra. Benecke. Presumo que seu marido no gostou 
do broche.
Ela sorriu.
- Pois presumiu errado, meu chapa. O velho P. J. ficou 
louquinho pela pedra.
O corao de Halston se encheu de alegria.
-  mesmo?
- Para dizer a verdade, ele gostou tanto que quer que eu 
arrume outra esmeralda igual, para fazer um par de brincos. 
Arrume uma pedra gmea da que me vendeu.
 Um pequeno franzido apareceu no rosto de Gregory Halston.
- Infelizmente, Sra. Benecke, talvez haja um pequeno problema.
 - Que tipo de problema, doura?
 - A sua pedra  nica. No h outra Igual. Mas tenho um jogo 
maravilhoso, num estilo diferente, que poderia...
 - No quero um estilo diferente. Quero uma pedra igualzinha  
que comprei.
- Para ser absolutamente franco, Sra. Benecke, no h muitas 
pedras colombianas de dez quilates impecveis.. . - Ele 
percebeu a expresso no rosto da mulher. - ... quase 
impecveis disponveis.
- Ora, cara, deixe disso. Tem de haver outra pedra em algum 
lugar.
- Com toda honestidade, s encontrei bem poucas pedras dessa 
qualidade e tentar duplic-la exactamente, no formato e na 
cor, seria quase impossvel.
- Temos um ditado no Texas de que o impossvel s demora um 
pouco mais. Sbado  meu aniversrio e P. J. me quer ver com 
os brincos. E o que P. J. quer, P. J. consegue.
- Creio que no  possvel...
- Quanto paguei pelo broche... cem mil? Sei que o velho P. J. 
est disposto a pagar duzentos mil ou at trezentos mil pela 
outra pedra.
Gregory Halston pensava depressa. Tinha de haver uma 
duplicao daquela pedra em algum lugar. Se P. J. Benecke 
estava disposto a pagar 200 mil dlares extras, isso 
representaria um lucro aprecivel. Na verdade, pensou Halston, 
posso dar um jeito para que represente um lucro aprecivel 
para mim. Em voz alta, ele disse:
 - Farei algumas indagaes, Sra. Benecke. Tenho certeza de 
que nenhum outro joalheiro de Londres possui uma esmeralda 
idntica, mas sempre h coleces sendo leiloadas. Veremos se 
obtemos resultados.
- Tem at o fim da semana para conseguir - advertiu a loura. - 
E aqui entre ns e o lampio, o velho P. J. provavelmente 
estar disposto a pagar at trezentos e cinquenta mil.
 E a Sra. Benecke se foi, o casaco de zibelina esvoaando em 
sua esteira.

Gregory Halston ficou sentado em sua sala, imerso em devaneio. 
O destino jogara em suas mos um homem to apaixonado por sua 
sirigaita loura que se mostrava disposto a pagar 350 mil 
dlares por uma esmeralda que valia cem mil. O que daria um 
lucro liquido de 250 mil dlares. Gregory Halston no via 
necessidade de sobrecarregar os irmos Parker com os detalhes 
da transao. Seria muito simples registrar a venda da segunda 
esmeralda por cem mil dlares e embolsar o resto. Os 250 mil 
dlares extras seriam uma garantia pelo resto de sua vida.

 Tudo o que tinha de fazer agora era descobrir uma esmeralda 
igual  que vendera  Sra. P. J. Benecke.
 S que isso se tornou muito mais difcil do que Halston 
previra. Nenhum dos joalheiros para os quais telefonou tinha 
em estoque uma pedra que sequer parecesse com a que precisava. 
Ele ps anncios no Times de Londres e no Financial Times, 
entrou em contacto com a Christie's e Sotheby's, com uma dzia 
de outros leiloeiros. Nos dias subsequentes ofereceram a 
Halston incontveis esmeraldas inferiores, boas esmeraldas e 
umas poucas esmeraldas de primeira qualidade, mas nenhuma se 
aproximava da que estava procurando. A Sra. Benecke 
telefonou-lhe na quarta-feira e avisou:
- O velho P. J. est ficando impaciente. Ainda no descobriu a 
pedra?
- Ainda no, Sra. Benecke. Mas no se preocupe. Acabaremos 
encontrando.
 Ela tornou a telefonar na sexta-feira:
 - Amanh  o meu aniversrio.
 - Sei disso, Sra. Benecke. Se me desse mais alguns dias, 
tenho certeza que poderia...
 - No se preocupe com isso, doura. Se no tiver a outra 
esmeralda at amanh de manh, devolverei a que comprei. O 
velho P. J. ... abenoado seja o seu corao... diz que vai me 
comprar em vez disso uma velha propriedade rural. J ouviu 
falar de um lugar chamado Sussex?
 Halston comeou a suar.
 - Detestaria viver em Sussex, Sra. Benecke. Detestaria uma 
dessas velhas manses rurais. Quase todas se encontram em 
estado deplorvel. No possuem aquecimento central e...
 Ela interrompeu-o:
 - Aqui entre ns, eu preferia ficar com os brincos. O velho 
P. J. at mencionou alguma coisa sobre pagar quatrocentos mil 
dlares por uma gmea daquela esmeralda. No faz idia de como 
o velho P. J. pode ser teimoso.
Quatrocentos mil dlares! Halston podia sentir o dinheiro 
escapulindo entre seus dedos.
- Pode estar certa de que estou fazendo tudo o que  possvel 
- suplicou ele. - D-me um pouco mais de tempo.
- Isso no compete a mim, doura. O problema  com P. J.
E a linha ficou muda.
Halston continuou sentado, amaldioando o destino. Onde 
poderia encontrar uma esmeralda de dez quilates idntica? Ele 
estava to absorvido em seus pensamentos amargurados que no 
ouviu a campainha do interfone at o terceiro toque. Apertou o 
boto e disse bruscamente:
- O que ?
- H uma certa Condessa Marissa no telefone, Sr. Halston. Quer 
falar sobre o nosso anncio da esmeralda.
Mais uma! Ele j recebera pelo menos dez telefonemas naquela 
manh e todos haviam sido uma perda de tempo. Ele pegou o 
telefone e disse rudemente:
- Pois no?
Uma voz feminina suave disse, com um sotaque italiano:
- Buon giorno, signore. Li que est interessado em comprar uma 
esmeralda. E verdade?
- Se corresponde s minhas exigncias, , sim.
 Ele no podia esconder a impacincia de sua voz.

 - Tenho uma esmeralda que pertence  minha famlia h muitos 
anos.  um peccato... uma pena... mas me encontro agora numa 
situao em que sou obrigada a vend-la.
 Ele j ouvira aquela histria antes. Devo tentar o Christie's 
novamente, pensou Halston. Ou o Sotheby's. Talvez alguma coisa 
tenha aparecido no ltimo momento ou...
 - Signore? Est procurando por uma esmeralda de dez quilates, 
si?
 - Exactamente.
- Tenho uma verde de dez quilates... colombiana.
 Quando comeou a falar, Halston descobriu que sua voz estava 
estrangulada:
 - Pode... pode dizer isso de novo, por favor?
- Si. Tenho uma verde colombiana de dez quilates. Estaria 
interessado?
 - Posso estar - disse Halston, cuidadosamente. - Poderia 
passar por aqui para eu dar uma olhada na pedra?
 - No, scusi, mas infelizmente me encontro muito ocupada 
neste momento. Estamos preparando uma festa na embaixada para 
meu marido. Talvez na prxima semana eu poderia...
No! Na prxima semana seria tarde demais.
- Posso ento ir procur-la? - Halston tentou eliminar a 
ansiedade de sua voz. - Posso ir agora mesmo.
- Ma, no. Sono occupata stamani. Planejei sair para fazer 
algumas compras e...
 - Onde est hospedada, condessa?
 - No Savoy.
 - Posso estar a dentro de quinze minutos. Dez.
 A voz de Halston era quase desesperada
 - Molto bene. E seu nome ...
 - Halston... Gregory Halston.
 - Sute ventisei... vinte e seis.

A corrida de txi foi interminvel. Halston passou das 
culminncias do paraso para as profundezas do inferno e 
tornou a voltar. Se a esmeralda fosse realmente similar  
outra, ele seria rico alm de seus sonhos mais desvairados. 
Ele pagar 400 mil dlares! Um lucro de 300 mil. Compraria uma 
propriedade na Riviera, talvez um iate. Com uma villa e seu 
prprio barco, poderia a tantos rapazes bonitos quanto 
quisesse...
 Gregory Halston era ateu, mas ao seguir pelo corredor do 
Savoy Hotel para a Sute 26 descobriu-se a rezar: Faa com que 
a pedra seja bastante parecida para satisfazer o velho P. J. 
Benecke.
 Ele parou diante da porta da condessa, respirando fundo, 
lutando para se controlar. Bateu na porta. No houve resposta.
Oh, Deus, pensou Halston, ela no esperou por mim. Saiu para 
fazer compras e...
A porta se abriu e Halston descobriu-se na frente de uma 
mulher elegante, na casa dos 50 anos, olhos escuros, um rosto 
vincado, cabelos pretos com muitos fios brancos. Quando ela 
falou, a voz era suave, com o familiar sotaque italiano 
melodioso:
 - Si?
 - Sou Gre-gregory Halston. Re-recebi seu telefonema.
 Em seu nervosismo, ele estava gaguejando.
- Ah, si. Sou a Condessa Marissa. Entre, signore, per favore. 
- Obrigado.

 Halston entrou na Sute, comprimindo os joelhos juntos, para 
impedir que tremessem. Quase que disse impulsivamente: "Onde 
est a esmeralda?" Mas sabia que devia se controlar. No era 
conveniente que parecesse muito ansioso. Se a pedra fosse 
satisfatria, teria a vantagem na negociao. Afinal, ele era 
o perito, enquanto a mulher no passava de uma amadora.
 - Sente-se, por favor - disse a condessa.
 Ele ocupou uma cadeira.
- Scusi. Non parlo molto bene inglese. No falo muito bem o 
ingls.
- No, no.  encantador, encantador...
- Grazie. Aceita um caf? Ch?
- No, obrigado, condessa.
 Halston podia sentir o estmago se contraindo. Seria cedo 
demais para falar da esmeralda? Mas no podia esperar por mais 
um segundo sequer.
- A esmeralda...
- Ah, si... A esmeralda me foi dada por minha av. Eu gostaria 
de d-la  minha filha quando completasse vinte e cinco anos, 
mas meu marido est iniciando um novo negcio em Milo e... 
 A mente de Halston estava em outras coisas. No se 
interessava pela tediosa histria da vida da estranha sentada 
 sua frente. Sentia-se ansioso em ver a esmeralda. O suspense 
era mais do que podia suportar.
 - Credo che sia importante ajudar meu marido a iniciar seu 
novo negcio. - Ela sorriu tristemente. - Talvez eu esteja 
cometendo um erro...
 - No, no - Halston apressou-se em dizer. - Absolutamente, 
condessa. O dever de uma esposa  ficar ao lado de seu marido. 
Onde se encontra a esmeralda?
 - Est aqui.
 Ela meteu a mo no bolso e tirou uma jia, envolta em papel 
de seda, estendendo para Halston. Ele contemplou-a e seu 
corao se reanimou. Olhava agora para a mais perfeita 
esmeralda colombiana de dez quilates que j vira. Era to 
prxima, na aparncia, tamanho e cor, da que vendera  Sra. 
Benecke que era quase impossvel distinguir uma da outra. No 
 exactamente a mesma coisa, disse Halston a si mesmo, mas 
somente um perito poderia reconhecer a diferena.
 Ele virou a pedra, deixando a luz incidir sobre as facetas, 
depois disse em tom de quase desinteresse:
 -  uma pedra bastante bonita.
 - Spiendente, si. Eu a tenho amado muito por todos estes 
anos. Detestarei me separar dela.
 - Est fazendo a coisa certa - assegurou-lhe Halston. - Assim 
que o empreendimento de seu marido comear a dar bons 
resultados, poder comprar tantas pedras assim quantas 
desejar.
 A condessa suspirou.
-  exactamente o que eu penso. Voc  molto simptico.
- Estou prestando um pequeno servio a um amigo, contessa.
Temos pedras muito melhores do que esta em nossa loja, mas meu 
amigo quer uma que combine exactamente com a esmeralda que 
comprou para a esposa. Calculo que ele estaria disposto a 
pagar at sessenta mil dlares por esta pedra. 
- Minha av me amaldioaria da sepultura se eu vendesse sua 
esmeralda por sessenta mil dlares.

Halston contraiu os lbios. Tinha margem para subir o preo. 
Ele sorriu.
- Vamos fazer uma coisa... acho que posso persuadir meu amigo 
a subir at cem mil dlares.  muito dinheiro, mas ele est 
ansioso em obter a pedra.
- Parece um bom preo.
O corao de Gregory Halston inflou dentro do peito.
- Bem! Eu trouxe o talo de cheques. Assim, farei um cheque 
agora mesmo...
 - Ma, no... Infelizmente, isso no resolver o problema.
 A voz da condessa era triste. Halston ficou aturdido.
 - O problema?
 - Si. Como expliquei, meu marido vai se lanar em um novo 
negcio e precisa de trezentos e cinquenta mil dlares. Eu 
tenho cem mil dlares do meu dinheiro para lhe dar, mas 
preciso de mais duzentos e cinquenta mil. Esperava 
conseguirxxxxx isso com a esmeralda.
 Ele sacudiu a cabea.
 - Minha cara condessa, nenhuma esmeralda no mundo vale tanto 
dinheiro. Acredite em mim, cem mil dlares  mais do que uma 
oferta justa.
 - Tenho certeza disso, Sr. Halston. Mas no poderei ajudar 
meu marido, no  mesmo? - A condessa levantou-se . - 
Guardarei a esmeralda para a nossa filha.
 Ela estendeu a mo esguia e delicada.
- Grazie, signore. Obrigada por ter vindo.
 Halston entrou em pnico.
 - Espere um momento. - Sua ganncia duelava com o bom senso, 
mas ele sabia que no devia perder aquela esmeralda agora. - 
Sente-se, por favor, condessa. Tenho certeza de que podemos 
chegar a um acordo justo . Se eu puder persuadir meu cliente a 
pagar cento e cinquenta mil...
 - Eu s venderia por duzentos e cinquenta mil...
 - Que tal duzentos mil?
 - S duzentos e cinquenta mil dlares.
 No havia como demov-la. Halston tomou sua deciso. Um lucro 
de 150 mil dlares era melhor do que nada. Significaria uma 
villa e um barco menores, mas ainda era uma fortuna. E seria 
bem feito para os irmos Parker pela maneira mesquinha como o 
haviam tratado. Esperaria um dia ou dois e depois lhes daria o 
aviso prvio. E na prxima semana estaria na Cte d'Azur.
 - Negcio fechado - disse ele finalmente.
 - Meraviglioso! Sono contenta!
Deve mesmo estar contente, sua cadela, pensou Halston. Mas ele 
nada tinha do que se queixar. Estava com a vida feita. Lanou 
um ltimo olhar para a esmeralda e depois guardou-a no bolso.
 - Eu lhe darei um cheque da conta da loja.
 - Bene, signore...
 Halston, preencheu o cheque e entregou-o. Faria a Sra. P. J. 
Benecke pagar 400 mil dlares pela esmeralda. Peter 
descontaria o cheque para ele, cobriria o cheque dos irmos 
Parker que dera  condessa e embolsaria a diferena. 
Combinaria com Peter para que o cheque de 250 mil dlares no 
constasse do extracto mensal dos irmos Parker. Eram 150 mil 
dlares!
 Ele j podia sentir o quente sol francs em seu rosto.


A viagem de txi de volta  loja pareceu demorar apenas uns 
poucos segundos. Halston imaginou a felicidade da Sra. Benecke 
quando lhe transmitisse a boa notcia. No apenas encontrara a 
jia que ela queria, mas tambm lhe poupara a experincia 
dolorosa de viver numa casa de campo desmantelada e cheia de 
correntes de ar. Assim que Halston entrou na loja, Chilton 
aproximou-se e disse:
- Senhor, um cliente aqui est interessado em...
Halston dispensou-o com um aceno jovial.
- Mais tarde.
 Ele no tinha tempo para os clientes agora. Nem agora nem 
nunca mais. Dali por diante, as pessoas teriam de servir a 
ele. Faria compras na Hermes, Gueci e Lanvin.
 Halston foi para a sua sala, fechou a porta, ps a esmeralda 
em cima da mesa e discou um nmero. A telefonista atendeu:
- Dorchester Hotel.
 - Sute Oliver Messel, por favor.
 - Com quem deseja falar?
 - Sra P. J. Benecke.
- Um momento, por favor.
Halston ficou assobiando baixinho enquanto esperava. A 
telefonista voltou  linha:
- Lamento, mas a Sra. Benecke j deixou a sute.
- Pois ento ligue-me para a Sute em que ela est agora.
- A Sra. Benecke deixou o hotel.
- Mas isso  impossvel. Ela...
- Vou lig-lo com a recepo.
Uma voz de homem disse:
- Recepo. Em que posso servi-lo?
- Qual  a sute em que est a Sra. Benecke?
- A Sra. Benecke deixou o hotel esta manh.
Tinha de haver alguma explicao. Alguma emergncia 
inesperada.
- Pode me informar o endereo que ela deixou, por favor? Aqui 
...
- Lamento, mas ela no deixou qualquer endereo.
- Mas  claro que ela deixou!
- Fiz pessoalmente o registro de sada da Sra. Benecke. Ela 
no deixou qualquer endereo.
Foi um murro na boca do estmago. Lentamente, Halston reps o 
telefone no gancho e ficou imvel na cadeira, atordoado. Tinha 
de encontrar um meio de entrar em contacto com a mulher, 
inform-la que conseguira finalmente localizar a esmeralda. 
Enquanto isso, tinha de recuperar o cheque de 250 mil dlares 
que entregara  Condessa Marissa. Ele discou prontamente para 
o Savoy Hotel.
- Sute 26.
- Com quem deseja falar, por favor?
- Condessa Marissa.
- Um momento, por favor.
Mas, antes mesmo que a telefonista voltasse  linha, alguma 
terrvel premonio revelou a Gregory Halston, a notcia 
desastrosa que estava prestes a ouvir.
- Lamento muito, mas a Condessa Marissa. j saiu do hotel.
Ele desligou. Os dedos tremiam tanto que mal conseguiu discar 
o nmero do banco.
- D-me o chefe dos caixas... depressa! Eu gostaria de 
suspender o pagamento de um cheque.

Mas  claro que ele estava atrasado demais. Vendera uma 
esmeralda por cem mil dlares e comprara de volta a mesma 
esmeralda por 250 mil dlares. Gregory Halston continuou 
sentado, arriado na cadeira, imaginando como iria explicar aos 
irmos Parker.
 
22

Foi o incio de uma vida nova para Tracy. Ela comprou uma 
linda casa georgiana, na Eaton Square, 45, esplndida e 
alegre, perfeita para receber. Tinha um Queen Anne - o jargo 
britnico para designar um jardim na frente - e um Mary Anne - 
um jardim nos fundos - magnficos quando chegava a primavera. 
Gunther ajudou Tracy a decorar a casa e antes que os dois 
acabassem j era um dos lugares de destaque de Londres.
Gunther apresentava Tracy como uma jovem viva rica, cujo 
marido ganhara sua fortuna em operaes de importao e 
exportao. Ela foi um sucesso instantneo: bonita, 
inteligente e charmosa, logo se viu inundada de convites.
 A intervalos, Tracy realizava pequenas viagens  Sua, 
Blgica, Itlia e Frana, a cada vez obtendo novos lucros para 
ela e Gunther Hartog.
 Sob a orientao de Gunther, Tracy estudou o Almanach de 
Gotha e o Debrett's Peerage and Baronetage, os livros mais 
autorizados com informaes detalhadas sobre a realeza e 
ttulos da Europa. Tracy tornou-se como um camaleo, uma 
perita em maquilhagem, disfarces e sotaques. Adquiriu meia 
dzia de passaportes. Em vrios pases, era uma duquesa 
britnica, uma aeromoa francesa e uma herdeira sul-americana. 
Em um ano, acumulara mais dinheiro do que jamais precisaria. 
Instituiu um fundo, que fazia contribuies vultosas e 
annimas a organizaes empenhadas em ajudar as mulheres que 
haviam passado pela priso. Providenciou uma penso generosa a 
ser enviada todos os meses a Otto Schmidt. No mais sequer
acalentava o pensamento de deixar aquela vida. Adorava o 
desafio de sobrepujar pessoas espertas e bem-sucedidas. A 
emoo de cada aventura ousada agia como um txico. Tracy 
descobriu que constantemente precisava de novos e maiores 
desafios. Havia um credo pelo qual vivia: sempre tomava o 
cuidado de no prejudicar os inocentes. As pessoas que caam 
em seus golpes eram gananciosas ou imorais, se no as duas 
coisas. Ningum jamais cometer suicdio por causa de um ato 
meu, prometeu Tracy a si mesma.
 Os jornais comearam a publicar notcias sobre os golpes 
audaciosos que ocorriam por toda a Europa. Como Tracy usava 
disfarces diferentes, a polcia ficara convencido de que uma 
erupo de golpes e assaltos engenhosos estava sendo promovida 
por uma quadrilha de mulheres. A Interpol comeou a se 
interessar.

Em Manhattan, na sede da Associao Internacional de Proteco 
do Seguro, J. J. Reynolds mandou chamar Daniel Cooper. 
 - Temos um problema - disse Reynolds. - Muitos dos nossos 
clientes europeus esto sendo gravemente atingidos... 
aparentemente por uma quadrilha de mulheres. Todos esto 
furiosos. Querem que a quadrilha seja desbaratada. A Interpol 
j concordou em cooperar connosco. A misso  sua, Dan. Voc 
parte rumo a Paris pela manh.
Tracy estava jantando com Gunther no Scott's, na Mount Street.
- J ouviu falar de Maximilian Pierpont, Tracy?
O nome parecia familiar. Onde ela o ouvira antes? Lembrou de 
repente. Jeff Stevens, a bordo do Queen Elizabeth II, dissera: 
"Estamos aqui pelo mesmo motivo. Maximilian Pierpont."
 Ela disse:

 - Ele  muito rico, no  mesmo?
 - E absolutamente implacvel. Especializa-se em comprar 
companhias e saque-las.
Quando Joe Romano assumiu a companhia, despediu todo mundo e 
trouxe o seu prprio pessoal. E comearam a saquear a 
companhia. Tiraram tudo - a companhia, esta casa, o carro de 
sua me...
Gunther observava com estranheza:
- Voc est bem, Tracy?
- Estou, sim. - A vida pode s vezes ser injusta e compete a 
ns endireitar as coisas - pensou ela. - Fale-me mais a 
respeito de Maximilian Pierpont.
 - A terceira esposa divorciou-se e ele est sozinho agora. 
Acho que poderia ser proveitoso se voc o conhecesse. Ele tem 
uma reserva no Expresso do Oriente de sexta-feira, partindo de 
Londres para Istambul.
 Tracy sorriu.
 - Nunca viajei no Expresso do Oriente. Acho que vou gostar.
 Gunther sorriu tambm.
 - ptimo. Maximilian Pierpont possui a nica coleco de ovos 
Faberg importante fora do Museu Hermitage, de Leningrado. Um 
clculo moderado lhe atribui o valor de vinte milhes de 
dlares.
 - Se eu conseguisse lhe arrumar alguns desses ovos, Gunther, 
o que faria com eles? - indagou Tracy, curiosa. - No so 
conhecidos demais para vend-los?
 - Coleccionadores particulares, minha cara Tracy. Traga os 
ovinhos para mim e conseguirei encontrar-lhes um ninho. 
- Verei o que posso fazer.
 - Maximilian Pierpont no  um homem fcil de abordar. 
Contudo, h dois outros alvos que tambm viajaro no Expresso 
do Oriente, a caminho do festival de cinema em Veneza. Creio 
que esto maduros para serem depenados. J ouviu falar de 
Silvana Luadi?
- A actriz de cinema italiana? Claro.
- Ela  casada com Alberto Fornati, que produz aqueles 
horrveis filmes picos. Fornati  infame por contratar 
actores e directores por pouco dinheiro, mas prometendo 
participao nos lucros. Contudo ele sempre d um jeito de 
aambarcar todos os lucros. E ganha o suficiente para comprar 
as jias mais caras para a esposa. Quanto mais lhe  infiel, 
mais jias para ela Fornati compra. A esta altura, Silvana j 
deve estar em condies de abrir uma joalheria. Tenho certeza 
de que os achar uma companhia muito interessante.
 - Estou ansiosa em conhec-los.

O Expresso do Oriente Veneza Simplon parte da Victoria 
Station, em Londres, toda manh de sexta-feira, s 11 e 44, 
seguindo de Londres para Istambul, com escalas em Boulogne, 
Paris, Lausanne, Milo e Veneza. Meia hora antes da partida, 
uma roleta porttil  armada  entrada da plataforma de 
embarque no terminal, dois corpulentos homens uniformizados 
estendem um tapete vermelho, empurrando para o lado os outros 
passageiros  espera.

 Os novos proprietrios do Expresso do Oriente tentaram 
reconstituir a poca urea da viagem ferroviria, conforme 
ocorria ao final do sculo XIX. O trem era uma rplica do 
original, com um vago Puliman britnico, vages-restaurantes, 
um bar e os vages-dormitrios.
 Um atendente com um uniforme azul-marinho da dcada de 20, 
com alamares dourados, levou as duas malas de Tracy e a sua 
frasqueira para a cabina, que era desapontadoramente pequena. 
Havia uma nica poltrona, estofada em mohair, num padro 
florido. O tapete, assim como a escada para se subir ao 
beliche, era coberto por pelcia verde. Era como estar numa 
caixa de bombons.
Tracy leu o carto que acompanhava a garrafa de champanha num 
balde de prata: OLIVER AUBERT, GERENTE DO TREM.
Guardarei o champanha at ter alguma coisa para comemorar, 
decidiu Tracy. Maximilian Pierpont. Jeff Stevens fracassara. 
Seria maravilhoso superar o Sr. Stevens. Tracy sorriu ao 
pensar nisso.
 Ela desfez as malas no espao apertado, pendurou as roupas 
que precisaria. Preferia um jacto da Pan American ao trem, mas 
aquela viagem prometia ser das mais emocionantes. 
Pontualmente no horrio, o Expresso do Oriente comeou a 
deixar a estao. Tracy sentou-se e ficou observando a 
passagem dos subrbios meridionais de Londres.
 A 1 e 15 da tarde o trem chegou ao porto de Folkestone, onde 
os passageiros foram transferidos para a barca Sealink, que os 
levaria atravs do Canal da Mancha at Boulogne, onde 
embarcariam em outro Expresso do Oriente, seguindo para o sul. 
Tracy aproximou-se de um dos camareiros:
 - Soube que Maximilian Pierpont est viajando connosco. 
Poderia apont-lo para mim?
O camareiro sacudiu a cabea.
 - Eu bem que gostaria, madame. Ele reservou uma cabina e 
pagou, mas nunca apareceu. Pelo que me disseram, trata-se de 
um cavalheiro bastante imprevisvel.
 Assim, restavam Silvana Luadi e seu marido, o produtor de 
esquecveis.
Em Boulogne, os passageiros foram conduzidos ao Expresso do 
Oriente continental. Infelizmente, a cabina de Tracy no 
segundo trem era idntica  outra que acabara de deixar, o 
leito irregular da estrada tornando a viagem ainda mais 
desconfortvel. Ela permaneceu na cabina durante o dia 
inteiro, fazendo planos. s oito horas da noite comeou a se 
vestir.
 A etiqueta do Expresso do Oriente recomendava traje a rigor. 
Tracy escolheu um deslumbrante vestido cinza-claro de chiffon, 
com sapatos de cetim da mesma cor. A nica jia era uma 
magnfica fieira de prolas iguais. Ela parou diante do 
espelho antes de deixar a cabina, contemplando a sua imagem 
por um longo tempo. Os olhos verdes tinham uma expresso de 
inocncia, o rosto parecia ingnuo e vulnervel. O espelho 
est mentindo, pensou Tracy. No sou mais essa mulher. Vivo 
uma fantasia. S que das mais emocionantes.
No instante em que Tracy deixou a cabina, a bolsa escorregou 
de sua mo. Ela ajoelhou-se para recuper-la e aproveitou para 
examinar rapidamente as fechaduras pelo lado de fora da porta. 
Havia duas, uma vale e uma Universal. No sero problemas. 
Tracy levantou-se e seguiu para os vages-restaurantes.

 Havia trs. Os assentos eram forrados de pelcia, as paredes 
envernizadas, luzes suaves brilhando em candelabros de lato, 
com anteparos Lalique. Tracy entrou no primeiro restaurante e 
notou que, havia diversas mesas vazias. O garon 
cumprimentou-a.
- Uma mesa s para uma pessoa, mademoiselle?
Tracy olhou ao redor.
- Vou me encontrar com alguns amigos. Mas obrigada.
Ela continuou para o vago-restaurante seguinte. Este estava 
mais cheio, mas ainda havia diversas mesas vazias.
 - Boa noite - disse o garon. - Vai jantar sozinha?
 - No. Vou encontrar com algum. Obrigada.
 Tracy deslocou-se para o terceiro vago-restaurante. Ali, 
todas as mesas se achavam ocupadas. O garon deteve-a na 
porta.
 - Infelizmente, ter de esperar por uma mesa, madame. Mas h 
algumas disponveis nos outros carros.
 Tracy correu os olhos pelo vago e avistou o que procurava 
numa mesa no outro canto.
 - No se preocupe - disse ela. - Estou vendo alguns amigos.
 Ela passou pelo garon e se encaminhou para o objectivo.
 - Com licena. Todas as mesas esto ocupadas. Importam-se que 
eu me sente aqui?
 O homem levantou-se no mesmo instante, lanou um olhar 
apreciativo para Tracy e exclamou:
 - Prego! Com piacere! Sou Alberto Fornati e esta  minha 
esposa, Silvana Luadi.
- Tracy Whitney.
 Ela estava usando o seu prprio passaporte.
 - Ol,  americana! Falo um excelente ingls.
 Alberto Fornati era baixo, calvo e gordo. Por que motivo 
Silvana Luadi casara com ele era um tema de animadas conversas 
em Roma durante os 12 anos em que viviam juntos. Silvana Luadi 
era uma beleza clssica, com um corpo sensacional e um talento 
natural e irresistvel. Ganhara um Oscar e uma Palma de Prata, 
constantemente era solicitada para novos filmes. Tracy 
reconheceu que ela vestia um Valentino, que valia pelo menos 
cinco mil dlares. As jias que ostentava deviam valer quase 
um milho. Tracy lembrou-se das palavras de Gunther Hartog: 
Quanto mais lhe  infiel, mais Fornati compra jias para ela. 
A esta altura, Silvana j deve estar em condies de abrir uma 
joalharia.
- Esta  a sua primeira viagem no Expresso do Oriente, 
signorina? - perguntou Fornati, puxando conversa, depois que, 
Tracy sentou.
- , sim.
- Trata-se de um trem muito romntico, cheio de histrias. - 
Os olhos de Fornati estavam midos. - E histrias muito 
interessantes. Sir Basil Zaharoff, o magnata das armas, por 
exemplo, costumava viajar no velho Expresso do Oriente... 
sempre na stima cabina. Uma noite ouviu um grito e uma batida 
em sua porta. E uma linda duquesa espanhola jogou-se em cima 
dele.
 Ele fez uma pausa, passando manteiga num pozinho e comendo.
 - O marido estava tentando assassin-la. O casamento fora 
promovido pelos pais e s ento a pobre moa descobria que o 
marido era insano. Zaharoff conteve o marido, acalmou a jovem 
histrica. Assim comeou um romance que durou quarenta anos.
- Emocionante! - murmurou Tracy, os olhos arregalados de 
interesse.

- Sim. Depois disso, eles se encontravam no Expresso do 
Oriente, Zaharoff na cabina sete, ela na oito. Quando o marido 
morreu, a duquesa casou com Zaharoff. Como smbolo de seu amor 
e um presente de casamento, Zaharoff comprou para ela o casino 
de Monte Carlo.
- Uma linda histria, Sr. Fornati.
Silvana Luadi se mantinha num silncio impassvel. 
- Mangia - recomendou Fornati a Tracy. - Coma. 
O cardpio consistia de seis pratos. Tracy notou que Alberto 
Fornati comia cada um e ainda terminava o que a esposa deixava 
no prato. Entre os bocados, ele falava sem parar.
 - Por acaso  actriz? - ele perguntou a Tracy.
 Ela riu.
 - Oh, no! Sou apenas uma turista.
 Ele contemplou-a com uma expresso radiante.
 - Pois  bastante bonita para ser uma actriz.
 - Ela j disse que no  uma actriz - interveio Silvana, 
bruscamente.
 Alberto Fornati ignorou-a e disse a Tracy:
 - Sou produtor de filmes. E tenho certeza que os conhece. Os 
Selvagens, Os Tits Contra a Supermulher...
 - Quase no vou ao cinema - desculpou-se Tracy, sentindo a 
perna gorda de Fornati a comprimir-se contra a sua.
 - Talvez eu possa dar um jeito para lhe mostrar alguns dos 
meus filmes.
 Silvana ficou plida de raiva.
- J esteve alguma vez em Roma, minha cara? - indagou
Fornati, subindo e descendo a perna pela de Tracy.
 - Para dizer a verdade, eu planeava ir a Roma depois de 
Veneza.
 - Esplndido! Benissimo! Vamos nos encontrar todos para 
jantar. No  mesmo, cara mia? - Ele lanou um olhar rpido 
para Silvana, antes de continuar: - Temos uma residncia 
espectacular na Via Apia. Dez acres de...
- Ele fez um gesto amplo com a mo, derrubando uma tigela de 
molho no colo da esposa. Tracy no pde determinar se fora ou 
no um acidente. Silvana Luadi levantou-se, olhando para a 
mancha a se espalhar em seu vestido.
- Sei un mascalzone! - gritou ela. - Tieni le tue puttane 
lontano da me!
 Ela saiu furiosa do vago-restaurante, acompanhada por todos 
os olhos.
 - Mas que pena! - murmurou Tracy. -  um vestido to 
bonito...
 Ela tinha vontade de esbofetear o homem por aviltar a esposa 
daquela maneira. Ela merece cada quilate de jia que ganha, 
pensou Tracy. E muito mais. Fornati suspirou.
- Fornati comprar outro vestido para ela. E no d 
importncia a suas maneiras. Ela tem muito cime de Fornati.
 - Tenho certeza que ela tem bom motivo para isso.
Tracy disfarou a ironia com um pequeno sorriso. Fornati 
sentiu-se envaidecido.
 - Tem razo. As mulheres acham Fornati muito atraente.
 Tracy teve de fazer um grande esforo para no desatar a rir 
do pomposo homenzinho.
 - O que posso perfeitamente compreender.
 Ele inclinou-se por cima da mesa e pegou-lhe a mo.
 - Fornati gosta de voc. Fornati gosta muito de voc. O que 
faz para ganhar a vida?

 - Sou uma secretria-executiva. E poupei todo o meu dinheiro 
para esta viagem. Espero conseguir um bom emprego na Europa.
 Os olhos esbugalhados de Fornati percorreram o corpo de 
Tracy.
 - Fornati lhe promete que no ter qualquer problema. Ele 
trata muito bem as pessoas que o tratam bem.
 -  um homem muito generoso - disse Tracy, timidamente.
 Ele baixou a voz para acrescentar:
 - Talvez pudssemos conversar a esse respeito mais tarde, em 
sua cabina.
 - Isso poderia ser embaraoso.
 - Perche? Por qu?
 -  um homem muito famoso. E todos no trem sabem 
provavelmente quem .
 - Mas  claro!
 - Se o virem entrar em minha cabina... algumas pessoas podem 
interpretar de maneira errada. Mas se sua cabina for perto da 
minha... Qual  o nmero de sua cabina?
- setenta.
Ele fitou-a com uma expresso esperanosa. Tracy suspirou.
- Estou em outro vago. Por que no nos encontramos em Veneza?
Fornati ficou radiante.
- Bene! Minha esposa passa a maior parte do tempo no quarto. 
No suporta o sol em seu rosto. J esteve alguma vez em 
Veneza?
 - No.
 - Pois iremos a Torcello, uma linda ilhota, com um 
restaurante maravilhoso, o Locanda Cipriani.  tambm um 
pequeno hotel. - Os olhos dele brilharam. - Molto privato.
Tracy presenteou-o com um sorriso lento e compreensivo.
- Parece excitante...
Ela baixou os olhos, triunfante demais para acrescentar 
qualquer outra coisa. Fornati inclinou-se para a frente, 
apertou a mo de Tracy e sussurrou:
 - Ainda no sabe o que  excitamento, cara mia.
 Meia hora depois Tracy estava de volta  sua cabina.

O Expresso do Oriente avanava velozmente pela noite 
solitria, passando por Paris, Dijon e Vallarbe, enquanto os 
passageiros dormiam. Todos haviam entregue seus passaportes na 
noite anterior e as formalidades na fronteira seriam tratadas 
pelos cabineiros. 
 s trs e meia da madrugada Tracy deixou discretamente sua 
cabina. Era o momento crtico. O trem chegaria a Lausanne e 
atravessaria a fronteira Sua s 5 e 21, e deveria chegar em 
Milo, na Itlia, s 9 e 15.
De pijama e chambre, levando uma bolsa, Tracy seguiu pelo 
corredor, todos os sentidos alerta, a emoo familiar fazendo 
seu pulso disparar. No havia banheiros nas cabinas, apenas um 
na extremidade de cada vago. Se algum a detivesse, Tracy 
diria que estava  procura de um banheiro de mulheres, mas no 
encontrara nenhum. Os cabineiros aproveitavam as horas 
sossegadas da madrugada para recuperar o sono atrasado.
Tracy chegou  Cabina 70 sem qualquer incidente. Experimentou 
a maaneta. A porta se achava trancada. Tracy abriu a bolsa, 
tirou um objecto metlico e um pequeno vidro com uma seringa, 
comeou a trabalhar.

Dez minutos depois retornava  sua cabina e meia hora mais 
tarde dormia profundamente, com o vestgio de um sorriso no 
rosto recentemente lavado.

s sete da manh, duas horas antes de o Expresso do Oriente 
chegar a Milo, houve uma sucesso de gritos penetrantes. 
Partiam da Cabina 70 e despertaram todo o vago. Passageiros 
abriram as portas de suas cabinas para descobrir o que estava 
acontecendo. Um cabineiro, aproximou-se correndo e entrou na 
70. Silvana Luadi estava histrica.
- Aiuto! Socorro! Todas as minhas jias sumiram! Este trem 
miservel est cheio de ladres!
- Acalme-se, por favor, madame - suplicou o cabineiro. - Os 
outros...
- Acalmar-me? - A voz de Silvana, Luadi ergueu-se uma oitava. 
- Como se atreve a me mandar acalmar, stupido maiale?

Algum roubou minhas jias que valem mais de um milho de 
dlares!
 - Como isso pode ter acontecido? - indagou Alberto Fornati. - 
A porta estava trancada... e Fornati tem o sono leve. Se 
algum tivesse entrado, eu acordaria imediatamente.
 O cabineiro suspirou. Sabia muito bem como acontecera, porque 
j ocorrera antes. Durante a noite, algum se esgueirara pelo 
corredor e lanara uma seringa com ter pelo buraco da 
fechadura. As trancas seriam brincadeira de criana para quem 
soubesse o que estava fazendo. O ladro fecharia a porta, 
saquearia a cabina, pegando o que bem quisesse, voltando a seu 
lugar, enquanto as vitimas continuavam inconscientes. Mas 
havia uma coisa naquele roubo que o tornava diferente dos 
outros. No passado, os furtos s haviam sido descobertos 
depois que o trem chegara a seu destino. Com isso, os ladres 
tiveram chance de escapar. Mas aquela situao era diferente. 
Ningum desembarcara desde o roubo, o que significava que as 
jias ainda se encontravam a bordo.
 - No se preocupem - prometeu o cabineiro a Fornati. - Tero 
suas jias de volta. O ladro ainda est no trem.
 E ele afastou-se apressadamente, a fim de se comunicar com a 
polcia de Milo.

Quando o Expresso do Oriente entrou no terminal de Milo, 
vinte guardas de uniforme e detectives  paisana esperavam na 
plataforma da estao, com ordens para no deixar quaisquer 
passageiros ou bagagens sarem do trem.
 Luigi Ricci, o Inspector encarregado do caso, foi levado 
directamente  cabina dos Fornatis. A histeria de Silvana 
Luadi aumentara.
 - Todas as jias que eu possua estavam nesta caixa! - gritou 
ela. - E nenhuma se achava segurada!
 O Inspector examinou a caixa de jias vazia.
 - Tem certeza de que ps as jias aqui na noite passada, 
signora?
 - Mas claro que tenho certeza! Guardo-as todas as noites!
Seus olhos luminosos, que haviam emocionado milhes de fs 
apaixonados, exibiam lgrimas. O Inspector Ricci estava 
disposto a enfrentar drages por ela.
 Ele foi at a porta da cabina, abaixou-se, farejou o buraco 
da fechadura. Percebeu o odor persistente de ter. Houvera um 
roubo e ele tencionava agarrar o bandido insensvel. O 
Inspector Ricci empertigou-se e disse:

- No se preocupe, signora. No h qualquer possibilidade de 
as jias serem retiradas deste trem. Pegaremos o ladro e suas 
jias sero devolvidas.
O Inspector Ricci tinha todos os motivos para estar confiante. 
A armadilha estava hermeticamente fechada e no havia qualquer 
possibilidade de o culpado escapar.
Um a um, os detectives levaram os passageiros a uma sala de 
espera da estao que fora cercada, revistando-os 
meticulosamente. Muitos passageiros eram proeminentes e 
ficaram indignados.
 - Lamento profundamente - explicava o Inspector Ricci a cada 
um - mas um roubo de um milho de dlares  uma coisa muito 
grave.
  medida que cada passageiro deixava o trem, os detectives 
reviravam suas cabinas pelo avesso. Cada centmetro de espao 
era examinado. Aquela constitua uma oportunidade esplndida 
para o Inspector Ricci e ele tencionava tirar o mximo 
proveito. A recuperao das jias roubadas significaria uma 
promoo e um aumento. Sua imaginao entrou em delrio. 
Silvana Luadi ficaria to grata que provavelmente o convidaria 
para... Ele deu ordens com um vigor renovado.
 Houve uma batida na porta da cabina de Tracy e um detective 
entrou no instante seguinte.
 - Com licena, signorina. Houve um roubo.  necessrio 
revistar todos os passageiros. Se fizer o favor de me 
acompanhar..
 - Um roubo? - A voz de Tracy era chocada. - Neste trem?
 - Receio que sim, signorina.
 Quando Tracy saiu da cabina, dois detectives entraram, 
abriram suas malas, comearam a verificar cuidadosamente o 
contedo. 
 No final de quatro horas de busca, a polcia encontrara 
vrios maos de marijuana, cinco onas de cocana, uma faca e 
um revlver ilegal. Mas no havia qualquer sinal das jias 
desaparecidas. O Inspector Ricci no podia acreditar.
- Revistaram todo o trem? - ele perguntou a seu lugar-tenente. 
- Inspector, revistamos cada palmo do trem. Examinamos a 
locomotiva, os vages-restaurantes, o bar, os banheiros, as 
cabinas. Revistamos os passageiros e os tripulantes, 
examinamos a bagagem inteira. Posso jurar que as jias no se 
encontram no trem. Talvez a mulher tenha simplesmente 
imaginado o roubo.
 Mas o Inspector Ricci sabia que isso no acontecera. 
Conversara com os garons, que confirmaram que Silvana Luadi 
realmente usara jias espectaculares ao jantar, na noite 
anterior. Um representante do Expresso do Oriente chegara de 
avio a Milo.
- No pode reter o trem por mais tempo - insistiu ele. - J 
estamos muito atrasados.

 O Inspector Ricci sentiu-se derrotado. No tinha desculpa 
para segurar o trem por mais tempo. No havia mais nada que 
pudesse fazer. A nica explicao que podia pensar era a de 
que o ladro, de alguma forma, jogara as jias do trem para um 
cmplice  espera perto da linha, durante a noite. Mas poderia 
ter acontecido assim? O clculo do tempo seria impossvel. O 
ladro no poderia saber de antemo quando o corredor estaria 
livre, quando um cabineiro ou passageiro poderia surgir, em 
que momento o trem passaria por um local deserto determinado. 
Era um mistrio para o Inspector resolver.
 - O trem pode continuar - ordenou ele.
 O Inspector Ricci observava desolado quando o Expresso do 
Oriente deixou a estao. L se ia sua promoo, o aumento e 
uma orgia feliz com Silvana Luadi.

O nico tpico de todas as conversas, ao caf da manh no 
trem, foi o roubo.
 -  a coisa mais emocionante que me aconteceu em muitos anos 
- confessou uma empertigada professora de uma escola feminina. 
Ela ps a mo num colar de ouro, com uma lasca mnima de 
diamante. - Estou com sorte de no terem levado o meu colar.
- Muita sorte - concordou Tracy, solenemente.
 Ao entrar no vago-restaurante, Alberto Fornati avistou Tracy 
e aproximou-se dela rapidamente.
 - J sabe o que aconteceu,  claro. Mas sabia que foi a 
esposa de Fornati que roubaram?
 - Oh, no!
 - Exactamente! Minha esposa corre grande perigo. Uma 
quadrilha entrou em minha cabina e deixou-me desacordado com 
Clorofrmio. Fornati poderia ter sido assassinado enquanto 
dormia.
- Que coisa terrvel!
-  uma bella fregatura! Terei agora de substituir todas as 
jias de Silvana. O que me custar uma fortuna.
 - A polcia no encontrou as jias?
 - No. Mas Fornati sabe como os ladres se livraram das 
jias.
  mesmo? E como foi?
Ele olhou ao redor e baixou a voz para dizer:
- Um cmplice esperava numa das estaes por que passamos 
durante a noite. O ladro jogou as jias do trem e... tudo 
estava acabado.
 Tracy disse, com evidente admirao:
- Como foi esperto ao calcular isso!
- Sim. - Ele alteou as sobrancelhas, sugestivamente. - No 
esquecer o nosso pequeno encontro secreto em Veneza, no  
mesmo?
 - Como poderia esquecer? - respondeu Tracy, sorrindo.
 Ele apertou-lhe o brao com fora.
 - Fornati est ansioso pelo encontro. E agora tenho de ir 
consolar Silvana. Ela est rica.

Quando o Expresso do Oriente chegou  estao de Santa Lucia, 
em Veneza, Tracy estava entre os primeiros passageiros a 
desembarcarem. Foi com a bagagem directamente para o aeroporto 
e embarcou no primeiro avio para Londres, levando as jias de 
Silvana Luadi.
 Gunther Hartog ficaria bastante satisfeito.


23

O prdio de sete andares que  a sede da Interpol, a 
Organizao Internacional de Polcia Criminal, fica na Rue 
Armengaud, 26, nas colinas de St.Cloud, cerca de dez 
quilmetros a oeste de Paris, discretamente oculto por trs de 
uma sebe alta e de um muro branco de pedra. O porto que d 
para a rua permanece trancado 24 horas por dia, os visitantes 
s so admitidos depois de meticulosamente examinados atravs 
de um circuito fechado de televiso.
 A segurana extraordinria  indispensvel, pois dentro do 
prdio so guardados os mais completos dossis do mundo, com 
fichas de dois milhes e meio de criminosos. A Interpol 
funciona como uma cmara de compensao de informaes para 
126 foras policiais em 78 pases, coordena as actividades 
internacionais de foras policiais que lidam com vigaristas, 
falsrios, traficantes de txicos, assaltantes e assassinos. 
Divulga informaes actualizadas atravs de um boletim 
conhecido como circulao, transmitido por rdio, 
fototelegrafia e satlite. O quartel-general de Paris  
operado por ex-detectives da Sret Nationale ou da Prfecture 
de Paris.

Numa manh de maio, bem cedo, houve uma reunio no gabinete do 
Inspector Andr Trignant, no comando do quartel-general da 
Interpol. O gabinete era pequeno e, mobiliado com 
simplicidade, mas a vista era espectacular.  distncia, a 
leste assomava a Torre Eiffel; em outra direco, o domo 
branco do Sacr-Cocur, em Montmartre, era claramente visvel. 
O inspector era um homem de quarenta e poucos anos, uma 
presena atraente e de autoridade, com um rosto inteligente, 
cabelos escuros, olhos castanhos penetrantes, por trs de 
culos de aros de osso. Sentados com ele no escritrio estavam 
detectives da Inglaterra, Blgica, Frana e Itlia.
 - Senhores - disse o Inspector Trignant - recebi pedidos 
urgentes de seus pases de informaes sobre a onda de crimes 
que eclodiu recentemente por toda a Europa. Meia dzia de 
pases foram atingidos por uma epidemia de trapaas e roubos 
em que h vria similaridades. As vitimas so geralmente de 
reputao duvidosa, nunca h violncia envolvida e a 
responsvel  sempre uma mulher. Chegamos  concluso de que 
estamos enfrentando uma quadrilha internacional de mulheres. 
Temos retratos falados, baseados nas descries das vitrinas e 
de testemunhas casuais. Como podero verificar, no h duas 
mulheres com retratos parecidos. Algumas so louras, outras 
morenas. As nacionalidades informadas so as mais diversas, 
inglesa, francesa, espanhola, italiana, americana... ou 
texana.
 O Inspector Trignant apertou um boto e uma srie de retratos 
surgiu na tela na parede.
 - Aqui est o retrato falado de uma morena de cabelos curtos. 
Ele tornou a apertar o boto. - E aqui est uma loura tambm 
de cabelos curtos... outra loura com uma ondulao 
permanente... uma morena com um corte de pajem... uma mulher 
mais velha, tipicamente francesa... uma jovem com reflexos 
louros... uma mulher velha com um coup sauvage.
 O Inspector desligou o projector.

 - No temos idia de quem lidera a quadrilha ou onde fica a 
base de operaes. Elas nunca deixam quaisquer pistas e 
desaparecem como fumaa. Mais cedo ou mais tarde, porm, 
pegaremos uma... e quando isso acontecer, todas cairo em 
nossas mos. Enquanto isso, senhores, at que um de vocs 
possa nos fornecer reformas especficas, receio que nos 
encontremos num beco sem sada...

Quando seu avio pousou em Paris, Daniel Cooper foi recebido 
no Aeroporto Charles de Gaulle por um dos assistentes do 
Inspector Trignant. Foi levado ao Prince de Galles, que fica 
ao lado do hotel-irmo mais ilustre, o George V.
- Est tudo acertado para o seu encontro com o Inspector 
Trignant amanh - informou o assistente a Cooper. - Virei 
busc-lo s oito e quinze.

Daniel Cooper no se sentia satisfeito com a viagem  Europa. 
Tencionava concluir a sua misso o mais depressa possvel e 
voltar para casa. Conhecia a vida regalada de Paris e no 
tinha a menor inteno de se deixar envolver.
 Ele entrou no quarto e se dirigiu directamente ao banheiro. 
Para sua surpresa, a banheira era satisfatria. Na verdade, 
admitiu para si mesmo, era muito maior do que a que tinha em 
casa. Ele abriu a gua e foi para o quarto desfazer as malas. 
Perto do fundo da mala estava a pequena caixa trancada, segura 
entre seu terno extra e as cuecas. Ele pegou a caixa, 
contemplou-a por um momento; parecia vibrar com uma vida 
prpria. Levou-a para o banheiro e colocou-a em cima da pia. 
Com a chave pequena pendurada em seu chaveiro, destrancou a 
caixa e abriu-a. As palavras lhe saltaram do recorte de jornal 
amarelado:

 GAROTO TESTEMUNHA UM JULGAMENTO DE HOMICDIO

 Daniel Cooper, de 12 anos, testemunhou hoje no julgamento de 
Fred Zimmer, acusado de violentar e assassinar a me do 
garoto. Segundo o seu depoimento, ele voltava da escola e viu 
Zimmer, o vizinho da casa ao lado, deixar a residncia de sua 
famlia, com sangue nas mos e no rosto. Quando entrou em 
casa, o garoto encontrou o corpo de sua me na banheira. Ela 
fora brutalmente esfaqueado at  morte. Zimmer confessou que 
era amante da Sra. Cooper, mas negou que a tivesse matado.
 O garoto foi entregue aos cuidados de uma tia.

 As mos trmulas de Daniel Cooper tornaram a largar o recorte 
na caixa. Ele trancou-a. Olhou ao redor, freneticamente. As 
paredes e o teto do banheiro do hotel estavam salpicados de 
sangue. Viu o corpo nu da me flutuando na gua vermelha. 
Sentiu uma onda de vertigem e agarrou-se na pia. Os gritos 
dentro dele tornaram-se gemidos guturais. Arrancou as roupas 
desesperadamente e afundou no banho quente de sangue. 

- Devo inform-lo, Sr. Cooper - disse o Inspector Trignant - 
que sua posio aqui  excepcional. No  membro de qualquer 
fora policial e sua presena  extra-oficial. Contudo, fomos 
solicitados pelos departamentos de polcia de diversos pases 
europeus a lhe oferecer a nossa cooperao.
 Daniel Cooper no disse nada.

 - Fui informado de que  um investigador da Associao 
Internacional de Proteco do Seguro, um consrcio formado 
pelas seguradoras.
 - Alguns de nossos clientes europeus sofreram grandes 
prejuzos ultimamente. E, pelo que sei, no h pistas.
O Inspector Trignant suspirou.
- Infelizmente,  isso mesmo. Sabemos que estamos lidando com 
uma quadrilha de mulheres muito espertas. Mas, alm disso...
- No h informaes de alcaguetes?
- No. Absolutamente nada.
- No acha isso estranho?
- Como assim, monsieur?
 Parecia to bvio a Cooper que ele no se deu ao trabalho de 
disfarar a sua impacincia.
 - Quando uma quadrilha est envolvida, h sempre algum que 
fala demais, bebe demais, gasta demais.  impossvel para um 
grupo grande de pessoas manter um segredo, Importa-se de me 
dar as suas fichas sobre essa quadrilha?
 O Inspector pensou em recusar. Achava Daniel Cooper um dos 
homens mais desgraciosos fisicamente que j conhecera. E 
certamente o mais arrogante. Ele seria um chierie, "um p no 
saco"; mas haviam pedido ao Inspector que cooperasse 
plenamente. Com relutncia, ele disse:
 - Providenciarei cpias para voc.
 Ele falou pelo interfone e deu a ordem. Para puxar conversa, 
o Inspector Trignant disse:
 - Acabo de receber um relatrio interessante. Algumas jias 
valiosas foram roubadas de bordo do Expresso do Oriente, 
enquanto estava...
 - Leu a notcia. O ladro fez de tolos os polcias italianos. 
- Ningum pde ainda imaginar como o roubo foi consumado.
-  bvio - disse Daniel Cooper, rudemente. - Uma questo de 
simples lgica.
 O Inspector Trignant olhou por cima dos culos. Mon Dieu, ele 
tem o comportamento de um porco. O Inspector declarou, 
friamente;
- Neste caso, a lgica no existe. Cada palmo do trem 
revistado, os empregados, os passageiros, toda a bagagem.
- No foi, no - contestou Daniel Cooper.
Este homem  louco, concluiu o Inspector Trignant.
 - No? Como assim?
 - Eles no revistaram toda a bagagem.
 - Claro que revistaram - insistiu o Inspector Trignant. - Li 
o relatrio da polcia
 - A mulher a quem roubaram as jias... Silvana Luadi...
 - O que tem ela?
 - Ela no guardou as jias numa valise, de onde foram 
roubadas?
 - Correcto.
 - A polcia revistou a bagagem de Silvana Luadi?
 - Somente a valise. Ela foi a vitima. Por que deveriam 
revistar sua bagagem?
 - Porque  logicamente o nico lugar em que o ladro poderia 
ter escondido as jias... no fundo de uma de suas malas. 
Provavelmente ele tinha uma mala igual. Quando toda a bagagem 
foi empilhada na plataforma da estao em Veneza, ele s 
precisou trocar as malas e desaparecer em seguida, - Daniel 
Cooper levantou-se. - Se as cpias j esto prontas, eu vou 
embora agora.


Meia hora depois, o Inspector Trignant falava pelo telefone 
com Alberto Fornati, em Veneza.
- Monsieur - disse o Inspector - eu gostaria de saber se houve 
algum problema com a bagagem de sua esposa, quando chegaram em 
Veneza.
 - Sim, sim - queixou-se Fornati. - O idiota do carregador 
trocou uma das malas. Quando minha esposa abriu-a, no hotel, 
descobriu que s continha uma poro de revistas velhas. 
Comuniquei ao escritrio do Expresso do Oriente. J 
localizaram a mala de minha esposa?
 - No, monsieur.
 O Inspector acrescentou para si mesmo, silenciosamente: E eu 
no esperaria que isso acontecesse, se estivesse no seu lugar.
Depois de encerrar a ligao, ele recostou-se em sua cadeira, 
pensando: Esse Daniel Cooper  trs formidable. Realmente 
formidvel.

24

A casa de Tracy, na Eaton Square, era um refgio. Ficava numa 
das reas mais bonitas de Londres, com velhas casas 
georgianas, viradas para parques particulares com muitas 
rvores. Babs em uniformes engomados empurravam carrinhos de 
bebs por caminhos cobertos de cascalho, crianas brincavam. 
Sinto saudade de Amy, pensava Tracy.
Ela andava pelas ruas antigas, fazia compras em quitandas e na 
farmcia da Elizabeth Street. Admirava a variedade de flores 
de cores brilhantes vendidas fora das pequenas lojas. 
 Gunther Hartog cuidava para que Tracy contribusse para as 
caridades certas e conhecesse as pessoas certas. Saa com 
duques ricos e condes empobrecidos, recebia numerosos pedidos 
de casamento. Era jovem, bela e rica, parecia extremamente 
vulnervel. 
- Todos pensam que voc  um alvo perfeito - comentava 
Gunther, rindo. - Tem se sado de maneira esplndida, Tracy. 
Est feita agora. Possui tudo o que jamais precisar. 
Era verdade. Ela tinha dinheiro em cofres em bancos por toda a 
Europa, a casa em Londres e um chal em St. Moritz. Tudo o que 
jamais poderia precisar. Excepto algum com quem partilhar. 
Tracy pensava muito na vida que quase tivera, com um marido e 
um filho. Isso algum dia seria possvel para ela novamente? 
Nunca poderia revelar a qualquer homem quem era realmente, 
tambm no podia viver uma mentira ao esconder o passado. 
Desempenhara vrios papis, no mais tinha certeza de quem 
realmente era. Mas sabia que nunca poderia retornar  vida que 
outrora levara. Est tudo bem, pensava Tracy, assumindo uma 
atitude de desafio. Muitas pessoas so solitrias. Gunther 
est certo. Eu tenho tudo.

Ela ofereceu um coquetel na primeira noite depois de sua volta 
de Veneza.
- Estou aguardando ansiosamente - dissera-lhe Gunther. - Suas 
festas so as mais quentes de Londres.
 Tracy comentara, afectuosamente:
 - Com o meu patrocinador, no poderia ser de outra forma.
 - Quem estar presente?
 - Todo mundo.
Todo mundo inclua um convidado a mais que Tracy no previra. 
Ela convidara a Baronesa Lithgow, uma jovem e atraente 
herdeira. Quando viu a baronesa chegar, Tracy adiantou-se para 
cumpriment-la. Mas a saudao morreu em seus lbios. A 
baronesa se apresentou acompanhada por Jeff Stevens.
 - Tracy, querida, creio que no conhece o Sr. Stevens. Jeff, 
esta  a Sra. Whitney, sua anfitri.
 Tracy disse, rigidamente:
 - Como vai, Sr. Stevens?
 Jeff pegou a mo de Tracy, segurando-a por uma fraco de 
tempo a mais do que o necessrio.
 - Sra. Tracy Whitney? - disse ele. - Mas  claro! Fui amigo 
de seu marido. Estivemos juntos na ndia.
 - Mas que coisa emocionante! - exclamou a Baronesa Lithgow.
 -  estranho - disse Tracy, friamente. - Ele nunca o 
mencionou.
 -  mesmo? Isso me deixa surpreso. Um sujeito muito 
interessante. Uma pena que tenha acabado daquela maneira.

- O que aconteceu? - indagou a Baronesa Lithgow, muito 
excitada.
Tracy lanou um olhar furioso para Jeff.
 - No foi nada.
 - Nada? - repetiu Jeff, num tom de censura. - Se me lembro 
correctamente, ele foi enforcado na ndia.
 - Paquisto - disse Tracy, tensamente. - E creio que me 
lembro agora de meu marido se referir a voc. Como vai sua 
esposa?
A Baronesa Lithgow olhou para Jeff.
- Nunca me disse que era casado, Jeff.
 - Cecily e eu estamos divorciados.
 Tracy sorriu docemente.
 - Eu estava me referindo a Rose.
 - Ah, sim.. essa esposa.
A Baronesa Lithgow estava espantada.
- Foi casado duas vezes?
- Uma s - respondeu ele, jovialmente - Rose e eu obtivemos 
uma anulao. ramos muito jovens.
Ele comeou a se afastar, mas Tracy perguntou:
 - Mas no houve gmeos?
A Baronesa Lithgow estava mais aturdida do que nunca.
 - Gmeos?
 - Eles vivem com a me. - Jeff olhou para Tracy. - No tenho 
palavras para exprimir como foi agradvel lhe falar, Sra. 
Whitney. Mas no devemos monopoliz-la.
 Ele pegou a mo da baronesa e os dois se afastaram. No dia 
seguinte, Tracy deparou com Jeff num elevador na Harrods. A 
loja estava apinhada. Tracy saltou no segundo andar. Ao deixar 
o elevador, virou-se para Jeff e disse, a voz alta e clara:
 - Por falar nisso, Sr. Stevens, como conseguiu se livrar 
daquele processo de atentado ao pudor?
 A porta fechou e Jeff ficou encurralado dentro do elevador 
com um bando de estranhos indignados. Naquela noite, Tracy 
ficou deitada na cama pensando em Jeff. No pde deixar de 
rir. Ele era realmente encantador. Um patife, mas cativante. 
Ela se perguntou qual seria o relacionamento dele com a 
Baronesa Lithgow. Mas sabia muito bem qual era. Jeff e eu 
somos da mesma espcie, pensou Tracy. Nenhum dos dois jamais 
assentaria. A vida que levavam era muito excitante, 
estimulante e gratificante.
 Ela concentrou os pensamentos em seu prximo trabalho. Seria 
no sul da Frana, um grande desafio. Gunther lhe dissera que a 
polcia estava  procura de uma quadrilha. Ela adormeceu com 
um sorriso nos lbios.

No seu quarto de hotel, em Paris, Daniel Cooper estava lendo 
os relatrios que o Inspector Trignant lhe entregara. Eram 
quatro horas da madrugada e Cooper vinha estudando os papis 
h horas, analisando a mistura imaginativa de roubos e 
fraudes, Cooper se familiarizara com alguns dos golpes, mas 
outros lhe eram inteiramente novos. Como o Inspector Trignant 
ressaltara, todas as vitimas tinham reputaes duvidosas. Esta 
quadrilha aparentemente pensa que  formada por Robin Hoods, 
reflectiu Cooper.

 Ele estava quase terminando. Restavam apenas trs relatrios. 
O de cima tinha o cabealho de BRUXELAS. Cooper abriu-o e leu. 
Jias no valor de dois milhes de dlares haviam sido roubadas 
do cofre na parede de um certo Sr. Van Ruysen, um corrector de 
valores belga.
Os donos se encontravam ausentes em frias e a casa se achava 
vazia, a no ser... Cooper descobriu alguma coisa na pgina 
que fez seu corao se acelerar. Ele voltou  primeira pgina, 
ps-se a reler o relatrio, concentrando-se totalmente em cada 
palavra. Aquele trabalho se diferenciava dos outros num 
aspecto significativo. O assaltante accionara um alarme. 
Quando a polcia chegara, fora recebida na porta por uma 
mulher com um neglig transparente. Ela tinha os cabelos 
metidos numa touca e o rosto coberto por um creme de beleza. 
Alegara ser hspede dos Van Ruysens. A polcia aceitara a 
histria; quando conferiu com os proprietrios ausentes, a 
mulher e as jias j haviam desaparecido.
Cooper largou o relatrio. Lgica, lgica. Ele olhou para seu 
relgio. Eram 10 horas da manh em Nova York. Cooper fez uma 
ligao para J. J. Reynolds.
 - Quero que verifique uma coisa - pediu Cooper. - Pergunte 
aos polcias de Long Island que entrevistaram a mulher no 
roubo de Lois Bellamy se tm certeza de que ela era americana.
Reynolds ligou-lhe uma hora depois.
- Eles confirmaram. Mas porqu...
Cooper j desligara.

O Inspector Trignant estava perdendo a pacincia.
 - Estou lhe garantindo que  impossvel para uma s mulher 
ser responsvel por todos esses crimes.
 - H uma maneira de verificar - disse Daniel Cooper.
 - Que maneira?
 - Eu gostaria de passar por um computador as datas e locaes 
dos ltimos roubos e fraudes que se enquadram nesta categoria.
 - Isto  bastante simples. Mas...
 - Em seguida, eu gostaria de obter um relatrio da imigrao 
local sobre cada turista americana que esteve naquelas cidades 
nas ocasies em que os crimes foram cometidos.  possvel que 
ela use passaportes falsos algumas vezes, mas as 
probabilidades so de que tambm se apresente com sua 
verdadeira identidade.
 O Inspector Trignant estava pensativo.
 - Percebo a sua linha de raciocnio, monsieur.
 Ele estudou o homenzinho  sua frente e descobriu-se meio 
confuso esperando que Cooper estivesse enganado. O americano 
era presunoso demais.
 - Est bem. Accionarei tudo.
 O primeiro roubo da srie fora cometido em Estocolmo. O 
relatrio da Interpol Sektionen Riskpolis Styrelsen, a seco 
sueca da Interpol, relacionou as turistas americanas em 
Estocolmo naquela semana. Os nomes das mulheres foram 
fornecidos a um computador. A prxima cidade verificada foi 
Milo. Quando os nomes das turistas americanas em Milo por 
ocasio do roubo foram conferidos com a lista de Estocolmo, 
ficaram 52 nomes. Essa lista foi conferida com as americanas 
que se encontravam na Irlanda por ocasio de um golpe de 
mestre ali executado. A lista ficou reduzida a 15 nomes. O 
Inspector Trignant entregou o resultado a Daniel Cooper.
- Comearei a conferir esses nomes com as americanas que 
estavam em Berlim durante o golpe ali realizado e...
Daniel Cooper levantou os olhos.

- No precisa se incomodar.
O primeiro nome, na lista era Tracy Whitney.

Dispondo finalmente de alguma coisa concreta em que se basear, 
a Interpol entrou em aco. Circulaes vermelhas, que 
significavam alta prioridade, foram enviadas a todas as 
naes-membros, aconselhando-as a procurarem por Tracy 
Whitney.
 - Tambm estamos teletipando avisos verdes - disse o 
Inspector Trignant a Cooper.
 - Avisos verdes?
 - Usamos um sistema de cdigo de cores. Uma circulao 
vermelha  alta prioridade, azul  um pedido de informao 
sobre um suspeito, um aviso verde pe em alerta os 
departamentos de polcia para a presena de um indivduo 
suspeito que deve ser vigiado, preto  uma indagao sobre 
corpos no-identificados. X-D informa que uma mensagem  muito 
urgente, enquanto D  urgente. No importa qual seja o pas 
para onde a Senhorita Whitney v, estar sob vigilncia a 
partir do momento em que passar pela alfndega.
 No dia seguinte, telefotos de Tracy Whitney na Penitenciria 
Meridional da Louisiana Para Mulheres estavam nas mos da 
Interpol.
 Daniel Cooper telefonou para a cana de J. J. Reynolds. A 
campainha tocou uma dzia de vezes, antes de ser atendida a 
ligao.
- Al...
 - Preciso de algumas informaes.
 -  voc, Cooper? Pelo amor de Deus, so quatro horas da 
madrugada aqui! Eu estava profundamente...
 - Quero que me mande tudo o que puder descobrir sobre Tracy 
Whitney. Recortes de imprensa, videoteipes... tudo, enfim.
- Mas o que est acontecendo por...
 Cooper j desligara.
Um dia ainda matarei o filho da puta, jurou Reynolds.

Antes, Daniel Cooper s estava casualmente interessado em 
Tracy Whitney. Agora, ela era a sua misso. Ele ps as suas 
fotografias nas paredes do seu pequeno quarto de hotel em 
Paris, leu todas as notcias dos jornais a seu respeito. 
Alugou um aparelho de videocassete e passou vrias vezes os 
trechos dos servios noticiosos de televiso em que Tracy 
aparecera, depois de ser condenada e at sair da priso. 
Cooper permanecia sentado no seu quarto s escuras hora aps 
hora, olhando para os filmes. O vislumbre inicial de suspeita 
acabou se transformando em certeza.
- Voc  a quadrilha de mulheres, Senhorita Whitney - disse 
Daniel Cooper, em voz alta.
E depois, ele apertou um boto no aparelho de videocassete 
voltando a fita ao comeo mais uma vez.

25

Todos os anos, no primeiro sbado de junho, o Conde de Matigny 
promovia um baile de caridade em benefcio do Hospital 
Infantil de Paris. Cada ingresso custava mil dlares e a elite 
da sociedade voava do mundo inteiro para comparecer.
 O Chteau de Matigny, em Cap d'Antibes, era um dos lugares 
mais espectaculares da Frana. Os jardins cuidadosamente 
tratados eram magnficos, o castelo propriamente dito datava 
do sculo XV. Na noite da festa, o grande salo de baile e o 
pequeno salo ficavam repletos de convidados elegantemente 
vestidos e criados de libr servindo copos de champanha 
interminveis. Imensas mesas de buf eram armadas, exibindo 
uma variedade espantosa de hors d'oeuvres, em travessas de 
prata georgiana.
 Tracy, deslumbrante num vestido branco de renda, os cabelos 
armados e presos por uma tiara de diamantes, estava danando 
com o anfitrio, o Conde de Matigny, um vivo de sessenta e 
poucos anos, baixo e magro, com um rosto plido e delicado. O 
baile de caridade que o conde oferece todos os anos em 
benefcio do Hospital Infantil  uma fraude, dissera Gunther 
Hartog a Tracy. Dez por cento do dinheiro vo para as 
crianas... e noventa por cento ficam em seu bolso.
 - Voc  uma excelente danarina - comentou o conde.
 Tracy sorriu.
-  por causa do meu parceiro.
- Como  possvel que no nos tenhamos encontrado antes?
- Tenho vivido na Amrica do Sul - explicou Tracy. - E na 
selva, infelizmente.
- Mas por qu?
- Meu marido possui algumas minas no Brasil.
- Ah.... E seu marido se encontra aqui esta noite?
- No. Infelizmente, ele teve de ficar no Brasil para cuidar 
dos negcios.
- Azar para ele, sorte para mim. - O brao do conde comprimiu 
mais firmemente a cintura de Tracy. - Estou ansioso pela 
oportunidade de nos tornarmos amigos mais ntimos.
 - E eu tambm - murmurou Tracy.
Por cima do ombro do conde, Tracy avistou subitamente Jeff 
Stevens bronzeado e parecendo absurdamente em perfeita forma 
fsica. Ele danava com uma morena bonita e esguia, num 
vestido de tafet vermelha. Ela o agarrava possessivamente. 
Jeff divisou Tracy no mesmo momento e sorriu.
O filho da puta tem todos os motivos para sorrir, pensou 
Tracy, sombriamente. Durante as duas semanas anteriores, Tracy 
planejara meticulosamente dois roubos. Entrara na primeira 
casa e abrira o cofre, s para encontr-lo vazio. Jeff Stevens 
estivera ali primeiro. Na segunda ocasio, Tracy avanava 
pelos jardins para a casa visada quando ouviu de repente um 
carro acelerar. Virou-se e vislumbrou Jeff a se afastar 
rapidamente. Ele tornara a bat-la. Era irritante. E agora ele 
est aqui, na casa que planeio assaltar em seguida, pensou 
Tracy. Jeff e sua parceira se aproximaram, sempre danando. 
Ele sorriu e disse:
 - Boa noite, conde.
Conde de Matigny retribuiu ao sorriso.
- Ah, Jeffrey... Boa noite. Fico satisfeito que tenha podido 
vir.

- Eu no faltaria de jeito nenhum. - Jeff indicou a mulher de 
aparncia sensual em seus braos. - Esta  a Senhorita 
Wallace. O Conde de Matigny.
- Enchant! - O conde indicou Tracy. - Duquesa, posso 
apresentar-lhe a Senhorita Wallace e o Sr. Jeffrey Stevens? A 
Duquesa de Larosa.
As sobrancelhas de Jeff se altearam, inquisitivas.
- Perdo, mas no entendi direito o nome.
- De Larosa - disse Tracy, calmamente.
- De Larosa... De Larosa. - Jeff observava Tracy atentamente. 
- O nome me parece familiar.... Mas  claro! Conheo seu 
marido. Ele tambm est aqui?
 - Ele ficou no Brasil.
Tracy descobriu que estava rangendo os dentes. Jeff sorriu.
- Ah, uma pena... Costumvamos caar juntos. Antes de ele 
sofrer o acidente,  claro.
 - Acidente? - repetiu o conde.
 - Isso mesmo. - O tom de Jeff era pesaroso. - A arma disparou 
e a bala atingiu-o numa rea muito sensvel. Uma dessas coisas 
estpidas que acontecem...
 Ele virou-se para Tracy e acrescentou:
 - H alguma esperana de que ele volte a ser normal?
 Tracy disse, sem qualquer inflexo na voz:
 - Tenho certeza de que algum dia ele ser to normal como 
voc, Sr. Stevens.
 - Isso  ptimo. Pode lhe transmitir meus respeitos quando 
falar com ele, duquesa?
 A msica parou. O Conde de Matigny pediu desculpas a Tracy. 
- Se me d licena, minha cara, tenho alguns deveres de 
anfitrio a cumprir. - Ele apertou-lhe a mo. - No se esquea 
de que est sentada  minha mesa.
Enquanto o conde se afastava, Jeff disse  sua companheira:
- Anjo, voc no trouxe alguma aspirina em sua bolsa? Poderia 
ir buscar para mim? Estou com uma terrvel dor de cabea.
 - Oh, meu pobre querido! - Havia uma expresso de adorao 
nos olhos da mulher. - J vou buscar, amor.
 Tracy observou-a deslizar pelo salo.
 - No tem medo de que ela o deixe diabtico?
 - Ela  um doce, no  mesmo? E como tem passado ultimamente, 
duquesa?
 Tracy sorriu, em benefcio dos que se encontravam ao redor.
 - Isso no  da sua conta, no  mesmo?
- Mas claro que . Na verdade,  da minha conta oferecer-lhe 
um conselho amigvel. No tente roubar este castelo.
- Por qu? Voc est planeando faz-lo primeiro?
Jeff pegou Tracy pelo brao e levou-a para um lugar deserto, 
perto do piano, onde um rapaz de olhos escuros estava 
comoventemente massacrando melodias americanas. Somente Tracy 
podia ouvir a voz do Jeff por cima da msica.
- Para ser franco, eu estava mesmo planeando fazer uma 
coisinha. Mas tornou-se perigoso demais.
 -  mesmo?
 Tracy estava comeando a gostar da conversa. Era um alvio 
ser ela prpria, parar de representar. Os gregos tinham a 
palavra certa para isso, pensou Tracy. Hipcrita era da 
palavra grega para "actor".

 - Preste ateno, Tracy. - O tom de Jeff era srio. - No 
tente nada. Em primeiro lugar, voc no conseguiria escapar 
com vida da propriedade. H um co de guarda assassino  solta 
esta noite.
Subitamente, Tracy escutava com toda ateno. Jeff estava 
mesmo planeando roubar o castelo.
- Todas as janelas e portas esto armadas. O alarme se liga 
directamente  delegacia de polcia. E mesmo que voc 
conseguisse entrar, todo o lugar se encontra cruzado por raios 
infravermelhos invisveis.
- Sei de tudo isso.
Tracy ainda se achava um pouco presunosa.
 - Ento deve saber tambm que os raios infravermelhos no 
soam o alarme quando entra, mas sim quando sai. Sente a 
mudana de calor. No h qualquer possibilidade de 
atravess-los sem desencadear o alarme.
Ela no sabia disso. Como Jeff descobrira?
- Por que est me contando tudo isso?
Ele sorriu e Tracy pensou que Jeff nunca parecera to 
atraente.
- Para ser franco, duquesa, no quero que seja apanhada. Gosto 
de t-la por perto. Voc e eu poderamos nos tornar bons 
amigos, Tracy.
 - Est enganado. - Ela avistou a companheira de Jeff se 
aproximar apressadamente. - L vem a Senhorita Diabetes. 
Divirta-se.
Enquanto se afastava, Tracy ouviu a companheira de Jeff dizer:
- Trouxe tambm um copo de champanha para voc poder tomar a 
aspirina, meu pobre querido.
 O jantar foi suntuoso. Cada prato era acompanhado pelo vinho 
apropriado, impecavelmente servido por lacaios de luvas 
brancas. O primeiro prato foi espargos naturais, seguindo-se 
um consome com delicados cogumelos. Depois, veio um lombo de 
ovelha com legumes frescos da horta do conde. Uma salada de 
endiva foi o prato seguinte.A sobremesa foi sorvete num 
epergne de prata, acompanhado por petits fours. Caf e 
conhaque vieram por ltimo. Charutos foram oferecidos aos 
homens, enquanto as mulheres recebiam perfume Joy num frasco 
de cristal Baccarat. Depois do jantar, o Conde de Matigny 
virou-se para Tracy e disse:
- Comentou que estava interessada em ver alguns dos meus 
quadros. No quer dar uma olhada agora?
- Eu adoraria.
A galeria de quadros em um autntico museu, com mestres 
italianos, impressionistas franceses e Picassos. O salo 
comprido resplandecia com as cores e formas fascinantes 
pintadas por imortais. Havia Monets e Renoirs, Canalettos, 
Guardis e Hobbemas. Havia uni refinado Menfing e um Rubens, 
alm de um Ticiano. Uma parede estava quase que completamente 
coberta por Czannes. No havia a menor possibilidade de 
calcular o valor daquela coleco. Tracy ficou contemplando os 
quadros por um longo tempo, saboreando sua beleza.
- Espero que estes quadros estejam bem guardados.
O conde sorriu.
- Ladres tentaram se apossar de meus tesouros em trs 
ocasies. Um foi morto por meu cachorro, o segundo ficou 
mutilado e o terceiro est cumprindo uma pena de priso 
perptua, O castelo  uma fortaleza invulnervel, duquesa.
- Fico aliviada em saber disso, conde.
Houve um sbito claro l fora.

- Os fogos de artifcio esto comeando - disse o conde. - 
Acho que voc vai gostar.
Ele pegou a mo macia de Tracy em sua mo ressequida e spera, 
saindo da galeria.
- Partirei para Deauville pela manh. Tenho ali uma villa  
beira do mar e convidei alguns amigos para o fim de semana. 
Creio que iria gostar.
- Tenho certeza de que gostaria - declarou Tracy, pesarosa. - 
Mas, infelizmente, meu marido comea a ficar impaciente. 
Insiste que eu volte o mais depressa possvel.
 Os fogos de artifcio se prolongaram por quase uma hora. 
Tracy aproveitou a distraco para fazer um reconhecimento da 
casa. Era verdade o que Jeff dissera. As chances contra um 
roubo bem-sucedido eram formidveis, mas justamente por esse 
motivo Tracy achou que o desafio era irresistvel. Sabia que 
l em cima, no quarto do conde, havia jias no valor de dois 
milhes de dlares, alm de meia dzia de obras-primas, 
incluindo um Leonardo.
O castelo  um autntica casa de tesouros, dissera-lhe Gunther 
Hartog Mas tambm  guardado como tal. No faa nada, se no 
tiver um plano infalvel.
Pois tenho um plano, pensou Tracy. Se  ou no infalvel s 
saberei amanh.

A noite seguinte estava fria e nublada, os muros altos em 
torno do castelo pareciam sombrios e ameaadores quando Tracy 
parou nas sombras, vestindo um macaco preto, sapatos de sola 
de borracha e luvas pretas e flexveis de pelica, carregando 
uma bolsa no ombro. Por um momento descuidado, a mente de 
Tracy foi dominada pela recordao dos muros da penitenciria. 
Um tremor involuntrio, percorreu-lhe o corpo. 
 Ela encostara o furgo alugado no muro de pedra, nos fundos 
da propriedade. Do outro lado do muro veio um rosnado baixo e 
furioso, que se desenvolveu em latidos frenticos, enquanto o 
co saltava pelo ar, tentando atacar. Tracy visualizou o corpo 
pesado e poderoso do doberman, seus dentes mortferos. Ela 
disse baixinho para algum no furgo:
- Agora.
Um homem franzino, de meia-idade, com uma mochila nas costas, 
saiu do furgo, puxando uma fmea doberman. A cadela estava no 
cio e o tom dos latidos no outro lado do muro mudou 
subitamente para um ganido excitado.
 Tracy ajudou a levantar a cadela para o alto do furgo, que 
tinha quase a mesma altura do muro.
- Um... dois... trs! - sussurrou ela.
 Os dois empurraram a cadela por cima do muro para o interior 
da propriedade. Houve dois latidos bruscos, o barulho de um 
cachorro a farejar, depois o som dos animais correndo para 
longe. Houve silncio em seguida. Tracy virou-se para o seu 
cmplice.
 - Vamos embora.
 O homem, Jean-Louis, acenou com a cabea. Tracy o encontrara 
em Antibes. Era um ladro que passara a maior parte de sua 
vida na priso. Jean-Louis no era muito inteligente, mas se 
destacava como um gnio em fechaduras e alarmes, perfeito para 
aquele trabalho.

 Tracy passou do teto do furgo para o alto do muro. 
Desenrolou uma escada de corda e prendeu-a na beira do muro. 
Os dois desceram para a relva l embaixo. A propriedade estava 
muito diferente de sua aparncia na noite anterior, quando se 
achava intensamente iluminada e povoada por convidados 
risonhos. Agora, tudo era escurido e desolao.
 Jean-Louis foi seguindo atrs de Tracy, apreensivo, atento  
aproximao dos dobermans.
 O castelo estava coberto por uma hera de muitos sculos, 
subindo do cho ao telhado. Tracy experimentara discretamente 
a hera na noite anterior. Agora, a hera aguentou o peso de seu 
corpo. Ela comeou a subir, sempre esquadrinhando a 
propriedade por baixo. No havia o menor sinal dos cachorros. 
Espero que eles fiquem ocupados por muito tempo, pensou Tracy.
Quando chegou ao telhado, Tracy fez sinal para Jean-Louis e 
ficou esperando enquanto ele subia.  luz da lanterna de facho 
mnimo que Tracy acendeu, eles viram uma clarabia de vidro, 
trancada seguramente por dentro. Enquanto Tracy observava, 
Jean-Louis meteu a mo na mochila em suas costas e tirou um 
pequeno cortador de vidro. Levou menos de cinco minutos para 
remover um pedao do vidro. Tracy baixou os olhos e constatou 
que o caminho se achava bloqueado por uma teia de arame de 
fios de alarme.
 - Pode dar um jeito nisso, Jean? - sussurrou ela.
 - Je peux Jaire a. No h problema.
 Ele meteu a mo no bolso e tirou um fio com 30 centmetros de 
comprimento, um grampo em cada ponta. Deslocando-o lentamente, 
determinou o incio do fio do alarme. Desencapou-o e prendeu 
um grampo ali. Depois, pegou um alicate e cortou o fio com 
todo cuidado. Tracy ficou tensa, esperando pelo som do alarme. 
Mas o silncio persistiu. Jean-Louis levantou os olhos para 
ela e sorriu.
- Voil. Fini.
Errado, pensou Tracy. Est apenas comeando.
Eles usaram uma segunda escada de corda para descer pela bia. 
At ali, tudo bem. Haviam alcanado o sto em segurana. Mas 
quando Tracy pensou no que haveria pela frente, seu corao 
comeou a bater mais forte. Ela tirou de sua bolsa dois culos 
de proteco de lentes vermelhas, entregando um par a 
Jean-Louis.
 - Ponha isto.
 Ela imaginara uma maneira de distrair o doberman, mas os 
alarmes infravermelhos haviam se mostrado um problema mais 
difcil de resolver. Jeff estava correcto: A casa em 
entrecruzada por fachos invisveis. Tracy respirou fundo por 
vrias vezes. Concentre sua energia, sua chi. Relaxe. Ela 
forou a mente a uma lucidez total. Quando, uma pessoa entra 
num facho, nada acontece; mas no instante em que sai do facho, 
o sensor detecta a diferena na temperatura e o ataras  
desencadeado. Foi armado para soar antes do ladro abrir o 
cofre, no lhe dando tempo para fazer qualquer coisa antes da 
chegada da polcia.
 E nisso, conclura Tracy, estava a fraqueza do sistema. Ela 
precisava encontrar um meio para manter o alarme silencioso 
depois do cofre ser aberto. Encontrara a soluo s seis e 
meia da manh e sentira o excitamento familiar invadi-la. 
 Agora, ela ps os culos infravermelhos e no mesmo instante 
todo o sto adquiriu um claro vermelho fantasmagrico. Tracy 
avistou na frente da porta do sto um facho de luz, que seria 
invisvel sem os culos.

- Passe por baixo - ela avisou a Jean-Louis. - E tome todo o 
cuidado.
Eles rastejaram por sob o facho. Foram para um corredor s 
escuras, que levava ao quarto do Conde de Matigny. Tracy 
acendeu a lanterna e seguiu na frente. Atravs dos culos 
infravermelhos, ela divisou outro facho, este muito prximo ao 
cho, no limiar da porta do quarto. Cautelosamente, pulou por 
cima. Jean-Louis se encontrava logo atrs dela.
 Tracy passou a lanterna pelas paredes. L estavam os quadros, 
impressivos, espantosos.
Prometa que me trar o Leonardo, dissera Gunther. E tambm as 
jias,  claro.
Tracy tirou o quadro da parede, virou-o e ps no cho. Removeu 
cuidadosamente a tela da moldura, enrolou-a e guardou na 
bolsa. Agora, s restava o cofre, que ficava numa alcova com 
cortina, na outra extremidade do quarto.
 Tracy abriu a cortina. Quatro fachos infravermelhos 
atravessavam a alcova, cruzando-se. Era impossvel alcanar o 
cofre sem passar por um dos fachos. Jean-Louis olhou para os 
fachos, consternado.
- Bon Dieu de merde! No podemos passar por isso. Os fachos 
so muito rentes ao cho para se rastejar por baixo ou muito 
altos para se pular por cima.
 - Quero que faa exactamente o que eu mandar, Jean-Louis. - 
Tracy se postou atrs dele e passou os braos por sua cintura. 
- E agora ande comigo. Primeiro o p esquerdo.
 Juntos, eles deram um passo na direco dos fachos, depois 
outro. Jean-Louis balbuciou:
- Alors! Vamos entrar neles!
- Isso mesmo.
Eles avanaram directamente para o centro dos fachos, ao ponto 
em que convergiam. Tracy parou.
 - E agora, Jean-Louis, quero que voc preste toda ateno. V 
at o cofre.
 - Mas os fachos...
 - No se preocupe. No haver qualquer problema.
 Tracy torcia fervorosamente para estar certa. Hesitante, 
Jean-Louis afastou-se dos fachos infravermelhos. O silncio 
no foi rompido. Ele virou a cabea e fitou Tracy, os olhos 
enormes e assustados. Ela se colocou no meio dos fachos, o 
calor de seu corpo impedindo que os sensores soassem o alarme. 
Jean-Louis adiantou-se apressadamente para o cofre. Tracy 
permaneceu completamente imvel, sabendo que o alarme soaria 
no instante em que se mexesse. Pelo canto dos olhos, ela podia 
ver Jean-Louis, retirando algumas ferramentas da mochila nas 
costas e comeando a trabalhar imediatamente no cofre. Tracy 
continuou imvel, respirando fundo, bem devagar. O tempo 
parou. Jean-Louis parecia estar demorando uma eternidade. A 
panturrilha da perna direita de Tracy comeou a doer, depois 
entrou em espasmo. Ela rangeu os dentes. No se atrevia a 
fazer qualquer movimento.
- Quanto tempo? - sussurrou ela.
- Mais uns dez ou quinze minutos.
Parecia a Tracy que estava parada ali por toda a sua vida. Os 
msculos da perna esquerda comeavam a ter cibras. Achava-se 
imobilizada pelos fachos, congelada, Ouviu um estalido. O 
cofre estava aberto.
- Magnifique! Est ta banquei! Quer tudo? - indagou Jean-Louis.

- Nada de documentos. Somente as jias. E todo o dinheiro que 
tiver a ser seu.
- Merci.
Tracy ouviu Jean-Louis vasculhar o cofre e poucos momentos 
depois ele se aproximava dela.
- Formidable! - disse ele. - Mas como sairemos daqui sem 
romper os fachos?
- No o faremos.
Ele ficou aturdido.
- Como?
- Fique na minha frente
- Mas...
- Faa o que estou mandando.
 Em pnico, Jean-Louis avanou pelo facho. Tracy prendeu a 
respirao, Nada aconteceu.
- Muito bem. Agora, bem devagar, vamos recuar para fora da 
alcova.
- E depois?
Os olhos de Jean-Louis pareciam enormes por trs dos culos 
infravermelhos.
- E depois, meu amigo, sairemos correndo. 
Lentamente, eles recuaram pelos fachos, na direco da 
cortina, onde comeavam. Ao chegarem ali, Tracy respirou 
fundo.
- ptimo. Quando eu disser agora, samos pelo mesmo caminho 
por que entramos.
Jean-Louis engoliu em seco e assentiu. Tracy podia sentir o 
corpo pequeno dele a tremer. 
- Agora!
Tracy virou-se e, correu para a porta, Jean-Louis em seu 
encalo. No instante em que se afastaram dos fachos, o alarme 
soou. O barulho era ensurdecedor, assustador.
 Tracy disparou para o sto, subiu pela escada de corda, com 
Jean-Louis logo atrs. Correram pelo telhado, desceram pela 
hera, atravessaram os jardins para o ponto no muro em que a 
segunda escada de corda esperava. Momentos depois estavam em 
cima do furgo, no lado de fora da propriedade. Tracy
sentou-se ao volante, com Jean-Louis a seu lado.
 Enquanto o furgo descia por uma estradinha de terra 
secundria, Tracy avistou um sed escuro estacionado sob 
algumas rvores. Por um instante, os faris do furgo 
iluminaram o interior do carro. Jeff Stevens estava sentado ao 
volante. A seu lado, um enorme doberman. Tracy riu alto e 
soprou-lhe um beijo, o furgo logo se afastando a toda a 
velocidade.
  distncia, soava o gemido das sirenes de carros da polcia 
se aproximando.

26

Biarritz, na costa sudoeste da Frana, perdera muito do 
encanto que possua na passagem do sculo. O outrora famoso 
Casino Bellevue est fechado para reparos muito necessrios, 
enquanto o Casino Municipal, na Rue Mazagran,  agora um 
prdio desmantelado, alojando pequenas lojas e uma escola de 
dana. As antigas villas nos morros assumiram uma aparncia de 
nobreza maltrapilha.
Mesmo assim, durante a temporada, de julho a setembro, os 
ricos e titulados da Europa continuam a ir para Biarritz, a 
fim de desfrutar o jogo, o sol e suas recordaes. Os que no 
possuem residncias prprias ficam hospedados no luxuoso Htel 
du Palais, na Avenue Impratrice. A antiga residncia de vero 
de Napoleo III est situada num promontrio sobre o Oceano 
Atlntico, num dos mais espectaculares cenrios da natureza: 
um farol num lado, flanqueado por imensos rochedos pontiagudos 
assomando do mar cinzento como monstros pr-histricos, e a 
calada de madeira no outro.
 Numa tarde, no final de agosto, a baronesa francesa 
Marguerite de Chantilly entrou no saguo do Htel du Palais. 
Era uma mulher elegante, de cabelos louros lustrosos. Usava um 
Givenchy de seda verde e branco, que delineava um corpo que 
fazia as mulheres se virarem e olharem com inveja, deixava os 
homens embasbacados. A baronesa encaminhou-se para a recepo 
e disse:
- Ma cl, s'il vous plat.
Tinha um encantador sotaque francs.
- Pois no, baronesa.
O recepcionista entregou a Tracy a chave e diversos recados 
telefnicos. Quando ela se encaminhou para o elevador, um 
homem de culos, aparncia amarfanhada, virou-se abruptamente 
da vitrine que expunha echarpes Herms e esbarrou nela, 
derrubando a bolsa de sua mo.
- Oh, minha cara, lamento profundamente! - Ele pegou a bolsa e 
entregou a Tracy. - Por favor, perdoe-me.
Ele falava com um sotaque da Europa Central. A Baronesa 
Marguerite de Chantilly deu-lhe um aceno de cabea arrogante e 
seguiu em frente.
O ascensorista abriu a porta do elevador e deixou-a no 
terceiro andar. Tracy escolhera a Sute 312, tendo aprendido 
que muitas vezes a seleco das acomodaes no hotel era to 
importante quanto o prprio hotel. Em Capri, era o Bangal 
522, no Quisisana. Em Majorca, era a Sute Real do Son Vida, 
dando para as montanhas e a baa distante. Em Nova York, era a 
Sute da Torre 4717, no Hehnsley Palace Hotel. Em Amsterdam, 
era o Quarto 325, no Amstel, onde o hspede era embalado ao 
sono pelo marulhar suave das guas no canal.

 A Sute 312 do Htel du Palais oferecia uma vista panormica 
tanto do mar como da cidade. Tracy podia observar, de todas as 
janelas, as ondas se lanando contra os rochedos eternos, 
projectando-se do mar como vultos afogados. Directamente 
abaixo de sua janela ficava uma piscina enorme, em formato de 
rim, a gua de um azul brilhante contrastando com o cinzento 
do oceano, tendo ao lado um terrao amplo, com guarda-sis 
para proteger do sol do vero. As paredes da Sute eram 
forradas em damasco azul e branco, os rodaps eram de mrmore, 
os tapetes e cortinas da cor de rosa desbotada. A madeira das 
portas e janelas era manchada com a suave patina do tempo.
 Depois de trancar a porta, Tracy tirou a peruca loura muito 
justa e massageou o couro cabeludo. A personagem da baronesa 
era uma de suas melhores. Havia centenas de ttulos a escolher 
em Debrett's Peerage and Baronetage e no Almanach de Gotha, 
duquesas, princesas, baronesas e condessas s dezenas, de duas 
dzias de pases. Os livros eram valiosos para Tracy, pois 
forneciam histrias de famlia remontando por sculos, com os 
nomes de pais, mes e filhos, escolas e casas, endereos de 
residncias. Era uma questo simples escolher uma famlia 
preeminente e tornar-se uma prima distante - particularmente 
uma prima distante rica. As pessoas sempre se impressionavam 
por ttulos e dinheiro.
Tracy pensou no estranho que esbarrara nela no saguo do hotel 
e sorriu.

ss oito horas daquela noite, a Baronesa Marguerite de 
Chantilly estava sentada no bar do hotel quando o homem com 
quem colidira no saguo aproximou-se de sua mesa.
 - Com licena - disse ele, timidamente - mas quero pedir 
desculpas outra vez por minha falta de jeito indesculpvel. 
esta tarde.
 Tracy presenteou-o com um sorriso gracioso.
 - No foi nada. Apenas um acidente.
 -  muito gentil. - O homem hesitou. - Eu me sentiria muito 
melhor se me permitisse lhe oferecer um drinque.
- Oui... se faz questo.
 Ele ocupou uma cadeira  frente de Tracy.
- Permita que eu me apresente. Sou o Professor Adolf 
Zuckerman.
- Marguerite de Chantilly.
 Zuckerman fez sinal para o garon e depois perguntou a Tracy:
- O que gostaria de tomar?
- Champanha. Isto , se...
 Ele levantou a mo, num gesto tranquilizador.
 - Tenho condies. E, para dizer a verdade, estou prestes a 
ter condies de oferecer qualquer coisa no mundo.
-  mesmo? - Tracy sorriu - Isso  ptimo para voc. 
- Tem toda a razo.
 Zuckerman pediu uma garrafa de Bolfinger, depois tornou a 
virar-se para Tracy.
 - Aconteceu-me a coisa mais extraordinria. Eu no deveria 
estar discutindo isso com uma estranha, mas  excitante demais 
para me manter calado. - Ele inclinou-se para a frente e 
baixou a voz. - Para ser franco, sou um simples professor... 
ou era, at recentemente. Ensino histria.  bastante 
agradvel, mas no muito emocionante.
Tracy escutava com uma expresso de interesse polido no rosto.
- Ou melhor, no era emocionante at h poucos meses atrs.
- Posso perguntar o que aconteceu h poucos meses, Professor 
Zuckerman?

 - Eu fazia pesquisas sobre a Armada Espanhola, procurando 
informaes que pudessem tornar o assunto mais interessante 
para meus alunos. Nos arquivos do museu local, encontrei um 
velho documento que de alguma forma se misturara com outros 
papis. Continha detalhes sobre uma expedio secreta que o 
Prncipe Philip despachou em 1588. Um dos navios, carregado de 
barras de ouro, supostamente naufragou numa tempestade, 
desaparecendo sem deixar qualquer vestgio.
 Tracy fitou-o com uma expresso pensativa.
- Supostamente naufragou?
- Exactamente. Mas, de acordo com esse documento que descobri, 
o comandante e a tripulao deliberadamente afundaram o navio 
numa enseada deserta, planeando voltar depois para recolher o 
tesouro. Mas foram atacados e mortos por piratas, antes que 
pudessem voltar. O documento s sobreviveu, porque nenhum dos 
piratas sabia ler ou escrever E, assim, ignoravam o que tinham 
em mos.
 A voz do professor tremia agora de excitamento.
- Agora... - Ele, olhou ao redor, certificando-se de que era 
seguro continuar, baixou ainda mais a voz para acrescentar: 
-... eu tenho o documento, com instrues detalhadas sobre a 
maneira de chegar ao tesouro.
 - Uma descoberta afortunada, professor.
 Havia um tom de admirao na voz de Tracy.
- O ouro vale provavelmente cinquenta milhes de dlares hoje 
- disse Zuckerman. -Tudo o que tenho de fazer  tir-lo l do 
fundo.
- O que o est impedindo?
Ele encolheu os ombros, embaraado.
- Dinheiro, Preciso equipar um navio para trazer o ouro  
superfcie.
- Entendo... Quanto isso custa?
- Cem mil dlares. Devo confessar que fiz uma tremenda tolice. 
Peguei vinte mil dlares... as economias de minha vida... e 
vim para Biarritz jogar no cassino, esperando ganhar o 
suficiente para...
 A voz dele sumiu.
 - E perdeu tudo.
 O professor assentiu. Tracy percebeu o brilho de lgrimas por 
trs dos culos.
 O champanha chegou, o garon tirou a rolha, despejou o 
lquido dourado nos copos.
 - Bonne chance - brindou Tracy.
 - Obrigado.
Eles tomaram um gole do champanha, num silncio pensativo.
- Por favor, perdoe-me por entedi-la com a minha histria - 
disse Zuckerman. - Eu no deveria estar expondo os meus 
problemas a uma linda dama.
- Achei a sua histria fascinante, professor. Tem certeza de 
que o ouro est mesmo l?
- Sem a menor sombra de dvida. Tenho as ordens de embarque 
originais e um mapa desenhado pelo prprio comandante. Conheo 
a localizao exacta do tesouro.
Tracy observava-o com uma expresso cada vez mais pensativa.
- Mas precisa de cem mil dlares, no  mesmo?
Zuckerman riu, tristemente.
- Exactamente. Para obter um tesouro que vale cinquenta 
milhes de dlares.
Ele tomou outro gole de champanha.
-  possvel...
Tracy no acrescentou mais nada.
- O qu?
- J pensou em arrumar um scio?
 Ele ficou surpreso.

- Um scio? No. Planeei fazer tudo sozinho. Mas  claro que 
agora que perdi meu dinheiro...
 Sua voz tornou a sumir.
 - E se eu lhe desse os cem mil dlares, Professor Zuckerman?
 Ele sacudiu a cabea.
 - Absolutamente no, baronesa. Eu no permitiria. Pode perder 
seu dinheiro.
- Mas se tem certeza de que o tesouro se encontra l...
- Quanto a isso, tenho certeza absoluta. Mas mil coisas podem 
sair erradas. No h garantias.
 - H poucas garantias na vida. Seu problema  muito 
interessante. Se eu o ajudasse a resolver, poderia ser 
lucrativo para ns dois.
 - No. Eu jamais me perdoaria se, por algum acaso remoto, 
perdesse o seu dinheiro.
 - Posso arcar com o prejuzo. E poderia obter um grande lucro 
com meu investimento, no ?
 - Claro que tem esse lado. - Zuckerman ficou em silncio por 
um longo tempo, obviamente dilacerado pelas dvidas. - Se  o 
que deseja, ser uma sociedade meio a meio.
Ela sorriu, satisfeita.
- D'accord. Eu aceito.
 O professor apressou-se em acrescentar:
 - Descontadas as despesas,  claro.
 - Naturalmente. Quando podemos comear?
 - Imediatamente. - O professor exibia uma repentina 
vitalidade. - J encontrei o barco que quero usar. Possui um 
equipamento moderno de dragagem e quatro tripulantes.  claro 
que teremos de dar a eles uma pequena parecela do que 
encontrarmos.
- Bien sur.
- Devemos comear o mais depressa possvel ou poderemos perder 
o barco.
- Posso ter o dinheiro disponvel em cinco dias.
- Maravilhoso! - exclamou Zuckerman. - Isso me dar tempo 
suficiente para todos os preparativos. Ah, que encontro 
fortuito para ns dois, no  mesmo?
- Sim, sem dvida.
-  nossa aventura.
O professor ergueu seu copo. Tracy tambm ergueu o seu e 
brindou:
- Que seja to lucrativa quanto eu pressinto que ser. 
Os copos retiniram. Tracy olhou atravs do bar e ficou 
paralisada. Jeff Stevens se encontrava a uma mesa no canto, 
observando-a com um sorriso divertido. Tinha em sua companhia 
uma mulher atraente, carregada de jias.
 Jeff acenou com a cabea para Tracy e ela sorriu, recordando 
como o vira pela ltima vez, no lado de fora da propriedade do 
Conde de Matigny, acompanhado por um enorme co. Aquela foi 
uma vitria minha, pensou Tracy, feliz.
 - Com licena, mas  melhor eu me retirar agora - Zuckerman 
estava dizendo. -Tenho muito o que fazer. Ficarei em contacto.
Tracy estendeu a mo, graciosamente, ele beijou-a e partiu.

- Vi que seu amigo a abandonou e no posso imaginar o motivo. 
Voc est absolutamente sensacional como uma loura.
 Tracy levantou os olhos. Jeff estava de p ao lado de sua 
mesa. Ele sentou na cadeira que Adolf Zuckerman desocupara 
poucos minutos antes.

 - Meus parabns - acrescentou Jeff. - O golpe do Conde de 
Matigny foi muito engenhoso. Impecvel.
- Partindo de voc, Jeff,  um grande elogio.
- Est-me custando muito dinheiro, Tracy.
- Acabar se acostumando.
 Ele ficou brincando com o copo  sua frente.
 - O que o Professor Zuckerman queria?
 - Voc o conhece?
 - Pode-se dizer que sim.
 - Ele... ahn... apenas queria tomar um drinque.
 - E lhe falou sobre o tesouro afundado?
Tracy tornou-se subitamente cautelosa.
 - Como sabe disso?
 Jeff fitou-a com uma expresso surpresa.
 - No me diga que caiu!  a mais antiga vigarice do mundo.
 - No desta vez.
 - Est querendo dizer que acreditou nele?
 Tracy disse, rigidamente:
 - No estou em liberdade para discutir o assunto, mas 
acontece que o professor dispe de informaes confidenciais.
 Jeff sacudiu a cabea, incrdulo.
 - Ele est tentando pass-la para trs, Tracy. Quanto lhe 
pediu para investir em seu tesouro afundado?
 - No interessa - respondeu Tracy, bruscamente. -  meu 
dinheiro.
 Jeff encolheu os ombros.
 - Certo. Mas depois no diga que o velho Jeff no tentou 
avis-la.
 - Isso no significa que voc est Interessado no ouro, pois 
no?
 Ele levantou as mos, num gesto irnico de desespero.
- Por que est sempre to desconfiada de mim?
 -  muito simples. No confio em voc. Quem era aquela mulher 
que lhe fazia companhia?
 Tracy desejou no mesmo instante poder retirar a pergunta.
 - Suzanne? Uma amiga.
 - Rica,  claro.
 Jeff exibiu um sorriso prolongado.
 - Para ser franco, acho que ela tem algum dinheiro. Se quiser 
nos acompanhar no almoo amanh, o chef de Suzanne, em seu 
iate de duzentos e cinquenta ps ancorado no porto, faz um...
 - Obrigada, mas por nada neste mundo eu poderia atrapalhar o 
seu almoo. O que est vendendo a ela?
 - Isso  pessoal.
- Tenho certeza de que  mesmo.
 As palavras saram mais speras do que Tracy tencionara. Ela 
estudou-o por cima da borda de seu copo. Ele tinha feies 
firmes, lindos olhos cinzentos, pestanas compridas e o corao 
de uma cascavel. Uma cascavel muito inteligente.
 - J pensou alguma vez em se meter num negcio legitimo? - 
perguntou Tracy. - Provavelmente seria muito bem sucedido.
 Jeff ficou chocado.
 - E renunciar a tudo isto? Voc s pode estar gracejando!
 - Sempre foi um vigarista?
 - Vigarista? Sou um entrepreneur.
 - E como se tornou um... um entrepreneur?
 - Fugi de casa quando tinha catorze anos e me juntei a um 
parque de diverses ambulante.

 - Aos catorze anos?
 Era o primeiro vislumbre que Tracy tinha do que havia por 
trs do verniz sofisticado e charmoso.
 - Foi bom para mim... aprendi a enfrentar as coisas. Quando 
surgiu essa maravilhosa guerra do Vietname, ingressei nos 
Boinas Verdes e fiz um curso de ps-graduao. Creio que a 
coisa principal que aprendi foi que a guerra era a maior das 
vigarices. Em comparao com aquilo, voc e eu no passamos de 
amadores. - Ele mudou de assunto abruptamente. - Gosta de 
pelota?
- Se est vendendo, no, obrigada.
 -  um jogo, uma variao do jai alai. Tenho dois ingressos 
para esta noite, mas Suzanne no poder ir. Gostaria de ir?
 Tracy descobriu-se a dizer que sim.

Eles jantaram num pequeno restaurante na praa municipal, 
tomando um vinho local e comendo confit de canard d'aile - 
pato assado em seus prprios sumos, com batatas e alho. Estava 
delicioso.
- A especialidade da casa - informou Jeff a Tracy. 
Conversaram sobre poltica, livros e viagens. Tracy descobriu 
que Jeff era surpreendentemente bem informado.
- Quando se est entregue  prpria sorte aos catorze anos - 
explicou Jeff -  preciso aprender as coisas depressa. 
Primeiro, aprende-se o que motiva a gente, depois o que motiva 
as outras pessoas. Uma vigarice  igual ao jiu-jitsu. No 
jiu-jitsu, usa-se a fora do oponente para vencer. Numa 
vigarice, usa-se a sua ganncia. Voc s faz o primeiro 
movimento. Ele cuida de todo o resto por voc.
Tracy sorriu, especulando se Jeff tinha alguma idia do quanto 
os dois eram parecidos. Ela gostava de sua companhia, mas 
tinha certeza de que, havendo a oportunidade, Jeff no 
hesitaria em tra-la. Era um homem com quem se tinha de tomar 
todo cuidado e ela no tencionava facilitar.
A pelota era jogada numa grande arena ao ar livre, do tamanho 
de um campo de futebol, no alto das colinas de Biarritz. As 
enormes tabelas verdes de concreto nos dois lados da quadra, 
com uma rea de jogar no centro, quatro fileiras de 
arquibancadas de pedra nos lados. Os reactores foram acesos ao 
anoitecer. Quando Jeff e Tracy chegaram, as arquibancadas 
estavam quase lotadas de fs. As duas equipes entraram em 
aco.
Membros de cada equipe se revezavam em arremessar a bola no 
muro de concreto e apanh-la no rebote em suas cestas, 
compridas e estreitas, presas nos braos. A pelota era um jogo 
rpido e perigoso. Quando um dos jogadores errava, a multido 
se punha a gritar.
 - Eles realmente levam esse jogo muito a srio - comentou 
Tracy.
 - Muito dinheiro  apostado nas partidas. Os bascos formam 
uma raa de jogadores. 
 Enquanto os espectadores continuavam a chegar, as 
arquibancadas foram ficando cada vez mais cheias. Tracy se 
descobriu comprimida contra Jeff. Se ele estava consciente do 
calor do corpo dela junto ao seu, no deixou transparecer.
 O ritmo e ferocidade do jogo pareciam se intensificar  
medida que os minutos passavam. Os gritos dos torcedores 
ressoavam pela noite.

 -  mesmo to perigoso quanto parece? - perguntou Tracy.
- Baronesa, aquela bola viaja pelo ar a uma velocidade 
superior a cento e cinquenta quilmetros horrios. Se bater em 
sua cabea, est morta. Mas  raro um jogador errar.
 Jeff afagou-lhe a mo distraidamente, os olhos concentrados 
no jogo. Os jogadores eram extraordinrios, movendo-se 
graciosamente, em perfeito controle. Mas, no meio da partida, 
inesperadamente, um dos jogadores arremessou a bola contra a 
tabela num ngulo errado. A bola mortfera avanou para o 
banco em que Jeff e Tracy estavam sentados. Os espectadores 
tentaram se proteger. Jeff agarrou Tracy e empurrou-a para o 
cho, seu corpo cobrindo o dela. Ouviram a bola passar 
directamente por cima de suas cabeas e bater na parede. Tracy 
ficou deitada no cho, sentindo a dureza do corpo de Jeff. O 
rosto dele estava muito prximo do seu.
Ele segurou-a por um momento, depois levantou-se e ajudou-a a 
se erguer tambm. Havia um sbito constrangimento entre os 
dois. 
- Eu... eu acho que j tive emoo suficiente por uma noite - 
murmurou Tracy. - Gostaria de voltar ao hotel, por favor.
Despediram-se no saguo.
- Gostei muito da noite - disse Tracy a Jeff, falando com 
absoluta sinceridade.
- Tracy, pretende mesmo levar adiante a histria maluca do 
tesouro afundado de
 - Claro.
 Ele estudou-a, por um longo momento.
 - Ainda pensa que estou atrs daquele ouro, no  mesmo?
 Tracy fitou-o nos olhos.
 - E no est?
 A expresso de Jeff se endureceu.
 - Boa sorte.
 - Boa noite, Jeff.
 Tracy observou-o virar-se e deixar o hotel. Calculou que ele 
ia ao encontro de Suzanne. Pobre mulher. Quando ela foi pegar 
a chave, o recepcionista disse:
- Boa noite, baronesa. H um recado  sua espera.
Era do Professor Zuckerman.

Adolf Zuckerman tinha um problema. Um problema muito grande. 
Estava sentado no escritrio de Armand Grangier e ficara to 
apavorado pelo que estava acontecendo que urinara nas calas. 
Grangier era o proprietrio de um cassino particular ilegal, 
localizado numa elegante viria, na Rue Frias, 123. No fazia a 
menor diferena para Grangier se o Casino Municipal estava 
fechado ou no, pois o clube da Rue Frias sempre ficava 
repleto de clientes ricos. Ao contrrio dos cassinos 
supervisionados pelo governo, as apostas ali eram ilimitadas. 
Aquele era o lugar em que os grandes apostadores iam jogar 
roleta, chemin de fer e dados. Os clientes de Grangier 
incluam prncipes rabes, a nobreza inglesa, homens de 
negcios orientais, chefes de Estado africanos. Jovens 
escassamente vestidas circulavam pela sala, recebendo pedidos 
para mais champanha e usque. Arrnand Grangier aprendera h 
muito tempo que os ricos, mais do que qualquer outra classe, 
apreciavam obter alguma coisa de graa. Grangier podia se dar 
ao luxo de oferecer bebidas de graa, pois suas roletas eram 
viciadas e os jogos de cartas combinados.

O clube geralmente vivia repleto, com finas jovens escoltadas 
por homens mais velhos e endinheirados. Mais cedo ou mais 
tarde, as mulheres eram atradas para Grangier. Ele era uma 
miniatura de homem, com feies perfeitas, olhos castanhos 
profundos, uma boca suave e sensual. Tinha 1,60 metros de 
altura e a combinao de beleza e pequena estatura atraia as 
mulheres como um man. Grangier tratava a todos com uma 
admirao simulada.
 - Eu a acho irresistvel, chrie, mas infelizmente para ns 
dois estou loucamente apaixonado por outra mulher.
 E era verdade.  claro que a outra mulher mudava de semana 
para semana pois em Biarritz havia um suprimento interminvel 
de finas jovens e Armand Grangier concedia a cada uma o seu 
breve lugar ao sol.
 As ligaes de Grangier com o submundo e a polcia eram 
bastante poderosas para que pudesse manter seu cassino. 
Empenhara-se arduamente para subir pela escada do crime, 
comeando como mensageiro no trfico de txicos, at 
finalmente conquistar seu feudo em Biarritz. Os que se opunham 
a ele sempre descobriam, tarde demais, como o homenzinho podia 
ser mortfero.
 Agora, Adolf Zuckerman estava sendo interrogado por Armand 
Grangier.
 - Fale-me mais a respeito dessa baronesa com quem voc falou 
sobre o golpe de tesouro afundado.
 Pelo tom furioso de sua voz, Zuckerman compreendeu que alguma 
coisa estava errada, terrivelmente errada. Ele engoliu em seco 
e disse:
 - Ela  viva. O marido deixou-lhe muito dinheiro. Disse que 
vai entrar com cem mil dlares. - O som de sua prpria voz 
deu-lhe confiana para continuar: - Depois que recebermos o 
dinheiro,  claro, diremos a ela que o navio de salvamento 
sofreu um acidente e precisamos de mais cinquenta mil. E 
depois haver outros cem mil... e assim por diante. 
 Ele percebeu a expresso desdenhosa no rosto de Armand 
Grangier e balbuciou:
 - Qual... qual  o problema, chefe?
 - O problema  que acabei de receber um telefonena de um dos 
meus homens em Paris. Ele falsificou um passaporte para a sua 
baronesa. Ela se chama Tracy Whitney e  americana. Zuckerman 
sentiu a boca subitamente ressequida. Passou a lngua pelos 
lbios.
 - Ela... ela parecia realmente interessante, chefe.
- Balle! Conneau! Ela  uma vigarista. Voc tentou dar um 
golpe numa golpista!
 - Ento... ento por que ela aceitou? Por que simplesmente 
no me repeliu?
 A voz de Armand Grangier era gelada:
 - No sei, professor, mas tenciono descobrir. E quando o 
fizer, mandarei a mulher dar um mergulho na baa. Ningum pode 
fazer Armand Grangier de idiota. Agora, pegue o telefone. Diga 
a ela que um amigo seu props entrar com a metade do dinheiro 
e que eu estou indo falar-lhe. Acha que pode fazer isso?
 Zuckerman disse ansiosamente:
 - Claro, chefe. No se preocupe.
- Eu me preocupo - disse Armand Grangier, falando bem devagar. 
- Eu me preocupo muito com voc.


Armand Grangier no gostava de mistrios. O golpe do tesouro 
afundado vinha dando certo h sculos, mas era necessrio que 
as vitimas fossem crdulas. No havia a menor possibilidade de 
uma vigarista cair num golpe assim. Era esse o mistrio que 
perturbava Grangier. Ele tencionava esclarec-lo; e depois que 
o fizesse, a mulher seria entregue a Bruno Vicente. Vicente 
gostava de se divertir com suas vitrinas, antes de 
liquid-las.
Armand Grangier saltou da limusine diante do Htel du Palais, 
entrou no saguo e aproximou-se de Jules Bergerac, o basco de 
cabea branca que trabalhava no hotel desde os 13 anos de 
idade. 
- Qual  o nmero da Sute da Baronesa Marguerite de 
Chantilly?
Havia uma regra rigorosa que vedava aos recepcionistas 
informarem os nmeros dos quartos dos hspedes. Mas as regras 
no se aplicavam a Armand Grangier.
- Sute 312, Monsieur Grangier.
- Merci.        
- E Quarto 311.
Grangier parou.
- Como?
- A baronesa tambm tem um quarto ao lado de sua Sute.
-  mesmo? E quem o ocupa?
- Ningum.
- Ningum? Tem certeza?
- Oui, monsieur. Ela mantm esse quarto sempre trancado. As 
criadas foram avisadas para no entrarem ali.
Grangier franziu o rosto, numa expresso de perplexidade.
- Tem uma chave mestra?
- Claro.
Sem a menor hesitao, o recepcionista meteu a mo por baixo 
do balco, pegou a chave mestra e entregou-a a Armand 
Grangier. Jules observou Armand Grangier se encaminhar para o 
elevador. Nunca se discutia com um homem como Grangier.
 Ao chegar  porta da Sute da baronesa, Armand Grangier 
encontrou-a entreaberta. Empurrou-a e entrou. A sala de estar 
se encontrava vazia.
 - Ol? Tem algum aqui?
 Uma voz feminina respondeu do outro cmodo:
 - Estou no banho. Espere s um momento. Sirva-se de um 
drinque, por favor.
 Grangier vagueou pela sute. Conhecia tudo ali, pois ao longo 
dos anos instalara no hotel muitas de suas amigas. Entrou no 
quarto. Jias caras estavam negligentemente espalhadas sobre a 
penteadeira.
 - No vou demorar - gritou a voz feminina do banheiro.
 - No h pressa, baronesa.

 Baronesa mon cul!, pensou ele, furioso. Qualquer que seja o 
seu golpe, chrie, vai malograr. Ele foi at a porta que dava 
para o quarto adjacente. Estava trancada. Grangier tirou a 
chave mestra do bolso e abriu a porta. O quarto em que entrou 
tinha um cheiro estranho, bolorento. O recepcionista dissera 
que ningum o ocupava. Ento por que ela precisava... A 
ateno de Grangier foi atrada para uma coisa estranhamente 
deslocada. Um fio elctrico, preto e grosso, preso a uma 
tomada na parede, estendia-se pelo assoalho e desaparecia num 
armrio. A porta do armrio se achava aberta para dar passagem 
ao fio. Curioso, Grangier adiantou-se e abriu a porta.
Uma fileira de notas de cem dlares midas, presas por 
pregadores a um arame, estendia-se de um lado a outro do 
armrio grande. Havia um objecto coberto por um pano numa 
mesinha de mquina de escrever. Ele levantou o pano, 
descobrindo uma pequena impressora, com uma nota de cem 
dlares ainda molhada. Ao lado da impressora havia folhas de 
papel em branco, do tamanho da nota americana, assim como um 
cortador de papel. Vrias notas de cem dlares, cortadas de 
maneira errada, estavam espalhadas pelo cho. Uma voz furiosa, 
por trs de Grangier, perguntou: 
 - O que faz aqui?
 Grangier virou-se. Tracy Whitney, os cabelos molhados do 
banho e envolta numa toalha, entrara no quarto. Armand 
Grangier disse, suavemente:
- Dinheiro falso! Voc ia nos pagar com dinheiro falso!
Ele observou a reaco da mulher. Negativa, indignao e 
depois desafio.
 - Est bem - admitiu Tracy. - Mas no faria a menor 
diferena. Ningum pode distinguir estas notas das 
verdadeiras.
- Isso  demais!
 Seria um prazer destruir aquela mulher.
- Estas notas so to boas quanto ouro.
-  mesmo?
Havia desdm na voz de Grangier. Ele pegou uma das notas 
midas e examinou-a. Olhou um lado, depois o outro, examinou 
mais atentamente. Era uma falsificao excelente.
 - Quem fez as matrizes?
 - Que importncia isso tem? Posso ter os cem mil dlares 
prontos at sexta-feira.
 Grangier fitou-a, aturdido. E quando compreendeu o que ela 
estava pensando, no pde conter uma risada. 
 - Essa no! Voc  mesmo estpida. No existe nenhum navio.
 Tracy mostrou-se desconcertada.
- Como assim? No existe nenhum navio? Mas o Professor 
Zuckerman me garantiu...
 - E acreditou nele? Mas que pena, baronesa. - Ele tornou a 
estudar a nota em sua mo. - Levarei isto.
 Tracy encolheu os ombros.
 - Pode levar quantas quiser.  apenas papel.
Grangier pegou um punhado das notas midas de cem dlares.
- Como pode saber que uma das criadas no entrar aqui?
- Eu pago para elas ficarem longe - E tranco o armrio quando 
saio.
Ela  fria, pensou Armand Grangier. Mas isso no ser 
suficiente para mant-la viva.
 - No deixe o hotel - ordenou ele. - Tenho um amigo que quero 
que voc conhea.


Armand Grangier tencionava entregar a mulher a Bruno Vicente 
imediatamente, mas algum instinto o conteve. tornou a examinar 
uma das notas. J manipulara muito dinheiro falsificado, mas 
nada to bom quanto aquele. Quem quer que fizera as matrizes 
era um gnio. O papel parecia autntico, as unhas eram 
perfeitas e limpas. As cores permaneciam definidas, mesmo com 
a nota mida. A imagem de Benjamin Franklin era perfeita. A 
mulher estava certa. Era difcil dizer a diferena entre o que 
ele tinha na mo e a coisa verdadeira. Grangier especulou se 
seria possvel pass-la como dinheiro genuno. Era uma idia 
tentadora.
Ele decidiu manter Bruno Vicente  espera por mais algum 
tempo. Na manh seguinte, bem cedo, Armand Grangier mandou 
chamar Adolf Zuckerman e entregou-lhe uma das notas de cem 
dlares.
 - V ao banco e troque isto por francos.
 - Certo, chefe.
Grangier observou-o deixar apressadamente o escritrio. Aquela 
era a punio de Zuckerman por sua estupidez. Se ele fosse 
preso, nunca diria de onde sara a nota falsa... no se 
quisesse viver. Mas se ele conseguisse passar a nota sem 
problemas... Vamos esperar para ver o que acontece, pensou 
Grangier.
Zuckerman voltou ao escritrio 15 minutos depois. Contou um 
bolo de francos franceses, no valor de cem dlares.
 - Mais alguma coisa, chefe?
 Grangier ficou olhando para os francos.
 - Teve algum problema?
 - Problema? No. Por qu?
 - Quero que volte ao mesmo banco e diga o seguinte...

Adolf Zuckerman entrou no saguo do Banque de France e 
aproximou-se da mesa do gerente. Desta vez, Zuckerman, tinha 
conscincia do perigo que corria, mas preferia enfrent-lo a 
ficar exposto  ira de Grangier.
 - O que deseja? - perguntou o gerente.
Zuckerman fez um esforo para disfarar seu nervosismo.
- O problema  que me meti num jogo de pquer ontem  noite, 
com alguns americanos que conheci num bar. 
Ele parou de falar. O gerente do banco acenou com a cabea 
vigorosamente.
- E perdeu todo o seu dinheiro, est precisando agora de um 
pequeno emprstimo?
- No  isso. Para dizer a verdade, eu ganhei. O problema  
que os homens no pareciam muito honestos. - Zuckerman tirou 
do bolso duas notas de cem dlares - Pagaram-me com este 
dinheiro e receio... receio que talvez seja falso.
Zuckerman prendeu a respirao, enquanto o gerente se 
inclinava para a frente e pegava as notas com suas mos 
rechonchudas. Examinou-as meticulosamente, primeiro uma, 
depois a outra, suspendeu-as contra a luz. finalmente, ele 
olhou para Zuckerman e sorriu.
 - Teve sorte, monsieur. Estas notas so genunas.
 Zuckerman permitiu-se deixar o ar escapar dos pulmes. Graas 
a Deus! Tudo daria certo.

- No h qualquer problema, chefe. Ele disse que as notas so 
genunas.
Era quase bom demais para ser verdade. Armand Grangier ps-se 
a pensar, um plano j parcialmente formulado em sua mente.
- V buscar a baronesa.

Tracy estava sentada no escritrio de Armand Grangier, 
fitando-o atravs da mesa.
- Ns vamos ser scios - informou-a Grangier.
Tracy comeou a se levantar.

- No preciso de um scio e...
- Sente-se.
Ela fitou Grangier nos olhos e sentou-se.
- Biarritz  minha cidade. Tente passar uma s dessas notas e 
ser presa to depressa que nem saber o que lhe aconteceu. 
Comprenez vous? Coisas terrveis acontecem com as mulheres 
bonitas em nossas prises. No poder fazer qualquer coisa por 
aqui sem a minha permisso.
Ela estudou-o.
- Ento o que estou comprando de voc  proteco?
- Errado. O que est comprando de mim  a sua vida. 
 Tracy acreditou.
 - E agora me diga onde arrumou suas matrizes.
 Tracy hesitou e Grangier gostou de v-la se contorcer e 
acabar por se render. Ela disse, relutante:
 - Comprei de um americano que vive na Sua. Ele foi gravador 
da Casa da Moeda dos Estados Unidos por vinte e cinco anos. 
Quando o aposentaram, houve algum problema tcnico e nunca lhe 
pagaram a penso. Ele sentiu-se trapaceado e resolveu se 
vingar. Tirou dos Estados Unidos algumas chapas de notas de 
cem dlares que deveriam ter sido destrudas, usou os seus 
contactos para obter o papel com que o Departamento de Tesouro 
imprime seu dinheiro.
Isso explica tudo, pensou Grangier, triunfante.  por isso que 
as notas parecem to boas. Seu excitamento era cada vez maior.
 - Quanto dinheiro a impressora pode produzir em um dia?
- Somente uma nota por hora. Cada lado do papel tem de ser 
processado e...
 Grangier interrompeu-a:
 - No h uma impressora maior?
 - H, sim. Ele tem uma que produz cinquenta notas a cada oito 
horas, mas s venderia por meio milho de dlares.
- Compre-a - ordenou Grangier.
 - Acontece que no tenho quinhentos mil dlares.
 - Mas eu tenho. Quando poder ter uma impressora maior?
 Tracy respondeu, relutante:
 - Acho que imediatamente. Mas eu no...
 Grangier pegou o telefone e disse:
 - Louis, quero quinhentos mil dlares em francos franceses. 
Tire o que temos no cofre e pegue o resto com os bancos. Traga 
ao meu escritrio. Vite!
Tracy levantou-se, bastante nervosa.
-  melhor eu ir e...
- Voc no vai a lugar nenhum.
 - Mas eu preciso...
 - Fique sentada ai e mantenha-se calada. Estou pensando.
 Ele tinha associados nos negcios que esperariam ser 
includos numa operao como aquela. Mas o que eles sabem lhes 
far mal, decidiu Grangier. Compraria a impressora maior para 
si mesmo e substituiria o dinheiro que tomara emprestado da 
conta do cassino nos bancos pelos dlares que imprimiria. 
Depois disso, mandaria Bruno Vicente cuidar da mulher. Ela no 
gostava de scios.
Armand Grangier tambm no.

O dinheiro chegou duas horas depois, numa sacola grande. 
Grangier disse a Tracy:

 - Voc sair do Palais. Tenho uma casa nas colinas que  
muito particular. Ficar l at iniciarmos a operao. - Ele 
empurrou o telefone na direco de Tracy. - Agora, ligue para 
o seu amigo na Sua e diga a ele que vamos comprar a 
impressora grande.
- Tenho o telefone dele no hotel. Ligarei de l. D-me o 
endereo de sua casa. Avisarei a ele para enviar a impressora 
para l e...
- No! - gritou Grangier, rispidamente. - No quero deixar 
qualquer pista. Mandarei busc-la no aeroporto. Conversaremos 
a esse respeito esta noite, durante o jantar. Eu a verei s 
oito horas.
Era uma dispensa. Tracy levantou-se. Grangier acenou com a 
cabea para a sacola que continha o dinheiro.
 - Tome cuidado com o dinheiro. Eu no gostaria que nada 
acontecesse com o dinheiro... nem com voc.
 - Nada acontecer.
 Ele sorriu sugestivamente.
 - Sei disso. O Professor Zuckerman a acompanhar de volta ao 
hotel.
 Os dois seguiram em silncio na limusine, a sacola com o 
dinheiro entre eles, cada um absorto em seus pensamentos. 
Zuckerman no sabia direito o que estava acontecendo, mas 
tinha a impresso de que seria ptimo para ele. A mulher era a 
chave de tudo. Grangier lhe ordenara que ficasse de olho nela 
e era o que Zuckerman tencionava fazer.

Armand Grangier ficou eufrico naquela noite. quela altura, a 
compra da impressora grande j deveria estar acertada. A 
mulher Whitney dissera que imprimiria cinco mil dlares por 
dia. Mas Grangier tinha um plano melhor. Tencionava oper-la 
em turnos, 24 horas por dia. Isso daria 15 mil dlares por 
dia, mais de cem mil dlares por semana, um milho a cada dez 
semanas. E isso era apenas o comeo. Descobriria quem era o 
gravador naquela noite e faria um acordo com ele para obter 
mais mquinas. No havia limite para a fortuna que a operao 
lhe traria.
 Eram precisamente oito horas quando a limusine de Grangier 
parou diante da entrada do Htel du Palais. Grangier saltou. 
Ao entrar no saguo, notou com satisfao que Zuckerman se 
achava sentado perto da entrada, observando atentamente as 
portas. Grangier encaminhou-se para a recepo.
- Jules, avise  Baronesa de Chantilly que eu estou aqui. 
Mande-a descer para o saguo.
O recepcionista ficou surpreso.
- Mas a baronesa j deixou o hotel, Sr. Grangier.
- Est enganado. Ligue para ela.
Jules Bergerac sentiu-se consternado. No era saudvel 
contestar Armand Grangier.
- Eu mesmo fiz o registo de sada.
Impossvel!
 - Quando?
 - Pouco depois que ela voltou ao hotel. Pediu-me para levar a 
conta  sua Sute, a fim de poder pagar em dinheiro...
 A mente de Armand Grangier estava em disparada vertiginosa.
- Em dinheiro? Francos franceses?
- Isso mesmo, monsieur.
Grangier perguntou, freneticamente:

- Ela levou alguma coisa de sua Sute? Qualquer bagagem ou 
caixas?
- No. Ela disse que mandaria buscar a bagagem mais tarde. 
Ento ela levara o seu dinheiro e fora para a Sua, a fim de 
comprar pessoalmente a impressora maior! 
 - Leve-me para a sua Sute. Depressa!
 - Oui, Monsieur Grangier.
 Jules Bergerac pegou uma chave na parede por trs e seguiu 
apressadamente para o elevador, junto com Armand Grangier. Ao 
passar por Zuckerman, Grangier sibilou:
 - Por que est sentado a, seu idiota? Ela j foi embora.
 Zuckerman fitou-o sem compreender.
- Ela no pode ter ido embora. No desceu para o saguo. 
Fiquei atento a ela.
- Atento a ela! - imitou-o Grangier, brutalmente. - Mas por 
acaso esteve atento a uma enfermeira, uma velhinha de cabea 
branca ou uma criada saindo pela porta de servio?
 Zuckerman ficou aturdido.
 - Por que eu deveria fazer isso?
 - Volte ao cassino - disse Grangier asperamente - Cuidarei de 
voc mais tarde.
 A Sute parecia exactamente como quando Grangier ali fora 
anteriormente. A porta de ligao com o quarto adjacente se 
achava aberta. Grangier entrou, foi apressadamente at o 
armrio, abriu a porta. A impressora ainda estava ali, graas 
a Deus! A mulher Whitney tinha tanta pressa em partir que a 
deixara. Isso fora um erro. E no  o seu nico erro, pensou 
Grangier. Ela o trapaceara em 500 mil dlares e ele a faria 
pagar com uma vingana. Deixaria a polcia ajud-lo a 
descobrir a mulher e a mandaria para a cadeia, onde seus 
homens poderiam alcan-la. Eles a obrigariam a revelar quem 
era o gravador e depois a calariam para sempre.
 Armand Grangier discou o nmero da chefatura de polcia e 
pediu para falar com o Inspector Dumont. Disse tudo o que 
queria durante trs minutos, ansiosamente, depois arrematou:
- Ficarei esperando aqui.
Quinze minutos depois o Inspector, que era seu amigo, chegou  
Sute, acompanhado por um homem de corpo andrgino e uma das 
caras mais feias que Grangier j vira. A testa parecia prestes 
a explodir do rosto, os olhos castanhos, quase escondidos por 
trs dos culos de lentes grossas, possuam a expresso 
penetrante de um fantico.
 - Este  Monsieur Daniel Cooper - disse o Inspector Dumont. - 
Monsieur Grangier. O Sr. Cooper tambm est interessado na 
mulher a respeito de quem me telefonou.
 Cooper falou:
 - Mencionou ao Inspector Dumont que ela est envolvida numa 
operao de falsificao.
- exactament. A mulher est a caminho da Sua neste momento. 
Podero peg-la na fronteira. E tenho bem aqui todas as provas 
necessrias.
 Ele levou-os ao armrio. Daniel Cooper e o Inspector Dumont 
deram uma olhada no interior.
- L est a impressora usada para fazer o dinheiro.
Daniel Cooper examinou a mquina cuidadosamente.
 - Ela imprimiu o dinheiro nisto?
 - Foi o que acabei de falar - disse Grangier bruscamente. Ele 
tirou uma nota do bolso. - Olhem para isto.  uma das notas 
falsas de cem dlares que ela me deu.

 Cooper foi at a janela e examinou a nota contra a luz.
 - Esta nota  genuna.
 -  que ela usou as chapas roubadas que comprou de um 
gravador que trabalhou para a Casa da Moeda americana, em 
Filadlfia. E imprimiu as notas nesta impressora.
 Cooper disse rudemente:
 - Esta  uma impressora comum. Voc  muito estpido. A nica 
coisa que se pode imprimir nesta mquina  papel timbrado.
- Papel timbrado?
Grangier tinha a sensao de que o quarto comeava a rodar.
- Acreditou realmente na fbula de uma mquina que transforma 
papel em notas de cem dlares genunas?
 - Estou lhe dizendo que vi com meus prprios olhos...
 Grangier parou de falar abruptamente. O que vira? Algumas 
notas molhadas de cem dlares penduradas para secar, papel em 
branco e um cortador de papel. Ele comeou a perceber a 
enormidade do golpe de que fora vitima. No havia qualquer 
operao de falsificao, no havia gravador esperando na 
Sua. Tracy Whitney jamais cara na histria do tesouro 
afundado. A desgraada usara o seu prprio golpe como uma isca 
para arrancar-lhe meio milho de dlares. Se a notcia do 
golpe se espalhasse...
 Os dois homens observavam-no.
 - Deseja apresentar acusao de alguma espcie, Armand? - 
perguntou o Inspector Dumont.
 Como poderia? O que diria? Que fora enganado ao tentar 
financiar uma operao de falsificao? E o que fariam seus 
associados com ele quando soubessem que lhes roubara meio 
milho de dlares e perdera tudo? Ele foi dominado por um 
temor sbito. 
 - No. Eu... eu no desejo apresentar qualquer acusao.
 Havia pnico em sua voz. frica, Pensou Armand Grangier. Eles 
nunca me encontraro na frica.
 Daniel Cooper estava pensando: Na prxima vez, Eu apegarei na 
prxima vez.

27

Foi Tracy quem sugeriu a Gunther Hartog que se encontrassem em 
Majorca. Tracy adorava a ilha. Era um dos lugares realmente 
pitorescos do mundo.
- Alm do mais - disse ela a Gunther - foi outrora o refgio 
de piratas. Ns nos sentiremos  vontade ali. 
- Seria melhor se no fssemos vistos juntos.
- Pode deixar que providenciarei tudo.

Comeara com o telefonema de Gunther de Londres:
- Tenho uma coisa para voc que  de facto excepcional, Tracy. 
Creio que voc achar um grande desafio.
Na manh seguinte, Tracy voou para Palma, a capital de 
Majorca. Por causa da circulao vermelha da Interpol sobre 
Tracy, sua partida de Biarritz e a chegada em Majorca foram 
comunicadas s autoridades locais. Assim que Tracy se registou 
na Sute Real do Hotel Son Vida, uma equipe de vigilncia 
entrou em aco, numa base de 24 horas por dia. O chefe de 
polcia de Palma, Ernesto Marze, falara com o Inspector 
Trignant, da Interpol, que lhe dissera: 
 - Estou convencido de que Tracy Whitney  uma onda de crime 
de uma s mulher.
 - Pior para ela. Se cometer um crime em Majorca, descobrir 
que nossa justia  muito rpida.
O Inspector Trignant acrescentou:
- Monsieur, h outra coisa que devo mencionar.
- Sim?
- Receber um visitante americano. Seu nome  Daniel Cooper.

Parecia aos detectives que vigiavam Tracy que ela s estava 
interessada em passeios tursticos. Seguiram-na em suas 
excurses pela ilha, na visita ao claustro de San Francesco, 
ao pitoresco Castelo Beliver e,  praia em Illetas. Ela 
assistiu a uma tourada em Palma, comeu sobrasadas e camaiot na 
Plaza de La Reine. Estava sempre sozinha.
Tracy fez viagens a Formentor, ValIdemosa e La Granja, visitou 
as fbricas de prolas em Manacor.
 - Nada - comunicaram os detectives a Ernesto Marze. - Ela 
est aqui como uma turista, comandante.
 A secretria do comandante entrou na sala e informou:
 - H um americano aqui querendo lhe falar. Senhor Daniel 
Cooper.
O Comandante Marze tinha muitos amigos americanos. Gostava dos 
americanos e tinha o pressentimento de que, apesar do que o 
Inspector Trignant lhe dissera, tambm gostaria daquele Daniel 
Cooper.
 Ele estava enganado.
 - Vocs so idiotas - disse Daniel Cooper asperamente. - 
Todos vocs.  claro que ela no est aqui como turista. Veio 
atrs de alguma coisa.
O Comandante Marze teve de fazer um grande esforo para manter 
o controle.
- Senhor, acaba de dizer que os alvos da Senhorita Whitney so 
sempre espectaculares, que ela gosta do impossvel. Verifiquei 
meticulosamente, Senhor Cooper. No h nada em Majorca que 
possa atrair os talentos da Senhorita Whitney.

 - Ela se encontrou com algum... conversou com qualquer 
pessoa?
 O tom insolente do ojete!
 - No. Com ningum.
 - Pois ento isso ainda vai acontecer - garantiu Daniel 
Cooper, incisivamente.
 Finalmente compreendo o que se quer dizer com Ugly American, 
o Americano Feio, pensou o Comandante Marze.

H 200 cavernas conhecidas em Majorca, porm as mais 
sensacionais so as Cuevas del Drach, as "Cavernas do Drago", 
perto de Porto Cristo, a uma hora de viagem de Palma. As 
cavernas antigas descem pela terra profundamente, enormes 
cmaras abobadadas, com estalagmites e estalactites, com um 
silncio tumular, excepto pela passagem ocasional de sinuosos 
crregos subterrneos, a gua virando verde, azul ou branco, 
cada cor indicando a extenso das tremendas profundezas.
 As cavernas constituem uma terra de conto de fadas em 
arquitectura de um marfim claro, uma sucesso aparentemente 
interminvel de labirintos, escassamente iluminados por tochas 
estrategicamente colocadas.
 Ningum tem permisso para visit-las sem um guia. Mas, a 
partir do momento em que so abertas ao pblico, pela manh, 
as cavernas ficam repletas de turistas.
 Tracy escolheu o sbado para conhec-las quando se achavam 
mais apinhadas, com centenas de turistas de pases do mundo 
inteiro. Ela comprou seu ingresso no balco e desapareceu no 
meio da multido. Daniel Cooper e dois homens do Comandante 
Marze vinham logo atrs. Um guia levou os excursionistas por 
trilhas rochosas estreitas, escorregadias por causa da gua 
pingando das estalactites por cima, apontando para baixo como 
dedos esquelticos acusadores.
 Havia alcovas em que os visitantes podiam sair das trilhas e 
parar, admirando as formaes de clcio que pareciam enormes 
aves, estranhos animais e rvores. Havia pontos de escurido 
ao longo das trilhas mal-iluminadas e foi num deles que Tracy 
desapareceu.
 Daniel Cooper adiantou-se apressadamente, mas ela no se 
encontrava mais  vista em parte alguma. A multido descendo 
pelos degraus tornava impossvel localiz-la. Ele no tinha 
meios de saber se ela estava  sua frente ou atrs. Ela est 
planeando alguma coisa aqui, disse Cooper a si mesmo. Mas 
como? Onde? O qu?

Numa gruta do tamanho de uma arena, no ponto mais baixo das 
cavernas, diante do Grande Lago, h um anfiteatro romano. 
Fileiras de bancos de pedra foram construdas para acomodar as 
audincias que vm assistir ao espectculo, encenado de hora 
em hora. Os espectadores ocupam seus lugares no escuro, 
esperando pelo incio do espectculo.
Tracy subiu at a dcima fila, deslocou-se por 20 lugares. O 
homem no vigsimo primeiro virou-se para ela
- Algum problema?
- Nenhum, Gunther.
Ela inclinou-se e beijou-o no rosto. Ele disse alguma coisa e 
Tracy teve de se inclinar para ouvi-lo, acima da babel de 
vozes ao redor.
 - Achei que seria melhor se no fssemos vistos juntos, no 
caso de voc estar sendo seguida.

 Tracy correu os olhos pela caverna imensa, escura e apinhada.
- Estamos seguros aqui. - Ela tornou a se fixar em Gunther. - 
Deve ser importante.
 - E  mesmo. - Ele inclinou-se para mais perto dela. - Um 
cliente rico est interessado em adquirir um determinado 
quadro.  um Goya, chamado Puerto. Ele pagar meio milho de 
dlares em dinheiro a quem conseguir obt-lo. Alm da minha 
comisso.
Tracy ficou pensativa.
- A quem conseguir obt-lo... H outros tentando?
- Para ser franco, h, sim. E, na minha opinio, as 
possibilidades de sucesso so muito limitadas.
 - Onde est o quadro?
 - No Museu do Prado, em Madri.
 - No Prado!
 A palavra que aflorou prontamente  cabea de Tracy foi 
impossvel. Gunther se inclinava em sua direco, falando em 
seu ouvido, ignorando a multido ruidosa ao redor, enquanto a 
arena se enchia.
 -  preciso muita engenhosidade e foi por isso que pensei em 
voc, minha cara Tracy.
 - Sinto-me lisonjeada. Voc disse meio milho de dlares?
 - Livres e desimpedidos.
 O espectculo comeou e subitamente houve silncio. 
Gradativamente, lmpadas invisveis foram se acendendo, a 
msica espalhou-se pela enorme caverna. O centro do palco era 
um lago na frente da audincia sentada. Uma gndola surgiu de 
trs de uma estalagmite, iluminada por reflectores ocultos. Um 
organista se encontrava no barco, enchendo o ar com uma 
serenata melodiosa, que ecoou pela gua. Os espectadores 
observavam, extasiados, enquanto luzes coloridas varavam a 
escurido. O barco atravessou lentamente o lago e desapareceu, 
a msica se desvanecendo suavemente.
 - Fantstico - disse Gunther. - Vale a pena viajar para 
Majorca s para assistir a isto.
- Adoro viajar - comentou Tracy. - E quer saber qual  a 
cidade que eu sempre quis conhecer, Gunther? Madri.
Parado na sada das cavernas, Daniel Cooper observou Tracy 
Whitney emergir.
Ela estava sozinha.

28

O Hotel Ritz, na Plaza de Ia Lealtad, em Madri,  considerado 
o melhor da Espanha; por mais de um sculo, tem alojado e 
alimentado monarcas de uma dzia de pases europeus. 
Presidentes, ditadores e bilionrios j dormiram ali. Tracy 
ouvira falar tanto sobre o Ritz que a realidade foi um 
desapontamento. O saguo era desbotado e de aparncia 
andrajosa.
O gerente-assistente escoltou-a  Sute que ela escolheu, 
411-412, na ala sul do hotel, na Calle Flipe V.
 - Espero que considere a Sute satisfatria, Senhorita 
Whitney.
 Tracy foi at a janela e deu uma olhada. Directamente abaixo, 
no outro lado da rua, ficava o Museu do Prado.
 -  ptima. Obrigada.
 A Sute estava povoada pelos sons estrepitosos do trfego 
intenso nas ruas l embaixo. Mas tinha o que ela queria: uma 
vista ampla para o Prado.
 Tracy pediu um jantar leve, servido no quarto, foi deitar-se 
cedo. Quando se meteu na cama, concluiu que tentar dormir ali 
s podia ser uma forma moderna de tortura medieval.
  meia-noite, um detective postado no saguo do hotel foi 
substitudo por um colega e informou:
 - Ela no saiu do quarto. Creio que j se recolheu para a 
noite.

Em Madri, a Direccin General de Seguridad, a chefatura de 
polcia, fica na Puerta del Sol e ocupa todo um quarteiro.  
um prdio escuro, de tijolos vermelhos, com uma enorme torre 
de relgio por cima. Sobre a entrada principal est hasteada a 
bandeira espanhola, vermelha e amarela. H sempre um guarda na 
porta, de uniforme bege e boina marrom-escura, armado com uma 
submetralhadora, um cassetete, um revlver e algemas.  ali 
que funciona o servio de ligao com a Interpol.
 No dia anterior, um telegrama X-D fora entregue a Santiago 
Ramiro, o chefe de polcia de Madri, comunicando a chegada 
iminente de Tracy Whitney. Ele lera duas vezes a ltima frase 
do telegrama e depois telefonou para Andr Trignant, no 
quartel-general da Interpol, em Paris.
 - No compreendi a sua mensagem - dissera Ramiro. - Est me 
pedindo para conceder plena cooperao de meu departamento a 
um americano que nem mesmo  um polcia? Por que motivo?
 - Tenho certeza de que descobrir que o Sr. Cooper  
extremamente til, comandante. Ele compreende a Senhorita 
Whitney.
 O que h para compreender? Ela  uma criminosa. Talvez 
engenhosa... mas as prises espanholas esto repletas de 
criminosos engenhosos. Essa mulher no escapulir de nossa 
rede.
- Bon. Mas consultar o Sr. Cooper?
O comandante disse, relutante:
- Se diz que ele pode ser til, ento no tenho qualquer 
objeco. 
- Merci, monsieur.
- De nada, senhor.


O Comandante Ramiro, como seu equivalente em Paris, no 
gostava de americanos. Achava-os grosseiros, materialistas e 
ingnuos. Este ser diferente, pensou ele. Provavelmente 
gostarei dele.
O Comandante Ramiro odiou Daniel Cooper  primeira vista. 
- Ela j enganou metade das foras policiais da Europa - 
garantiu Daniel Cooper, logo depois de entrar na sala do 
comandante. - E provavelmente far a mesma coisa aqui.
 O comandante teve de fazer um grande esforo para se 
controlar.
 - Senhor, no precisamos de ningum para nos ensinar a 
trabalhar. A Senhorita Whitney est sob vigilncia desde o 
momento em que chegou ao Aeroporto Barajas, esta manh. Posso 
lhe assegurar que ela ser prontamente levada para a priso se 
algum deixar cair um alfinete na rua e a jovem o pegar.
 - Ela no est aqui para pegar um alfinete na rua.
 - Por que acha que ela veio a Madri?
 - No tenho certeza. S posso garantir que  por alguma coisa 
muito grande.
 O Comandante Ramiro declarou, presunosamente:
 - Quanto maior, melhor. Vigiaremos cada movimento da 
senhorita Whitney.

Quando Tracy acordou, pela manh, tonta de uma noite de sono 
torturante, na cama projectada por Toms de Torquemada, pediu 
um desjejum ligeiro e caf puro e bem quente, depois foi at a 
janela que dava para o Museu do Prado. Era uma fortaleza 
imponente, de pedras e tijolos vermelhos do solo local, 
cercada por relva e rvores. Havia duas entradas laterais, ao 
nvel da rua. Duas colunas dricas se erguiam na frente, tendo 
nos dois lados escadas gmeas, que subiam para a entrada 
principal. Colegiais e turistas de uma dzia de pases estavam 
em fila na frente do museu. Pontualmente s 10 horas, as duas 
portas principais foram abertas por guardas. Os visitantes 
comearam a passar pela porta giratria no centro e pelas duas
passagens laterais, ao nvel da rua. 
O telefone tocou, surpreendendo Tracy.  excepo de Gunther 
Hartog, ningum sabia que ela se encontrava em Madri. Ela 
atendeu.
- Al?
- Buenos das, senhorita. - Era uma voz familiar. - Estou 
ligando da Cmara de Comrcio de Madri. Fui instrudo a fazer 
tudo ao meu alcance para que seja emocionante a sua estada em 
nossa cidade.
- Como soube que eu estava em Madri, Jeff?
- Senhorita, a Cmara de Comrcio sabe de tudo.  a sua 
primeira vez em Madri?
- , sim.
 - Bueno! Neste caso, posso lhe mostrar alguns lugares. Quanto 
tempo planea ficar, Tracy?
 Era uma pergunta insinuante.
 - No sei ainda - respondeu ela, jovialmente. - Apenas o 
suficiente para fazer algumas compras e conhecer a cidade. O 
que voc est fazendo em Madri?
 - A mesma coisa. - O tom de Jeff era de igual jovialidade. - 
Fazer compras e conhecer a cidade.
 Tracy no acreditava em coincidncia. Jeff Stevens estava ali 
pelo mesmo motivo que ela: roubar o Puerto.
- Est livre para jantar comigo hoje, Tracy?

Era um desafio.
- Estou.
- ptimo. Farei uma reserva no Jockey.

Tracy certamente no tinha iluses sobre Jeff. Mas quando ela 
saiu do elevador para o saguo e viu-o parado ali,  sua 
espera, sentiu-se irracionalmente satisfeita por encontr-lo, 
Jeff pegou-lhe na mo. 
- Fantstico, querida! Voc est maravilhosa.
 Ela se vestira com esmero. Usava um costume azul-marinho de 
Valentino, com uma zibelina russa em torno do pescoo, sapatos 
altos de Maud Frizon, uma bolsa tambm azul-marinho com o H da 
Henns.
 Daniel Cooper, sentado a uma mesinha redonda num canto do 
saguo, com um copo de gua Perrier  sua frente, observou 
Tracy, enquanto ela cumprimentava seu acompanhante. Ele sentiu 
um imenso poder: A justia  minha, diz o Senhor, eu sou sua 
espada e seu instrumento de vingana. Minha vida  uma 
penitncia e voc me ajudar a pagar. Eu vou puni-la.
 Cooper sabia que nenhuma fora policial do mundo era bastante 
esperta para pegar Tracy Whitney. Mas eu sou, pensou Cooper. 
Ela me pertence.

Tracy tornara-se mais do que uma misso para Daniel Cooper: 
era agora uma obsesso. Levava suas fotografias e ficha a toda 
a parte;  noite, antes de dormir, examinava-as atentamente. 
Chegara a Biarritz tarde demais para agarr-la e ela se 
esquivara em Majorca. Mas agora que a Interpol redescobrira a 
sua pista, Cooper estava determinado a no perd-la.
 Ele sonhava com Tracy  noite. Ela presa numa jaula enorme, 
inteiramente nua, suplicando-lhe que a libertasse. Eu a amo, 
dizia ele, mas nunca a libertarei.

O Jockey era um restaurante pequeno e elegante, na Amador de 
los Rios.
 - A comida  excelente - garantiu Jeff.
 Ele estava particularmente bonito, pensou Tracy. Havia nele 
um excitamento interior que se comparava com o de Tracy. Ela 
sabia porqu: Ambos competiam entre si, num duelo de 
inteligncia por apostas muito altas. Mas eu vencerei, pensou 
Tracy. Encontrarei um meio de roubar o quadro do Prado antes 
de Jeff.
- H um estranho rumor circulando - comentou Jeff.
 Ela focalizou sua ateno nele.
 - Que rumor?
 - J ouviu falar de Daniel Cooper? Ele  um investigador de 
seguros, muito eficiente.
 - No. O que h com ele?
 - Tome cuidado.  um homem perigoso. E eu no gostaria que 
nada lhe acontecesse.
 - No se preocupe.
 - Mas tenho de me preocupar, Tracy.
 Ela riu.
 - Comigo? Por qu?
 Ele ps a mo sobre a dela e disse jovialmente.
 - Voc  muito especial. A vida  mais interessante com voc 
por perto, meu amor.

 Ele  terrivelmente convincente, pensou Tracy. Se eu no 
soubesse melhor, acreditaria nele.
 - Vamos pedir a comida - disse Tracy. - Estou com fome.

Jeff e Tracy exploraram Madri nos dias subsequentes. Nunca 
estavam sozinhos. Dois dos homens do Comandante Ramiro 
seguiam-nos por toda a parte, acompanhados pelo estranho 
americano. Ramiro permitira que Cooper integrasse a equipe de 
vigilncia somente para afast-lo de seu gabinete. O americano 
era loco, estava convencido de que a mulher Whitney daria um 
jeito de roubar algum grande tesouro debaixo de nossos 
narizes. Que ridculo!
 Tracy e Jeff comeram nos restaurantes clssicos de Madri - 
Horcher, o Prncipe de Viana, Casa Botin - mas Jeff tambm 
conhecia lugares que no haviam sido descobertos pelos 
turistas: Cases Paco, La Chuletta e El Lacn, onde ele e Tracy 
saborearam deliciosos pratos nativos, como cocido madrilenho e 
olla podrida. Visitaram um pequeno bar, onde foram servidos 
deliciosos tapas.
 Onde quer que fossem, Daniel Cooper e os dois detectives 
nunca estavam muito atrs. 
 Observando-os a uma distncia cautelosa, Daniel Cooper 
sentia-se perplexo pelo papel de Jeff Stevens no drama sendo 
encenado. Quem era ele? A prxima vitima de Tracy? Ou os dois 
conspiravam juntos alguma coisa? Cooper procurou o Comandante 
Ramiro e perguntou:
- Que informaes possui sobre Jeff Stevens?
- Nada. Ele no tem ficha criminal e est registado como 
turista. creio que  simplesmente um companheiro que a mulher 
arrumou aqui.
 Os instintos de Cooper lhe diziam que no era bem isso. Mas 
tambm no era Jeff Stevens que ele estava querendo. Tracy, 
pensou ele. Eu quero voc, Tracy.

Quando Tracy e Jeff voltaram ao Ritz, no final de uma noitada, 
Jeff acompanhou-a at sua porta e sugeriu:
- Por que no me convida para entrar e tomar o ltimo drinque 
da noite?
Tracy quase foi tentada. Ela inclinou-se para a frente e 
beijou-o de leve no rosto.
- Pense em mim como sua irm, Jeff.
- Qual  a sua opinio sobre incesto?
 Mas ela j fechara a porta.
Jeff telefonou poucos minutos depois de seu quarto.
- No gostaria de passar o dia de amanh comigo em Segvia?  
uma velha cidade fascinante, a poucas horas de carro de Madri.
 - Parece uma idia maravilhosa. E obrigada por uma noite 
linda. At amanh, Jeff.
 Tracy permaneceu acordada por muito tempo, a mente povoada 
por pensamentos que no tinha o direito de acalentar. J fazia 
muito tempo que estivera emocionalmente envolvida com um 
homem. Charles a magoara profundamente e ela no queria que 
isso tornasse a acontecer. Jeff Stevens era uma companhia 
divertida, mas ela sabia que nunca deveria permitir-lhe se 
tornar algo mais. Seria muito fcil se apaixonar por ele. E 
uma besteira rematada. Ruinosa. Divertida.
Tracy teve a maior dificuldade para dormir.


A viagem a Segvia foi perfeita. Jeff alugara um pequeno carro 
e saram de Madri para a mais linda regio vincola da 
Espanha. Um Seat sem qualquer identificao seguiu-os durante 
o dia inteiro. S que no era um Seat comum.
 O Seat  o nico automvel fabricado na Espanha, o veculo 
oficial da polcia espanhola. O modelo padro tem apenas 100 
cavalos, mas os vendidos para a Polcia Nacional e a Guarda 
Civil so especiais, com 150 cavalos. Assim, no havia 
qualquer perigo de Tracy Whitney e Jeff Stevens se esquivarem 
de Daniel Cooper e os dois detectives.
Tracy e Jeff chegaram a Segvia a tempo para o almoo e foram 
comer num restaurante encantador, na praa principal,  sombra 
de um aqueduto de dois mil anos, construdo pelos romanos. 
Depois do almoo, passearam pela cidade medieval, visitaram a 
velha Catedral de Santa Maria e o prdio renascentista da 
prefeitura. Depois, subiram para Alczar, a antiga fortaleza 
romana empoleirada num rochedo, por cima da cidade. A vista 
era espectacular. 
- Aposto que, se ficarmos aqui por tempo suficiente, 
acabaremos vendo Dom Quixote e Sancho Pana cavalgando pelas 
plancies l embaixo - comentou Jeff.
Ela observou-o atentamente.
- Voc gosta de investir contra moinhos de vento, no  mesmo?
- Depende do formato do moinho - disse ele, suavemente, 
chegando mais perto dela.
Tracy afastou-se da beira do penhasco.
 - Fale-me mais sobre Segvia.
E o encantamento foi rompido.
Jeff era um guia entusistico, conhecedor de histria, 
arqueologia e arquitectura. Tracy tinha de lembrar a si mesma 
que ele era tambm um vigarista. Era o dia mais agradvel que 
Tracy podia se lembrar.
Um dos detectives espanhis, Jos Pereira, resmungou para 
Cooper:
- A nica coisa que eles esto roubando  o nosso tempo. Ser 
que no percebe que esses dois no passam de apaixonados? Tem 
mesmo certeza de que ela planea alguma coisa?
- Tenho, sim.
Cooper estava desconcertado com suas prprias reaces. Tudo o 
que queria era agarrar Tracy Whitney, puni-la como ela 
merecia. Ela era apenas outra criminosa, uma misso. Contudo, 
a cada vez que o companheiro de Tracy lhe pegava o brao, 
Cooper descobria-se dominado pela fria.
Assim que chegaram de volta a Madri, Jeff disse a Tracy:
- Se no est exausta demais, conheo um lugar muito especial 
para jantarmos.
 - Maravilhoso.
Tracy no queria que o dia terminasse. Eu me entregarei a este 
dia, este nico dia, serei como as outras mulheres.

Os madrilenos jantam tarde e poucos restaurantes abrem para o 
jantar antes das nove horas da noite. Jeff fez uma reserva 
para as 10 horas no Zalacan, um elegante restaurante, onde a 
comida era excepcional e servida com perfeio. Tracy no 
pediu sobremesa, mas o garon trouxe-lhe um delicado 
mil-folhas, a coisa mais deliciosa que j provara na vida. 
Depois, Tracy recostou-se na cadeira, saciada e feliz.
 - Foi um jantar maravilhoso. Obrigada.

 - Fico contente que tenha gostado. Este  o lugar para se 
trazer as pessoas quando se quer impression-las.
 Ela estudou-o.
 - Est tentando me impressionar, Jeff?
 Ele sorriu.
 - Pode apostar que sim. Espere s at ver o que teremos em 
seguida.
 O que tiveram em seguida foi uma bodega despretensiosa, 
enfumaada, repleta de trabalhadores espanhis em bluses de 
couro, bebendo no balco e numa dzia de mesas espalhadas pela 
sala. Numa extremidade havia um tablado, onde dois homens 
dedilhavam guitarras. Tracy e Jeff foram sentados a uma 
mesinha perto do palco.
 - Sabe alguma coisa sobre o flamengo? - perguntou Jeff, 
precisando de alterar a voz por causa do nvel de barulho no 
bar.
- Somente que  uma dana espanhola.
 - Cigana, originalmente. Pode-se ir a boates luxuosas de 
Madri e se assistir a imitaes de flamengo. Mas esta noite 
voc ver a coisa de verdade.
 Tracy sorriu pelo excitamento na voz de Jeff.
 - Ver um clssico cuadro flamengo.  um grupo de cantores, 
danarinos e guitarristas. Primeiro, eles se apresentam 
juntos, depois um de cada vez.
 Observando Tracy e Jeff de uma mesa no canto, perto da 
cozinha, Daniel Cooper se perguntou o que os dois estariam 
conversando, to absorvidos.
- A dana  muito sbtil, porque tudo tem de ser feito 
junto... movimento, msica, trajes, o desenvolvimento do 
ritmo...
- Como sabe tanta coisa a esse respeito?
- J fui um danarino do flamengo.
Naturalmente, pensou Tracy.
As luzes na bodega diminuram e o pequeno palco foi iluminado 
por reflectores. E depois a magia comeou. O incio foi lento. 
Um grupo de artistas subiu casualmente  plataforma. As 
mulheres usavam saias e blusas coloridas, travessas altas com 
flores nos lindos penteados andaluzes. Os homens vestiam as 
calas justas tradicionais e coletes, usavam botas curtas de 
couro. Os guitarristas dedilharam uma melodia melanclica, 
enquanto uma das mulheres sentadas cantava, em espanhol:

Y queria dejar
A mi amante,
Pero antes de que pudiera
Hacerio eira me abandono
Y destroz mi corazn.

 - Entende o que ela est cantando? - sussurrou Tracy.
 - Claro. "Eu queria deixar meu amante, mas antes que pudesse 
faz-lo ele me abandonou e destruiu meu corao." 

 Uma danarina se deslocou para o centro do palco. Comeou com 
um zapateado simples, batendo com os ps, cada vez mais 
depressa, impelida pela vibrao das guitarras. O ritmo foi se 
tornando mais e mais vertiginoso, a dana tornou-se uma forma 
de violncia sensual, variaes dos passos que haviam nascido 
em cavernas ciganas um sculo antes. Enquanto a msica 
aumentava de intensidade e excitamento, passando pelos 
movimentos clssicos de alegrias, fandanguillo, zambra e 
segariya,  medida que o ritmo se tornava mais frentico, 
soaram gritos de encorajamento dos artistas nos lados do 
palco.
 Eram gritos de "Ol tu madre" e "Ol tus santos" "Anda, 
anda", os tradicionais jaleos e piropos, brados de estmulo, 
espicaando, os danarinos a ritmos mais desvairados e 
frenticos.
 Quando a msica e a dana terminaram abruptamente, um 
silncio ressoou pelo bar e depois houve uma exploso de, 
aplausos. 
- Ela  maravilhosa - exclamou Tracy,
- Espere pelo resto - disse Jeff.
Uma segunda mulher avanou para o centro do palco. Tinha uma 
beleza morena castelhana, clssica, parecia profundamente 
alienada, completamente inconsciente da audincia. As 
guitarras comearam a tocar um bolero, triste e suave, um 
canto que parecia oriental. Um danarino se juntou  mulher. 
As castanholas comearam a estalar, num ritmo firme, 
compulsivo.
Os artistas sentados acompanharam com o jalo, as palmas que 
marcam o ritmo do flamengo. As palmas aceleravam a dana e a 
msica, at que a sala comeou a vibrar com o zapateado, as 
batidas hipnticas da ponta dos ps e dos calcanhares, da sola 
inteira, em variaes interminveis de tom e sensaes 
rtmicas.
 Os corpos se separavam e se encontravam, num frenesi 
crescente de desejo, at que os danarinos faziam um amor 
desvairado, violento, animal, sem jamais se tocarem, 
encaminhando-se para um clmax ardente, com a audincia a 
berrar. As luzes se apagaram e tornaram a se acender, com a 
multido rugindo. Tracy descobriu-se a gritar junto com os 
outros. Para seu constrangimento, sentia-se sexualmente 
excitada. Tinha medo de enfrentar os olhos de Jeff. O ar entre 
eles vibrava de tenso. Tracy baixou os olhos para a mesa, 
contemplou as mos fortes e bronzeadas de Jeff. Podia 
senti-las a acariciarem seu corpo, lentamente, rapidamente, 
com urgncia. Ela se apressou em baixar as mos para o colo, a 
fim de esconder o tremor.
 Eles falaram muito pouco durante a viagem de volta ao hotel. 
 porta de seu quarto, Tracy virou-se e disse:
 - Foi uma...
 Os lbios de Jeff se encontraram com os dela, seus braos 
envolveram-na, ele apertou-a firmemente.
 - Tracy...
A palavra nos lbios de Tracy era sim e ela precisou recorrer 
aos ltimos resqucios de fora de vontade para murmurar:
 - Foi um dia comprido, Jeff. E eu estou com muito sono.
- Ahn...
- Acho que amanh passarei o dia inteiro em meu quarto, 
descansando.
A voz de Jeff era calma quando ele respondeu:
- Boa idia. Provavelmente farei a mesma coisa.
Nenhum dos dois acreditou no outro.

29

s 10 horas da manh seguinte Tracy estava parada na fila 
comprida  entrada do Museu do Prado. As portas se abriram, 
com um guarda uniformizado operando uma roleta, que s deixava 
passar um visitante de cada vez.
Tracy comprou um ingresso e acompanhou a multido para a 
rotunda grande. Daniel Cooper e o detective Pereira 
permaneceram bem atrs dela. Cooper comeou a experimentar um 
crescente excitamento. Tracy Whitney no estava ali como uma 
visitante comum. Qualquer que fosse o seu plano, comeava a 
ser executado.
 Tracy foi de sala em sala, andando devagar, passando pelos 
quadros de Rubens, por Ticianos, Tintorettos e Boschs, 
contemplando as pinturas de Domenikos Theotokopoulos, que se 
tornou famoso como El Greco. Os Goyas estavam em exposio 
numa galeria especial por baixo, no andar trreo.
Tracy notou que havia um guarda uniformizado postado  entrada 
de cada sala, tendo a seu lado um boto de alarme vermelho. 
Ela sabia que, no instante em que o alarme fosse accionado 
todas as entradas e sadas do museu seriam fechadas, no 
haveria a menor possibilidade de escapar.
 Ela sentou no banco no centro da Sala das Musas, repleta de 
quadros dos mestres flamengos do sculo XVIII, deixando o 
olhar vaguear pelo cho. Avistou dois artefactos redondos nos 
lados da porta. Deviam ser os fachos infravermelhos que eram 
ligados  noite. Em outros museus que Tracy visitara, os 
guardas se mostravam sonolentos e entediados, no prestando 
muita ateno ao fluxo de turistas excitados. Mas Tracy 
observou que ali os guardas se mantinham alerta. Obras de arte 
vinham sendo desfiguradas por fanticos em museus do mundo 
inteiro e o Prado no ia correr qualquer risco de que isso se 
repetisse ali.
Em uma dzia de salas diferentes, pintores haviam armado seus 
cavaletes, que se concentravam em copiar os quadros dos 
mestres. O museu permitia isso, mas Tracy notou que os guardas 
se mantinham atentos at aos copiadores.
 Depois que terminou de percorrer as salas no andar principal, 
Tracy desceu para o trreo, ao encontro da exposio de 
Francisco de Goya. O detective Pereira disse a Cooper:
 - Ela no est fazendo coisa alguma alm de olhar. Acho 
que...
 - Voc est enganado.
 Cooper comeou a descer a escada apressadamente. Tracy teve a 
impresso de que a exposio de Goya ainda estava mais 
intensamente vigiada do que o resto. E bem merecia. Uma parede 
depois de outra se achava coberta por uma exibio incrvel de 
beleza eterna. Tracy foi de uma tela para outra, fascinada 
pelo gnio do homem. O Auto-Retrato de Goya, fazendo-o parecer 
um P de meia-idade... o retracto colorido refinado de a 
famlia de Carlos IV... A Maja Vestida e a famosa Maja 
Desnuda.

 E l estava o Puerto, depois de O Sab das Feiticeiras, Tracy 
parou e contemplou-o fixamente, o corao batendo forte. Em 
primeiro plano, havia uma dzia de homens e mulheres muito bem 
vestidos, parados na frente de um muro de pedra, enquanto ao 
fundo, vistos atravs de uma nvoa luminosa, havia barcos de 
pesca numa enseada e um farol distante. No canto inferior 
esquerdo do quadro estava a assinatura, de Goya.
Aquele era o alvo. Meio milho de dlares.
Tracy olhou ao redor. Um guarda se mantinha parado  entrada. 
Alm dele, atravs do corredor comprido que levava a outras 
salas, Tracy podia avistar mais guardas. Ela ficou ali por um 
longo tempo, estudando o Puerto. Quando comeou a se afastar, 
um grupo de turistas descia a escada. E Jeff Stevens estava no 
meio deles. Tracy virou o rosto e saiu apressadamente pela 
porta lateral, antes que ele pudesse v-la.
Ser uma corrida, Sr. Stevens. E eu vou venc-la.

 - Ela est planeando roubar um quadro do Prado.
 O Comandante Ramiro olhou para Daniel Cooper com uma 
expresso de incredulidade.
- Cagajn! Ningum pode roubar um quadro do Prado.
 Cooper disse, obstinado:
 - Ela passou a manh inteira l.
 - Nunca houve um roubo no Prado e nunca haver. E quer saber 
por qu? Porque  impossvel.
 - Ela no tentar por qualquer dos meios usuais. Deve mandar 
proteger os tubos de ventilao do museu, para a eventualidade 
de um ataque com gs. Se os guardas tomam caf durante o 
servio, descubra de onde vem e se pode ser drogado. Verifique 
a gua que eles bebem...
 Os limites da pacincia do Comandante Ramiro estavam 
esgotados. J era bastante terrvel que fosse obrigado a 
aturar aquele americano grosseiro e desgracioso durante a 
ltima semana, desperdiando homens valiosos para seguir Tracy 
Whitney 24 horas por dia, quando a sua Polcia Nacional 
operava com um oramento de austeridade. Mas agora, diante 
daquele pito, o americano lhe dizendo como devia dirigir o seu 
departamento de polcia, ele no podia mais suportar.
 - Na minha opinio, a mulher se encontra em Madri de frias. 
E estou suspendendo a vigilncia.
 Cooper ficou aturdido.
 - Mas no pode fazer isso! Tracy Whitney est...
 Comandante Ramiro levantou-se, empertigado. 
 - Faa o favor de se abster de dizer o que posso ou no 
fazer, senhor. E agora, se no tem mais nada a dizer, queira 
se retirar, pois sou um homem muito ocupado.
Cooper continuou onde estava, dominado pela frustrao
- Neste caso, eu gostaria de continuar sozinho.
O comandante sorriu.
- Para manter o Museu do Prado a salvo da terrvel ameaa 
dessa mulher? Mas  claro, Senhor Cooper! Agora posso dormir  
noite tranquilamente.

30

As possibilidades de sucesso so bastante limitadas, dissera 
Gunther Hartog a Tracy. Ser preciso muita engenhosidade.
 a meia verdade do sculo, pensou Tracy.
Ela olhava pela janela de sua Sute para a clarabia do Prado, 
revendo mentalmente tudo o que descobrira a respeito do museu. 
Ficava aberto das 10 horas da manh s seis da tarde. Os 
alarmes permaneciam desligados durante esse perodo, mas havia 
guardas em cada entrada e em todas as salas.
 Mesmo que algum conseguisse retirar um quadro da parede, 
pensou Tracy, no h qualquer meio de sair com ele do museu. 
Todos os pacotes eram verificados na sada.
 Ela estudou o telhado do Prado e considerou a possibilidade 
de uma incurso nocturna. Havia vrios inconvenientes. O 
primeiro era a estrema visibilidade. Tracy observara os 
reflectores se acendendo  noite, iluminando o telhado, 
tornando-o visvel por quilmetros ao redor. E mesmo que 
pudesse entrar no prdio sem ser vista, ainda havia os fachos 
infravermelhos no interior e os vigias nocturnos.
O Prado parecia inexpugnvel.
O que Jeff estaria planeando? Tracy tinha certeza de que ele 
faria uma tentativa de roubar o Goya. Eu daria qualquer coisa 
para saber o que ele tem em sua mente astuciosa. De uma coisa 
Tracy tinha certeza: No deixaria que Jeff chegasse l na sua 
frente. Tinha de encontrar um meio.
Ela voltou ao Prado na manh seguinte.
 Nada mudara, excepto os rostos dos visitantes. Tracy procurou 
atentamente por Jeff, mas ele no apareceu.
Tracy pensou: Ele j imaginou um meio de roubar o quadro. 
Desgraado! Todo aquele seu charme era apenas para me distrair 
e impedir que eu chegasse ao quadro primeiro.
 Ela reprimiu a raiva e substituiu-a pela lgica fria e 
objectiva.
 Foi novamente se postar diante do Puerto, os olhos vaguearam 
para as telas prximas, os guardas alerta, os pintores 
amadores sentados em bancos diante de seus cavaletes, os 
visitantes entrando e saindo da sala. E enquanto Tracy olhava 
ao redor, seu corao comeou a bater mais depressa.
 Sei como poderei faz-lo!

Ela fez uma ligao de uma cabina telefnica na Gran Via. 
Daniel Cooper, parado na entrada de um caf, esperando, daria 
um ano de salrio para saber quem era a pessoa para a qual 
Tracy estava telefonando. Ele tinha certeza que era uma 
ligao internacional e Tracy telefonava a cobrar; assim, no 
haveria qualquer registo. Estava tambm consciente do vestido 
verde de linho que no vira antes e que as pernas de Tracy se 
achavam  mostra. A fim de que os homens possam ficar olhando, 
pensou ele. Puta!
 Ele foi dominado por uma raiva intensa.
 Na cabina telefnica, Tracy conclua a conversa:
 - Cuide para que ele seja rpido, Gunther. Ter apenas cerca 
de dois minutos. Tudo depender da rapidez.

 PARA: J. J. Reynolds Ficha         N? Y-72-830-412
 DE: Daniel Cooper                 CONFIDENCIAL
 ASSUNTO: Tracy Whitney

 minha opinio que a mulher em questo se encontra em Madri 
para cometer um grande ato criminoso. O alvo provvel  o 
Museu do Prado. A polcia espanhola no quer cooperar, mas eu 
a manterei pessoalmente sob vigilncia e a prenderei no 
momento oportuno.

Dois dias depois, s nove horas da manh, Tracy estava sentada 
num banco nos jardins do Retiro, o lindo parque que se estende 
pelo centro de Madri, dando milho aos pombos. O Retiro, com 
seu lago e rvores graciosas, gramados bem cuidados e palcos 
em miniatura com espectculos para crianas, era um verdadeiro 
man para os madrilenos.
Cesar Porretta, um homem idoso, de cabelos grisalhos, 
ligeiramente encurvado, aproximou-se pelo caminho. Sentou-se 
no banco, ao lado de Tracy, abriu um saco de po e comeou a 
jogar migalhas para os pombos.
- Buenos das, senhorita.
- Buenos das. Acha que h algum problema?
 - Nenhum, senhorita. Tudo o que preciso agora  do dia e da 
hora.
- Ainda no tenho - respondeu Tracy. - Mas ser muito em 
breve.
 Ele sorriu, um sorriso desdentado.
 - A polcia ficar maluca. Ningum jamais tentou fazer algo 
antes.
 -  por isso que dar certo - comentou Tracy. - Aguarde 
notcias minhas.
 Ela jogou os ltimos gros de milho para os pombos e 
levantou-se. Foi andando, o vestido de seda balanando de 
maneira provocante em torno dos joelhos.

Enquanto Tracy se encontrava no parque, conversando com Cesar 
Porretta, Daniel Cooper revistava seu quarto no hotel. 
Observara do saguo quando Tracy deixou o hotel e se 
encaminhara para o parque. Ela no pedira coisa alguma  copa 
e Cooper conclura que sara para tomar o caf da manh fora 
do hotel. Ele esperara meia hora. Entrar na sute fora uma 
questo simples de evitar as camareiras e usar uma gazua. 
Sabia o que estava procurando: uma cpia de um quadro. No 
tinha idia de como Tracy planeava efectuar a substituio, 
mas estava absolutamente convencido de que esse era o plano 
dela.
 Ele revistou a sute com uma eficincia rpida e silenciosa, 
nada lhe escapando e deixando o quarto para o final. Revistou 
o armrio, verificando cada vestido, depois passou para a 
cmoda. Abriu as gavetas, uma a uma. Estavam cheias de 
calcinhas, soutiens e meias-calas. Ele pegou uma calcinha 
rosa e esfregou contra seu rosto, imaginando o cheiro suave de 
carne. A fragrncia de Tracy estava subitamente por toda a 
parte. Ele tornou a guardar a calcinha e examinou rapidamente 
as outras gavetas. Nenhum quadro.

 Cooper foi para o banheiro. Havia gotas de gua na banheira. 
O corpo de Tracy estivera deitado ali, coberto de gua to 
quente quanto o tero. Cooper visualizou-a, nua, a gua lhe 
acariciando os seios, os quadris ondulando, para cima e para 
baixo. Sentiu o incio de uma ereco. Levantou a toalha mida 
da banheira, levando-a aos lbios. O odor do corpo de Tracy 
envolveu-o, enquanto baixava o zper da cala. Esfregou um 
sabonete mido na toalha e usou-a para se masturbar, diante do 
espelho, fitando seus olhos ardentes. 
 Saiu poucos minutos depois, to discretamente quanto chegara, 
seguiu directo para uma igreja prxima.

Na manh seguinte, quando Tracy deixou o Ritz, Daniel Cooper 
seguiu-a. Havia uma intimidade entre eles que no existira 
antes. Ele conhecia o cheiro de Tracy; vira-a no banho, 
contemplara seu corpo nu a se mexer na gua quente. Ela lhe 
pertencia completamente; era sua para destruir. Observou-a a 
caminhar pela Gran Via, parando para admirar as mercadorias 
oferecidas nas vitrines, seguiu-a pelo interior de uma grande 
loja de departamentos, tomando cuidado para permanecer fora de 
vista. Viu-a falar com uma vendedora e depois se encaminhar em 
direco ao banheiro das mulheres. Cooper parou perto da 
porta, frustrado. Era o nico lugar para onde no podia 
segui-la.
 Se Cooper pudesse entrar, teria visto Tracy falando com uma 
mulher muito gorda, de meia-idade.
 - Manhana - disse Tracy, enquanto aplicava batom nos lbios, 
diante do espelho. - Amanh de manh, s onze horas.
 A mulher sacudiu a cabea.
 - No, senhorita. Ele no gostar disso. No poderia escolher 
um dia pior. O Prncipe de Luxemburgo chega amanh em visita 
oficial e os jornais dizem que ir ao Museu do Prado. Haver 
guardas de segurana extras e a polcia estar por todo o 
museu.
- Quanto mais, melhor. Amanh.
Tracy saiu pela porta e, a mulher ficou olhando para ela, 
murmurando:
- La cucha es loca...

A comitiva real deveria chegar ao Prado pontualmente s 11 
horas. As ruas ao redor do museu haviam sido bloqueadas pela 
Guarda Civil. Mas, por causa de um atraso da cerimnia no 
palcio presidencial, a comitiva s chegou perto de meio-dia. 
Soaram sirenes, enquanto as motocicletas da polcia apareciam, 
escoltando meia dzia de limusines pretas at  escadaria na 
frente do Prado.
 entrada, o director do museu, Christian Machada, aguardava 
nervosamente a chegada de Sua Alteza.
Machada efectuara uma inspeco cuidadosa naquela manh para 
certificar-se de que tudo se achava em ordem. Os guardas 
haviam sido avisados para se manterem especialmente alerta. O 
director tinha orgulho de seu museu e queria causar uma boa 
impresso no prncipe.
Nunca faz mal ter amigos nos lugares mais altos, pensou 
Machada. Quem sabe? Eu posso at ser convidado a jantar com 
Sua Alteza esta noite, no palcio presidencial.
 O nico pesar de Christian Machada era a impossibilidade de 
reprimir as hordas de turistas que circulavam pelo museu. Mas 
os guarda-costas do prncipe e os seguranas do museu 
garantiriam uma proteco adequada. Tudo estava pronto.

A excurso real comeou pelo andar superior, o principal. O 
director concedeu uma recepo efusiva  Sua Alteza e 
escoltou-o, seguido por guardas armados, atravs das rotundas, 
entrando nas salas em que se encontravam em exposio os 
pintores espanhis do sculo XVI: Juan de Juanes, Pedro 
Machuca, Fernando Ynhez.
 O prncipe andava devagar, deleitando-se com o banquete 
visual que lhe era oferecido. Era um patrono das artes e amava 
sinceramente os pintores que podiam fazer o passado adquirir 
vida e permanecer eterno. No tendo pessoalmente qualquer 
talento para a pintura, o Prncipe mesmo assim invejava os 
pintores que se postavam diante de seus cavaletes, tentando 
absorver centelhas do gnio dos mestres.
 Depois que o grupo oficial visitara os sales superiores, 
Christian Machada disse, orgulhosamente:
 - E agora, se Sua Alteza me permite, eu o levarei  nossa 
exposio de Goya l embaixo.

Tracy passara uma manh exasperante. Quando o prncipe no 
chegara ao Prado no horrio marcado, s 11 horas, ela comeara 
a entrar em pnico. Todos os seus planos haviam sido 
formulados com uma exactido de segundos, mas precisava do 
prncipe para execut-los.
 Ela foi de sala em sala, misturando-se com os visitantes, 
tentando evitar qualquer ateno. Ele no vir, pensou Tracy, 
finalmente. Terei de cancelar a operao. E foi nesse momento 
que ela ouviu o barulho das sirenes se aproximando pela rua.
 Observando Tracy da sala ao lado, Daniel Cooper tambm ouviu 
as sirenes. A razo lhe dizia que era impossvel para qualquer 
pessoa roubar um quadro do museu, mas o instinto garantia que 
Tracy tentaria... e Cooper confiava em seu instinto. Ele 
chegou mais perto dela, escondido pelas multides. Tencionava 
mant-la sob sua vista durante todo o tempo.
Tracy se achava na sala ao lado daquela em que o Puerto estava 
em exposio. Atravs do portal, ela podia ver o corcunda, 
Cesar Porretta, sentado diante de um cavalete, copiando o Maja 
Vestida de Goya, pendurado ao lado do Puerto. Um guarda se 
encontrava parado a um metro de distncia. Na sala com Tracy, 
uma pintora se postava diante de seu cavalete, copiando 
meticulosamente A Leiteira de Bordeaux, tentando capturar os 
marrons e verdes brilhantes da tela de Goya.
 Alguns turistas japoneses entraram na sala, falando 
rapidamente, como um grupo de aves exticas. Agora!, disse 
Tracy a si mesma. Aquele era o momento pelo qual esperava. Seu 
corao batia to alto que teve medo que o guarda pudesse 
ouvir. Ela saiu do caminho dos japoneses que se aproximavam, 
recuando na direco da pintora. Quando um japons passou por 
perto, Tracy caiu para trs, como se tivesse sido empurrada, 
esbarrando na mulher e derrubando-a, assim como seu cavalete, 
tela e tintas.
 - Oh, lamento profundamente - exclamou Tracy. - Deixe-me 
ajud-la!
 Enquanto ela se adiantava para ajudar a atordoada pintora, 
seus calcanhares pisaram nos tubos espalhados, as tintas 
manchando o cho. Daniel Cooper, que a tudo observava, 
adiantou-se apressadamente, todos os sentidos alerta. Tinha 
certeza de que Tracy Whitney fizera o seu primeiro movimento. 
O guarda se aproximou, gritando:
- Qu pasa? Qu pasa?

O acidente atrara a ateno dos turistas, que se concentraram 
em torno da mulher cada, espalhando as tintas dos tubos 
pisados em imagens grotescas pelo assoalho de madeira de lei. 
Era uma horrvel confuso e o prncipe deveria aparecer a 
qualquer momento. O guarda entrou em pnico e gritou:
 - Sergio! Ven ac! Pronto!
 Tracy observou quando o guarda da sala ao lado veio correndo 
para ajudar. Cesar Porretta ficou sozinho na sala com o 
Puerto.
 Tracy se achava bem no meio do tumulto. Os dois guardas 
tentavam em vo afastar os turistas da rea do assoalho toda 
manchada de tinta.
- V chamar o director! - berrou Sergio. - En seguida!
O outro guarda afastou-se apressadamente para a escada. Que 
birria! Que trapalhada!
 Dois minutos depois, Christian Machada estava no local do 
desastre. O director lanou um olhar horrorizado para a cena e 
prontamente gritou:
- Tragam algumas faxineiras para c... depressa! Com panos de 
cho, gua e terebintina! Pronto!
Um jovem assistente correu para cumprir a ordem. Machada 
virou-se para Sergio e disse-lhe bruscamente:
- V para o seu posto!
- Pois no, senhor.
Tracy observou o guarda abrir caminho pela multido, a caminho 
da sala em que Cesar Porretta trabalhava.
Cooper no desviara os olhos de Tracy por um instante sequer. 
Esperava pelo prximo movimento. Mas no houve. Ela no se 
aproximara de qualquer quadro, no fizera contacto com nenhum 
cmplice. Apenas derrubara um cavalete e derramara algumas 
tintas pelo assoalho. Mas ele tinha certeza que isso fora 
feito deliberadamente. Mas com que objectivo? Cooper tinha a 
impresso de que o plano, qualquer que fosse, j fora 
executado, de alguma forma. Ele correu os olhos pelas paredes 
da sala. Nenhum dos quadros estava faltando.
Cooper seguiu apressadamente para a sala ao lado. No havia 
ningum ali, alm do guarda e de um corcunda idoso, sentado 
diante de seu cavalete, copiando a Maja Vestida. Todos os 
quadros se encontravam em seus lugares. Mas alguma coisa 
estava errada. Cooper no tinha a menor dvida quanto a isso.
 Ele se aproximou rapidamente do angustiado director, com quem 
j conversara anteriormente, e disse-lhe:
- Tenho motivos para acreditar que um quadro foi roubado daqui 
nos ltimos minutos.
Christian Machada olhou para o americano de olhos desvairados.
- Mas do que est falando? Se isso tivesse acontecido, os 
guardas accionariam o alarme.
- Acho que de alguma maneira um quadro falso substituiu um 
verdadeiro.
O director concedeu-lhe um sorriso tolerante.
- H uma coisinha errada com sua teoria, senhor. O facto no  
conhecido do pblico em geral, mas h sensores escondidos por 
trs de cada quadro. Se algum tentasse remover um quadro da 
parede... o que certamente seria necessrio fazer para pr um 
quadro falso no lugar... o alarme soaria instantaneamente.
Daniel Cooper ainda no estava satisfeito.
- Seu alarme no poderia ser desligado?
- No. Se algum cortasse o fio elctrico, isso tambm 
accionaria o alarme. Senhor,  impossvel roubar um quadro 
deste museu. Nossa segurana  o que os americanos gostam de 
chamar de infalvel.

Cooper permaneceu onde estava, tremendo de frustrao. Tudo o 
que o director dissera era convincente. Parecia mesmo 
impossvel. Mas ento por que Tracy Whitney derrubara 
deliberada mente aquelas tintas? Cooper no estava disposto a 
desistir.
 - Poderia fazer o favor de pedir a seus assistentes para 
verificarem se no est faltando alguma coisa no museu? 
Estarei em meu hotel aguardando uma resposta.
 No havia mais nada que Daniel Cooper pudesse fazer.
 Christian Machada telefonou para Cooper s sete horas daquela 
noite.
 - Efectuei pessoalmente uma inspeco, senhor. No falta nada 
do museu.
 Ento est acabado. Aparentemente, fora um acidente. Mas 
Daniel Cooper, com o instinto de um caador, sentia que sua 
presa tornara a escapar.

Jeff convidara Tracy para jantar no restaurante principal do 
Ritz Hotel.
- Voc est parecendo especialmente radiante esta noite - 
elogiou-a Jeff.
- Obrigada.  que eu me sinto absolutamente maravilhosa. 
-  a companhia. Vamos juntos para Barcelona na prxima 
semana, Tracy.  uma cidade fascinante. Voc adoraria...
- Lamento, Jeff, mas no posso. Estou deixando a Espanha.
-  mesmo? - A voz dele era pesarosa. - Quando?
- Dentro de poucos dias.
- Ahn... Estou desapontado.
E ficar ainda mais desapontado quando souber que eu roubei o 
Puerto, pensou Tracy. Ela se perguntou como ele planeara 
roubar o quadro. No que isso tivesse mais qualquer 
importncia. Fui mais esperta do que Jeff Stevens. Contudo, 
por alguma razo inexplicvel, Tracy sentia um tnue vestgio 
de pesar.

Christian Machada se encontrava sentado em seu escritrio, 
tomando a sua xcara matutina de caf forte e se dando os 
parabns pelo sucesso da visita do prncipe. Excepto pelo 
lamentvel incidente das tintas derramadas, tudo correra 
exactamente de acordo com o planeado. Sentia-se grato pelo 
prncipe e sua comitiva terem sido desviados at que a sujeira 
fosse limpa. O director sorriu ao pensar no investigador 
americano idiota que tentara convenc-lo de que algum roubara 
um quadro do Prado. No ontem, no hoje, no amanh, pensou 
ele, presunosamente.
Sua secretria entrou na sala nesse momento.
- Com licena, senhor. H um homem aqui desejando lhe falar 
Pediu-me para lhe entregar isto.
 Ela entregou uma carta do director. Era no papel timbrado de 
um museu de Genebra.

Meu Estimado Colega:
Esta carta visa a apresentar Monsieur Henri Rendell, nosso 
maior perito em arte. Monsieur Rendell est realizando uma 
excurso pelos museus do mundo e particularmente ansioso em 
ver a sua coleco incomparvel. Eu agradeceria todas as 
cortesias que pudesse lhe oferecer.

A carta estava assinada pelo director do museu de Genebra.

Mais cedo ou mais tarde, pensou o director do Prado, feliz, 
todos vm a mim.
- Mande-o entrar.
 Henri Rendell era um homem alto, calvo, de aparncia 
distinta, com um forte sotaque suo. Quando se apertaram as 
mos, Machada notou que o visitante no tinha o indicador da 
mo direita. Henri Rendell disse:
 - Agradeo a sua gentileza.  a primeira oportunidade que 
tenho de visitar Madri e estou ansioso em conhecer as suas 
renomeadas obras de arte.
Christian Machada respondeu, modestamente:
- Creio que no ficar desapontado, Monsieur Rendell. Por 
favor, acompanhe-me. Eu o escoltarei pessoalmente.
 Eles se deslocaram lentamente pela rotunda, com seus mestres 
flamengos, Rubens e seus seguidores, visitaram a galeria, com 
os mestres espanhis. Henri Rendell estudou cada quadro 
atentamente. Os dois homens falavam como peritos, avaliando o 
estilo, perspectiva e senso de cor dos vrios artistas.
- E agora - disse o director do Prado - vamos ao orgulho da 
Espanha.
Ele conduziu o visitante para baixo, at a galeria repleta de 
Goyas.
-  um banquete para os olhos! - exclamou Rendell, 
impressionado. - Por favor, deixe-me ficar parado por um 
momento, em silncio, s contemplando!
Christian Machada esperou, feliz com a reverncia do homem.
- Nunca vi nada to espectacular - murmurou Rendell. Ele andou 
lentamente pela galeria, estudando um quadro de cada vez. - O 
Sab das Feiticeiras. Brilhante!
Eles seguiram adiante.
- Auto-Retrato de Goya... fantstico!
Christian Machada estava radiante. Rendell parou diante do 
Puerto.
- Uma excelente cpia.
Ele comeou a se afastar. O director agarrou-o pelo brao.
- Como? O que foi mesmo que disse, senhor?
 - Disse que  uma excelente cpia.
 - Est completamente enganado.
O director sentia-se profundamente indignado.
 - No creio.
 - Claro que est - insistiu Machada, rigidamente. - Posso lhe 
garantir que o quadro  genuno. Tenho a provenincia. 
 Henri Rendell aproximou-se do quadro e examinou-o mais 
atentamente.
 - Ento a provenincia tambm foi falsificada. Este quadro 
foi feito pelo discpulo de Goya, Eugenio Lucas y Padilla. 
Deve saber,  claro, que Lucas pintou centenas de falsos 
Goyas.
- Claro que sei disso - respondeu Machada, asperamente. - Mas 
este no  um deles.
Rendell encolheu os ombros.
- Eu me curvo a seu julgamento.
Ele fez meno de se afastar.
- Comprei este quadro pessoalmente. Foi submetido ao teste do 
espectgrafo, ao teste de pigmentos...

- No duvido disso. Lucas pintou no mesmo perodo de Goya e 
usou os mesmos materiais. - Henri Rendell inclinou-se para 
examinar a assinatura no fundo do quadro. - Pode se certificar 
com muita facilidade, se desejar. Leve o quadro para a sua 
sala de restaurao e teste a assinatura.
Ele riu, divertido, antes de acrescentar:
- O ego de Lucas levava-o a assinar seus prprios quadros, mas 
a bolsa forava-o a falsificar o nome de Goya por cima do seu, 
aumentando o preo consideravelmente. - Rendell olhou para seu 
relgio. - Peo que me perdoe. Eu no tinha idia de que era 
to tarde. Infelizmente, j estou atrasado para um 
compromisso. Muito obrigado por partilhar comigo os seus 
tesouros.
- No foi nada - disse o director, friamente.
 O homem  obviamente um idiota, pensou ele.
 - Estou no Villa Magna, se precisar de alguma coisa. E 
novamente obrigado, senhor.
 Henri Rendell foi embora. Christian Machada ficou 
observando-o a se afastar. Como aquele suo idiota se atrevia 
a insinuar que seu Goya era falso? Ele virou-se para observar 
o quadro novamente. Era uma obra-prima. O director inclinou-se 
para examinar a assinatura de Goya. Absolutamente normal. 
Mesmo assim... seria possvel? A pequena semente de dvida 
recusava-se a sumir. Todos sabiam que o contemporneo de Goya, 
Eugenio Lucas y Padilla, pintara centenas de falsos Goyas, 
construindo uma carreira nessa base. Machada pagara trs 
milhes e meio de dlares pelo Puerto de Goya. Se ele fora 
enganado, seria um descrdito terrvel, algo que no suportava 
sequer pensar.
Henri Rendell dissera uma coisa que fazia sentido: havia de 
facto um meio simples de comprovar a autenticidade. Testaria a 
assinatura e depois telefonaria para Rendell, sugerindo 
polidamente que talvez ele devesse procurar uma vocao mais 
apropriada.
 O director chamou seu assistente e ordenou que o Puerto fosse 
levado para a sala de restaurao.

O teste de uma obra-prima  uma operao extremamente 
delicada, pois pode destruir, se houver qualquer negligncia, 
algo de valor inestimvel e insubstituvel. Os restauradores 
do Prado eram peritos, quase todos pintores malsucedidos que 
haviam optado pelo trabalho de restaurao a fim de poderem 
permanecer prximos de sua amada arte. Comeavam como 
aprendizes, estudando com os mestres restauradores, 
trabalhavam por anos antes de se tornarem assistentes e terem 
permisso para manipular obras-primas, sempre sob a superviso 
do restaurador snior.
Juan Delgado, o homem no comando da restaurao de arte no 
Prado, colocou o Puerto numa estante de madeira especial, 
enquanto Christian Machada observava.
- Quero que teste a assinatura - informou o director.
Delgado disfarou a sua surpresa.
 - Sim, Senhor Director.
 Ele despejou lcool isopropilo numa pequena mecha de algodo 
e ps na mesa ao lado do quadro. Despejou numa segunda mecha 
petrleo destilado, o agente neutralizador.
 - Estou pronto, senhor.
 - Pois ento pode comear. Mas tome todo cuidado.

 Machada descobriu subitamente que lhe era difcil respirar. 
Observou Delgado pegar a primeira mecha de algodo e encostar 
gentilmente no G da assinatura de Goya. No mesmo instante, 
Delgado pegou a segunda mecha e neutralizou a rea, a fim de 
evitar que o lcool penetrasse mais profundamente. Os dois 
homens examinaram a tela. A primeira letra se desbotara um 
pouco. Delgado franziu o rosto.
 - Lamento, senhor, mas ainda no d para dizer. Preciso usar 
um solvente mais forte.
 - Est certo.
 Delgado abriu outro vidro. Cuidadosamente despejou 
dimentilpentona em outra mecha de algodo e tocou-a novamente 
na primeira letra da assinatura, aplicando imediatamente em 
seguida a outra mecha. A sala ficou impregnada do odor 
penetrante dos agentes qumicos. Christian Machada se mantinha 
imvel, olhando fixamente para o quadro, incapaz de acreditar 
no que estava vendo. O G no nome de Goya estava-se 
desvanecendo, surgindo em seu lugar um L, perfeitamente 
visvel. Delgado virou-se para o director, o rosto muito 
plido.
 - Devo... devo continuar?
 - Deve - balbuciou Machada, a voz rouca. - Continue.
 Lentamente, letra a letra, a assinatura de Goya se diluiu sob 
a aplicao do solvente, dando lugar  assinatura de Lucas. 
Cada letra era um golpe violento no estmago de Machada. Ele, 
o director de um dos museus mais importantes do mundo, fora 
enganado. O conselho curador tomaria conhecimento; o Rei da 
Espanha seria informado; o mundo ficaria a par. Ele estava 
arruinado.
 Christian Machada voltou quase cambaleando a seu escritrio 
e, telefonou para Henri Rendell.

Os dois homens estavam sentados na sala de Machada.
 - Voc tinha razo - murmurou o director. -  um Lucas. 
Quando a notcia se espalhar, eu me tornarei o alvo dos risos 
gerais. 
 - Lucas j enganou muitos peritos - comentou Rendell, 
confortadoramente. - Acontece apenas que suas falsificaes 
so um hobby meu.
- Paguei trs e meio milhes de dlares por aquele quadro.
 Rendell encolheu os ombros.
 - Pode recuperar seu dinheiro?
 O director sacudiu a cabea, desesperado.
 - Comprei-o directamente de uma viva, que afirmou estar o 
quadro na famlia de seu marido h trs geraes. Se eu a 
processasse, o caso se arrastaria interminavelmente pelos 
tribunais, haveria uma publicidade perniciosa. Tudo neste 
museu se tornaria suspeito.
 Henri Rendell pensava depressa.
 - No h realmente motivo para qualquer publicidade. Por que 
no explica a seus superiores o que aconteceu e se livra 
discretamente do Lucas? Pode mandar o quadro para a Sotheby's 
ou Christie's, deixar que o vendam em leilo.
 Machada tornou a sacudir a cabea.
 - No. O mundo inteiro saberia assim do que aconteceu.
O rosto de Rendell se iluminou subitamente.
 - Talvez voc esteja com sorte. Lembro-me agora de um cliente 
que poderia comprar o Lucas. Ele os colecciona. E  um homem 
discreto.

 - Eu teria o maior prazer em me livrar dele. Nunca mais quero 
v-lo. Uma falsificao entre os meus lindos tesouros! - Uma 
pausa e o director acrescentou, amargurado. - Eu gostaria at 
de d-lo de presente
 - Isso no ser necessrio. Meu cliente provavelmente estar 
disposto a pagar... digamos uns cinquenta mil dlares. Posso 
fazer um telefonema?
 -  muita gentileza sua, Senhor Rendell.  vontade.

Numa reunio convocada s pressas, os atordoados curadores do 
Prado decidiram que era preciso evitar a qualquer custo a 
exposio de um dos valiosos quadros do Prado como uma 
falsificao. Ficou acertado que a aco mais prudente era se 
livrarem discretamente do quadro, o mais depressa possvel. Os 
homens de ternos escuros saram da sala em silncio. Ningum 
falou com Machada, que permaneceu parado a um canto, tremendo 
em seu desespero.
 Uma transao foi concluda naquela tarde. Henri Rendell foi 
ao Banco da Espanha e voltou com um cheque visado no valor de 
50 mil dlares. O Eugenio Lucas y Padilla foi-lhe entregue, 
embrulhado numa lona discreta.
 - O conselho ficaria consternado se o incidente se tornasse 
pblico - disse Machada, delicadamente. - Mas eu garanti que 
seu cliente  um homem discreto.
 - Pode contar com isso.

Deixando o museu, Henri Rendell pegou um txi para um bairro 
residencial ao norte de Madri, subiu uma escada com a tela, 
para um apartamento no terceiro andar. Bateu na porta. Foi 
aberta por Tracy. Atrs dela estava Cesar Porretta. Tracy 
olhou inquisitiva para Rendeu e ele sorriu.
- Eles estavam ansiosos em se livrarem disto! - informou 
Rendel, jovialmente.
Tracy abraou-o.
- Entre.
Porretta pegou o quadro e colocou-o sobre uma mesa.
- Agora - disse ele - vocs, vo testemunhar um milagre... um 
Goya que renasce.
Ele pegou um vidro de lcool e abriu-o. O cheiro pungente 
impregnou a sala no mesmo instante. Porretta despejou um pouco 
numa mecha de algodo e esfregou gentilmente na assinatura de 
Lucas, uma letra de cada vez. Gradativamente, a assinatura de 
Lucas foi-se apagando. Por baixo estava a assinatura de Goya. 
Rendell observava fixamente e murmurou:
 - Brilhante!
 - A idia foi da Senhorita Whitney - admitiu o corcunda. - 
Ela perguntou-me se seria possvel cobrir a assinatura 
original do pintor com uma falsa assinatura e depois cobrir 
tudo com o nome original. 
- Mas foi ele quem imaginou como isso poderia ser feito - 
acrescentou Tracy, sorrindo.
Porretta disse, modestamente:

- Foi ridiculamente simples. No levou mais do que dois 
minutos. O truque estava nas tintas que usei. Primeiro, cobri 
a assinatura de Goya com uma camada de verniz branco francs 
super-refinado, a fim de proteg-la. Depois, pintei por cima o 
nome de Lucas, com uma tinta acrlica que seca depressa. Por 
cima, pintei o nome de Goya, com uma tinta-leo e um verniz 
claro. Quando a assinatura de cima foi removida, apareceu o 
nome de Lucas. Se eles seguissem adiante, descobririam que a 
assinatura original de Goya estava escondida por baixo. Mas  
claro que eles no se lembraram de fazer isso.
Tracy entregou a cada homem um envelope recheado e disse:
- Quero agradecer muito aos dois.
- A qualquer momento que precisar de um perito em arte, estou 
s ordens - disse Henri Rendell, piscando um olho.
Porretta perguntou:
- Como planea tirar o quadro do pas?
- Um mensageiro vir busc-lo aqui. Espere por ele. 
Tracy apertou as mos dos dois homens e saiu. Voltando para o 
Ritz, ela estava dominada por uma sensao de exultao. Tudo 
era uma questo de psicologia, pensou ela. Desde o incio ela 
compreendera que seria impossvel roubar o quadro do Prado. 
Portanto, tivera de engan-los, coloc-los num estado de 
espirito em que tornariam a iniciativa de se livrarem do 
quadro. Tracy visualizou a cara de Jeff Stevens ao saber que 
ela fora mais esperta do que ele e soltou uma risada.

Ela esperou em sua sute no hotel pelo mensageiro. Assim que 
ele chegou, telefonou para Cesar Porretta.
 - O mensageiro est aqui comigo - disse-lhe Tracy. - Vou 
mand-lo buscar o quadro agora. Cuide para que ele...
- Como? - gritou Porretta. - Do que est falando? Seu 
mensageiro levou o quadro h meia hora!

31

Paris
QUARTA-FEIRA, 9 DE JULHO - MEIO-DIA

Num gabinete particular, na Rue Matignon, Gunther Hartog 
disse:
- Compreendo como se sente pelo que aconteceu em Madri, Tracy. 
Mas Jeff Stevens chegou l primeiro.
- No - corrigiu-o Tracy, amargurada. - Eu  que cheguei 
primeiro. Ele s apareceu depois.
- Mas Jeff entregou o quadro. O Puerto j se encontra a 
caminho do meu cliente.
Depois de todo o planeamento de Tracy, Jeff Stevens fora mais 
esperto do que ela. Ficara sentado de braos cruzados, 
deixando que ela trabalhasse e assumisse todos os riscos, no 
ltimo momento arrebatara o grande prmio e fora embora 
calmamente. Como ele devia ter rido dela durante todo o tempo! 
Voc  uma mulher muito especial, Tracy. Ela no podia 
suportar a humilhao que sufocou quando pensou na noite do 
flamengo. Meu Deus, que tola eu banquei!
- Nunca pensei que eu poderia matar algum - comentou Tracy 
para Gunther. - Mas teria a maior satisfao em exterminar 
Jeff Stevens.
 Gunther disse, afavelmente.
 - Ora, minha cara, espero que no nesta sala. Ele est vindo 
para c
 - Ele est o qu?
 Tracy levantou-se de um pulo.
 - Eu disse que tenho uma proposta para voc. Precisar de um 
parceiro. Na minha opinio, ele  o nico que...
 - Prefiro morrer de fome! - explodiu Tracy. - Jeff Stevens  
o mais desprezvel..
 - Ouvi meu nome ser mencionado? - Ele estava parado na porta, 
com uma expresso radiante. - Tracy, querida, voc est ainda 
mais deslumbrante do que o habitual. Gunther, meu amigo, como 
tem passado?
 Os dois amigos trocaram um aperto de mo, Tracy levantou-se, 
dominada por uma fria fria. Jeff fitou-a e suspirou.
 - Voc est provavelmente zangada comigo..
 - Zangada? Eu...
 Ela no pde encontrar as palavras que queria.
 - Se me permite diz-lo, Tracy, seu plano foi brilhante. 
Estou falando srio. Realmente brilhante. Voc s cometeu um 
pequeno erro. Nunca confie num suo sem o indicador direito.
 Ela respirou fundo, tentando se controlar. Virou-se para 
Gunther.
 - Falarei com voc mais tarde, Gunther.
 - Tracy...
 - No. O que quer que seja, no quero participar. No se ele 
est envolvido.
 - Quer pelo menos escutar? - insistiu Gunther.
 - No h sentido. Eu...
 - Dentro de trs dias a De Beers embarcar uma remessa de 
diamantes, no valor de quatro milhes de dlares, de Paris 
para Amsterdam, num avio cargueiro da Air France. Tenho um 
cliente que est ansioso em adquirir essas pedras.

- Por que no as sequestra no caminho para o aeroporto? Nosso 
amigo aqui  um especialista em sequestros.
Tracy no podia esconder a amargura que sentia. Por Deus, 
pensou Jeff, ela  magnfica quando est furiosa. Gunther 
disse:
 - Os diamantes esto muito bem guardados. Teremos de. 
sequestr-los durante o voo.
Tracy fitou-o com uma expresso de surpresa.
- Durante o voo? Num avio cargueiro?
 - Precisamos de algum bastante pequeno para se esconder 
dentro de um dos containers. Quando o avio estiver no ar, 
tudo o que essa pessoa precisar fazer ser sair, abrir o 
container da De Beers, remover o pacote com os diamantes e 
substitui-lo por uma duplicata, devidamente preparada, voltar 
ao outro container.
 - E eu sou bastante pequena para caber num container.
 -  muito mais do que isso, Tracy - disse Gunther. - 
Precisamos de algum que seja inteligente e tenha sangue-frio.
 Tracy ficou parada, pensando.
 - O plano me agrada, Gunther. O que no gosto  a idia de 
trabalhar com ele. Esse homem  um escroque.
 Jeff sorriu.
 - No somos todos, meu corao? Gunther est nos oferecendo 
um milho de dlares para aplicar esse golpe.
 Tracy olhou aturdida para Gunther.
 - Um milho de dlares?
 Ele assentiu.
 - Meio milho para cada um.
 - O plano pode dar certo porque eu tenho um contacto na 
seco de embarque no aeroporto - explicou Jeff. - Ele nos 
ajudar a armar o golpe. Merece toda a confiana.
 - Ao contrrio de voc - disse Tracy bruscamente. - Adeus, 
Gunther.
 Ela saiu da sala. Gunther ficou olhando para a porta.
 - Ela ficou muito aborrecida com voc em Madri, Jeff. E 
receio que no concordar de jeito nenhum em participar deste 
trabalho.
 - Est enganado - assegurou Jeff, jovialmente. - Conheo 
Tracy. Ela no ser capaz de resistir. 

- Os containers so lacrados antes de serem embarcados no 
avio - explicou Ramon Vauban.
 Ele era francs, ainda jovem, com um rosto velho que nada 
tinha a ver com sua idade, olhos pretos e mortios. Como 
despachante na seco de carga da Air France, era a chave para 
o sucesso do plano.
 Vauban, Tracy, Jeff e Gunther estavam sentados numa mesa 
junto  amurada no Bateau Mouche, o barco de turismo que cruza 
o Sena, circulando Paris.
- Se o container  lacrado - indagou Tracy, incisivamente - 
como poderei entrar?
- Para os embarques de ltima hora - respondeu Vauban - a 
companhia usa o que chamamos de containers moles, caixotes de 
madeira grandes com lona num lado, presa por uma corda. Por 
motivos de segurana, cargas valiosas como diamantes sempre 
chegam no ltimo momento. So as ltimas a serem embarcadas e 
as primeiras a desembarcar.
- Os diamantes estariam ento num container mole? - perguntou 
Tracy.

- Exactamente, mademoiselle. Providenciarei para que o 
container em que voc estar seja colocado ao lado do caixote 
com os diamantes. Tudo o que ter de fazer, quando o avio 
estiver em voo, ser cortar a corda, pegar os diamantes, 
deixar uma caixa idntica no lugar, voltar a seu container e 
fech-lo.
Gunther acrescentou:
- Quando o avio pousar em Amsterdam, os guardas pegaro a 
caixa substituta de diamantes e a entregaro aos lapidadores. 
Quando descobrirem o que aconteceu, voc j ter deixado o 
pas de avio. Tenha certeza de uma coisa, Tracy: nada pode 
sair errado.
 Uma frase que provocou um calafrio no corao de Tracy.
 - Eu no congelaria at a morte l no alto?
Vauban sorriu.
 - Os avies de carga so actualmente aquecidos, mademoiselle. 
Muitas vezes transportam gado e animais de estimao. Estar 
bastante confortvel. Talvez um pouco apertada, mas muito bem, 
fora isso.
 Tracy concordara finalmente em escutar o plano. Meio milho 
de dlares por algumas horas de desconforto. Ela analisara o 
plano por todos os ngulos. Pode dar certo, pensou Tracy. Se 
ao menos Jeff no estivesse envolvido...
 Seus sentimentos em relao a ele eram uma mistura 
desconcertante de emoes, deixando-a confusa e furiosa 
consigo mesma. Ele dera aquele golpe em Madri pelo puro prazer 
de se mostrar mais esperto do que ela. Trara-a, enganara-a, 
agora estava secretamente rindo  sua custa.
Os trs homens observavam-na, esperando por sua resposta. O 
barco passava sob a Pont Neuf, a mais antiga das pontes de 
Paris, mas que os caprichosos franceses insistiam em chamar de 
Nova. No outro lado do rio, dois namorados se abraavam na 
margem. Tracy pde perceber a expresso de felicidade no rosto 
da moa. Ela  uma tola, pensou Tracy. E tomou sua deciso. 
Fitou Jeff nos olhos ao dizer:
- Muito bem, farei o trabalho.
Tracy sentiu no mesmo instante a tenso na mesa se dissipar.
- No temos muito tempo - disse Vauban, os olhos mortios se 
virando para Tracy. - Meu irmo trabalha para um agente de 
cargas e nos deixar carregar o container com voc em seu 
armazm. Espero que mademoiselle no tenha claustrofobia.
- No se preocupe comigo... Quanto tempo levar a viagem? 
- Passar uns poucos minutos na rea de embarque e uma hora 
voando para Amsterdam.
 - Qual  o tamanho do container?
 - Bastante grande para que possa sentar-se. Haver outras 
coisas para escond-la... no caso de acontecer algo 
inesperado. 
Nada pode sair errado, eles haviam prometido. Mas...
 - Tenho uma lista de coisas que voc precisar - disse-lhe 
Jeff. - E j as providenciei.
O filho da puta presunoso. Ele tinha certeza de que ela 
responderia afirmativamente.
- Vauban providenciar para que voc tenha os vistos 
apropriados de entrada e sada, a fim de poder deixar a 
Holanda sem qualquer problema.
O barco iniciou a manobra para atracar.

Podemos repassar os planos finais pela manh - disse Ramon 
Vauban. - Agora, tenho de voltar ao trabalho. Au revoir.
Ele levantou-se e desembarcou no instante em que o barco 
atracou. Jeff indagou:
- Por que no jantamos todos juntos para comemorar?
- Lamento, mas j tenho um compromisso anterior - desculpou-se 
Gunther.
Jeff virou-se para Tracy.
- Voc...
- No, obrigada - ela se apressou em dizer. - Estou muito 
cansada.
 Era uma desculpa para evitar a companhia de Jeff. Mas assim 
que falou, Tracy percebeu que se encontrava realmente exausta. 
Era provavelmente a tenso do excitamento com que vinha 
vivendo h tanto tempo. Sentia-se meio tonta. Quando isso 
acabar, ela prometeu a si mesma, voltarei a Londres para um 
descanso prolongado. Sua cabea comeava a latejar. Preciso 
mesmo...
- Comprei-lhe um presentinho - disse Jeff.
Ele entregou a Tracy uma caixa embrulhada em papel de 
presente. Era uma delicada echarpe de seda, com as iniciais TW 
num canto.
- Obrigada.
Ele pode comprar isto, pensou Tracy, irritada. Comprou com meu 
meio milho de dlares.
 - No vai mudar de idia sobre o jantar?
 - No.

Em Paris, Tracy hospedava-se no clssico Plaza Athne, numa 
velha Sute adorvel, dando para o restaurante no jardim. 
Havia um restaurante elegante no interior do hotel, com msica 
de piano suave. Mas, naquela noite, Tracy sentia-se cansada 
demais para vestir uma roupa mais formal. Foi para o Relais, o 
pequeno caf do hotel, pediu uma sopa. Empurrou o prato para o 
lado, deixando metade da sopa, voltou  sua sute.
 Daniel Cooper, sentado no outro lado do caf, anotou a hora.

Daniel Cooper tinha um problema. Ao voltar a Paris, pedira uma 
reunio com o Inspector Trignant. O director da Interpol fora 
menos do que cordial. Acabara de passar uma hora no telefone, 
escutando as queixas do Comandante Ramiro contra o americano.
 - Ele  louco! - explodira o espanhol. - Desperdicei homens, 
dinheiro e tempo para seguir a tal de Tracy Whitney, que ele 
insistia em dizer que assaltaria o Prado. No final, 
constatou-se que a mulher no passava de uma turista 
inocente... como eu disse desde o incio.
 A conversa levara o Inspector Trignant a acreditar que Daniel 
Cooper podia estar enganado em relao a Tracy desde o comeo. 
No havia qualquer prova contra a mulher. O facto de que ela 
se encontrava em vrias cidades, nas ocasies em que os crimes 
haviam sido cometidos, no chegava a ser uma prova.
Assim, o Inspector estava contrariado quando Daniel Cooper o 
fora procurar e dissera:
 - Tracy Whitney se encontra em Paris. Eu gostaria que ela 
fosse colocada sob uma vigilncia de vinte e quatro horas por 
dia.
 Trignant respondera:

 - A menos que voc possa me apresentar provas de que a mulher 
planea cometer um crime especfico, no h nada que eu possa 
fazer.
Cooper o contemplara com seus olhos castanhos ardentes e 
dissera:
- Voc  um idiota.
E ele se descobrira sendo levado bruscamente para fora do 
escritrio.

Fora por isso que Cooper iniciara a sua vigilncia de um homem 
s. Seguia Tracy por toda a parte: a lojas e restaurantes, 
atravs das ruas de Paris. Ficava sem dormir e muitas vezes 
sem comer. Daniel Cooper no podia permitir que Tracy Whitney 
o denotasse. Sua misso no estaria encerrada enquanto no a 
metessem na priso.

Tracy ficou acordada na cama durante aquela noite, revendo o 
plano que seria executado no dia seguinte. Gostaria que sua 
cabea estivesse melhor. tomara aspirina, mas a cabea 
continuava a latejar, cada vez pior. Estava suando e o quarto 
parecia insuportavelmente quente. Amanh estar tudo acabado, 
Sua. E o lugar para onde iriam. Para as frias montanhas da 
Sua.
 Ela ps o despertador para tocar s cinco horas da manh. 
Quando a campainha soou, descobriu-se na cela da priso, com 
Calcinha de Ferro berrando:
 - Hora de se vestir! Depressa!
 O corredor ressoava com o estrpito da campainha. Tracy 
acordou. Sentia uma presso no peito, a claridade fazia os 
olhos doerem. Forou-se a ir ao banheiro. O rosto parecia 
inchado e avermelhado no espelho. No posso ficar doente 
agora, pensou Tracy. No hoje. H muito o que fazer.
 Ela vestiu-se devagar, tentando ignorar o latejar na cabea. 
Ps o macaco preto de bolsos fundos, os sapatos de solas de 
borracha e uma boina basca. O corao parecia bater 
irregularmente, mas no tinha certeza se era do excitamento ou 
da doena que a invadia. Sentia-se tonta e fraca. A garganta 
estava dolorida, dando a impresso de arranhada.  mesa, viu a 
echarpe que Jeff lhe dera. Pegou-a, e enrolou no pescoo.

A portaria do Mel Plaza Athne fica na Avenue Montaigne, mas 
a entrada de servio  na Rue du Boccador, alm da esquina. Um 
cartaz discreto indica ENTRE DE SERVICE. H um corredor 
comprido, margeado de latas de lixo, levando  rua. Daniel 
Cooper, que assumira um posto de observao perto da entrada 
principal, no viu Tracy sair pela entrada de servio. Mas, 
inexplicavelmente, ele sentiu no momento em que ela se foi. 
Cooper saiu apressadamente para a avenida e olhou para um lado 
e outro. Tracy no se achava  vista.
 O Renault cinza que pegou Tracy na entrada lateral do hotel 
seguiu para a toile. Havia pouco trfego naquela hora e o 
motorista, um rapaz de rosto cheio de espinhas, que 
aparentemente no falava ingls, disparou por uma das 12 
avenidas que constituem os raios da toile. Eu gostaria que 
ele andasse mais devagar, pensou Tracy. O movimento do carro 
estava deixando-a enjoada.
 Trinta minutos depois o carro parou com um solavanco diante 
de uma armazm. A placa por cima da porta dizia BRUCERE ET 
CIE. Tracy lembrou-se que era ali que trabalhava o irmo de 
Ramon Vauban. O rapaz abriu a porta do carro e murmurou:

 - Vite!
 Um homem de meia-idade e cabelos louros ondulados apareceu 
quando Tracy saia do carro, dizendo:
 - Siga-me. Depressa.
 Tracy foi atrs dele at os fundos do armazm, onde havia 
meia dzia de containers, quase todos cheios e fechados, 
prontos para serem levados ao aeroporto. Havia um container 
mole, com um lado de lona, parcialmente ocupado por mveis.
 - Entre. Depressa. No temos tempo a perder.
 Tracy sentiu uma vertigem. Olhou para o caixote e pensou: No 
posso ficar a dentro. Eu morrerei.
 O homem fitava-a com uma expresso estranha.
 - Avez vous mal?
 Agora era o momento de recuar, de pr um paradeiro naquela 
loucura.
 - No. Estou bem.
 Tudo acabar em breve. Ela estaria a caminho da Sua dentro 
de poucas horas.
 - Bon. Leve isto.
 Ele entregou a Tracy uma faca de gume duplo, um rolo de 
corda, uma lanterna e uma pequena caixa de jias azul, com uma 
fita vermelha ao redor.
 - Esta  a duplicata da caixa de jias que trocar.
 Tracy respirou fundo, entrou no container e sentou-se. 
Segundos depois uma lona foi baixada sobre a abertura. Ela 
ouviu as cordas sendo amarradas na lona, a fim de mant-la no 
lugar. Mal ouviu a voz do homem atravs da lona:
- Daqui por diante, nada de falar, nada de se mexer, nada de 
fumar.
 Tracy tentou dizer "Eu no fumo", mas no encontrou energia 
suficiente.
 - Bonne chance. Abri alguns buracos no lado da caixa para 
voc poder respirar. No se esquea de respirar.
 Ele riu de sua piada e Tracy ouviu os passos se afastando. 
Ficou sozinha no escuro.
 O caixote era estreito e apertado, um jogo de cadeiras de 
mesa de jantar ocupava a maior parte do espao. Tracy tinha a 
sensao de que estava pegando fogo. A pele era muito quente 
ao contacto, tinha dificuldade em respirar. Peguei alguma 
espcie de vrus, pensou ela, mas isso ter de esperar. Tenho 
um trabalho a realizar. Pense em outra coisa.
 A voz de Gunther: No tem com que se preocupar, Tracy. Quando 
descarregarem em Amsterdam, seu container ser levado para uma 
garagem particular, perto do aeroporto. Jeff a encontrar l. 
Entregue-lhe as pedras e volte ao aeroporto. Haver uma 
passagem de avio para Genebra  sua espera no balco da 
Swissair. Saia de Amsterdam o mais depressa possvel. Assim 
que souber do roubo, a polcia fechar a cidade. Nada sair 
errado. Mas, caso haja alguma emergncia, aqui tem o endereo 
e a chave de uma casa segura em Amsterdam. Est desocupada.
 Ela devia ter cochilado, pois despertou com um sobressalto no 
momento em que o container foi levantado. Tracy sentiu que 
caa pelo espao apertado e teve de se segurar nos lados em 
busca de apoio. O container assentou em alguma coisa dura. 
Houve uma batida de porta de veculo, um motor entrou em 
funcionamento ruidosamente e um momento depois o camio se 
achava em movimento.
 Estavam a caminho do aeroporto. 

 O plano fora meticulosamente elaborado com toda exactido. O 
container com Tracy dentro deveria chegar ao aeroporto poucos 
minutos antes do container da De Beers. O motorista do camio 
levando Tracy tinha instrues rigorosas: Mantenha uma 
velocidade constante de oitenta quilmetros horrios.
O trfego na estrada para o aeroporto parecia mais intenso do 
que o habitual naquela manh, mas o motorista no estava 
preocupado. O container estaria no aeroporto a tempo e ele 
ganharia uma gratificao adicional de 50 mil francos, o 
suficiente para viajar em frias com a mulher e os dois 
filhos. Amrica, pensava ele. Iremos  Disneyworld.
 O motorista olhou para o relgio no painel e sorriu para si 
mesmo. Nenhum problema. O aeroporto ficava a apenas cinco 
quilmetros de distncia e dispunha de dez minutos para chegar 
l. 
Exactamente no horrio, ele chegou ao desvio para o terminal 
de carga da Air France. Passou pelo prdio cinzento e baixo em 
Roissy - Aeroporto Charles de Gaulle, afastando-se da entrada 
de passageiros, onde cercas de arame farpado separavam a 
estrada da rea de carga. Ao se dirigir para o vasto armazm, 
que se estendia por uma rea de trs blocos e estava repleto 
de caixotes, pacotes e containers empilhados, houve um sbito 
som explosivo e o volante em suas mos deu uma guinada brusca. 
O camio comeou a vibrar. Foutre!, pensou ele. Uma porra de 
um pneu furado logo agora!

O gigantesco avio cargueiro 747 da Air France se achava no 
processo de ser carregado. Os containers se encontravam numa 
plataforma na altura da abertura, prontos para deslizarem por 
uma esteira para o poro do avio. Eram 38 containers, 28 no 
convs principal e os restantes no poro. Um tubo de 
aquecimento exposto corria pelo teto do imenso compartimento, 
os fios e cabos que controlavam o aparelho eram visveis. No 
havia requintes naquele avio.
O processo de carregamento j estava quase concludo. Ramon 
Vauban tornou a olhar para seu relgio e praguejou. O camio 
estava atrasado. A remessa da De Beers j fora posta em seu 
container, o lado de lona preso por cordas cruzadas. Vauban 
marcara o lado com tinta vermelha, a fim de que a mulher no 
tivesse qualquer dificuldade para identific-lo. Ele observou 
agora, enquanto o Container com os diamantes da De Beers era 
levado para o avio e posto em seu lugar. Havia espao ao lado 
para mais um container antes que o avio descolasse. E havia 
trs outros na plataforma, esperando para serem embarcados. 
Onde se metera a mulher? O responsvel pela carga gritou do 
interior do avio:
- Vamos logo, Ramon! O que est esperando?
- S um momento - respondeu Vauban.
 Ele seguiu apressadamente at  entrada da rea de carga. 
Nenhum sinal do camio.
- Vauban! Qual  o problema? - Ele virou-se. Um supervisor 
snior se aproximava. - Termine logo de carregar e mande essa 
carga para o ar.
 - Pois no, senhor. Eu s estava esperando... 
 Nesse momento o camio da Brucere et Cie entrou rapidamente 
na rea e parou na frente de Vauban, com um ranger de pneus.
 - Aqui est a ltima carga - disse Vauban.
 - Pois embarque logo!

 Vauban supervisionou a retirada do container do camio e seu 
embarque no avio. Acenou para o responsvel dentro do avio.
-  tudo seu!
 Momentos depois, os jactos foram accionados e a gigantesca 
aeronave comeou a taxiar para a pista. Vauban pensou: Agora, 
tudo depende da mulher.

Havia uma tempestade violenta. Uma onda enorme atingiu o 
navio, que comeou a afundar. Estou me afogando, pensou Tracy. 
Tenho de sair daqui.
 Ela estendeu os braos e bateu em alguma coisa. Era o lado do 
escaler, balanando incontrolvel. Tracy tentou ficar de p e 
bateu com a cabea na perna de uma mesa. Num momento de 
lucidez, lembrou-se de onde estava. O rosto e os cabelos 
pingavam suor. Sentia-se tonta, o corpo ardia. Por quanto 
tempo estivera inconsciente? Era apenas uma hora de voo. O 
avio estava prestes a aterrar? No, pensou ela. Corre tudo 
bem. Tenho um pesadelo. Estou na cana em Londres, dormindo. 
Chamarei um mdico. Ela no conseguia respirar. Fez um esforo 
para se erguer e pegar o telefone, mas no instante seguinte 
tornou a arriar, o corpo pesado como chumbo. O avio entrou 
num bolso de turbulncia e Tracy foi lanada contra o lado do 
caixote. Ficou imvel, atordoada, tentando desesperadamente se 
concentrar. Quanto tempo eu tenho? Ela oscilava entre um sonho 
infernal e a realidade angustiosa. Os diamantes. De alguma 
forma, ela tinha de pegar os diamantes. Mas primeiro... 
primeiro tinha de sair do container em que estava.
 Ela pegou a faca no macaco e descobriu que era um terrvel 
esforo levant-la. No h ar suficiente, pensou Tracy. 
Preciso de ar. Ela enfiou a mo pela beira da lona, tacteou  
procura de uma das cordas externas, encontrou-a e cortou-a. 
Teve a impresso de levar uma eternidade. A lona se abriu um 
pouco. Ela cortou outra corda e agora havia espao suficiente 
para sair do container. O ar era frio do lado de fora. Ela 
estava congelando. Todo o seu corpo comeou a tremer. Os 
constantes solavancos do avio aumentavam-lhe a nusea. Tenho 
de me controlar, pensou Tracy. Ela fez um esforo para se 
concentrar. O que estou fazendo aqui? Alguma coisa 
importante... Ah, sim... Diamantes.
 A viso de Tracy estava enevoada, tudo entrava e saa de foco 
incessantemente. No vou conseguir.
O avio caiu abruptamente e Tracy foi lanada ao cho, 
arranhando as mos no metal. Ficou se segurando, enquanto o 
avio balanava; quando o movimento cessou, ela forou-se a 
ficar de p outra vez. O rugido dos jactos se misturava com o 
zumbido em sua cabea. Os diamantes. Preciso encontrar os 
diamantes.
 Ela cambaleou entre os containers, estreitando os olhos para 
observar cada um,  procura do sinal de tinta vermelha. Graas 
a Deus! L estava o sinal, no terceiro container. Ela ficou 
imvel, tentando se lembrar o que fazer em seguida. Era um 
grande esforo se concentrar. Se eu pudesse deitar e dormir 
por uns minutos, tudo estar bem. S preciso de um pouco de 
sono. Mas no havia tempo. Podiam aterrar em Amsterdam a 
qualquer momento. Tracy pegou a faca e cortou as cordas no 
container.
 - Um bom corte ser suficiente - haviam lhe dito.

 Mal tinha fora para segurar a faca. No posso falhar agora, 
pensou Tracy. Ela recomeou a tremer, to violentamente que 
largou a faca. No vou conseguir. Eles me pegaro e me 
mandaro de volta  priso.
 Ela hesitou, indecisa, segurando a corda, querendo 
desesperadamente rastejar de volta a seu container, onde 
poderia dormir, s e salva, at que tudo acabasse. Seria to 
fcil... Depois, lentamente, com todo cuidado, enfrentando o 
latejar terrvel na cabea, Tracy estendeu a mo para a faca e 
pegou-a. Comeou a cortar a grossa corda.
 E a corda finalmente se rompeu. Tracy puxou a lona e ficou 
olhando fixamente para o interior escuro do container. Nada 
podia ver. Pegou a lanterna e, nesse momento, sentiu uma 
sbita mudana da presso em seus ouvidos.
 O avio estava descendo para o pouso.
 Tracy pensou: Tenho de me apressar. Mas seu corpo se recusava 
a reagir. Ela permaneceu imvel, atordoada. Mexa-se, ordenou a 
mente.
 Ela iluminou o interior do container com a lanterna. Estava 
atulhado de pacotes, envelopes e pequenas caixas. E, por cima, 
l estavam as duas caixas azuis com fitas vermelhas. Duas 
caixas! Mas s devia haver uma... Ela piscou os olhos e as 
duas caixas se fundiram em uma. Tudo parecia estar envolto por 
uma aura brilhante.
 Tracy pegou a caixa, tirou a duplicata do bolso. Segurando as 
duas, uma nusea intensa dominou-a, sacudindo seu corpo. 
Cerrou os olhos, lutando contra a nusea. Comeou a pr a 
caixa substituta no alto do engradado e subitamente 
compreendeu que no mais tinha certeza qual era a genuna. 
Olhou atentamente para as caixas idnticas. Era a que estava 
na mo esquerda ou a da mo direita?
O avio entrou num ngulo de descida mais ngreme. Mais um 
pouco e estaria pousando. Ela tinha de tomar uma deciso. 
Largou uma das caixas no container, rezando para que fosse a 
certa, afastou-se. Tirou um pedao de corda do seu macaco. H 
alguma coisa que devo fazer com esta corda. O zumbido em sua 
cabea tornava impossvel pensar. Ela lembrou-se: Depois de 
cortar a corda, guarde-a no bolso e substitua-a pela corda 
nova. No deixe qualquer coisa que possa lev-los a desconfiar 
que h algo errado.
 Parecera muito fcil ento, sentada ao sol quente no Bateau 
Mouche Agora, porm, era impossvel. No lhe restava mais 
qualquer fora. Os guardas encontrariam a corda cortada, 
revistariam toda a carga e a prenderiam. Alguma coisa dentro 
dela gritou: No! No! No!
 Com um esforo tremendo, Tracy comeou a prender a corda que 
trouxera no container. Sentiu um solavanco sob os ps no 
momento em que o avio tocou no cho, depois outro, foi 
arremessada para trs, quando as turbinas entraram em 
reverso. A cabea bateu no cho e ela apagou a lanterna.

 O 747 aumentava a velocidade agora, taxiando pela pista, na 
direco do terminal. Tracy estava cada no cho do avio, os 
cabelos se espalhando sobre o rosto plido, muito branco. Foi 
o silncio dos motores que finalmente a trouxe de volta  
conscincia. Soergueu-se, apoiada num cotovelo, lentamente se 
forou a ficar de joelhos. Levantou-se, cambaleando, teve de 
se segurar no container para no cair. A corda nova estava no 
lugar. Ela comprimiu a caixa dos diamantes contra o peito, 
comeou a voltar para seu container. Esgueirou-se pela 
abertura na lona e arriou, ofegante, o corpo coberto de suor. 
Eu consegui. Mas havia mais uma coisa que precisava fazer. 
Algo importante. O qu? Prenda com uma fita adesiva a corda em 
seu container.
 Ela meteu a mo no bolso do macaco,  procura do rolo de 
fita adesiva. Desaparecera. Sua respirao era rasa, aos 
arrancos, o som a ensurdecia. Teve a impresso de ouvir vozes 
e forou-se a parar de respirar e escutar. Isso mesmo. Estavam 
ali novamente. Algum riu. A qualquer momento, a porta do 
compartimento de carga seria aberta, os homens comeariam a 
descarregar. Veriam a corda cortada, dariam uma olhada dentro 
do container e a descobririam. Tinha de encontrar um meio de 
unir a corda. Ficou de joelhos e nesse instante sentiu por 
baixo do corpo o rolo de fita adesiva, que cara do bolso em 
algum momento durante a turbulncia do voo. Levantou a lona e 
tacteou ao redor, encontrou as duas pontas da corda cortada e 
uniu-as, enquanto tentava desajeitadamente prend-las com a 
fita adesiva.
No podia ver. O suor escorria pelo rosto e a cegava. Tirou a 
charpe do pescoo e enxugou o rosto. Terminou de prender a 
corda e largou a lona de volta no lugar. No havia mais nada a 
fazer agora, a no ser esperar. Ela tornou a apalpar a testa e 
pareceu-lhe ainda mais quente do que antes.
Tenho que sair do sol, pensou Tracy. O sol tropical pode ser 
perigoso.
Ela estava de frias em algum lugar do Caribe. Jeff aparecera 
para lhe entregar alguns diamantes, mas pulara no mar e 
sumira. Ela se inclinou para salv-lo, mas Jeff escapuliu s 
suas mos. A gua agora cobria a cabea dela. Estava 
sufocando, afogando.
 Ouviu o barulho dos trabalhadores entrando no avio.
 - Socorro! - gritou - Por favor, ajudem-me!
Mas o grito foi um sussurro, ningum ouviu.
Os imensos containers comearam a ser retirados do avio.
Tracy estava desmaiada quando levaram o seu container para um 
camio da Brucere et Cie. E no cho do avio cargueiro ficou a 
charpe que Jeff lhe dera.

Tracy foi acordada quando uma claridade atingiu o camio, no 
momento em que algum levantou a lona. Lentamente, ela abriu 
os olhos. O camio estava dentro de um armazm. Jeff se achava 
parado ali, sorrindo-lhe.
 - Voc conseguiu! - exclamou ele. -  uma maravilha, Tracy. 
D-me a caixa.
 Ela observou, aptica, quando Jeff pegou a caixa. 
- At Lisboa. Ele virou-se para sair, mas parou no instante 
seguinte e fitou-a. -Tem um aspecto horrvel, Tracy. Est-se 
sentindo bem?
Ela mal conseguia falar.
- Jeff, eu...
 Mas ele j se fora.
 Tracy s teve depois uma recordao nebulosa do que aconteceu 
em seguida. Havia uma muda de roupas para ela nos fundos do 
armazm e uma mulher disse:
 - Parece doente, mademoiselle. Deseja que eu chame um mdico?
 - Nada de mdicos - balbuciou Tracy.

 Haver uma passagem de avio para Genebra  sua espera no 
balco da Swissair. Saia de Amsterdam o mais depressa 
possvel. Assim que souber do roubo, a polcia fecha a cidade. 
Nada sair errado. Mas, caso haja alguma emergncia, aqui tem 
o endereo e a chave de uma casa segura em Amsterdam. Est 
desocupada.
O aeroporto. Ela tinha de chegar ao aeroporto. Tracy murmurou:
- Quero um txi...
A mulher hesitou por um momento e depois encolheu os ombros.
- Est certo. Vou cham-lo. Espere aqui.
Tracy flutuava agora cada vez mais alto, chegando perto do 
sol.
 - Seu txi est aqui - disse um homem.
 Ela gostaria que as pessoas parassem de incomod-la. S 
queria dormir.
 O motorista perguntou:
 - Para onde deseja ir, mademoiselle?
Haver uma passagem de avio para Genebra  sua espera no 
balco da Swissair.
Ela estava doente demais para embarcar num avio. Iriam 
impedi-la, chamar um mdico. Seria interrogada. Tudo o que 
precisava era dormir por alguns minutos e depois tudo estaria 
bem. A voz do motorista comeava a se tornar impaciente.
 - Para onde, por favor?
 Ela no tinha para onde ir. E acabou dando ao motorista o 
endereo da casa segura. 

A polcia interrogavas a respeito dos diamantes. Como ela se 
recusasse a responder, eles ficaram furiosos e a trancaram 
sozinha numa sala, ligando o aquecimento, at que o calor se 
tornou insuportvel. Quando isso aconteceu, baixaram a 
temperatura, at que pingentes de gelo comearam a se formar 
nas paredes.
 Tracy emergiu pelo frio e abriu os olhos. Estava numa cama 
tremendo incontrolavelmente. Havia um cobertor por baixo de 
seu corpo, mas no tinha fora para estend-lo por cima. O 
vestido estava encharcado de suor, o rosto e o pescoo se 
achavam molhados.
Morrerei aqui. Onde era o aqui?
A casa segura. Estou na casa segura. E a frase pareceu-lhe to 
engraada que desatou a rir, o riso logo se transformando num 
paroxismo de tosse. Tudo sara errado. Ela no escapara, no 
fim de contas. A esta altura, a polcia deveria estar 
vasculhando Amsterdam,  sua procura. Mademoiselle Whitney 
tinha uma passagem para Genebra e no a usou? Ento ela ainda 
deve estar em Amsterdam.
Ela se perguntou h quanto tempo estaria naquela cama. 
Levantou o pulso para olhar o relgio, mas os nmeros se 
mostravam borrados. Via tudo a dobrar. Havia duas camas no 
pequeno quarto, duas cmodas e quatro cadeiras. O tremor 
cessou, seu corpo ardia novamente. Precisava abrir uma janela, 
mas se achava fraca demais para fazer qualquer movimento. O 
quarto comeou a congelar outra vez.
E ela se encontrava de volta ao avio, trancada no container, 
gritando por socorro.
Voc conseguiu!  uma maravilha, Tracy. D-me a caixa.

Jeff levara os diamantes e provavelmente se achava a caminho 
do Brasil, com a sua parte do dinheiro. Estaria se divertindo 
com uma de suas mulheres, rindo dela. Ele a vencera mais uma 
vez. Ela o odiava. No, no odiava. Sim, odiava. Ela o 
desprezava.
 Tracy entrava e saa do delrio. A bola dura da pelota voava 
em sua direco, Jeff a tomava nos braos, empurrava-a para o 
cho, os lbios bem perto dos seus. E depois estavam jantando 
no Zalacan. Sabia que voc  muito especial, Tracy?
Eu ofereo o empate, disse Boris Melnikov.
 Seu corpo tremia novamente, descontrolado, viajava num trem 
expresso, atravessando um tnel escuro. Ela sabia que, 
morreria no final do tnel. Todos os outros passageiros haviam 
desembarcado, excepto Alberto Fornati. Ele estava furioso com 
ela, sacudia-a e gritava:
- Pelo amor de Deus! Abra os olhos! Olhe para mim!
Com um esforo sobre-humano, Tracy abriu os olhos e deparou 
com Jeff. O rosto dele estava muito plido e havia fria em 
sua voz. Mas  claro que tudo no passava de parte do seu 
sonho.
 H quanto tempo se acha assim?
- Voc est no Brasil - balbuciou Tracy.
Depois disso, ela no se lembrou de mais nada.

Quando recebeu a echarpe com as iniciais TW, o Inspector 
Trignant contemplou-a em silncio por um longo tempo. A 
echarpe fora encontrada no cho do avio cargueiro da Air 
France. Depois, ele murmurou:
- Quero falar com Daniel Cooper.

32

A pitoresca aldeia de Alkmaar, na costa noroeste da Holanda, 
virada para o Mar do Norte,  um ponto turstico popular. Mas 
h um bairro no sector leste que os turistas raramente 
visitam. Jeff Stevens ali estivera em frias vrias vezes, com 
uma aeromoa da KLM que lhe ensinara a lngua. Recordava-se 
muito bem da rea, um lugar em que os residentes cuidavam de 
suas prprias vidas apenas e no se mostravam indevidamente 
curiosos em relao aos visitantes. Um lugar perfeito para se 
esconder.
 O primeiro impulso de Jeff fora levar Tracy correndo para um 
hospital. Mas seria perigoso demais. Era tambm arriscado para 
ela permanecer em Amsterdam. por mais um minuto sequer. Ele a 
envolvera em cobertores e a levara para o carro, onde ela 
permanecera inconsciente durante toda a viagem at Alkmaar. 
Sua respirao era ofegante e a pulsao irregular.
 Em Alkmaar, Jeff foi para uma pequena estalagem. O 
estalajadeiro observou, curioso, quando Jeff carregou Tracy 
para o quarto no segundo andar.
- Estamos em lua-de-mel - explicou Jeff. - Minha esposa ficou 
doente... um pequeno distrbio respiratrio. Precisa de 
repouso.
- Gostaria que eu chamasse um mdico?
O prprio Jeff no tinha certeza de qual era a resposta certa.
- Se houver necessidade, eu lhe direi.
A primeira coisa que tinha de fazer era tentar baixar a febre 
de Tracy. Levou-a para a cama de casal no quarto e comeou a 
tirar-lhe as roupas, encharcadas de suor. Suspendeu-a para uma 
posio sentada e puxou o vestido pela cabea. Os sapatos em 
seguida, depois a meia-cala. O corpo de Tracy estava muito 
quente. Jeff molhou uma toalha com gua fria e gentilmente 
banhou-a, da cabea aos ps. Cobriu-a com um cobertor e 
sentou-se ao lado da cama, prestando ateno  sua respirao.
Se ela no estiver melhor pela manh, decidiu Jeff, terei de 
chamar um mdico.

Pela manh, as roupas de cama estavam novamente encharcadas. 
Tracy ainda se encontrava inconsciente, mas Jeff teve a 
impresso de que sua respirao era um pouco mais fcil. No 
queria permitir que a arrumadeira visse Tracy; isso 
acarretaria perguntas demais. Em vez disso, pediu uma muda de 
roupa de cama e levou para o quarto. tornou a lavar o corpo de 
Tracy com uma toalha mida, mudou a roupa da cama como vira 
enfermeiras fazerem em hospitais, sem incomodar a paciente, 
tornou a cobri-la.
 Pondo um cartaz de FAVOR NO INCOMODAR na porta, Jeff saiu  
procura da farmcia mais prxima. Comprou aspirina, um 
termmetro, uma esponja e lcool. Quando voltou ao quarto, 
constatou que Tracy ainda no despertara. Jeff verificou sua 
temperatura: 40 graus. Passou lcool pelo corpo com a esponja 
e a febre baixou.

 Uma hora depois, a temperatura tornou a subir. Ele teria de 
chamar um mdico. O problema era que o mdico insistiria que 
Tracy fosse levada para um hospital. Haveria perguntas. Jeff 
no tinha idia se a polcia os procurava; mas, se isso 
acontecesse, os dois seriam detidos. Precisava fazer alguma 
coisa. Esmagou quatro aspirinas, e ps o p entre os lbios de 
Tracy e gentilmente pingou gua em sua boca, at que ela 
engolisse. tornou a banh-la. Quando terminou de enxug-la, 
teve a impresso de que o corpo de Tracy j no se mostrava 
to quente como antes. Verificou o pulso. Parecia mais firme. 
Encostou a cabea no peito de Tracy e escutou. A respirao 
estaria menos congestionada? No podia ter certeza. S tinha 
certeza de uma coisa e repetiu-a interminavelmente, at que se 
transformou numa litania: "Voc ficar boa." E Jeff beijou-a 
na testa, gentilmente.
 Ele no dormia h 48 horas, sentia-se exausto, os olhos 
fundos. Dormirei depois, prometeu a si mesmo. Agora, s 
fecharei os olhos por um momento, a fim de descansrmos.
 E ele dormiu.

Quando abriu os olhos e observou o teto entrar em foco 
lentamente, Tracy no tinha a menor idia do lugar em que se 
encontrava. Foram necessrios alguns minutos para que a 
percepo penetrasse em seu consciente. Sentia o corpo modo e 
dolorido, tinha a impresso de que retornara de uma jornada 
longa e extenuante. Sonolenta, correu os olhos pelo quarto 
desconhecido... e o corao parou subitamente. Jeff se achava 
arriado numa poltrona, perto da janela, adormecido. Na ltima 
vez em que o vira, ele pegara os diamantes e fora embora. O 
que estaria fazendo ali? E com uma repentina sensao de 
desespero, Tracy compreendeu a verdade: entregara-lhe a caixa 
errada - a caixa com os falsos diamantes - e Jeff pensava que 
o enganara. Devia t-la apanhado na casa segura e levado para 
aquele lugar, ela no sabia onde.
Quando ela se sentou na cama, Jeff se mexeu e abriu os olhos. 
Ao deparar com Tracy a fit-lo, um lento sorriso de felicidade 
iluminou seu rosto.
- Seja bem-vinda de volta.
Havia um tom de alvio to intenso em sua voz que Tracy 
sentiu-se confusa.
- Desculpe - disse Tracy, a voz num sussurro rouco. - Eu lhe 
dei a caixa errada.
 - Como?
 - Misturei as caixas.
 Jeff aproximou-se da cama e disse gentilmente:
 - No, Tracy. Voc me deu os diamantes autnticos, Que esto 
agora a caminho de Gunther.
 Ela ficou aturdida.
- Ento... por que... por que voc est aqui?
 Jeff sentou-se na beira da cama.
 - Quando me entregou os diamantes, voc estava com a mscara 
da morte. Resolvi que era melhor aguardar no aeroporto, a fim 
de me certificar se voc pegava mesmo o avio para Genebra. 
Como no apareceu, compreendi que se encontrava em alguma 
encrenca. Fui  casa segura e encontrei-a.
 Uma pausa e ele acrescentou, jovialmente:
- No podia deix-la morrer ali. Seria uma pista para a 
polcia.
Tracy observava-o atentamente, cada vez mais perplexa.
- Diga qual foi o verdadeiro motivo para voltar  minha 
procura.
-  hora de tirar sua temperatura - disse Jeff, bruscamente.
Poucos minutos depois, ele disse a Tracy:

- No est ruim. Um pouco acima de trinta e oito, Voc  uma 
paciente maravilhosa.
 - Jeff...
 - Confie em mim. Tem fome?
 - Uma fome enorme.
 - ptimo. Vou buscar alguma comida.

Ele voltou das compras com uma sacola cheia de suco de 
laranja, leite, frutas e grandes broodjes holandeses, pes 
recheados com diferentes tipos de queijo, carne e peixe. 
 - Isto parece ser a verso holandesa da canja, mas deve 
resolver o problema. Coma devagar.
 Ele ajudou-a a se sentar na cama e alimentou-a. Mostrou-se 
cuidadoso e terno. Tracy pensou, cautelosa: Ele pretende 
alguma coisa. Enquanto ela comia, Jeff disse:
 - Ao sair para as compras, aproveitei e telefonei para 
Gunther. Ele recebeu os diamantes e depositou a sua parte do 
dinheiro em sua conta na Sua.
 Tracy no pde deixar de perguntar:
 - Por que voc no ficou com tudo?
 Quando Jeff respondeu, seu tom era srio:
 - Porque j  tempo de pararmos de passar para trs um ao 
outro, Tracy, Certo?
 Era outro dos truques de Jeff, com toda a certeza. Mas Tracy 
sentia-se cansada demais para se preocupar com isso.
 - Certo.
 - Se me disser os seus tamanhos, Tracy, eu sarei e lhe 
comprarei algumas roupas. Os holandeses so liberais, mas 
poderiam ficar chocados se voc sasse por a do jeito como 
est.
 Tracy levantou as cobertas, descobrindo subitamente a sua 
nudez. Tinha uma vaga impresso de Jeff a despi-la e banh-la. 
Ele arriscara a sua prpria segurana para cuidar dela. Por 
qu? Tracy acreditara que o compreendia. Mas no o compreendo, 
pensou Tracy. No o compreendo absolutamente.
 Ela dormiu.

 tarde, Jeff` voltou ao quarto com duas malas, cheias de 
chambres, camisolas, roupas de baixo, vestidos e sapatos, um 
estojo de maquilhagem, escova e secador de cabelos, escova e 
pasta de dentes. Tambm comprara diversas roupas para si mesmo 
e, International Herald Tribune. Havia uma matria sobre o 
roubo dos diamantes na primeira pgina; a polcia calculara 
como fora cometido, mas os ladres no haviam deixado qualquer 
pista, segundo o jornal. Jeff declarou, jovialmente:
 - Estamos livres! Agora, tudo o que precisamos fazer  cuidar 
para que voc se recupere totalmente.

Fora Daniel Cooper quem sugerira que a informao da echarpe 
com as iniciais TW fosse oculta da imprensa, explicando ao 
Inspector Trignant:
- Sabemos a quem pertence, mas no  prova suficiente para um 
indiciamento. Os advogados dela apresentariam todas as 
mulheres da Europa com as mesmas iniciais e nos fariam de 
tolos.
Na opinio de Cooper, a polcia j bancara a tola. Mas Deus a 
entregar a mim.

Ele sentou-se na escurido da pequena igreja, num banco duro 
de madeira, e rezou: Oh, Pai, entregue-a a mim. Faa com que 
ela caia em minhas mos para recebera sua punio, afim de que 
eu possa me expurgar dos meus pecados. O mal no esprito 
daquela mulher ser exorcizado e seu corpo nu ser aoitado... 
E ele pensou no corpo nu de Tracy sob o seu domnio, sentiu o 
comeo de uma ereco. Deixou a igreja apressadamente, 
aterrorizado que Deus pudesse ver e infligir-lhe uma punio.

J escurecera quando Tracy acordou. Sentou na cama e acendeu o 
abajur na mesinha-de-cabeceira. Descobriu que se encontrava 
sozinha. Jeff se fora. Um sentimento de pnico Invadiu-a. 
Deixara-se ficar dependente de Jeff, o que fora um erro 
estpido. Bem mereo a lio, pensou Tracy, amargurada. 
"Confie em mim", dissera Jeff. E ela confiara. Ele s cuidara 
dela para se proteger, no por qualquer outro motivo. Chegara 
a acreditar que ele sentia alguma coisa por ela. Quisera 
acreditar nele, quisera sentir que significava alguma coisa 
para Jeff. Ela recostou-se no travesseiro e fechou os olhos, 
pensando: Sentirei saudade de Jeff. Deus me ajude, mas 
sentirei saudade dele.
Deus lhe pregara uma pea csmica. Por que tivera de ser 
justamente ele? Mas o motivo no importava. Teria de fazer 
planos para sair dali o mais depressa possvel, encontrar 
algum lugar em que pudesse se recuperar inteiramente, onde 
pudesse se sentir segura. Oh, sua maldita idiota!, pensou ela. 
Voc...
Ela ouviu o barulho da porta se abrindo e a voz de Jeff 
chamou:
- Est acordada, Tracy? Trouxe alguns livros e revistas. Achei 
que voc poderia... - Ele parou de falar abruptamente, ao ver 
a expresso no rosto de Tracy. - Ei, houve algum problema?
- No h mais - murmurou Tracy. - No h mais.
A febre de Tracy desapareceu por completo na manh seguinte.
- Eu gostaria de sair - disse ela. - Acha que podemos dar uma 
volta, Jeff.
 Despertaram curiosidade no saguo. O casal que possua o 
hotel ficou deliciado com a recuperao de Tracy.
 - Seu marido foi maravilhoso. Insistiu em fazer tudo 
pessoalmente. Estava muito preocupado. Uma mulher tem sorte em 
contar com um homem que a ama tanto.
 Tracy olhou para Jeff. Poderia jurar que ele corava. L fora, 
ela disse:
 - Eles so ptimos.
 - Sentimentais demais - resmungou Jeff.

Jeff providenciou uma cama de lona para dormir, ao lado de 
Tracy. Naquela noite, deitada na cama, Tracy lembrou-se 
novamente como Jeff a cuidara, atendera a todas as suas 
necessidades, banhara seu corpo nu. Sentia-se intensamente 
consciente da presena de Jeff. Dava-lhe a sensao de estar 
protegida.
 E deixava-a nervosa.


Gradativamente,  medida que se tornava mais forte, Tracy e 
Jeff passavam mais tempo explorando a extica cidadezinha. Iam 
at o Alkmaarder Meer, percorrendo as ruas sinuosas, caladas 
de pedras, que datavam da Idade Mdia, passeavam por horas nos 
campos de tulipas, nos arredores da cidade. Visitavam o 
mercado de queijos e a velha casa de peso, vagueavam pelo 
museu municipal. Para surpresa de Tracy, Jeff conversava com 
os habitantes em holands. 
- Onde aprendeu a lngua?
- Quando namorei uma holandesa.
Tracy se arrependeu de ter perguntado.
Enquanto os dias transcorriam, o corpo jovem e saudvel de 
Tracy foi-se curando. Quando achou que ela j estava bastante 
forte, Jeff alugou bicicletas e visitaram os moinhos de vento 
que pontilhavam os campos. Cada dia era um feriado maravilhoso 
e Tracy no queria que aquilo acabasse.
Jeff era uma constante surpresa. Tratava-a com uma preocupao 
e ternura que dissipavam as defesas dela contra ele, mas ao 
mesmo tempo no fazia qualquer avano sexual. Ele era um 
enigma para Tracy. Ela pensava nas lindas mulheres com quem o 
vira e tinha certeza de que Jeff poderia ter qualquer delas no 
momento em que quisesse. Por que ento ficava com ela naquele 
cantinho perdido do mundo?
 Tracy descobriu-se a falar sobre coisas que pensara que 
jamais conversaria com algum. Contou a Jeff sobre Joe Romano, 
Tony Orsatti, Ernestine Littlechap, Big Bertha e a pequena Amy 
Brannigan. Jeff se mostrou alternadamente indignado, 
consternado e compadecido. Jeff falou sobre a madrasta e tio 
Willie, sobre os seus dias no parque de diverses, o casamento 
com Louise. Tracy nunca se sentira to intima de algum.
E, subitamente, era o momento de ir embora. Jeff anunciou uma 
manh:
- A polcia no est  nossa procura, Tracy. Acho que devemos 
partir.
Ela sentiu uma pontada de desapontamento.
- Tem certeza? Quando?
- Amanh.
Tracy assentiu
- Farei as malas pela manh.

Tracy ficou acordada naquela noite, incapaz de dormir. A 
presena de Jeff parecia povoar o quarto como nunca antes. 
Aquele fora um perodo inesquecvel em sua vida e agora 
chegava ao fim. Ela olhou para a cama de lona em que Jeff 
estava deitado.
- Est dormindo, Jeff?
- No.
- Em que pensa?
- No dia de amanh. Em deixar esta cidade. Sentirei saudade.
- E eu sentirei saudade de voc, Jeff.
As palavras saram antes que ela pudesse se controlar. Jeff 
sentou-se lentamente e olhou para ela.
- Quanto?
- Muita.
Um momento depois, ele se achava ao lado da cama grande
- Tracy...
- Pshh.. No fale. Apenas me abrace. E aperte com fora.

Comeou devagar, um contacto suave, caricia, sensao, 
explorao dos sentidos. E foi-se desenvolvendo e aumentando 
para um ritmo frentico, at se tornar um bacanal, uma orgia 
de prazer, desvairado e selvagem. O membro duro de Jeff 
acariciava e arremetia, enchia-a por completo, at que ela 
sentia vontade de gritar com a alegria insuportvel. Ela se 
achava no centro de um arco-ris. Sentia-se arrebatada por um 
maremoto que a elevava mais e mais. Houve uma sbita exploso 
dentro dela e todo o seu corpo comeou a tremer. 
Gradativamente, a tempestade se desvaneceu. Tracy fechou os 
olhos. Sentiu os lbios de Jeff descerem por seu corpo, at o 
prprio centro de seu ser, foi envolvida por outra onda 
impetuosa de sensao indescritvel.
Ela puxou Jeff contra si, sentindo o corao dele bater contra 
o seu. Comprimiu-se contra ele, mas ainda no podia chegar 
bastante perto. Desceu para o p da cama, os lbios roando 
pelo corpo de Jeff, em beijos suaves, ternos, subindo devagar, 
at encontrar o membro duro em sua mo. Afagou-o gentilmente, 
meteu-o na boca, escutou os gemidos de prazer de Jeff. Depois, 
Jeff rolou por cima dela e penetrou-a, tudo recomeou, mais 
excitante do que antes, uma fonte se derramando com um prazer 
insuportvel. Tracy pensou: Agora eu sei. Pela primeira vez, 
eu sei. Mas devo lembrar que  apenas por esta noite, um 
maravilhoso presente de despedida.
E durante toda a noite eles fizeram amor, conversaram sobre 
tudo e sobre nada. Era como se comportas h muito trancadas se 
abrissem para os dois. Ao amanhecer, quando os canais 
comeavam a cintilar com o dia que raiava, Jeff disse:
- Case comigo, Tracy.
Ela tinha certeza de que entendera errado, mas as palavras 
tornaram a soar. Tracy sabia que era loucura e impossvel, 
nunca poderia dar certo, mas era delirantemente maravilhoso e 
 claro que daria certo. E ela sussurrou:
- Est bem.
Tracy comeou a chorar, aconchegada na segurana dos braos de 
Jeff. Nunca mais me sentirei solitria, pensou Tracy. 
Pertencemos um ao outro. Jeff  parte de todos os meus 
amanhs.
O amanh chegara.

Muito tempo depois, Tracy perguntou:
- Quando voc soube, Jeff?
- Quando a vi naquela casa e pensei que fosse morrer. Fiquei 
meio louco.
- E eu pensei que voc fugira com os diamantes - confessou 
Tracy.
 Ele tornou a abra-la.
- O que fiz em Madri no foi pelo dinheiro, Tracy. Foi pelo 
desafio. No  por isso que ns dois estamos no ofcio? Voc 
recebe um quebra-cabea que aparentemente no tem soluo e 
comea a especular se na verdade no haver algum modo de 
resolv-lo.
Tracy assentiu.
-  isso mesmo. A princpio, era porque eu precisava do 
dinheiro. E depois tornou-se outra coisa, o dinheiro j no 
tinha importncia. Adoro o duelo de esperteza com pessoas que 
so vitoriosas, inteligentes e inescrupulosas. Adoro viver na 
corda bamba do perigo.
Depois de um silncio prolongado, Jeff disse:
- Tracy... estaria disposta a renunciar a tudo isso?
 Ela ficou perplexa.
 - Renunciar? Por qu?

 - Estvamos antes por conta prpria, cada um por si. Agora, 
tudo mudou. Eu no poderia suportar se alguma coisa 
acontecesse. Por que correr mais riscos? Temos todo o dinheiro 
que jamais precisaremos. Por que no nos consideramos 
aposentados?
- O que faramos, Jeff?
Ele sorriu.
- Pensaremos em alguma coisa.
- Falando srio, querido, como passaramos a vida?
- Faramos qualquer coisa que quisssemos, meu amor. 
Viajaramos, cuidaramos de hobbies. Sempre fui fascinado pela 
arqueologia. Gostaria de realizar uma escavao na Tunsia. 
Poderamos financiar nossas prprias escavaes. Conheceramos 
o mundo inteiro.
- Parece excitante.
- E ento... o que me diz?
Tracy contemplou-o em silncio por um longo tempo e depois 
disse, suavemente:
- Se  isso o que voc quer...
Jeff abraou-a e comeou a rir.
- No deveramos fazer um comunicado formal  polcia?
Tracy acompanhou-o no riso.

As igrejas eram mais antigas do que quaisquer outras que j 
havia conhecido antes. Algumas datavam dos tempos pagos e 
havia ocasies em que ele no sabia se estava rezando para o 
demnio ou para Deus. Sentava-se com a cabea inclinada na St. 
Bavokerk, Pieterskerk e Nieuwekerk, em Delft, a cada vez sua 
orao era a mesma: Permita-me faz-la sofrer tanto quanto eu 
sofro.

O telefonema de Gunther Hartog chegou no dia seguinte, quando 
Jeff se achava ausente.
- Como est se sentindo? - perguntou Gunther.
- Maravilhosamente - respondeu Tracy.
Gunther telefonara todos os dias, depois que soubera o que 
acontecera com ela. Tracy resolveu no contar a ele, por 
enquanto, a sua deciso e de Jeff de casarem, abandonando 
tudo. Queria guardar para si mesma por mais algum tempo, 
aprofundar a idia, acariciar a perspectiva.
- Voc e Jeff esto se dando bem?
Ela sorriu.
- Estamos nos dando at bem demais.
- Aceitaria trabalharem juntos de novo?
Agora, Tracy tinha de lhe contar.
- Gunther... ns... estamos deixando.
Houve um momento de silncio.
- No estou entendendo.
- Jeff e eu vamos... como se dizia nos filmes antigos de James 
Cagney... seguir por uma vida honesta.
- Ahn? Mas... por qu?
- Foi idia de Jeff e eu concordei. Nada mais de fiscos.
- E se eu dissesse que o trabalho que tenho vale dois milhes 
de dlares e no envolve riscos?
- Eu riria muito, Gunther.
- Estou falando srio, minha cara. Viajariam para Amsterdam, 
que fica a apenas uma hora de carro do lugar em que esto 
agora, e...
- Ter de encontrar outra pessoa, Gunther
Ele suspirou.

- Infelizmente, no h mais ningum que possa cuidar disso. 
Pode pelo menos discutir a possibilidade com Jeff?
- Est certo. Mas no vai adiantar.
 - Ligarei de novo esta noite.
 Quando Jeff voltou, Tracy relatou a conversa.
 - No disse a ele que estamos nos tornando cidados 
respeitadores das leis?
 - Claro, querido. E disse tambm que ele procurasse outra 
pessoa.
 - Mas ele no quer.
 - Insiste que precisa de ns, Jeff. Disse que no h qualquer 
risco e que poderamos ganhar dois milhes de dlares por um 
pequeno esforo.
 - O que significa que ele pensa em alguma coisa to bem 
guardada quanto o Forte Knox.
- Ou o Prado - acrescentou Tracy, maliciosamente.
Jeff sorriu.
- Foi um plano sensacional, amor. E quer saber de uma coisa? 
Acho que foi ento que comecei a me apaixonar por voc.
 - E acho que comecei a odi-lo quando voc roubou o meu Goya.
 - Seja justa - protestou Jeff. - Comeou a me odiar muito 
antes disso.
 - Tem razo. O que diremos a Gunther?
 - Voc j disse tudo a ele. No estamos mais nesse ofcio.
 - No deveramos pelo menos ouvir o que ele est pensando?
 - Tracy, concordamos que..:
 - Vamos de qualquer maneira passar por Amsterdam?
 - Vamos, sim. Mas...
 - Enquanto estamos l, querido, por que no ouvimos o que ele 
tem a dizer?
 Jeff estudou-a com uma expresso desconfiada.
 - Voc quer fazer o trabalho, no  mesmo?
 - Claro que no! Mas no h mal algum em ouvir o que ele tem 
a dizer...

Eles foram de carro para Amsterdam no dia seguinte e 
hospedaram-se no Amstel Hotel. Gunther Hartog veio de avio de 
Londres para encontr-los.
 Conseguiram dar um jeito de sentar juntos, como turistas 
casuais, numa lancha Pias Motor, deslizando pelo Rio Amstel.
- Fico muito satisfeito por saber que vocs vo casar - 
comentou Gunther. - Meus parabns.
- Obrigada, Gunther.
 Tracy sabia que ele era sincero.
 - Respeito o desejo de vocs se aposentarem, mas deparei com 
uma situao to singular que achei que deveria contar-lhes. 
Pode ser um canto de cisne dos mais gratificantes.
- Estamos escutando - disse Tracy.
 Gunther inclinou-se para a frente e comeou a falar, em voz 
baixa. No final, ele disse:
 - Dois milhes de dlares, se encontrarem um meio de executar 
o golpe.
 -  impossvel - declarou Jeff, taxativamente. - Tracy...
 Mas Tracy no escutava, absorvida em imaginar como poderia se 
fazer.


A chefatura de polcia de Amsterdam, na esquina da Marnix 
Straat e Elandsgracht,  um prdio gracioso de cinco andares, 
com um corredor branco comprido no trreo e uma escada de 
mrmore levando aos andares superiores. A Gemeentepolitie 
estava em conferncia numa sala de reunies no andar de cima. 
Havia seis detectives holandeses. O nico estrangeiro era 
Daniel Cooper. 
O Inspector Joop van Duren era um gigante, maior do que a 
vida, com um rosto carnudo, adornado por um enorme bigode, uma 
voz tonitruante. Estava se dirigindo a Toon Willems, o 
eficiente comissrio, chefe da fora policial da cidade.
- Tracy Whitney chegou a Amsterdam. esta manh, comissrio. A 
Interpol tem certeza de que ela  a responsvel pelo roubo dos 
diamantes da De Beers. E o Sr. Cooper aqui acha que ela voltou 
 Holanda para cometer outro crime.
O Comissrio Willems virou-se para Cooper.
- Tem alguma prova disso, Sr. Cooper?
Daniel Cooper no precisava de prova. Conhecia Tracy Whitney, 
de corpo e alma. Claro que ela estava ali para cometer um 
crime, algo afrontoso, algo alm da imaginao restrita 
daqueles homens. Ele forou-se a permanecer calmo.
- No h qualquer prova. Por isso  que ela deve ser apanhada 
em flagrante.
- E como prope que faamos isso?
- No perdendo a mulher de nossa vista por um momento sequer.
 O uso do pronome nossa perturbou o comissrio. Ele falara com 
o Inspector Trignant, em Paris, a respeito de Cooper. Ele  
detestvel, mas sabe o que faz. Se o tivssemos escutado, 
teramos apanhado a mulher Whitney em flagrante. Era o que 
Cooper acabara de dizer.
 Toon Willems tornou sua deciso, baseada em parte no fracasso 
to amplamente divulgado da polcia francesa em capturar os 
ladres dos diamantes da De Beers. Onde a polcia francesa 
falhara, a polcia holandesa seria bem-sucedida.
- Muito bem - disse o comissrio. - Se essa mulher veio  
Holanda para testar a eficincia de nossa polcia, vamos 
atend-la.
Ele virou-se para o Inspector Van Duren e acrescentou:
- Tome todas as providncias que julgar necessrias.

A cidade de Amsterdam se divide em seis distritos policiais, 
cada um responsvel por um territrio especfico. Por ordens 
do Inspector Joop van Duren, os limites foram ignorados e 
detectives de diferentes distritos foram designados para as 
equipes de vigilncia.
- Quero que ela seja vigiada vinte e quatro horas por dia. No 
a percam de vista por um s instante.
O Inspector Van Duren virou-se para Daniel Cooper.
- Est satisfeito, Sr. Cooper?
- No, enquanto no a pegarmos. 
- Vamos agarr-la - garantiu o Inspector. - Ns nos orgulhamos 
de ter a melhor polcia do mundo, Sr. Cooper.

Amsterdam  um paraso dos turistas, uma cidade de moinhos de 
vento, represas e diques, casas de frontes se inclinando umas 
para as outras ao longo de uma rede de canais arborizados, 
cheios de barcos-casas enfeitados com vasos de gernios e 
outras plantas, as roupas tremulando  brisa em varais. Os 
holandeses eram as pessoas mais cordiais que Tracy j 
conhecera.
- Eles parecem muito felizes - comentou ela.

 - No se esquea de que eles formam o povo da flor original. 
O povo das tulipas.
Tracy riu e passou o brao pelo de Jeff. Sentia uma alegria 
intensa por estar em sua companhia. Ele  maravilhoso. E Jeff, 
contemplando-a, pensou: Sou o homem mais afortunado do mundo.
Tracy e Jeff realizaram todos os passeios que se esperava dos 
turistas. Vaguearam pela Albert Cuyp Straat, o mercado ao ar 
livre que se estende por sucessivos quarteires, com barracas 
de antiguidades, frutas e hortalias, flores e roupas. Foram  
Praa da Represa, onde os jovens se reuniam para escutar os 
cantores itinerantes e os conjuntos punk. Visitaram Volendam, 
a antiga e pitoresca aldeia de pescadores no Zuider Zee, assim 
como Madurodam, que  a Holanda em miniatura. Ao passarem pelo 
movimentado Aeroporto Schiphol, Jeff comentou:
 - No faz muito tempo e toda esta terra que o aeroporto ocupa 
agora pertencia ao Mar do Norte. Schiphol significa "cemitrio 
de navios".
Tracy aconchegou-se mais perto dele.
- Estou impressionada.  ptimo estar apaixonada por um homem 
to inteligente.
- Ainda no ouviu nada. Saiba que vinte cinco por cento da 
Holanda so de terras roubadas ao mar. O pas inteiro se 
encontra cinco metros abaixo do nvel do mar.
 - Parece assustador.
 - Mas no h motivo para se assustar. Estamos absolutamente 
seguros enquanto o garotinho mantiver o dedo no buraco do 
dique.

Por toda a parte a que iam, Tracy e Jeff eram seguidos pela 
Gemeentepolitie. A cada noite, Daniel Cooper estudava os 
relatrios escritos encaminhados ao Inspector Van Duren. Nada 
havia de inslito, mas nem por isso as suspeitas de Cooper se 
atenuavam. Ela est empenhada em alguma coisa, ele dizia a si 
mesmo. Alguma coisa grande. Ser que ela sabe que est sendo 
seguida? Ser que sabe que eu vou destrui-la?
 At onde os detectives podiam calcular, Tracy Whitney e Jeff 
Stevens no passavam de meros turistas. O Inspector Van Duren 
disse a Cooper:
 - No  possvel que tenha se enganado? Eles podem ter vindo 
 Holanda s para passearem.
 - No - insistiu Cooper, obstinado. - Eu no estou enganado. 
Continuem a vigi-la.
 Ele tinha um pressentimento de que o tempo se esgotava, que a 
vigilncia policial poderia ser cancelada em breve, se Tracy 
Whitney no fizesse alguma coisa logo. Mas a vigilncia devia 
continuar. E Cooper juntou-se aos detectives que mantinham 
Tracy sob observao.

Tracy e Jeff tinham quartos contguos no Amstel.
 - Em nome da respeitabilidade - explicara Jeff a Tracy. - Mas 
no deixarei que fique longe de mim.
 - Promete?
 Todas as noites, Jeff ficava com ela, fazendo amor, at o 
amanhecer. Ele era um amante mltiplo, ora terno, ora 
impetuoso.
-  a primeira vez que descubro para que serve meu corpo 
sussurrou Tracy. - Obrigada, meu amor.
 - O prazer  todo meu.

 - S a metade.
 Eles vagueavam pela cidade, aparentemente a esmo. Almoavam 
no Excelsior do Hotel de I'Europe e jantavam no Bowedery, 
comeram todos os 22 pratos servidos no Bali indonsio. tomaram 
a erwtensoep, a famosa sopa de ervilha da Holanda; provaram a 
hutspot de batatas, cenouras e cebolas; e comeram o boerenkool 
metworst, feito com 13 legumes e salames diferentes. Passearam 
pelo walletjes, o distrito da prostituio de Amsterdam, onde 
prostitutas gordas se sentavam de quimono em vitrines dando 
para a rua, exibindo as suas mercadorias. Todas as noites, o 
relatrio por escrito apresentado ao Inspector Joop van Duren 
terminava com o mesmo registo: Nada de suspeito.
Pacincia, dizia Daniel Cooper a si mesmo. Pacincia.
Por insistncia de Cooper, o Inspector Van Duren procurou o 
Comissrio Willems, solicitando permisso para colocar 
artefactos electrnicos de escuta nos quartos do hotel 
ocupados pelos dois suspeitos. A permisso foi negada.
 - Quando houver provas mais concretas por trs das suspeitas 
declarou o comissrio - volte a me falar. At l, no posso 
permitir que escutem secretamente pessoas que no momento s 
so culpadas de visitarem a Holanda como turistas.

Essa conversa ocorreu na sexta-feira. Na manh de 
segunda-feira, Tracy e Jeff foram  Paulus Potter Straat, em 
Coster, o centro de diamantes de Amsterdam, a fim de visitarem 
a fbrica de lapidao. Daniel Cooper integrava a equipe de 
vigilncia. A fbrica estava apinhada de turistas. Um guia 
falando ingls conduziu-os pela fbrica, explicando cada 
operao no processo de lapidao. No fim do passeio, ele 
levou o grupo para uma enorme sala de exposio, as paredes 
ocupadas por uma ampla variedade de diamantes  venda.  claro 
que esse era o motivo maior para oferecer a excurso pelas 
instalaes. No centro da sala havia uma caixa de vidro, 
dramaticamente montada sobre um pedestal alto e preto, 
contendo o diamante mais espectacular que Tracy j vira. O 
guia anunciou, orgulhosamente:
 - Eis aqui, senhoras e senhores, o famoso diamante Lucullan, 
sobre o qual todos j leram. Foi outrora adquirido por um 
autor de teatro para sua esposa estrela do cinema. Est 
avaliado em dez milhes de dlares.  uma pedra perfeita, um 
dos melhores diamantes do mundo.
 - Deve ser um alvo e tanto para ladres de jias - comentou 
Jeff, em voz bem alta.
Daniel Cooper adiantou-se para poder ouvir melhor. O guia 
sorriu, indulgentemente.
- Nee, mijnheer. - Ele acenou com a cabea para o guarda 
armado parado ali perto. - Esta pedra  mais atentamente 
vigiada do que as jias na Torre de Londres. No h qualquer 
perigo. Se algum tocar no vidro, soa um alarme... e todas as 
janelas e portas nesta sala se fecham automaticamente.  
noite, fachos electrnicos so ligados. Se algum entra na 
sala, soa um alarme na chefatura de polcia.
Jeff olhou para Tracy e disse:
- Acho que ningum jamais roubar esse diamante.
Cooper trocou um olhar com um dos detectives. Naquela tarde, o 
Inspector Van Duren recebeu um relato da conversa.


Tracy e Jeff visitaram o Rijksmuseum no dia seguinte.  
entrada, Jeff comprou uma planta do museu. Ele e Tracy 
atravessaram o vestbulo para a Galeria de Honra, cheia de 
quadros Angelicos, Murifios, Rubens, Van Dicks e Tiepolos. 
Foram andando devagar, parando diante de cada quadro. A seguir 
se dirigiram para a Sala da Viglia Nocturna, onde estava 
pendurado o mais famoso quadro de Rembrandt. Ali pararam. A 
atraente polcia que os seguia, Fien Hauer, pensou: Oh, Deus, 
no! 
O titulo oficial do quadro era A Companhia do Capito Frans 
Banning Cocq e do Tenente Willem van Ruytenburch. Com 
extraordinria nitidez e composio, mostrava um grupo de 
soldados preparando-se para entrar de viglia, sob o comando 
do seu capito pitorescamente uniformizado. A rea em torno do 
quadro estava cercada por cordas de veludo e um guarda se 
postava prximo.
-  difcil acreditar - comentou Jeff para Tracy - mas 
Rembrandt sofreu o diabo por causa desse quadro.
 - Mas por qu?  um quadro fantstico.
- Seu cliente... o capito no quadro... no gostou da ateno 
que Rembrandt dispensou s outras figuras.
Jeff virou-se para o guarda e acrescentou:
- Espero que o quadro esteja bem protegido.
- Ja, mijnheer. Quem tentasse roubar alguma coisa deste museu 
teria de passar por fachos electrnicos, cmaras de segurana 
e  noite, dois guardas com cachorros.
Jeff sorriu suavemente.
- Acho que este quadro ficar aqui para sempre.
No fim da tarde, a conversa foi relatada a Van Duren.
- A Viglia Nocturna! - exclamou ele. - Alstublieft. 
Impossvel.
Daniel Cooper limitou-se a fit-lo com seus olhos mopes.

No Centro de Convenes de Amsterdam havia uma reunio de 
filatelistas. Tracy e Jeff foram dos primeiros a chegar. O 
salo estava muito bem vigiado, pois muitos dos selos eram 
extremamente valiosos. Cooper e um detective holands ficaram 
observando, enquanto os dois visitantes vagueavam pela 
coleco de selos raros. Tracy e Jeff pararam diante do Guiana 
Britnica, um selo hexagonal, magenta, sem nada de atraente.
- Que selo horrvel! - comentou Tracy.
- No se deixe impressionar por isso, querida.  o nico selo 
de seu tipo no mundo.
- Quanto vale?
- Um milho de dlares.
A atendente balanou a cabea.
-  verdade, senhor. A maioria das pessoas no imagina ao 
olhar para este selo. Mas vejo que ama os selos, senhor, tanto 
quanto eu. A histria do mundo est neles.
Tracy e Jeff se deslocaram para o mostrurio seguinte, que 
exibia um Jenny Invertido, com um avio voando de cabea para 
baixo.
- Esse  muito interessante - disse Tracy.
O atendente ao lado do mostrurio disse:
- Vale...
Jeff no o deixou completar, informando:
- Em torno de setenta e cinco mil dlares.
- Exactamente senhor.
Eles passaram para um Missionrio Havaiano azul de dois cents.

- Este vale um quarto de milho de dlares - disse Jeff a 
Tracy.
 Cooper estava agora logo atrs deles, misturando-se com a 
multido. Jeff apontou para outro selo.
 - Este  muito raro. O selo postal de um penny de Mauritius. 
Em vez de "Postpaid", porte pago, algum gravador distrado 
escreveu "post office", agncia postal. Vale uma poro de 
pence hoje.
- Todos parecem muito pequenos e vulnerveis - comentou Tracy. 
- E fceis de levar.
O guarda ao lado sorriu.
- Um ladro no iria longe, moa. Todas as caixas esto 
protegidas electronicamente e guardas armados patrulham o 
centro de convenes dia e noite
-  um grande alvio saber disso - murmurou Jeff. - Nenhum 
cuidado  demais hoje em dia, no  mesmo?
Naquela tarde, Daniel Cooper e o Inspector Joop van Duren 
foram juntos falar com o Comissrio Willems. Van Duren ps os 
relatrios sobre a vigilncia na mesa do comissrio e depois 
esperou.
- No h nada de definitivo aqui - disse o comissrio 
finalmente. - Mas admito que os suspeitos andaram farejando 
alguns alvos muito lucrativos. Muito bem, Inspector, pode 
seguir em frente. Tem permisso para instalar o equipamento de 
escuta nos quartos do hotel.
 Daniel Cooper ficou exultante. No haveria mais privacidade 
para Tracy Whitney, daquele momento em diante. Ele saberia de 
tudo o que ela pensasse, dissesse ou fizesse. Pensou em Tracy 
e Jeff juntos na cama, lembrou-se da sensao da calcinha de 
Tracy em seu rosto. To macia, to cheirosa...
 Ele foi  igreja naquela tarde.

Naquela noite, quando Tracy e Jeff deixaram o hotel para 
jantarem, uma equipe de tcnicos da polcia entrou em aco, 
instalando transmissores sem fios nas sutes, escondidos por 
trs de quadros e luminrias, por baixo de mesas.
 O Inspector Joop van Duren requisitara a sute directamente 
por cima e ali um tcnico instalou um receptor de rdio, com 
uma antena e ligado a um gravador.
 -  activado pela voz - explicou o tcnico. - Ningum precisa 
ficar aqui para control-lo. Quando algum fala, o aparelho 
comea a gravar automaticamente.
Mas Daniel Cooper queria estar ali. Tinha de estar ali. Era a 
vontade de Deus.

33

Na manh seguinte, bem cedo, Daniel Cooper, o Inspector Joop 
van Duren e seu assistente, detective Witkamp, estavam na 
Sute requisitada, escutando a conversa por baixo.
- Mais caf?
A voz de Jeff.
- No, obrigada, querido. - A voz de Tracy. - Experimente este 
queijo que nos mandaram.  uma delcia.
Um curto silncio.
- Hum... Tem toda razo. O que gostaria de fazer hoje, Tracy? 
Poderamos passear de carro at Rotterdam.
 - Por que simplesmente no ficamos aqui e relaxamos?
 - Parece uma boa idia.
 Daniel Cooper sabia o que eles estavam querendo dizer com 
"relaxar" e rangeu os dentes.
 - A rainha vai inaugurar um novo orfanato.
- Isso  ptimo. Acho que os holandeses constituem o povo mais 
hospitaleiro e generoso do mundo. Eles so iconoclastas. 
Detestam regras e regulamentos.
 Uma risada.
 -  por isso que ns dois gostamos tanto deles!
 Uma conversa matutina corriqueira entre amantes. Eles parecem 
se dar maravilhosamente, pensou Cooper. Mas como ela pagar 
caro por tudo o que fez!
- Por falar em generoso, adivinhe quem est neste hotel? - A 
voz de Jeff. - O esquivo Maximilian Pierpont. Senti a falta 
dele no Queen Elizabeth II.
 - E eu senti a sua falta no Expresso do Oriente.
 - Ele est aqui provavelmente para saquear outra companhia. 
Agora que o encontramos, Tracy, acho que deveramos fazer 
alguma coisa em relao a ele. J que ele se encontra por 
perto...
 A risada de Tracy.
 - Concordo plenamente, querido.
 - Soube que o nosso amigo tem o hbito de andar com 
artefactos de valor inestimvel. Tenho uma idia que...
 Outra voz de mulher.
 - Dag, minjheer, dag mevrouw. Gostariam que o quarto fosse 
arrumado agora?
 Van Duren virou-se para o detective Witkamp.
 - Quero uma equipe de vigilncia sobre Maximilian Pierpont. E 
quero ser informado no momento em que Whitney ou Stevens 
fizerem qualquer contacto com ele.

O Inspector Van Duren estava se reportando ao Comissrio Toon 
Willems:
 - Eles podem estar atrs de um entre muitos alvos, 
comissrio. Demonstram um grande interesse por um rico 
americano que se encontra aqui, chamado Maximilian Pierpont, 
compareceram a uma conveno filatlica, visitaram o diamante 
Lucullan e passaram duas horas diante da Viglia Nocturna...
 - Een diefstal van de Nachtwacht? Nee! Impossvel!
 O comissrio recostou-se na cadeira, perguntando-se se no 
estaria irresponsavelmente desperdiando um tempo e homens 
valiosos. Havia especulao demais, mas no factos 
suficientes.

 - Portanto, no momento, voc no tem idia de qual  
exactamente o alvo.
 - No, comissrio. E no tenho certeza se eles j decidiram. 
Mas no instante em que isso acontecer, eles nos informaro.
 Willems franziu o rosto.
 - Eles informaro?
 - Os microfones - explicou Van Duren. - Eles no sabem que 
estamos ouvindo tudo o que conversam.

A brecha para a polcia surgiu s nove horas da manh 
seguinte. Tracy e Jeff terminavam o caf da manh, na sute de 
Tracy. No posto de escuta, por cima, estavam Daniel Cooper, o 
Inspector Joop van Duren e o auxiliar Witkamp. Eles ouviram o 
som de caf sendo despejado.
 - Aqui uma notcia interessante, Tracy. Nosso amigo tinha 
razo. Escute s: "O Banco Amro est embarcando cinco milhes 
de dlares em barras de ouro para as ndias Ocidentais 
Holandesas."
Na sute por cima, o detective Witkamp disse:
 - No h qualquer possibilidade...
 - Pshh!
 Eles ficaram escutando.
 - Quanto ser que pesam cinco milhes de dlares em barras de 
ouro?
 A voz era de Tracy.
 - Posso responder com exactido, querida. D exactamente 758 
quilos, em torno de 57 barras de ouro. O melhor de tudo  o 
facto do ouro ser perfeitamente annimo. Basta derret-lo e 
pode pertencer a qualquer um.  claro que no seria fcil 
tirar as barras da Holanda. 
 - Mesmo que fosse possvel, como poderamos nos apossar das 
barras de ouro em primeiro lugar? Simplesmente entrando no 
banco e pegando-as?
 - Algo assim.
 - Est brincando.
 - Nunca brinco com dinheiro nessas propores. Por que no 
fazemos um pequeno passeio ao Banco Amro e aproveitamos para 
dar uma olhada?
 - O que tem em mente?
 - Eu lhe contarei no caminho
 Houve o som de uma porta sendo fechada e as vozes terminaram. 
O Inspector Van Duren torcia nervosamente o bigode.
- Nee! No h qualquer possibilidade de eles pegarem aquele 
ouro. Eu aprovei pessoalmente os dispositivos de segurana.
Daniel Cooper anunciou, incisivamente:
- Se h alguma falha no sistema de segurana do banco Tracy 
Whitney a descobrir.
O Inspector Van Duren teve de fazer um grande esforo para 
controlar seu temperamento explosivo. O americano de aparncia 
esquisita era uma abominao desde a sua chegada. Era muito 
difcil tolerar o seu senso de superioridade divina. Mas o 
Inspector Van Duren era um polcia acima de tudo; e recebera a 
ordem de cooperar com o homenzinho. Ele virou-se para Witkamp.
- Quero que aumente a equipe de vigilncia. Imediatamente. 
Quero que todos os contactos sejam fotografados e 
interrogados. Entendido?
- Entendido, Inspector.
- E muito discretamente. Eles no podem saber que esto sendo 
vigiados.

- Certo, Inspector.
Van Duren olhou para Cooper.
- Pronto. Isso o faz sentir-se melhor?
Cooper no se deu ao trabalho de responder.

Durante os cinco dias seguintes, Tracy e Jeff mantiveram os 
homens do Inspector Van Duren bastante ocupados. Daniel Cooper 
examinava meticulosamente os relatrios dirios.  noite, 
depois que os outros detectives deixavam o posto de escuta, 
Cooper ficava. Ficava atento aos sons do ato sexual que sabia 
estar ocorrendo por baixo. Nada podia ouvir, mas em sua 
imaginao Tracy estava gemendo:
 - Oh, sim, querido, sim, sim... Oh, Deus, no aguento mais... 
 to maravilhoso... Agora, oh, agora...
 E depois o suspiro prolongado e trmulo, o silncio suave. E 
era tudo para ele.
Muito em breve voc me pertencer, pensava Cooper. Ningum 
mais a ter.
 Durante o dia, Tracy e Jeff seguiam por caminhos separados, 
sempre vigiados por toda a parte. Jeff visitou uma grfica 
perto de Leidseplein, dois detectives observaram atentamente 
da rua a sua conversa com o impressor. Quando Jeff saiu, um 
dos detectives seguiu-o. O outro entrou na grfica, mostrou ao 
impressor a sua identificao de polcia, com o carimbo 
oficial, fotografia e as listas diagonais, vermelha, branca e 
azul.
 - O que queria o homem que acabou de sair daqui?
- Ele ficou sem cartes de visita. Quer que eu imprima mais 
alguns.
- Deixe-me ver o que ele deixou.
 O impressor mostrou uma ficha preenchida  mo:

Servios de Segurana de Amsterdam
Cornelius Wilson, Investigador-Chefe

 No dia seguinte, a detective Fien Hauer ficou esperando do 
lado de fora quando Tracy entrou numa loja de animais 
domsticos, na Leidseplein. Assim que ela saiu, 15 minutos 
depois, Fien Hauer entrou na loja e mostrou sua identificao.
 - O que queria a mulher que acabou de sair?
 - Ela comprou um aqurio com peixinhos dourados, dois 
periquitos, um canrio e um pombo. 
 Uma estranha combinao.
- Disse um pombo? E era um pombo comum?
- Isso mesmo. Mas nenhuma loja tem pombos em estoque. Eu disse 
a ela que teria de providenciar em outro lugar.
- E para onde dever mandar esses bichos?
- Para o hotel em que ela est, o Amstel.
 No outro lado da cidade, Jeff conversava com o 
vice-presidente do Banco Amro. Ficaram juntos por meia hora. 
Assim que Jeff se retirou, um detective entrou no banco e foi 
falar com o vice-presidente:
 - Por favor, pode me informar o que desejava o homem que 
acabou de sair daqui?
 - O Sr. Wilson? Ele  o investigador-chefe da seguradora que 
o nosso banco usa. Esto reavaliando os sistemas de segurana.
 - E ele lhe pediu para falar sobre os actuais dispositivos de 
segurana?

 - Exactamente.
 - E lhe falou?
 - Claro. Mas, naturalmente, tomei primeiro a precauo de 
telefonar para conferir suas credenciais.
- Para quem telefonou?
- Para o servio de segurana... o telefone estava impresso em 
sua identificao.
s trs horas daquela tarde um camio blindado parou diante do 
Banco Amro. Do outro lado da rua, Jeff tirou uma fotografia do 
camio, enquanto um detective o fotografava de algumas portas 
de distncia.

Na chefatura de polcia, em Elandsgracht, o Inspector Van 
Duren espalhou as evidncias que se acumulavam rapidamente 
sobre a mesa do Comissrio Toon Willems.
 - O que significa tudo isto? - perguntou o comissrio, em sua 
voz fina e seca.
 Daniel Cooper falou:
 - Eu lhe direi o que ela est planeando. - Sua voz estava 
cheia de convico. - Ela planea roubar o carregamento de 
ouro.
Todos o fitavam fixamente. Foi o Comissrio Willems quem 
rompeu o silncio:
 - E devo supor que voc sabe como ela pretende realizar esse 
milagre?
 - Claro que sei.
 Ele conhecia uma coisa que os outros ignoravam. Conhecia o 
corao, a alma e a mente de Tracy Whitney. Pusera-se dentro 
dela, podia assim pensar como ela, planear como ela... e 
antecipar todos os seus movimentos.
 - Usando um falso camio blindado e chegando ao banco antes 
do camio verdadeiro, partindo depois com as barras de Ouro.
 - Isso parece um tanto exagerado, Sr. Cooper.
 O inspector Van Duren interveio:
 - No sei qual  o plano, mas tenho certeza de que eles esto 
mesmo planeando alguma coisa, comissrio. Temos as suas vozes 
gravadas.
 Daniel Cooper lembrou-se dos outros sons que imaginara: os 
sussurros nocturnos, os gritos, os gemidos. Para onde ele a 
mandaria, nenhum homem poderia toc-la. Nunca mais. O 
Inspector estava dizendo:
 - Eles descobriram a rotina de segurana do banco. Sabem a 
que horas os camies blindados aparecem...
 O comissrio estudava o relatrio  sua frente.
 - Periquitos, um pombo, peixinhos dourados, um canrio... 
acham que alguma dessas bobagens tem algo a ver com o assalto?
- No - respondeu Van Duren.
 - Sim - respondeu Cooper.

A detective Fien Hauer, vestindo um costume de cala comprida, 
de polister, seguiu Tracy Whitney pela Prinsengracht e 
atravs da Ponte Magere. Quando Tracy chegou ao outro lado do 
canal, Fien Hauer ficou olhando com frustrao quando ela 
entrou numa cabina telefnica e falou por cinco minutos. Ela 
ficaria igualmente frustrada se pudesse ouvir a conversa. 
Gunther Hartog, em Londres, disse:
- Podemos contar com Margo, mas ela precisar de tempo... pelo 
menos mais duas semanas.

 Ele escutou por um momento e depois acrescentou:
 - Compreendo. Quando tudo estiver pronto, entrarei em 
contacto com voc. Tome cuidado. E d minhas lembranas a 
Jeff.
 Tracy desligou e saiu da cabina. Acenou afavelmente com a 
cabea para a mulher de costume de cala comprida que esperava 
para usar o telefone.
s 11 horas da manh seguinte, um detective comunicou ao 
Inspector Van Duren:
- Estou na Companhia de Aluguel de Camies Wolters, Inspector. 
Jeff Stevens acaba de alugar um camio aqui. 
- Que espcie de camio?
- Um camio fechado, senhor.
- Descubra as dimenses. Eu espero.
O detective retornou  linha poucos minutos depois.
- J tenho tudo, Inspector. ...
O Inspector Van Duren interrompeu-o:
 - Um furgo com seis metros de comprimento, dois de largura, 
um metro e oitenta de altura, eixo duplo.
Houve uma pausa aturdida.
- Isso mesmo, Inspector. Como descobriu?
- No tem importncia. De que cor ?
- Azul.
- Quem est seguindo Stevens?
- Jacobs.
- Goed. Apresente-se a mim imediatamente.
Joop van Duren reps o telefone no gancho e virou-se para 
Daniel Cooper.
- Voc estava certo. S que o furgo  azul.
- Ele o levar a uma oficina de pintura.
A oficina era em Damrak. Dois homens pintaram o furgo com um 
cinza metlico, enquanto Jeff observava. No telhado da 
garagem, um detective tirava fotografias, atravs da 
clarabia. 
 As fotografias se encontravam na mesa do Inspector Van Duren 
uma hora depois. Ele estendeu-as para Daniel Cooper.
 - Est sendo pintado numa cor idntica ao do carro de 
segurana genuno. Podemos prend-los agora.
 - Sob que acusao? Mandar imprimir falsos cartes de visita 
e pintar um camio? S h um meio de incrimin-los 
irremediavelmente: agarr-los no momento em que pegarem as 
barras de ouro.
O filho da puta se comporta como se dirigisse o departamento.
- O que acha que ele far em seguida?
Cooper estudava atentamente as fotografias.
- Este camio no suportar o peso do ouro. Tero de reforar 
o cho.

Era uma garagem pequena, na Muider Straat.
 - Goode morgen, mijnheer. Em que posso servi-lo?
 - Preciso carregar alguma sucata neste camio - explicou 
Jeff. - No tenho certeza se o cho  bastante forte para 
aguentar o peso. E gostaria de refor-lo com suportes de 
metal. Pode fazer isso?
O mecnico foi examinar o camio.
- J. No tem problema.
- ptimo.
- Posso aprontar at vrijdag... sexta-feira.

- Eu contava ter tudo pronto amanh.
- Morgen? Nee. Ik...
- Pagarei a dobrar.
- Donderdag... quinta-feira.
- Amanh. Pagarei o triplo.
O mecnico coou o queixo, pensativo
- A que horas de amanh?
- Meio-dia.
- J. Est bem.
- Dank wel.
- Tot uw dienst.
Momentos depois que Jeff deixou a oficina, um detective estava 
interrogando o mecnico.
 Na mesma manh, a equipe de vigilncia designada para Tracy 
seguiu-a at o Canal Oude Schans, onde ela passou meia hora 
conversando com o proprietrio de uma barca. Assim que Tracy 
foi embora, um detective subiu a bordo. Identificou-se para o 
proprietrio, que tornava um bessen-jenever, o forte gim de 
groselha.
 - O que a mulher queria?
 - Ela e o marido pensam em fazer uma excurso pelos canais. E 
ela alugou minha barca por uma semana.
 - A partir de quando?
 - Sexta-feira. Um lindo passeio, mijnheer. Se voc e sua 
esposa estiverem interessados...
 O detective se foi.

O pombo encomendado por Tracy foi entregue no hotel dentro de 
uma gaiola. Daniel Cooper voltou  loja de bichos e interrogou 
o dono.
 - Que tipo de pombo mandou para ela?
 - Um pombo comum.
- Tem certeza que no era um pombo-correio?
 - Claro que no. - O homem soltou uma risada. - E tenho 
certeza que no  um pombo-correio porque o peguei ontem  
noite no Vondelpark.
 Meia tonelada de ouro e um pombo comum? Por qu?, especulava 
Daniel Cooper.

Cinco dias antes da data da transferncia das barras de ouro 
do Banco Amro, uma enorme pilha de fotografias se acumulara na 
mesa do Inspector Joop van Duren.
 Cada fotografia  um elo na corrente que vai prend-la, 
pensou Cooper. A polcia de Amsterdam no tinha imaginao, 
mas ele no podia deixar de reconhecer que eram meticulosos. 
Cada passo levando ao crime iminente fora fotografado e 
documentado. No havia possibilidade de Tracy Whitney escapar 
 justia.
A punio dela ser a minha redeno.

No dia em que pegou o veculo que acabara de ser pintado, Jeff 
levou-o para uma pequena garagem que alugara perto de Oude 
Zijds Kouk, a parte mais antiga de Amsterdam. Seis caixotes de 
madeira vazios, com a palavra MAQUINARIA pintada, foram 
entregues na garagem. Uma fotografia dos caixotes se achava na 
mesa do Inspector Van Duren enquanto ele escutava a ltima 
gravao.
 A voz de Jeff:

 - Quando guiar o camio do banco para a barca, mantenha-se 
dentro do limite de velocidade. Quero saber quanto tempo dura 
a viagem exactamente. Aqui est um cronmetro. 
 - No vai comigo, querido?
 - No. Estarei ocupado.
 - E Monty?
 - Ele chegar na noite de quinta-feira.
- Quem  esse Monty? - perguntou o Inspector Van Duren.
- O homem que se apresentar como o segundo guarda - explicou 
Cooper. - Eles precisaro de uniformes.

A loja fica na Pieter Corneflez Hooft Straat, num centro 
comercial. 
 - Preciso de dois uniformes para uma festa de fantasia - 
explicou Jeff ao vendedor. - Parecido com aquele que est na 
vitrine.
Uma hora depois o Inspector Van Duren estava olhando para a 
fotografia de um uniforme de guarda. 
- Ele pediu dois uniformes. Disse ao vendedor que iria 
busc-los na quinta-feira.
 O tamanho do segundo uniforme indicava que o outro homem era 
muito maior que Jeff Stevens. O Inspector disse a Daniel 
Cooper: 
- Nosso amigo Monty deve ter em torno de um metro e noventa e 
pesar uns cem quilos. Pediremos  Interpol para passar esses 
dados por seus computadores e teremos a sua identificao.
 Na garagem particular alugada por Jeff, ele estava em cima do 
camio, enquanto Tracy sentava-se ao volante.
 - Tudo pronto? - gritou Jeff. - Agora!
 Tracy apertou um boto no painel. Pedaos grandes de lona 
desceram pelos lados do camio, com as palavras HEINEKEN 
HOLLAND BEER.
 - Funciona! - exclamou Jeff, exultante.

Cerveja Heineken? Alstublieft!
 O Inspector Van Duren correu os olhos pelos detectives 
reunidos em sua sala. Diversas fotografias ampliadas e 
memorandos estavam pregados nas paredes.
 Daniel Cooper estava sentado no fundo da sala, em silncio. 
Em sua opinio, aquela reunio era uma perda de tempo. H 
muito que antecipara cada movimento que Tracy Whitney e seu 
amante fariam. Eles haviam cado numa armadilha, que comeava 
a se fechar inexoravelmente. Enquanto os detectives na sala 
ficaram dominados por um crescente excitamento, Cooper 
experimentava uma estranha sensao de anticlmax.
 - Todas as peas se ajustaram em seus lugares - o Inspector 
Van Duren falou. - Os suspeitos sabem a que horas o verdadeiro 
camio blindado deve chegar ao banco. Planeiam se apresentar 
meia hora antes, posando como guardas de segurana bancria. 
Quando o camio verdadeiro chegar, eles j tero desaparecido 
h muito tempo.
 Apontando para a fotografia de um carro blindado, Van Duren 
acrescentou:
 - Eles sairo do banco parecendo assim, mas a um quarteiro 
do banco, em alguma rua transversal... - Ele apontou para o 
camio de cerveja Heineken. -... o carro ficar assim!
Um detective no fundo da sala falou:
- Sabe como eles planeiam sair do pas, Inspector?

Van Duren apontou para uma fotografia de Tracy entrando na 
barca.
- Primeiro, de barca. A Holanda  cruzada por canais em que 
eles poderiam se perder indefinidamente. - Ele indicou uma 
fotografia area do camio avanando pela beira do canal. - 
Calcularam o tempo que se leva para percorrer o caminho do 
banco  barca. Teriam bastante tempo para transferir o ouro 
para a barca, antes de algum suspeitar que h algo errado.
 Van Duren aproximou-se da ltima fotografia na parede, uma 
foto ampliada de um cargueiro.
- H dois dias, Jeff Stevens reservou espao de carga no 
Oresta, que zarpa de Rotterdam na prxima semana. A carga foi 
indicada como maquinaria, destinada a Hong-Kong,
 Ele virou-se para os homens na sala.
- Muito bem, senhores, faremos uma ligeira alterao nos 
planos deles. Deixaremos que retirem as barras de ouro do 
banco e as ponham no camio. - Ele olhou para Daniel Cooper e 
sorriu. - O flagrante. Pegaremos, ladres espertos em 
flagrante.

Um detective seguiu Tracy para o escritrio da American 
Express, onde ela pegou um pacote de tamanho mdio, voltando 
ao hotel imediatamente.
- No h possibilidade de saber o que havia no pacote - disse 
o Inspector Van Duren a Daniel Cooper. - Revistamos as sutes 
quando eles saram, mas nada encontramos.

Os computadores da Interpol no foram capazes de fornecer 
qualquer informao sobre um Monty de cem quilos.

No Amstel, na noite de quinta-feira, Daniel Cooper, o 
Inspector Van Duren e, o detective Witkamp estavam no quarto 
por cima do que era ocupado por Tracy, escutando as vozes l 
embaixo. A voz de Jeff: 
- Se chegarmos ao banco exactamente trinta minutos antes dos 
guardas, isso nos dar tempo suficiente para carregar o ouro e 
partir. Quando o camio de verdade chegar, j estaremos 
transferindo o ouro para a barca.
A voz de Tracy:
- Mandei o mecnico checar todo o camio e encher o tanque. 
Est pronto.
O detective Witkamp comentou:
- Quase que se pode admir-los. Eles no deixam coisa alguma 
ao acaso.
- Todos os criminosos acabam cometendo um erro, mais cedo ou 
mais tarde - disse o Inspector Van Duren, bruscamente. 
Cooper manteve-se em silncio, escutando.
 - Quando tudo isso terminar, Tracy, voc gostaria de efectuar 
aquela escavao sobre a qual conversamos?
 - Na Tunsia? Parece o paraso, querido.
 - ptimo, providenciarei tudo. Daqui por diante, no faremos 
outra coisa que no relaxar e gozar a vida.
 O Inspector Van Duren murmurou:
 - Eu diria que seus prximos dez ou quinze anos j esto 
muito bem definidos. - Ele se levantou e se espreguiou. - 
Acho que podemos ir para a cama. Tudo est marcado para amanh 
de manh e creio que bem precisamos de uma boa noite de sono.


Daniel Cooper foi incapaz de dormir. Visualizava Tracy sendo 
agarrada e manietada pela polcia, podia ver o terror no rosto 
dela. Isso o excitou. Foi ao banheiro e preparou um banho 
muito quente. Tirou os culos, e o pijama, deitou-se na 
banheira, dentro da gua fumegante. Estava quase acabado e ela 
pagaria, como ele obrigara tambm os outros a pagarem. Outras 
prostitutas. A esta altura, no dia seguinte, ele estaria 
voltando para seu lar. No, no o lar, corrigiu-se Daniel 
Cooper. Para meu apartamento. O lar era um lugar aconchegante 
e seguro, onde sua me o amava mais do que jamais amaria 
qualquer outra pessoa no mundo.
- Voc  meu homenzinho - disse ela. - No sei o que faria sem 
Voc.
 O pai de Daniel desaparecera quando ele tinha quatro anos. A 
princpio, ele se culpara por isso, mas depois a me explicara 
que fora por causa de outra mulher. Daniel odiava essa outra 
mulher, porque ela fazia sua me chorar. Nunca a vira, mas 
sabia que era uma prostituta, porque ouvira sua me cham-la 
assim. Mais tarde, porm, sentiu-se feliz pelo facto da mulher 
ter levado seu pai, pois agora tinha a me s para si. Os 
invernos de Minnesota eram frios e a me de Daniel lhe 
permitia ficar em sua cama, bem abrigado sob os cobertores 
enormes.
- Casarei com voc um dia - prometia Daniel.
A me ria e lhe afagava os cabelos. Daniel era sempre o 
primeiro de sua turma na escola. Queria que a me sentisse 
orgulho dele.
- Mas que filho inteligente  o seu, Sra. Cooper!
- Sei disso. Ningum  to inteligente quanto o meu homenzinho
Quando Daniel tinha sete anos, a me comeou a convidar o 
vizinho enorme e peludo para jantar em sua casa. Daniel ficou 
doente. Passou uma semana na cama, com uma febre perigosamente 
alta. A me prometeu que nunca mais faria isso. No preciso de 
ningum mais no mundo alm de voc, Daniel.
Ningum podia ser to feliz quanto Daniel. A me era a mulher 
mais fina do mundo. Quando ela saa de casa, Daniel ia para 
seu quarto e abria as gavetas da cmoda. Tirava a lingerie e 
esfregava no rosto as peas macias. Ah, como cheiravam 
maravilhosamente... 
 Ele recostou-se na banheira com gua quente, no hotel em 
Amsterdam, fechou os olhos, recordando o dia terrvel do 
assassinato da me. Era o seu dcimo segundo aniversrio. Saiu 
da escola mais cedo, pois estava com dor de ouvido. Fingiu ser 
pior do que na realidade, pois queria voltar para casa, onde a 
me o cuidaria, poria na cama e acariciaria. Daniel chegou em 
casa e foi para o quarto da me. Ela se encontrava nua na 
cama. Mas no estava sozinha. Fazia coisas indescritveis com 
o homem que vivia na casa ao lado. Daniel observou, enquanto a 
me se punha a beijar o peito cabeludo e depois a barriga 
estufada do homem, descendo para a enorme arma vermelha entre 
as pernas dele. Antes de tom-lo na boca, Daniel ouviu a me 
balbuciar:
- Ah, como eu o amo...
E isso foi o mais terrvel de tudo. Daniel correu para seu 
banheiro e vomitou, sujando-se todo. Despiu-se com todo o 
cuidado e limpou-se, porque a me o ensinara a ser meticuloso 
e asseado. A dor de cabea era agora horrvel. Ouviu vozes no 
corredor e prestou ateno. A me estava dizendo:

 -  melhor voc ir agora, querido. Tenho de tomar um banho e 
me vestir. Daniel chegar da escola a qualquer momento. Farei 
uma festa de aniversrio para ele. At amanh, amor. 
 Ouviu o barulho da porta da frente fechando e depois o som de 
gua correndo no banheiro da me. S que ela no era mais sua 
me. Era uma prostituta que fazia coisas horrveis com homens 
na cama, coisas que nunca fizera com ele.
 Daniel foi para o banheiro da me, nu. Ela estava na 
banheira, o rosto de prostituta sorridente. Ela virou a 
cabea, viu-o e disse:
- Daniel, querido! O que voc...
Ele tinha na mo uma enorme tesoura de costureira.
- Daniel...
 A boca da me estava aberta num O de linha rosada, mas no 
saiu qualquer som at que a primeira estocada atingiu o peito 
da estranha na banheira. Ele acompanhou os gritos da me com 
os seus: 
- Puta! Puta! Puta!
 Entoaram juntos um dueto mortal, at que finalmente, s 
restava a voz de Daniel:
 - Puta... puta...
 Ele ficara todo manchado com o sangue da me. Entrou debaixo 
do chuveiro e esfregou-se, at sentir que a pele se achava em 
carne viva.
O homem na casa ao lado matara a sua me e teria de pagar por 
isso.
 Depois, tudo pareceu ocorrer com uma clareza impressionante, 
como se fosse em cmara lenta. Daniel limpou as impresses 
digitais da tesoura com uma toalha de rosto e largou-a na 
banheira. Retiniu ao bater no esmalte. Vestiu-se e telefonou 
para a polcia. Dois carros chegaram, com as sirenes gritando, 
depois veio mais outro, cheio de detectives. Fizeram uma 
poro de perguntas e Daniel contou como sara mais cedo da 
escola e vira o vizinho, Fred Zimmer, saindo pela porta 
lateral. Quando interrogaram o homem, ele admitiu que era 
amante da me de Daniel, mas negou ter cometido o crime. Foi o 
depoimento de Daniel no tribunal que condenou Zimmer.
 - Quando chegou da escola, viu seu vizinho, Fred Zimmer, sair 
correndo pela porta do lado?
 - Vi, sim, senhor.
 - Pde v-lo nitidamente?
 - Pude, sim, senhor. Havia sangue em suas mos.
 - O que voc fez ento, Daniel?
 - Eu... eu estava apavorado. Sabia que alguma coisa horrvel 
acontecera com minha me.
 - Ento entrou em casa?
 - Isso mesmo, senhor.
 - E o que aconteceu?
 - Gritei "Mame". Ela no respondeu. Fui para o seu 
banheiro...
 A esta altura, o garoto teve um acesso de soluos histricos 
e foi retirado do banco das testemunhas.
 Fred Zimmer foi executado 13 meses depois.

O jovem Daniel foi mandado para viver com uma parente distante 
no Texas, tia Mattie, a quem jamais vira antes. Ela era uma 
mulher rigorosa, uma baptista de convices firmes, certa de 
que o fogo do inferno aguardava todos os pecadores. Era uma 
casa sem amor, alegria ou compaixo. Daniel cresceu nesse 
clima, apavorado pelo conhecimento secreto de sua culpa e a 
danao que o aguardava Pouco depois do assassinato da me, 
Daniel comeou a ter dificuldades com a viso. Os mdicos 
classificaram o problema de psicossomtico.
- Ele est bloqueando alguma coisa que no quer ver - 
explicaram os mdicos.
 As lentes de seus culos foram se tornando cada vez mais 
grossas.
Aos 17 anos, Daniel fugiu de tia Mattie e do Texas para 
sempre. Seguiu de carona para Nova York, onde foi contratado 
como boy pela Associao Internacional de Proteco ao Seguro. 
Em trs anos, foi promovido a investigador. tornou-se o melhor 
de todos. Nunca pediu um aumento de salrio ou melhores 
condies de trabalho. Era indiferente a essas coisas. 
tornou-se o brao direito do Senhor, seu aoite, punindo os 
perversos.

Daniel Cooper levantou-se da banheira e preparou-se para 
dormir. Amanh, pensou ele. Amanh ser o dia da retaliao 
para a prostituta.
 Ele gostaria que a me estivesse ali para assistir.

34

Amsterdam
SEXTA-FEIRA, 22 DE AGOSTO - 8 HORAS DA MANH

Daniel Cooper e os dois detectives de planto no posto de 
escuta ouviam a conversa de Tracy e Jeff ao caf da manh.
- Um pozinho doce, Jeff? Caf?
- No, obrigado.
Daniel Cooper pensou:  o ltimo caf da manh que eles tomam 
pelo resto de suas vidas.
- Sabe o que est me deixando mais excitada? A nossa viagem na 
barca.
- Este  o grande dia e voc est excitada com uma viagem de 
barca? Por qu?
- Porque seremos s ns dois. Acha que sou doida?
- Absolutamente doida. Mas  a minha doida.
- Beije-me.
O som de um beijo.
Ela deveria estar mais nervosa, pensou Cooper. Eu quero que 
ela fique nervosa.
- De certa forma, Jeff, lamentarei ir embora daqui.
- Veja a coisa por outro ngulo, querida. No ficaremos mais 
pobres pela experincia.
A risada de Tracy.
- Tem razo.
A conversa continuava s nove horas e Cooper pensou: Eles 
devem estar se preparando. Deve estar aprontando os planos de 
ltima hora. E Monty? Onde iro encontr-lo?
 Jeff estava dizendo:
 - Querida, voc poderia cuidar de tudo na recepo, antes de 
sairmos? Estarei muito ocupado.
 - Claro. O concierge tem sido maravilhoso. Por que no 
existem concierges nos Estados Unidos?
 - Acho que  somente uma instituio europeia. Sabe, como 
comeou?
 - No.
 - Na Frana, em 1637, o Rei Hugo construiu uma priso em 
Paris e ps um conde para dirigi-la. O rei deu-lhe o ttulo de 
comte des cierges ou concierge, significando "conde das 
velas". Seu pagamento era de duas libras e as cinzas da 
lareira do rei. Posteriormente, qualquer um no comando de uma 
priso ou um castelo passou a ser conhecido como concierge. E, 
finalmente, isso incluiu os que trabalham em hotis.
De que diabo eles esto falando?, perguntou-se Cooper. J so 
nove e meia. Est na hora de partirem.
 A voz de Tracy:
 - No me diga onde voc aprendeu isso... j namorou uma linda 
concierge.
Uma voz estranha de mulher:
- Goede morgen, movrouw, mijnheer.
A voz de Jeff:
- No existem lindas concierges.
A voz da mulher estranha, perplexa:
- Ik begrijp het niet.
A voz de Tracy:
- Aposto que voc as descobriria se existissem.
- Que diabo est acontecendo l embaixo? - indagou Cooper.

Os detectives estavam aturdidos.
 - No sei. A camareira est no telefone, ligando para a sua 
chefe. Entrou para arrumar o quarto, mas diz que no 
compreende... ouve vozes, mas no v ningum.
 - O qu?
 Cooper estava de p, correndo para a porta, descendo 
apressadamente a escada. Momentos depois, ele e os detectives, 
irromperam na sute de Tracy. Excepto por uma confusa 
camareira, se achava deserta. Um gravador tocava numa mesinha 
diante de um sof. A voz de Jeff.
 - Acho que vou mudar de Idia sobre o caf. Ainda est 
quente?
 A voz de Tracy:
 - Est, sim.
Cooper e os detectives se entreolharam com expresses de 
incredulidade.
- Eu... eu no compreendo - balbuciou um dos detectives.
Cooper indagou bruscamente:
- Qual  o telefone de emergncia da polcia?
- Vinte-dois-vinte-dois-vinte-dois.
Cooper correu para o telefone e discou. A voz de Jeff no 
gravador estava dizendo:
 - Acho que o caf deles  melhor do que o nosso. Como ser 
que conseguem?
 Cooper gritou pelo telefone:
 - Aqui  Daniel Cooper. Entre em contacto imediatamente com o 
Inspector Van Duren. Diga-lhe que Whitney e Stevens 
desapareceram. Avise-o para verificar a garagem e descobrir se 
o Camio ainda continua l. Estou indo para o banco. 
 Ele bateu com o telefone. A voz de Tracy estava dizendo:
- J tomou alguma vez caf fermentado com cascas de ovo? Fica 
uma coisa...
 Cooper j passara pela porta.

O Inspector Van Duren disse:
 - Est tudo certo. O camio saiu da garagem. Eles se dirigem 
para c.
 Van Duren, Cooper e dois detectives se achavam no posto de 
comando da polcia, no telhado de um prdio em frente ao Banco 
Amro, O Inspector acrescentou:
- Provavelmente eles decidiriam apressar seus planos quando 
descobriram microfones nas sutes. Mas relaxe, meu amigo. D 
uma olhada.
 Ele empurrou Cooper para a luneta no telhado. Na rua l 
embaixo, um homem de macaco polia a placa de lato do 
banco... um gari varria a rua... um jornaleiro estava parado 
na esquina... trs electricistas trabalhavam, todos equipados 
com walkie-talkie em miniatura. Van Duren falou por seu 
walkie-talkie:
- Ponto A?
O homem de macaco disse:
- Estou ouvindo, Inspector.
- Ponto B?
- Tudo bem, senhor - respondeu o gari.
- Ponto C?
O jornaleiro levantou a cabea e balanou-a.
- Ponto D?

Os electricistas suspenderam o trabalho por um instante e um 
deles disse pelo walkie-talkie:
- Tudo pronto aqui, senhor.
 O Inspector virou-se para Cooper.
 - No se preocupe. O ouro ainda se encontra em segurana 
dentro do banco E eles s podero lev-lo se vierem buscar. No 
momento em que entrarem no banco, os dois lados da rua sero 
bloqueados. No podero escapar. - Ele consultou o relgio. - 
O camio deve aparecer agora a qualquer momento.

Dentro do banco, a tenso era crescente. Os empregados haviam 
sido informados e os guardas tinham ordens para ajudarem a 
levar as barras de ouro para o camio, quando este chegasse. 
Todos deveriam cooperar plenamente.
Os detectives disfarados fora do banco continuavam a 
trabalhar, observando a rua furtivamente, atentos  
aproximao do camio. No telhado, o Inspector Van Duren 
perguntou pela dcima vez:
- Algum sinal do maldito camio?
- Nee.
O detective Witkamp olhou para seu relgio.
 - Eles esto treze minutos atrasados. Se...
O walkie-talkie entrou em funcionamento abruptamente:
 - Inspector! O camio acaba de aparecer! Est cruzando a 
Rozengracht, a caminho do banco! Dever v-lo a do telhado 
dentro de um minuto!
 O ar tornou-se subitamente carregado de electricidade. O 
Inspector Van Duren falou rapidamente pelo walkie-talkie:
 - Ateno, todas as unidades. O peixe est na rede. Vamos 
deix-lo nadar.
 Um camio blindado cinzento encaminhou-se para a entrada do 
banco e parou. Enquanto Cooper e Van Duren observaram, dois 
homens saltaram, usando uniformes de guardas de segurana, 
avanaram para a porta do banco.
 - Onde ela est? - Indagou Daniel Cooper em voz alta. - Onde 
est Tracy Whitney?
 - Isso no tem importncia - disse o Inspector Van Duren. - 
Ela no ficar longe do ouro.
E mesmo que fique, isso no faz diferena, pensou Daniel 
Cooper. As gravaes vo conden-la.

Nervosos empregados ajudaram os dois homens uniformizados a 
levarem as barras de ouro do cofre do banco para o camio 
blindado. Cooper e Van Duren observavam os vultos distantes do 
telhado no outro lado da rua.
 O carregamento demorou oito minutos. Depois que a traseira do 
camio fora trancada e os dois homens se encaminhavam para a 
boleia, o Inspector Van Duren gritou por seu aparelho:
- Viug! Pas op! Todas as unidades fechem o cerco!
O pandemnio irrompeu. O homem de macaco, o jornaleiro, os 
trs electricistas e um enxame de outros detectives correram 
para o veculo blindado e o cercaram, empunhando armas. A rua 
foi isolada, no havendo trfego em qualquer direco. O 
Inspector Van Duren virou-se para Daniel Cooper e sorriu.
 - Vamos descer.
Est tudo acabado finalmente, pensou Cooper.

Eles desceram apressadamente para a rua. Os dois homens 
uniformizados foram colocados contra a parede, as mos 
levantadas, cercados por detectives armados. Daniel Cooper e o 
Inspector Van Duren se adiantaram. Van Duren disse:
 - Podem se virar agora. Esto presos.
 Os dois homens, muito plidos, viraram-se para enfrentar o 
grupo. Daniel Cooper e o Inspector Van Duren ficaram chocados. 
Eram totalmente estranhos.
- Quem... quem so vocs? - indagou o Inspector Van Duren.
- Ns... ns somos os guardas da agncia de segurana - 
balbuciou um dos homens. - No atirem. Por favor, no atirem.
O Inspector Van Duren virou-se para Cooper.
- O plano deles saiu errado. - Havia um tom de histeria se 
insinuando em sua voz. - E eles acharam melhor cancelar tudo. 
Uma blis verde surgira no estmago de Daniel Cooper e 
lentamente comeava a subir pelo peito e garganta. Quando ele 
conseguiu finalmente falar, a voz era sufocada:
 - No... nada saiu errado.
 - Do que est falando?
 - Eles nunca estiveram atrs do ouro. No passava tudo de uma 
armao falsa.
 - Mas  impossvel O camio, a barca, os uniformes.. temos 
fotografias...
 - Ser que no compreende? Eles sabiam que os estvamos 
vigiando durante todo o tempo!
 O Inspector Van Duren empalideceu.
- Oh, Deus! Onde eles esto... waar zijnze?

Na Paulus Potter Straat, em Coster, Tracy e Jeff se 
aproximavam do centro de lapidao de diamantes. Jeff estava 
de barba e bigode, alterara o formato das faces e do nariz com 
esponjas de espuma. Vestia uma roupa desportiva e carregava 
uma mochila. Tracy estava de peruca preta, uma bata de 
maternidade e enchimento na barriga, muita maquilhagem no 
rosto e culos escuros. Carregava uma mala e um embrulho 
redondo de papel pardo. Os dois entraram na sala de recepo e 
se juntaram aos turistas que haviam chegado num nibus e 
escutavam as palavras de um guia:
-... e agora, se me acompanharem, senhoras e senhores, vero 
nossos lapidadores de diamantes em aco. Tero tambm a 
oportunidade de comprarem alguns dos nossos excelentes 
diamantes. 
Com o guia na frente, a multido passou pelas portas que 
levavam  oficina. Tracy acompanhou-os, enquanto Jeff ficava 
para trs. Assim que os outros desapareceram, Jeff virou-se e 
desceu apressadamente a escada para o poro. Abriu a mochila e 
tirou um macaco manchado de leo e uma caixa de ferramentas. 
Vestiu o macaco, foi at a caixa de fusveis e olhou para o 
relgio.
 L em cima, Tracy seguia o grupo de uma sala para outra, 
enquanto o guia mostrava os diversos processos que convertiam 
os diamantes brutos em gemas polidas. Tracy olhava para seu 
relgio de vez em quando. A excurso estava com um atraso de 
cinco minutos. Ela desejou que o guia se apressasse. Tudo 
dependia de uma preciso de fraco de segundos.
 O grupo entrou finalmente na sala de exposio. O guia foi 
at o pedestal cercado por cordas e anunciou, orgulhoso: 
 - Nesta caixa de vidro est o diamante Lucullan, um dos mais 
valiosos do mundo. Foi outrora comprado por um famoso actor de 
teatro para sua esposa, estrela do cinema.  avaliado em dez 
milhes de dlares e protegido pelo mais moderno...

 As luzes se apagaram. Um alarme soou no mesmo instante, 
placas de ao desceram nas portas e janelas, fechando todas as 
sadas. Alguns turistas comearam a gritar.
- Por favor! - gritou o guia, acima do barulho. - No precisam 
se preocupar.  uma simples falha elctrica. Dentro de um 
momento o gerador de emergncia vai... 
As luzes tornaram a se acender.
- Viram? - disse o guia, tranquilizadoramente. - No h motivo 
para preocupao.
Um turista alemo apontou para as placas de ao.
- O que so essas coisas?
- Uma precauo de segurana - explicou o guia.
 Ele tirou do bolso uma chave de formato estranho e inseriu-a 
numa fenda na parede, virando-a. As placas de ao nas portas e 
janelas se retraram. O telefone na mesa tocou e o guia 
atendeu. 
 - Hendrik falando. Obrigado, capito. No, est tudo bem. Foi 
um alarme falso. Provavelmente um curto-circuito no sistema 
elctrico. Mandarei verificar imediatamente. Est bem, senhor. 
- ele reps o telefone no gancho e virou-se para o grupo. - 
Minhas desculpas, senhoras e senhores. Com algo to valioso 
quanto esta pedra, nunca se  cuidadoso demais. E agora, 
aqueles que quiserem comprar alguns dos nossos excelentes 
diamantes...
 As luzes tornaram a se apagar. O alarme soou, as placas de 
ao tornaram a fechar as sadas. Uma mulher na multido 
gritou:
- Vamos sair daqui, Harry!
 - Quer calar a boca, Diane? - berrou o marido.
 No poro, Jeff estava parado diante da caixa de fusveis, 
escutando os gritos dos turistas l em cima. Ele esperou um 
momento e depois suspendeu a chave elctrica outra vez. As 
luzes l em cima se acenderam.
- Senhoras e senhores - gritou o guia, por cima do tumulto -  
apenas um problema tcnico.
 Ele tirou de novo a chave do bolso e inseriu na fenda na 
parede. As placas de ao se levantaram. O telefone tocou. O 
guia se adiantou apressadamente para atender.
 - Hendrik falando. No, capito. Est certo. Consertaremos o 
mais depressa possvel. Obrigado.
 Uma porta para a sala se abriu e Jeff entrou, carregando a 
caixa de ferramentas, o bon de operrio empurrado para trs 
da cabea. 
Ele se aproximou do guia.
- Qual  o problema? Algum informou que houve qualquer coisa 
com os circuitos elctricos.
 - As luzes esto apagando e acendendo - explicou o guia. - 
Veja se pode consertar bem depressa, por favor. 
 Ele virou-se para os turistas, com um sorriso forado nos 
lbios, e acrescentou:
 - Por que no se adiantam at aqui, onde podero escolher 
alguns excelentes diamantes, a preos bem razoveis?
 Os turistas comearam a se aproximar dos mostrurios. Jeff, 
sem ser observado no meio da multido, tirou um objecto 
cilndrico pequeno do bolso do macaco, puxou o pino e jogou o 
artefacto por trs do pedestal que guardava o diamante 
Lucullan. O artefacto comeou a desprender fumaa e fascas. 
Jeff gritou para o guia: 

 - Ei, ali o seu problema. H um curto circuito no fio por 
baixo do assoalho.
 Uma turista gritou:
 - Fogo!
 - Calma, por favor! - suplicou o guia. - No h necessidade 
de pnico. Mantenham a calma.
 Ele virou-se para Jeff e acrescentou, incisivamente:
 - Conserte logo isso!
 - No h problema.
 Jeff aproximou-se das cordas de veludo que cercavam o 
pedestal.
 - Nee! - disse o guarda. - No pode chegar perto da!
 Jeff encolheu os ombros.
- Para mim, no faz diferena. Conserte voc.
 Ele virou-se para ir embora. A fumaa saa agora depressa. As 
pessoas recomeavam a entrar em pnico.
 - Espere! - suplicou o guia. - S um minuto!
 Ele foi apressadamente at o telefone e discou um nmero.
- Capito? Hendrik falando. Terei de pedir para desligar o 
alarme. Estamos com um pequeno problema. Pois no, senhor. - 
Ele olhou para Jeff. - Quanto tempo vai demorar o conserto?
 - Cinco minutos.
 - Cinco minutos - repetiu o guia pelo telefone. - Dank Uwel.
 Ele reps o telefone no gancho e disse a Jeff:
 - O alarme ser desligado em dez segundos. Pelo amor de Deus, 
apresse-se! Nunca desligamos o alarme antes!
 - S tenho duas mos.
 Jeff esperou dez segundos, depois passou para dentro das 
cordas e se aproximou do pedestal. Hendrik fez um sinal para o 
guarda armado, que acenou com a cabea e ficou olhando 
fixamente para Jeff.
 Jeff trabalhava por trs do pedestal. O frustrado guia 
virou-se para o grupo de turistas.
 - E agora, senhoras e senhores, como eu estava dizendo, temos 
aqui uma seleco de excelentes diamantes, a preos especiais. 
Aceitamos cartes de crdito, traveller's checks... - Ele 
soltou uma risadinha. -... e at mesmo dinheiro.
Tracy estava parada na frente do balco e perguntou em voz 
alta:
- Tambm compram diamantes?
O guarda fitou-a.
 - Como?
 - Meu marido  garimpeiro. Acaba de voltar da frica do Sul 
quer que eu venda isto. 
 Enquanto falava, ela abriu a mala. Mas segurava-a ao 
contrrio e uma cascata de diamantes faiscantes caiu, 
espalhando-se pelo cho.
- Meus diamantes! - gritou Tracy. - Ajudem-me!
Houve um momento de paralisia e silncio, depois comeou o 
maior tumulto. A multido polida transformou-se numa turba 
incontrolvel. Todos se puseram de quatro a catar os 
diamantes, empurrando-se e gritando.
- Peguei alguns...
- Leve um punhado, John...
- Largue que este  meu...

O guia e o guarda estavam completamente atordoados. Viram-se 
empurrados para o lado por um mar de seres humanos gananciosos 
e em luta, enchendo os bolsos e bolsas com diamantes. O guarda 
gritou:
 - Recuem! Parem com isso!
 Ele foi derrubado no cho. Um grupo de turistas italianos 
entrou na sala. Quando perceberam o que estava acontecendo, os 
italianos juntaram-se  luta frentica.
 O guarda tentou se levantar para accionar o alarme, mas a 
mar humana tornava isso impossvel. Ele era pisoteado pela 
multido. O mundo subitamente enlouquecera. Era um pesadelo 
que parecia no ter fim.
Quando o atordoado guarda conseguiu finalmente se levantar, 
cambaleando, abriu caminho pela confuso, aproximou-se do 
pedestal... e parou ali, olhando fixamente, incrdulo.
 O diamante Lucullan desaparecera.
 E o mesmo acontecera com a mulher grvida e o electricista.

Tracy removeu seu disfarce num reservado do banheiro pblico 
em Oosterpark, a alguns quarteires do centro da lapidao. 
Levando o embrulho de papel pardo, ela foi para um banco de 
parque. Tudo corria com perfeio. Ela pensou na multido 
brigando pelos zircnio sem valor e soltou uma risada. Viu 
Jeff se aproximar, usando um terno cinza-escuro, a barba e o 
bigode haviam desaparecido. Tracy levantou-se, Jeff chegou ao 
banco, sorrindo.
 - Eu a amo. - Ele tirou o diamante Lucullan do bolso do 
palet e entregou a Tracy. - D isto a seu amigo, querida. At 
mais tarde.
 Tracy observou-o se afastar. Seus olhos brilhavam. Eles 
pertenciam um ao outro. Pegariam avies separados e se 
encontrariam no Brasil. Depois disso, estariam juntos pelo 
resto de suas vidas.
 Tracy olhou ao redor, a fim de certificar-se que ningum 
observava. Abriu o embrulho. L dentro havia uma pequena 
gaiola, com uma pomba cinzenta. Quando chegara ao escritrio 
da American Express, trs dias antes, Tracy a levara para sua 
Sute e soltara o outro pombo pela janela, observando-o a voar 
para longe, desajeitadamente. Agora, Tracy tirou da bolsa uma 
bolsinha de camura e nela ps o diamante. Retirou a pomba da 
gaiola e segurou-a firme, enquanto amarrava a bolsinha em sua 
perna. 
 - Boa menina, Margo. Leve isso para casa.
 Um guarda uniformizado surgiu subitamente.
 - Ei, espere um pouco! O que pensa que est fazendo?
 O corao de Tracy parou por um instante.
- Como... qual  o problema, senhor guarda?
Os olhos dele se fixavam na gaiola, a expresso era furiosa.
- Voc sabe muito bem qual  o problema. Uma coisa  dar 
comida aos pombos, mas  proibido agarr-los e meter em 
gaiolas. E agora trate de largar esse pombo antes que eu a 
prenda. 
 Tracy engoliu em seco, respirou fundo.
 - Est bem, senhor guarda.
 Ela levantou os braos e jogou a pomba para o ar. Um sorriso 
lindo iluminou seu rosto, enquanto a pomba se elevava, cada 
vez mais alto. Circulou uma vez, depois seguiu na direco de 
Londres, 370 quilmetros a oeste. Um pombo-correio voava a uma 
mdia de 65 quilmetros horrios, como Gunther lhe dissera: 
portanto, Margo estaria com ele dentro de seis horas.
- Nunca mais tente isso - advertiu o guarda a Tracy.

- Est bem - prometeu Tracy, solenemente. - Nunca mais.

Quatro horas depois, Tracy estava no Aeroporto Schiphol, 
encaminhando-se para o porto pelo qual embarcaria num avio, 
seguindo para o Brasil. Daniel Cooper estava parado num canto, 
observando-a, com uma expresso amargurada nos olhos. Tracy 
Whitney roubara o diamante Lucullan. Cooper tivera certeza 
disso desde o momento em que tomara conhecimento da notcia. 
Era o estilo dela, ousado e imaginativo. Contudo, no havia 
nada que se pudesse fazer. O Inspector Van Duren mostrara 
fotografias de Tracy e Jeff ao guarda do museu.
- Nee. Nunca vi qualquer dos dois. O ladro tinha barba e 
bigode, as faces e o nariz eram mais gordos. A mulher dos 
diamantes tinha cabelos pretos e estava grvida.
 Tambm no havia qualquer pista do diamante. As pessoas e as 
bagagens de Jeff e Tracy haviam sido meticulosamente 
revistadas. 
 O diamante ainda est em Amsterdam - garantira o Inspector 
Van Duren a Cooper. - Ns o encontraremos.
No, no encontraro, pensou Cooper, furioso. Ela trocara os 
pombos. O diamante fora levado para fora do pas por um 
pombo-correio.
 Cooper ficou observando, impotente, enquanto Tracy 
atravessava o ptio. Ela era a primeira pessoa que conseguira 
derrot-lo. Iria para o inferno por sua causa.
 Ao chegar ao porto de embarque, Tracy hesitou por um 
momento, depois virou-se e fitou Cooper nos olhos. Percebera 
que ele a seguia por toda a Europa, como uma espcie de anjo 
vingador. Havia nele alguma coisa bizarra, assustadora e ao 
mesmo tempo pattica. Inexplicavelmente, Tracy sentiu pena 
dele. Deu-lhe um pequeno aceno de despedida, depois virou-se e 
embarcou no avio.
Daniel Cooper tocou na carta em que pedia demisso, guardada 
em seu bolso.

Era um luxuoso 747 da Pan American e Tracy ocupava a poltrona 
4B, no corredor, primeira classe. Sentia-se excitada. Dentro 
de poucas horas estaria com Jeff. Casariam no Brasil. Nada 
mais de aventuras, pensou ela. Mas no sentirei saudade. A 
vida j ser bastante emocionante sendo apenas a Sra. Jeff 
Stevens.
- Com licena.
Tracy levantou os olhos. Um homem obeso, de meia-idade, 
aparncia devassa, estava parado ao seu lado. Ele indicou a 
poltrona junto  janela.
- Aquele  o meu lugar, doura.
Tracy virou-se para que o homem pudesse passar. Quando sua 
saia levantou um pouco, o homem contemplou-lhe as pernas com 
uma expresso apreciativa.
- Grande dia para um voo, hem?
Havia um tom insinuante em sua voz. Tracy acenou com a cabea 
e virou-se. No tinha interesse em entabular conversa com 
outro passageiro. Havia muito em que pensar. Toda uma vida 
nova pela frente. Eles se fixariam em algum lugar e se 
tornariam cidados exemplares. Os ultra-respeitveis Sr. e 
Sra. Jeff Stevens. O companheiro de viagem cutucou-a.
- J que estaremos juntos neste voo, mocinha, por que no nos 
apresentamos? Meu nome  Maximilian Pierpont.


Fim
